Por Mairon Machado

Ao mesmo tempo que o rock ‘n’ roll se consolidava nos anos 60, e tornava-se uma potência nos anos 70, discos com orquestra e rock se tornaram lançamentos tradicionais. A fusão dos dois rendeu pérolas como Days Of Future Passed (The Moody Blues e London Symphony Orchestra, de 1967), Concerto For Group and Orchestra (Deep Purple e The Royal Philharmonic Orchestra, de 1969), Ekseption 00.04 (Ekseption e The Royal Philharmonic Orchestra, de 1971), Live – In Concert With The Edmonton Symphony Orchestra (Procol Harum e a orquestra citadano título, 1972) ou Journey To The Centre of the Earth (Rick Wakeman e a London Symphony Orchestra, de 1974), entre outros,. Uma única orquestra registrando rock ‘n’ roll em arranjos clássicos, era algo que poderia levar a música clássica para o jovem público dos anos setenta, e por que não, fazer com que alguns jurássicos apaixonados pelas obras de Bach, Beethoven, Chopin e cia., deixassem de torcer o nariz para a música dos cabeludos.

Como podemos ver, tanto as orquestras do Royal Philharmonic quanto a do London Symphony têm participação importante nesse mundo sinfônico + rock, e foram ambas que resolveram incrementar suas discografias, fazendo com que na segunda metade dos anos 70, uma espécie de lançamento se tornasse figura carimbada quase que constantemente. Tratava-se de gravações de músicas clássicas do estilo por uma orquestra. As primeiras gravações desse tipo foram as de Tommy (London Symphony Orchestra, de 1972) e Tubular Bells (The Royal Philharmonic Orchestra, de 1975).

Alguns dos lançamentos de rock + música clássica lançados pela Royal Philharmonic Orchestra

A The Royal Philharmonic preferiu seguir com regravações para um único artista, e assim foram lançados Performs The Best Known Works Of Rick Wakeman (1978), Plays The Beatles – 20th Anniversary Concert (1982), Plays The Queen Collection (1982), ABBAPHONIC – ABBA’s Greatest Hits (1983), Objects Of Fantasy – The Music Of Pink Floyd (1989), enquanto eventualmente trabalhou com Frank Zappa (200 Motels, de 1971), David Bedford (Star’s End, de 1974), Ramases (Glass Top Coffin, de 1975), Renaissance (A Song For All Seasons, de 1978), além de seguir sua co-irmã, lançando em 1982 Hooked On Rock Classics, com regravações de Beatles, Stones, Derek and the Dominos, Survivor e outros (1982).

Digo seguir a co-irmã por que foi a London Symphony quem resolveu primeiro ampliar sua homenagem ao rock, isso em 1977, quando gravou Classic Rock, coletânea dupla (no Brasil saiu em duas partes) que apresenta sucessos como “Bohemian Rhapsody” (Queen), “Life on Mars” (David Bowie), “Paint it Black” (Rolling Stones), “Whole Lotta Love” (Led Zeppelin), “God Only Knows” (Beach Boys) e mais 13 grandes clássicos de baluartes do rock, de Beatles a Ike & Tina Turner. Esse álbum inova ao re-aaranjar as canções do rock em um estilo bastante clássico, com metais e cordas simulando as guitarras, vocais e teclados, além da presença da bateria, único instrumento mais próximo ao rock.

Em 1979 veio Classic Rock Rhapsody In Black, outra coletânea de sucessos do rock ‘n’ roll, e a partir dos anos 80, a London Symphony trouxe Classic Rock – Rock Classics (1981), Classic Rock Rock Symphonies (1983), Rock Classic 5 – Themes And Visions (1983), The Power Of Classic Rock (1985), Classic Rock Countdown (1987) e Classic Rock – The Living Years (1989), que além de buscar clássicos do rock na década de 60 e 70, também atualizava peças do rock dos anos 80 em arranjos sinfônicos. A London Symphony, diferentemente da Royal Philharmonic, especializava-se em registra obras de diversos artistas, mas em 1985, resolveu apostar novamente no formato de um álbum exclusivo de um artista, e o homenageado da feita foi o Jethro Tull.

Alguns dos lançamentos da série Classic Rock, pela London Symphony Orchestra

Acompanhada pelo líder flautista, vocalista, violonista, batedor de escanteio, falta, pênalti e também goleiro e técnico do Jethro Tull Ian Anderson, além de participações especiais do guitarrista Martin Barre, do baixista Dave Pegg e do tecladista Peter Vitesse, ou seja, a formação do Jethro Tull que gravou o controverso Under Wraps (1984), e que precisava fazer alguma coisa para poder “arrumar o filme” que havia sido queimado bastante, a London Symphony Orchestra entrou nos estúdios com a intenção de lançar um álbum de Natal em 1985, e assim nasceu A Classic Case (The London Symphony Orchestra Plays The Music Of Jethro Tull Featuring Ian Anderson). Os arranjos ficaram a cargo de David “Dee” Palmer, que acompanhou o Jethro Tull durante boa parte da década de70, ora fazendo arranjos orquestrais ora sendo tecladista.

Porém, parece que o tiro acabou saindo pela culatra. O disco em si acabou sendo tão renegado quanto Under Wraps, e quase todos os fãs de Jethro Tull que eu conheço acabam desprezando seu lançamento. Nosso próprio colega, André Kaminski, ao fazer a Discografia Comentada dos britânicos, se quer mencionou UMA LINHA para A Classic Case. Desconheço as razões para o André ter feito isso, e tão pouco o julgo mal, mas isso só atesta que A Classic Case é um álbum esquecido na vasta discografia de Anderson e cia.

Lado A

Porém, eu realmente não entendo isso. Esse foi um dos primeiros discos ligados ao Tull que conheci (Aqualung, Thick as a Brick, The Broadsword and The Beast e Benefit vieram todos juntos à esse, através de um amigo do Micael que é apaixonado pela banda), e foi um caso de amor a primeira ouvida. A união de orquestra com a flauta furiosa de Anderson me causou um impacto muito forte, o suficiente para que A Classic Case se tornasse meu disco favorito da banda por muitos anos (até ouvir A Passion Play), e principalmente, ter sido minha primeira aquisição dos caras. Além disso, o repertório escolhido a dedo mistura canções de todas as fases do Tull, sendo então uma bela entrada ao mundo musical dos britânicos.

A super clássica “Locomotive Breath” surge com o poder das cordas entoando o riff inicial do piano. Os metais emulam os vocais, e o grande destaque é a flauta de Ian Anderson, que repete as linhas vocais e o magistral solo desse petardo de Aqualung (1971) em sua totalidade. O dedilhado de violão mais famoso da história dos britânico introduz “Thick As A Brick”. As cordas fazem a parte vocal, e ao longo de pouco mais de quatro minutos, temos aqui apenas três partes do clássico álbum homônimo de 1972, contando novamente com a presença importante da flauta de Anderson, mas sem impactar tanto quanto a original.

Lado B

“Elegy” é uma das mais belas faixas registradas em A Classic Case. A combinação entre orquestra e a flauta causa emoções fortíssimas até em uma estátua. Um registro perfeito, que supera inclusive o original, lançado em Stormwatch (1979), assim como “Boureé”, um espetáculo orquestral que impressiona pela sua imposição sonora logo de início, até baixo e flauta trazerem o consagrado riff de Bach. Na sequência, o que ouvimos em Stand Up (1969) está também registrado aqui, com Anderson mandando ver no solo de flauta, e a orquestra fazendo intervenções pontuais. Fechando o Lado A, a surpreendente “Fly By Night”. Gravada por Anderson no seu álbum solo Walk Into Light (1983), aqui ela mantém o mesmo arranjo oitentista registrado originalmente, mas ganhou um clima de trilha sonora de filme de ficção científica através da orquestra, o que elevou em muitos pontos sua criação e inserção no álbum.

Outro super-clássico, “Aqualung”, abre o lado B com a orquestra assumindo todos os postos. Um dos principais sucessos da banda, aqui é tratada com toda a honra e grandiosidade que merece, sem tirar uma nota do lugar. “Too Old To Rock ‘n’ Roll To Young To Die” é outra que a orquestra encaixou super bem. A guitarra da introdução está presente, as cordas emulam os vocais de Anderson, o saxofone. Tudo encaixadinho e agradável aos que apreciam a obra homônima ao álbum de 1976. O Medley com “Teacher”, “Bungle In The Jungle”, “Rainbow Blues” e “Locomotive Breath” possui a participação de Anderson na flauta, e os metais fazendo uma participação dançante e boa para aumentar o som durante a audição.

Contra-capa da versão americana, similar a europeia

Para fechar o álbum, uma versão praticamente idêntica para “Living In The Past”, com o baixão, flauta e tudo mais, e “Warchild”, uma faixa soberana, com uma orquestração que modificou totalmente o arranjo original, tornando-a muito mais próxima a grandes trilhas sonoras do que a pérola progressiva do álbum homônimo de 1974, e que encerra com chave de ouro esse rico trabalho clássico,

Depois, vieram We Know What We Like: The Music Of Genesis (1987), e só nos anos 90 a London Symphony resolveu investir alto nesse tipo de lançamento, com cinco discos em 1994 – Symphonic Music Of The Rolling Stones, Plays The Music Of The Beatles, Plays The Music Of Abba – Symphonic Rock, Fortress: The London Symphony Orchestra Performs The Music Of Sting, Orchestra On The Rock – Queen – The Long Goodbye – dois em 1995 – Symphonic Music Of Procol Harum e Plays The Music Of The Eagles, além do disco Symphonic Music of Yes, outro projeto com arranjos de David Palmer, ao lado de Bill Bruford, Steve Howe e Jon Anderson. A partir dos anos 2000, pararam os lançamentos desse tipo, até por que a nova geração musical já havia praticamente abandonado o estilo clássico, mas A Classic Case ficou para a história, tanto pelo seu ousado – na época – estilo de adaptação de canções progressivas com arranjos clássicos como por ser um dos álbuns ligados ao Jethro Tull menos comentados em toda sua história, seja para bem ou para o mal. Concordam?

Contra-capa da versão internacional

Track list

1. Locomotive Breath

2. Thick As A Brick

3. Elegy

4. Boureé

5. Fly By Night

6. Aqualung

7. Too Old To Rock ‘n’ Roll, Too Young To Die

8. Medley (Bungle in the Jungle / Rainbow Blues / Locomotive Breath)

9. Living in the Past

10. Warchild

7 comentários

  1. Igor Maxwel

    Finalmente alguém citou neste texto a versão orquestrada do disco do Mike Oldfield! Sem desmerecer os fãs da gravação original de “Tubular Bells” feita pelo próprio, eu considero a versão da RPO tão boa quanto!

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  2. Micael

    Faz muito tempo que não ouço este disco, mas sempre gostei dele. Acho que é menos citado (e lembrado) justamente por não ser um disco “típico” do JT, nem mesmo um disco da banda, apesar de contar com alguns músicos dela… Mas, sem dúvidas, para “ruim” não serve de jeito nenhum…

    Este período foi realmente bastante conturbado para a instituição que é o JT, e levaria ainda alguns anos para eles voltarem a fazer algo relevante, o que, a meu ver, só voltou a ocorrer com o Roots to Branches, já em meados dos anos 90…

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    • Mairon

      E dizer que a banda ganhou do Metallica no Grammy para “melhor performance de Hard Rock / Metal” em 89, com Rock Island!!

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  3. Manoel

    Eu ainda não ouvi esse disco, apesar do som da banda me soar bem aos ouvidos e praticamente conheço todos os albuns de estúdio. Mas vou dar uma conferida mais atenta. Não quero ouvir de forma passiva.

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