Por André Kaminski

“Os jovens de hoje só ouvem porcarias”, “Os jovens de hoje não tem salvação”, “Os jovens de hoje estão matando o rock”.

Provavelmente você já deve ter ouvido algumas destas frases (ou mesmo alguns mais exaltados podem ter proferido algumas delas) em algum momento da tua vida. Infelizmente não temos muitos dados fáceis ou de confiança disponíveis dos quais podemos ter uma ideia nessa internet, até porque, cada um quer vender o seu peixe ou parecer mais inteligente e parte de uma elite culta ao qual o bom gosto é algo exclusivo para poucos. O que realmente sempre me importou é a verdade; é a realidade seja ela do meu agrado ou não.

Bem, eu sou professor de língua inglesa concursado aqui pelo estado do Paraná. E isso me traz um contato diário com centenas de jovens a maioria entre 12 e 17 anos. Como colaborador deste site e um amante da música, obviamente isto me influencia em querer trabalhar com o tema em certos momentos durante o ano letivo. Sempre uso o terceiro trimestre para isso.

Slipknot, Sabaton, Bon Jovi, Nirvana, Avenged Sevenfold

Já fazem 3 anos que faço esta atividade anualmente com todas as minhas turmas. Todavia, somente este ano parei para pensar que levantei dados muito interessantes em minhas mãos sem me dar conta disso. Mesmo em 3 anos, os números e as escolhas dos alunos mudaram bastante e aproveito para escrever este texto como uma forma de visualizarmos como anda o panorama musical dos jovens em se tratando de bandas e cantores internacionais.

O exercício é simples. Ouvimos uma música e tentamos identificar suas estruturas internas das quais os compositores as fazem. Eu também faço em conjunto com eles. São 7 estruturas que peço aos alunos para escreverem caso as ouçam: intro, verse, chorus, solo, bridge, outro e hook. As seis primeiras estruturas vão sendo identificadas e escritas em seus cadernos no momento em que a canção é tocada e quando ela termina, pergunto sobre o hook (gancho) da música, que é basicamente o instrumento ou aspecto da canção em si que tenta “fisgar” a sua atenção.

Eu faço um sorteio entre os números de chamada de cada turma e o sorteado tem o direito de escolher um artista ou banda que cante em inglês (a disciplina é língua inglesa, então, óbvio que artistas que cantem em português ou outros idiomas estão excluídos) de qualquer gênero e preferência. Aí uso o meu last.fm para procurar o artista e sorteio uma música entre as 20 mais tocadas dele.

Mas André, por que não deixa os alunos escolherem também a música? Os principais motivos são:

1) Há artistas com músicas e clipes que não são apropriados para se passar em sala de aula devido a referências a nudez, sexo e outros temas que (em tese) não deveriam os jovens menores de idade terem acesso. Como eu conheço alguns, aí sei que determinadas músicas não são apropriadas para uma sala de aula e o sorteio ajuda a filtrar tais canções. É raro de acontecer, mas há alguns artistas que abusam disso em certas músicas e daí opto por outras do mesmo artista em que isso não aparece.

Queen, Michael Jackson, System of a Down, Alan Jackson

2) Em geral, os alunos quase sempre querem os “hits” ou músicas conhecidas deles. Deixando o aleatório decidir a música faz com que os alunos tenham acesso também a outras canções tão boas ou até melhores do que aquilo que a mídia divulga, fazendo com que o próprio aluno conheça melhor o artista que gosta.

3) Desfazer impressões erradas sobre um determinado artista ou banda. Um exemplo: se você selecionar apenas os hits do Scorpions, todo mundo vai pensar que é apenas uma banda de rock açucarada, sem conhecer tantas músicas interessantes e mais pesadas da banda que não se tornaram singles de sucesso. Mesmo artistas pop tem músicas de maior qualidade escondidas em meio a álbuns que só promovem um ou dois hits nas rádios.

4) Eu mesmo me canso apenas dos hits e desejo ouvir canções diferentes de artistas que não fazem parte do meu repertório pessoal. E isso me fez ter uma visão diferente sobre vários deles.

Ou seja, de vez em quando vai cair um hit e de vez em quando uma música mais desconhecida. Depende do aleatório. Se você não concorda comigo pelo fato de que os alunos só podem escolher a banda/cantor/cantora, tudo bem. Mas eu não vou mudar e as razões dadas já foram explicitadas acima.

O município em que trabalho se chama Ampére, uma cidadezinha de quase 20 mil habitantes no sudoeste do Paraná, quase na divisa com a Argentina. A realidade social dos alunos das duas escolas em que trabalho é que a maioria é de classe média-baixa e de classe média. Há pobres e ricos também, mas em menor número. Como são escolas públicas localizadas no centro da cidade, creio que seja também uma realidade muito parecida com muitas escolas do Brasil. Praticamente todos os alunos tem celular e acesso fácil a internet.

Dito isso, vou apresentar aqui os números dos artistas selecionados pelos meus alunos em turmas que vão do 8º ano até o 3º do ensino médio.


Eletrônico

Alan Walker (5x)

Alok (5x)

Marshmello (5x)

David Guetta (3x)

The Chainsmokers (2x)

Lost Kings

Meduza

Avicii

Illenium


Pop/pop rock/R&B

Imagine Dragons (9x)

Justin Bieber (5x)

Billie Eilish (4x)

Michael Jackson (4x)

Ariana Grande (3x)

Twenty One Pilots (3x)

Ed Sheeran (3x)

Katy Perry (2x)

Melanie Martinez (2x)

Maroon 5 (2x)

Demi Lovato (2x)

Sam Smith (2x)

Bruno Mars (2x)

Panic! at the Disco (2x)

One Direction (2x)

Shawn Mendes (2x)

Jessie J (2x)

Fifth Harmony

Lukas Graham

Jason Derülo

Cindy Lauper

Sia

James Arthur

Adele

Alec Benjamin

Drake

Britney Spears


Hip Hop

Post Malone (2x)

Lil Nas X (2x)

Travi$ Scott

Snoop Dogg

Eminem

NF

Ghostemane

Killstation

50 Cent

Jay-Z

Ollie

Rob $tone

Neffex

Future

bbno$

Y2k

Akon


Rock/Metal

Queen (7x)

AC/DC (7x)

Guns N’ Roses (6x)

Linkin Park (4x)

Slipknot (4x)

Sabaton (2x)

The Beatles (2x)

Avenged Sevenfold (2x)

Bon Jovi (2x)

System of a Down

Ozzy Osbourne

Nirvana

Iron Maiden

Kansas

Pink Floyd

Metallica

Corey Taylor

Aerosmith

Sepultura

The Offspring

Foo Fighters

Kodaline

Elton John

Newsboys

Jimmy Barnes

Black Veil Brides


Alternativo/Indie

Coldplay (3x)

Arctic Monkeys (3x)

Oasis

The Lumineers

Nickelback

Gabrielle Aplin

Lilly Wood & The Prick


Reggae

Bob Marley (2x)

SOJA (2x)


Blues

B.B. King


Country

Alan Jackson


Em termos de estilo, sem surpresas, o pop venceu com 61 indicações, seguidos pelo rock/metal com 55, eletrônico com 24, hip hop com 19, alternativo e indie com 11, reggae com 4, blues e country com 1 cada.

O campeão disparado individual é o pessoal do pop rock Imagine Dragons seguidos, surpreendentemente, pelo Queen e o AC/DC completando o pódio.

Algumas curiosidades

  • Das sete vezes que me pediram o Queen, umas cinco vezes eles disseram “Freddie Mercury”, ao qual eu perguntava se não era o “Queen” que eles queriam. Óbvio que era a banda, ninguém da idade deles conhece a carreira solo de Freddie e com certeza iriam estranhar se de repente eu tocasse qualquer coisa dele com a Montserrat Caballé. Pelo que deu para perceber, as muitas indicações ao “Freddie Mercury” se deram principalmente ao recém filme do vocalista lançado há pouco tempo. Ficou claro que muitos jovens começaram a ter seus primeiros contatos com o Queen graças ao filme.
  • Nunca tolerei desrespeito musical com o gosto de quem quer que seja. Porém, eu quase sempre tinha que dar uma bronca nas salas quando alguma menina indicava o Justin Bieber e algumas zoações eram ouvidas. Interessante que era só com ele que as gozações vinham. E isso vinha principalmente de alguns com uns gostos não muito diferentes do que o Bieber atualmente toca.
  • Tive duas indicações ao Sabaton, uma banda que não é lá muito conhecida mesmo dentro do power metal. Mas deu para perceber que graças à música “Smoking Snakes” falando dos três soldados brasileiros que lutaram na Segunda Guerra Mundial do disco Heroes [2014], a banda ganhou uma certa fama aqui no Brasil.
  • Os fãs de hip hop indicaram muitos artistas diferentes e alguns, inclusive, são bem desconhecidos do público em geral. Um indicativo de que este público é o mais aberto à novidades dentro do estilo.

Sobre os dados em si, é claro que o pop ainda predomina. É o estilo que está no mainstream há algumas décadas e também vê-se que o aumento do eletrônico se deu principalmente ao sucesso de vários DJs que compõem e gravam músicas com alguns vocalistas convidados. Porém, nota-se também que as bandas de rock e metal que conseguiram, em algum momento de suas carreiras, algum sucesso no mainstream ainda seguem sendo bastante ouvidas, apesar delas agora estarem sumidas das principais rádios FM e da TV em geral. O fato de ter havido o Rock in Rio na mesma época em que trabalhei esta atividade também pode ter contribuído para um aumento na procura de bandas do estilo.

Marshmello, Post Malone, Lil Nas X

Uma coisa é perceber aquilo que se aparece, mas também enxergar aquilo que não apareceu. Em anos anteriores, Rihanna, Beyoncé, Lady Gaga, Black Eyed Peas, Justin Timberlake, Lorde, Adele e Bruno Mars apareciam várias vezes. Neste ano, somente os dois últimos ganharam poucas citações. O que leva a concluir é que como estes artistas lançaram seus últimos discos há mais de 3 anos, eles acabaram sendo “esquecidos” ou “deixados de lado” pelos jovens. No caso de Black Eyed Peas (já sem a Fergie) e Timberlake, eles lançaram discos no ano passado mas aparentemente não agradaram às rádios e estes discos passaram, em grande parte, despercebidos.

Eu sou um sujeito que não faz mais ideia de como anda o mainstream porque simplesmente nada me agrada no que se tem tocado nas rádios e na grande mídia. Assim, várias das músicas e de alguns artistas são novidades para mim. Dentre todos eles, o que mais me surpreendeu positivamente foi o DJ brasileiro Alok. Ele é um dos poucos (talvez o único) desses DJs mais famosos que usa outros instrumentos além do sintetizador e da bateria eletrônica. Dentre os caras como Marshmello e David Guetta (muito mais famosos mundialmente) passei a considerar o Alok melhor do que todos eles que são, até mesmo, muito repetitivos e com músicas com estruturas previsíveis. Tem música do Alok com guitarra e violino (ou pelo menos, sons que parecem isso feitos na mesa de som), além de um cuidado maior com as letras se comparados com esses outros internacionais. Claro, sua música não entrou dentro do meu repertório, mas digo fácil que ele é o mais diferenciado dentre todos esses DJs famosos.

É óbvio que não se pode usar apenas os dados de uma única cidade como parâmetro para soltar certezas. Creio que se eu fizesse a mesma atividade em escolas de periferia, o hip hop teria mais indicações e certos artistas apareceriam mais do que outros. Porém, as escolas em que trabalho também são um recorte comum da realidade brasileira de vários outros lugares, por isso, acho que a pesquisa é válida e interessante de se mostrar por aqui.

O que eu pude concluir em relação ao rock é que ele é sim muito ouvido entre os jovens. Mas obviamente, pouco divulgado pela grande mídia. O que percebo é que os gostos ainda são moldados por aquilo que se aparece mais nas rádios e nos meios de comunicação. Todavia, a busca por uma certa individualidade ainda é um sentimento forte entre os jovens e isso se demonstra neles ouvindo certas bandas e cantores que não necessariamente estejam no mainstream. Ainda existe um apelo grande dos jovens pelo rock, mas aparentemente as bandas ainda possuem dificuldades em entrar em contato com eles e divulgarem seus trabalhos. As bandas que conseguirem falar a mesma língua deles, sem desrespeitá-los ou menosprezá-los com canções rasas conseguirão atrair um público fiel. De certa forma, era o que acontecia muito em décadas anteriores e que veio se perdendo com o tempo. Espero que este artigo humilde e sem pretensões científicas contribua em suas reflexões.

14 comentários

  1. Daniel Benedetti

    No dia dos Professores, uma aula: seja pela metodologia, seja pela qualidade do texto, pela pertinência das observações ou mesmo pela relevância do tema. Excelente, André!

    Responder
    • André Kaminski

      Cara, se eu te disser que vi a data livre e vi que era uma boa oportunidade de escrever sobre isso sem me dar conta que tem relação direta com o dia dos professores hahahahaha. Muito obrigado pela consideração e pelas palavras!

      Responder
  2. Mairon

    Cara, primeiramente parabéns pelo teu projeto. Teus alunos devem ter muito orgulho de ti. Segundamente, Feliz dia do Professor para nós!! Terceiramente, se pudesse música nacional, o funk carioca ou o sertanojo universitário ganharia com sobras?

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    • André Kaminski

      Obrigado pelas considerações, Mairon!

      Sobre sua pergunta, há algo curioso que lembrei aqui e que não citei no artigo. Há muitos alunos que eu sorteava para escolher algo e não recomendavam nada, cerca de uns 40 a 50% de cada turma. Ou seja, há muitos jovens que não ouvem nada do mercado internacional.

      Sobre o funk carioca e sertanejo universitário, eu diria que sim, Mairon. Provavelmente venceriam, principalmente entre aqueles que não ouvem nada internacional. Talvez pela localidade em específico aqui, haveriam algumas indicações de bandas gauchescas, mas creio que não passariam de três ou quatro.

      Nos anos 90 e 2000, creio que a situação seria diferente graças, em grande parte, à velha MTV. O rock nacional simplesmente sumiu do repertório de quem tem menos de 30 anos hoje em dia.

      Responder
      • Mairon

        Pois é, mas boas bandas não faltam, como apresentamos praticamente toda semana no Notícias. O problema é que a divulgação é fraca. Mesmo com a facilidade para se ouvir música na internet hoje, chegar a tal artista ainda é um caminho bastante tortuoso. Basta ver o recente Stew. Só descobri a banda por que recebemos o material deles, e é um DISCAÇO. Se não tivessem entrado em contato conosco, jamais saberia se quer que existiam.

  3. Denis

    “uma banda que não é lá muito conhecida mesmo dentro do power metal.”

    É sim. São quase nível estádio lá fora, e aqui já tem público cativo (voltarão em dezembro, aliás)

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    • André Kaminski

      São um público casa cheia, mas quase nível estádio acho um exagero. Público estádio é mais de 20 mil pessoas e isso só Iron Maiden, Metallica, AC/DC, Roger Waters e outras gigantes conseguem. Podem ser uma banda quase arena (entre 2 e 5 mil pessoas). Porém, concordo que se seguirem nessa pegada eles podem chegar nesse nível daqui algum tempo.

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      • Fernando Bueno

        Não consegui gostar do Sabaton

  4. Fernando Bueno

    Muito legal sua pesquisa André. Depois tenta vc escolher uma música e pedir que eles escrevam pequenas observações sobre a mesma.

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  5. Francisney

    Parabéns pela publicação …. E parabéns professor pela as analise..
    Eu partículamente como educador … Muitas das vezes me desespero vendo os conteúdos dos alunos se divertindo no horário do intervalo em alto som…
    Que venha mais matérias como esta ….

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    • André Kaminski

      Tem muita gente que ouve mas não demonstra, ainda mais quando se faz parte de uma “minoria”. Aí acaba sendo engolido pela “maioria”. Mas pude notar que há ainda uma parcela grande de jovens que se interessa pelo gênero.

      Responder

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