Por Fernando Bueno

Após os textos de Ronaldo Rodrigues para o ano de 1969 e Mairon Machado para 1979 chegou a vez de 1989, que começou com uma das maiores tragédias, também uma das mais conhecidas e tipicamente brasileira que já aconteceram aqui no Brasil: o naufrágio do Bateau Mouche que matou dezenas de pessoas. Foi o ano em que surgiu uma das maiores revoluções da humanidade, o famoso World Wide Web, que popularizou a sigla www que hoje, por ser tão comum, ninguém sequer mais se lembra. Foi também o ano da morte de Raul Seixas, causando comoção nos fãs de rock nacional. Porém, na política internacional, o fato mais importante foi a Queda do Muro de Berlim e o consequente anúncio do fim da Guerra Fria. No fim do ano foi eleito o primeiro presidente depois da redemocratização aqui no Brasil, Fernando Collor de Mello.

Na música queria citar algumas coisas importantes como o primeiro disco do Nirvana, Bleach, já com algumas músicas que tinham a vibração do fenômeno Nevermind que viria a ser lançado alguns anos depois. Aqui no Brasil saia Õ Blésq Blom dos Titãs com diversos clássicos da música nacional como “Miséria”, “Flores” e “O Pulso”. Ouvi tanto esse disco que até hoje lembraria de todas as suas nuances. Também foi lançado o, ao meu ver, disco de maior sucesso da Legião Urbana, As Quatro Estações. Ouvi muito também na época, mas depois de um tempo perdi o interesse pela banda. Esse disco, talvez, seja um dos grandes responsáveis pela prática das rodinhas com alguém arranhando o violão aqui em terras tupiniquins. A galera também estava cantando bastante “Astronauta de Mármore” do Nenhum de Nós e “Burguesia” do Cazuza além de “Lanterna dos Afogados” dos Paralamas do Sucesso. As más línguas também diriam que nesse ano o Dream Theater começou uma de suas músicas no disco When Dream and Day Unite e está tocando ela até hoje.

Na nossa lista de Melhores de Todos os Tempos, com votos de onze dos nossos consultores a lista ficou nessa ordem:

  1. Faith no More – The Real Thing
  2. Sepultura – Beneath The Remains
  3. Viper – Theatre Of Fate
  4. Skid Row – Skid Row
  5. Pixies – Doolittle
  6. Madonna – Like a Prayer
  7. W.A.S.P. – The Headless Children
  8. Aerosmith – Pump
  9. Morbid Angel – Altar of Madness
  10. The Cult – Sonic Temple

Já a minha lista particular tinha os seguintes discos:

  1. Viper – Theatre of Fate
  2. Sepultura – Beneath the Remains
  3. Mötley Crüe – Dr. Feelgood
  4. Faith No More – The Real Thing
  5. Exodus – Fabulous Disaster
  6. Skid Row – Skid Row
  7. Aerosmith – Pump
  8. King Diamond – Conspiracy
  9. Annihilator – Alice in Hell
  10. Sodom – Agent Orange

Daqueles discos da minha lista que não entraram no resultado final ainda inclui o Dr. Feelgood naquela minha relação de Os Que Faltaram que fizemos algum tempo depois. Desse modo é fácil prever alguns dos discos que vou incluir nessa nova empreitada que é a de lembrar de discos importantes que estão completando 30 anos de seus lançamentos. Quando fui encarregado de falar sobre o ano de 1989 fiz uma lista dos discos que eu lembrava que haviam sido lançados e fui eliminando aqueles que já haviam sido comentado em listas anteriores. Acabei me esquecendo do fantástico Fabulous Disaster do Exodus, disco que foi bastante importante na minha descoberta do thrash metal, que me mostrou que o estilo ia muito além de Metallica e Megadeth. Lembrando que conheci esse disco em uma época de difícil acesso a qualquer tipo de lançamento, principalmente para quem tinha dificuldades financeiras para comprar discos. Fica aqui a lembrança desse álbum que não entrou na minha lista final. Também é preciso dizer que estou numa fase em que o metal está praticamente dominando minhas audições, portanto estou pendendo, e muito, para essa vertente musical e isso vai ficar bem claro para o leitor quando ver as minhas escolhas. Para não deixar de citar algum outro estilo lembro aqui também do disco de estréia de Steve Hogarth no Marillion, Seasons End, do subestimado Presto do Rush e da quase reunião do Yes, o Anderson Bruford Wakeman Howe, só para fica na seara do rock progressivo. Então vamos lá!!! Os discos que, ao meu ver, representam o ano de 1989, não necessariamente em ordem de preferência, são:


King Diamond – Conspiracy

Primeiro disco que conheci do King Diamond. Achei tudo muito estranho em um primeiro momento, os teclados sinistros, aquela voz, soavam muito diferente de tudo o que conhecíamos, mas aquela capa (que não saiu com a ideia original), que me fez adquirir o disco sem conhecer, trazia uma sensação de que as coisas ali eram muito mais reais do que as outras bandas que tentavam parecer malvadas. Eu sequer deixava a capa amostra dando mole lá na casa da minha avó para não ser repreendido, o que aconteceria com certeza. Acabei me forçando a ouvir e entender o que aquilo queria passar. Hoje o King Diamond e o Mercyful Fate estão dentre as minhas bandas favoritas. Conspiracy nem é meu disco preferido do Rei, mas foi o que me fez gostar da banda.


Annihilator – Alice in Hell

Não era só a Bay Area ou Alemanha que conseguiam produzir thrash metal de qualidade e Jeff Waters, o mentor do Annihilator, prova isso com Alice in Hell. Junto de seu sucessor Never, Neverland (1990), são os discos fazem parte dos melhores discos do estilo lançados fora dos Estados Unidos e Alemanha, apesar de eu ainda conseguir ouvir muita coisa de heavy metal tradicional no som da banda. Na época ainda com Randy Rampage nos vocais (o Annihilator teve tantas formações ao longo dos anos que eu nem perco muito o tempo em tentar acompanhar) Alice in Hell é uma profusão de vocais poderosos, riffs cortantes e excelentes solos. A faixa título sobre a garotinha Alice fala de uma história real bem sinistra. Sugiro procurar conhecer.


Sodom – Agent Orange

De todos dessa lista acho que esse do Sodom foi o último que conheci. A banda sempre foi um pouco mais agressiva do que meu gosto me permitia apreciar e acabei deixando-a de lado por muito tempo. Depois que me rendi para sons mais extremos voltei ao Sodom e esse disco me ganhou logo de cara. É certamente o principal disco da banda e não é à toa que eles prometem executá-lo na integra na sua participação do ano que vem do Wacken. Li em algum lugar que esse disco é como se você estivesse atirando com uma metralhadora e munição infinita. Definição perfeita, não é?


Badlands – Badlands

A estréia do Badlands é certamente o principal registro que contou com a voz do saudoso Ray Gillen que era acompanhado por um time de primeira com o então ex-guitarrista da banda de Ozzy Osbourne Jake E. Lee, o ex-baixista do Steeler, Greg Chaisson, e o ex-baterista do Black Sabbath (e futuro Kiss) Eric Singer – só eu que me divirto com alguém que tem ‘cantor’ no nome ser um baterista?. Apesar de terem participado daquela onda de hard rock do final dos anos 80, acho o som do Badlands muito mais classudo e muitas pitadas de a mais de blues do que os das bandas contemporâneas. Não precisa nem ouvir com muita atenção para notas altas doses de Whitesnake e Led Zeppelin nesse disco. É uma pena que a banda tenha existido por tão pouco tempo por conta da morte prematura de Gillen. Pelo menos ficou registrado esse clássico.


Candlemass – Tales of Creation

Gosto de praticamente tudo o que o Candlemass fez. Mas os discos em que Messiah Marcolin gravou enquanto fez parte do grupo é de longe minha fase preferida. Sua atuação e seu modo de interpretação eleva o som do Candlemass lá para a estratosfera. Eu nem sou um fã tão ardoroso de doom metal. Acho que é muito fácil, facílimo até, as bandas do estilo escorregarem e tornarem suas músicas chatas, mas o Candlemass faz isso com perfeição.


Kreator – Extreme Agression

À exemplo do Sodom, o Kreator finalmente ganhou meus ouvidos anos e anos depois. Esse disco, porém, nunca tive tanta vontade de ouví-lo por conta de sua capa que não me chamava atenção e temos que concordar que ela é muito simples para um disco tão bom de thrash metal. Descobri algum tempo depois que a capa original do disco havia sido substituída por pedido da gravadora. Por mais que eu não ouvisse a banda sabia que “Betrayer”, a música do clipe que passava algumas vezes na MTV, era dele. Extreme Agression faz parte daquela sequência de álbuns clássicos do Kreator e que qualquer fã pode escolher qualquer um deles como preferido e ninguém discute.


Lillian Axe – Love + War

Esse disco poderia ter feito o Lillian Axe ser uma banda gigante da época, mas pelo jeito eles tinham sérios problemas gerenciais da banda. Basta ouvi a faixa de abertura “All’s Fair in Love and War”, mais pesada do que o normal em banda de hard rock com um excelente riff e uma bela voz, graças aos motores da banda, o guitarrista Steve Blaze e o vocalista Ron Taylor. No meio de um repertório de respeito um cover para “My Number” da banda inglesa do início da década Girl, que ainda contava em sua formação o guitarrista Phil Collen, aquele mesmo do Def Leppard. Se você levar em consideração apenas o conteúdo das letras pode até pensar que se trata de mais uma banda de cabeludos com laquê, mas “She Likes It On Top” pode provar que falar apenas de sexo não significa que você não possa ter boas músicas. Se você não conhece esse disco dê uma chance para ele.


Running Wild – Death or Glory

Seria esse o principal disco do Running Wild? Não é meu preferido já que a nostalgia me faz ir atrás de Gates to Purgatory com mais frequência e também gosto demais de Under Jolly Roger (1987) e Port Royal (1988). Aliás, o Running Wild conseguiu enfileirar uma sequencia fantástica de discos entre os anos 1984 e 1994. A banda está certamente entre as minhas preferidas. A abertura do disco com “Riding the Storm” é uma das melhores do metal. Recentemente assisti ao seriado Black Sails e foi impossível não lembrar de alguma música do Running Wild em cada passagem. Recomendo muito o disco e o seriado para quem gosta da história da pirataria.


Savatage – Gutter Ballet

Mais um disco dessa lista que pode ser considerado o principal trabalho da banda em questão. Marcou a entrada do guitarrista/tecladista Chris Caffery fazendo a banda se tornar um quinteto pela primeira vez. Há uma pequena mudança no som da banda a partir desse disco e sua capa mostra bem qual seria a visão da banda para o futuro. O heavy metal trabalhado fica mais grandioso e ambicioso. Até mesmo a voz de Jon Oliva parece que sofreu um upgrade em Gutter Ballet.


Testament – Practice What You Preach

Comprava muitas revistas de segunda mão, por serem mais baratas, em bancas que vendiam esse material e eram tanto revistas de metal quanto da saudosa revista MAD. Certa vez vi um anúncio de página toda do “novo” disco do Testament com a imagem da capa. Aquilo me chamou tanta atenção que eu me tornei fã da banda sem nunca ter ouvido um acorde. Não sei bem o que me atraiu para aquela imagem, mas eu só fui ouvir o Testament anos depois e nem foi com esse disco. Cortei essa página do anúncio e colei na parede do meu quarto. Já tinha ouvido The New Order (1988) e Souls in Black (1990) quando consegui, finalmente, ouvir o Practice What You Preach e me parecia que estava me reencontrando com um velho amigo. Gosto muito das melodias dos discos do Testament dessa época. Depois eles gravaram discos bem mais agressivos como The Gathering (1999) ou o Dark Roots of Earth (2012) que caíram na graça dos fãs, mas esse é um disco obrigatório da banda e do thrash metal.


Menção honrosa: Helloween – Live in U.K.
Outros discos poderia ter aparecido aí. Tenho amigo que vai ficar sem falar comigo por não ter indicado em nenhuma das oportunidades o Headless Cross do Black Sabbath com o Tony Martin, o Fifth Angel com Time Will Tell, tem o Mean Machine do UDO, Master of Disguise do Lizzy Borden, o clássico Rotting do Sarcófago, além do melhor disco do Overkill, o The Years of Decay, e do Brasil do Ratos de Porão. Mas nenhum desses disco que citei foram tão importantes na minha educação musical como esse disco ao vivo do Helloween. Todos tinham suas bandas preferidas, Iron Maiden, Metallica, Black Sabbath, Judas Priest, mas não lembro de ninguém que não ouvia o Helloween com prazer dentre todos os meus amigos que fiz por conta do metal. E esse disco ao vivo estava em todas as casas, se não fosse em versão em vinil era uma fita k7 que a pessoa guardava com carinho. A versão ao vivo de “Future World” moldou caráter de muito adolescente aspirante à headbanger e “How Many Tears” ficou maravilhosa com a voz de Michael Kiske. Aliás, essa última música fazia crescer a curiosidade de ouvir o Walls of Jericho e demorou muito tempo para que alguém conseguisse uma cópia desse disco lá pelas bandas de Itapetininga / SP. Toda vez que ouço esse disco eu consigo me transportar lá para 1991/1992 e isso me traz uma felicidade enorme. Recentemente saiu uma versão, bootleg, completa do show de onde foram tiradas aquelas sete músicas que contam em seu set list, mas infelizmente o som não é tão bom quanto o que foi lançado oficialmente.

13 comentários

  1. Mairon

    SÓ TEM METÁU!!!!!

    Falando sério, a minha lista de 1989 ficou assim na época

    1. Madonna – Like a Prayer
    2. Queen – The Miracle
    3. Viper – Theatre of Fate
    4. Toy Dolls – Wakey Wakey
    5. Faith No More – The Real Thing
    6. Nenhum de Nós – Cardume
    7. Ramones – Brain Drain
    8. Badlands – Badlands
    9. Black Sabbath – Headless Cross
    10. Bob Dylan – Oh Mercy

    Legal ver o Badlands sendo citado na lista do Bueno. É um baita disco, e mais um daqueles enormes exemplos de que os bons morrem jovens.

    1989 foi realmente um ano peculiar na música. Muitos lançamentos que marcaram época, principalmente por dar a guinada para uma nova vertente que assolou o início dos anos 90, o grunge.

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  2. Igor Maxwel

    1989 foi o ano que eu nasci e para mim o disco mais marcante daquela lista que a consultoria fez dedicada ao ano foi “Like a Prayer” da Madonna, seguido pelo (na minha opinião) canto de cisne do Aerosmith com “Pump”. Só lamento o fato de mais uma vez o disco homônimo do rei Roberto Carlos lançado em 1989 ter ficado de fora (cujo destaque era a faixa de abertura “Amazônia” que voltou a repercutir nesse ano por conta das notícias que alardeavam seu desmatamento), e, claro, o meu amado mestre Richard Clayderman com dois discos lançados há 30 anos atrás: o primeiro é “The Love Songs of Andrew Lloyd Webber” uma homenagem ao renomado compositor inglês, autor de aclamadas peças teatrais-musicais como “O Fantasma da Ópera” e “Evita” (a versão cinematográfica foi estrelada pela Madonna), e o segundo é “Amour pour Amour” gravado em colaboração com a flautista holandesa Berdien Stenberg, e que traz 11 belas composições próprias de Paul de Senneville, um dos produtores de Clayderman. Pelo menos fiz a minha parte por aqui!

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      • Igor Maxwel

        Olha Fernandão, por mim vocês não perderiam nada!

  3. Jean

    Em 1989 eu tinha 20 anos e acompanhava muito o que acontecia musicalmente no mundo, embora não tivéssemos a internet. O acesso se dava por publicações, jornais, revistas, etc. Porém, a banda mais comentada, ouvida e cultuada, na época, sem sombra de dúvida foi Stone Roses. Basta procurar as publicações da época. A ausência do disco homônimo é inexplicável. De qualquer forma, parabéns pela pesquisa, lembrando que não só de matal a música vivia naquela época.

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    • Fernando Bueno

      Em minha defesa eu pedi desculpas logo no início do texto e disse que só entraria metal. Apesar do disco do Badlands que não é metal né?

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    • António Marcos

      Excelente lembrança. Stone Roses capitaneou a cena conhecida como Madchester, influenciando bandas como Blur, Primam Scream e outras. Merece maior reconhecimento.

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