Por Davi Pascale

Especial criado pela VH1 celebrava 30 anos sem Morrison e colocava os músicos originais juntos, pela primeira vez, desde a breve apresentação ocorrida no Rock n Roll Hall of Fame. No microfone, 6 diferentes vozes se revezavam para relembrar a obra de lizard king. O programa, criado com a intenção de ‘one night only’, mostrava os músicos alegres e bem entrosados.

“The Doors! The Doors! O verdadeiro The Doors”, assim gritava um entusiasmado Perry Farrell, logo ao final da canção “L.A. Woman”, música responsável por abrir esse DVD. A expressão estampada na face do músico era de quem estava vivendo um sonho. Essa, certamente, era a realidade de cada pessoa presente na plateia naquela noite e também em cada profissional envolvido naquela produção.

A gravação desse programa ocorreu no longínquo ano de 2001. Uma reunião desses caras parecia um sonho distante. Isso foi antes daquelas polêmicas reuniões onde os músicos utilizaram o nome de The Doors of The 21st Century e Riders On The Storm. Na verdade, o ponta pé inicial de toda aquela confusão foi aqui. A intenção, contudo, era das melhores. Naquele ano, celebrava-se 30 anos do último álbum com Jim e também 30 anos de sua partida.

As comemorações já haviam começado. No final de 2000, havia sido lançado Stoned Immaculate, um álbum tributo ao The Doors com a participação dos próprios músicos. E foi isso que levou Marco Moir, roadie de Robby Krieger, a entrar em contato com a VH1 e sugerir a criação de um especial com bandas da nova geração tocando músicas do The Doors. O rapaz disse que, caso topassem, os músicos poderiam aparecer no estúdio para tocarem uma música juntos.

Claro que a emissora ficou interessada na proposta, mas eles sabiam melhor do que ninguém de que o ponto alto da atração seria a participação dos músicos originais. Que o público estaria interessado mesmo em ver a reunião dos integrantes, portanto, entraram em contato com Danny Sugerman, biografo e empresário da banda, e fizeram a proposta para que eles se reunissem por uma única noite. Os rapazes hesitaram um pouco, mas acabaram topando. Afinal, eles também estavam curiosos em saber se ainda seriam capazes de fazer aquilo, se a parceria ainda dava liga.

Ian Astbury: o grande destaque da noite.

Uma incógnita, contudo, ainda pairava no ar. Como resolveriam a questão vocal? Já haviam tentando encontrar um novo vocalista na época, não conseguiram. Já haviam tentado seguir como um trio, os fãs não aceitaram. Jim havia se tornado um ícone, uma figura lendária, só que Jim estava morto. Decidiram que o melhor seria não substituí-lo e que o correto seria fazer uma espécie de show tributo com diferentes convidados. Pegaram 6 cantores que participaram do álbum tributo e trouxeram para o programa. Finalmente, os fãs poderiam assistir Ray Manzarek, Robby Krieger e John Densmore juntos, mais uma vez.

Não há como negar que a tarefa mexeu com a cabeça dos cantores que toparam a empreitada. Todos os nomes presentes aqui são conhecidos. Mas era possível notar não apenas o respeito que possuíam com os músicos da banda, como também o nervosismo que estavam sentindo. Scott Weiland, por exemplo, que era conhecido por suas performances de palco extremamente exóticas, estava extremamente comportado, cantou praticamente parado. O único que parecia um pouco mais confiante e que manteve a pose de rockstar foi Ian Astbury, a voz do The Cult.

É capaz que estivessem com medo das inevitáveis comparações. Afinal, Jim Morrison tinha um estilo único de cantar e sua voz era bem característica. Mais do que isso, seu nome é cultuado, é tratado quase como uma santidade. Os fãs mais fanáticos cairiam matando. Aliás, reconheço que é difícil assistir esse vídeo sem fazer a cruel comparação. Ainda mais que os músicos optaram por interpretar os arranjos de maneira fiel ao disco, sem aqueles longos improvisos que costumavam rondar suas apresentações, e o set escolhido é praticamente de clássicos. A voz de Morrison vem automaticamente na cabeça.

Pat Monahan, Travis Meeks e Scott Stapp cumpriram seu papel. Cantaram ok. Não se destacaram, nem comprometeram, mas quem se sobressaiu na parte vocal foi mesmo Astbury. Não me surpreendeu quando o  convidaram para assumir os microfones na nova fase. Scott Weiland, apesar de não ter se movido tanto, como mencionei acima, também cantou legal. “Wild Child”, “Five To One” e “Back Door Man” são os destaques do programa.

Scott Stapp em ação

O ponto alto da série Storytellers sempre foram os depoimentos dos músicos comentando sobre as gravações. Há artistas que se estendem demais, reconheço. Os músicos do The Doors, contudo, contaram as histórias bem brevemente. Fizeram alguns comentários interessantes, especialmente Robby Krieger e Ray Manzarek, mas poderiam ter ido mais além. Muito bacana a explicação do guitarrista sobre a letra de “Love Me Two Times”, por exemplo: “Estava pensando nos soldados do Vietnam. De quanto tempo eles ficariam sem ver suas garotas. É daí que vem a frase ‘love me two times. I´m going away’ (me ame em dobro que estou indo embora)”. Gostaria de ter escutado um pouco mais dessas histórias. As letras do The Doors sempre foram bem enigmáticas.

Também poderiam ter explorado um pouco mais as perguntas do auditório. Há apenas duas aqui. A resposta mais interessante foi em relação ao incidente de New Heaven, que levou o cantor à prisão. Uma garota perguntou o que aconteceu, de fato, naquela noite. E Manzarek respondeu: “A verdade é que nada aconteceu. Vocês conhecem a história de que ele estava nos bastidores com a garota e o policial não acreditou que ele fosse da banda, certo?”. A garota fez sinal de afirmativo. Ray continuou: “Pois, bem , no meio de ‘Back Door Man’ ele começou a contar ao publico o que ocorreu. Do rapaz azul, de uniforme azul, um porquinho azul… Os livros nos acusam de incitar a multidão, mas isso não ocorreu. O público estava do nosso lado. Só quem se virou contra foram os policiais que faziam a segurança e que o prenderam acusando-o de ter ‘ido longe demais’. Até hoje, não sei o que isso quer dizer”.

Esse é um vídeo muito bacana para os fãs. Foi muito bacana ver os três juntos novamente na época. De bem com a vida, sorridentes, tocando bem, lembrando do passado com carinho. Claro que você não deve assistir com a intenção de ver um show do The Doors. Como entrega o próprio título, a ideia era uma celebração. Era uma espécie de reunião de velhos amigos. Um brinde ao passado. Uma festa. E nesse sentido, a coisa funciona. Pena que tudo mudou logo depois…

Faixas:

  • A. Woman (Excerpet) – Perry Farrell (Jane´s Addiction)
  • Love Me Two Times – Pat Monahan (Train)
  • Whiskey Bar – Ian Astbury (The Cult)
  • Back Door Man – Ian Astbury (The Cult)
  • The End – Travis Meeks (Days Of The New)
  • Break On Through – Scott Weiland (Stone Temple Pilots)
  • Five To One – Scott Weiland (Stone Temple Pilots)
  • Light My Fire – Scott Stapp (Creed)
  • Roadhouse Blues – Scott Stapp (Creed)
  • Wild Child – Ian Astbury (The Cult)
  • Riders On The Storm – Scott Stapp (Creed)

5 comentários

  1. Agostinho Carrara

    Creed – wtf!
    Só faltou o vocalista do NICKELBACK dar as caras –‘

    Responder

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