Por Mairon Machado

Luiz Galvão é um dos mais renomados poetas, diretores e letristas de nosso país. Ao lado de Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor e Baby Consuelo (hoje do Brasil), fundou no início dos anos 70 o grupo Novos Baianos, que simplesmente redefiniu a Música Popular Brasileira ao unir samba, rock, frevo e diversos outros estilos em um som único. Isso gerou clássicos atemporais, tais como “Preta Pretinha”, “Mistério Do Planeta”, “Tinindo, Trincando”, “Quando Você Chegar”, “Swing de Campo Grande”, entre outras grandes obras regravadas de outros artistas, como “Brasil Pandeiro” (Assis Valente), “Na Cadência do Samba” (Ataulfo Alves e Paulo Gesta), “Brasileirinho” (Pereira Costa e Waldir Azevedo) e “O Samba Da Minha Terra” (Dorival Caymmi), só para citar alguns.

A história de essas e outras grandes canções do grupo, bem como da vida particular de Luiz Galvão, e claro, curiosidades advindas dos baianos, é registrada no livro Novos Baianos (A História do Grupo Que Mudou A MPB), lançado em 2014 pela editora Lazuli. O contexto central é uma ampliação de Anos 70 Novos Baianos, lançado pela editora 34 em 1997, com mais histórias e também uma atualização (e imagens) sobre a banda pós tal livro, já que ainda em 1997, o Novos Baianos fez uma reunião que acabou resultando no ótimo disco ao vivo Infinito Circular (1998).

Para quem é fã do grupo por conta dos seus principais álbuns (no caso, o clássico e insuperável Acabou Chorare – 1972, e Novos Baianos F. C. – 1973), irá se deliciar com o autor das letras contando a origem e a inspiração para a criação de sua obra. Galvão narra com detalhes o que significam, por exemplo, a abelha abelhinha de “Acabou Chorare”, por que enquanto corria a barca eu ia lhe chamar em “Preta, Pretinha”, as travessuras do moleque brincando de velho, me chamando de Pedro em “Quando Você Chegar”, entre outras histórias de canções menos memoráveis, tais como “De Vera” (primeira parceria com Moraes), “Dona Nita e Dona Helena”, “Só Se Não For Brasileiro Nessa Hora”, “Ferro Na Boneca” ou “Escorrega Sebosa”.

O primeiro show da banda, no Teatro Vila Velha em setembro de 1969, participação defendendo “De Vera” no Festival da Record do mesmo ano (onde nasce o nome Novos Baianos), os complicados dias vivendo em São Paulo, a influência do chorinho nas composições do grupo, bem como a criação dos primeiros Trio Elétricos na Bahia, são alguns dos grandes êxitos que Galvão traz para o leitor.Até mesmo os filhos dos novos baianos são apresentados como nomes representantes da MPB.

O livro não segue uma ordem cronológica, mas de fácil leitura, nos surpreende ao longo de suas 300 páginas com histórias pessoais de Galvão, que envolvem desde os problemas com drogas e diversos relacionamentos com muitas mulheres, até ancorar no porto milagroso da esposa Janete, os conflitos políticos e sociais com a ditadura, e as peladas clássicas na Vargem Grande, onde o grupo se instalou em regime comunitário, jogando muito futebol e perdendo muito dinheiro. Vale ressaltar que mesmo assumindo que consumia maconha como uma atividade rotineira, o autor revela que abandonou as drogas há muito tempo, e que quando percebeu o mal que as mesmas fazem, arrependeu-se de ter usado as mesmas. Acho interessante que ele fala abertamente sobre isso, sem problemas.

Agrônomo de carteirinha, mas poeta de coração, Galvão acabou criando uma grande amizade com recém finado João Gilberto, que acabou apadrinhando ele e os amigos baianos no Rio de Janeiro, cidade onde os Novos Baianos fizeram fama, ainda mais com a introdução dos membros do grupo Os Leif’s, de onde surgiram Pepeu Gomes, Dadi e Jorginho (guitarrista, baixista e baterista respectivamente). Tudo isso também está apresentado com riqueza de detalhes e muito bom humor. Aliás, o relacionamento de Pepeu e Baby também entra na jogada, mas em nenhum momento trazendo babados ou polêmicas, sempre com muito respeito e zelo pelos colegas, assim como todas as citações aos demais membros da banda. Mesmo a saída de Moraes Moreira é tratada de forma ocasional, como algo natural perante o momento que o músico vivia em 1975.

Além das páginas com a história narrada por Galvão, temos também a presença da Discografia e todas as letras das canções registradas pelo Novos Baianos, duas entrevistas feitas pelo autor (uma com Capina e outra com Rogério Duarte), o Um Apêndice Que Resiste Á Cirurgia, com letras inéditas de Galvão e também imagens da carreira do grupo, bem como um texto do ex-presidente José Sarney, publicado na Folha de São Paulo de 25 de abril de 2003, enaltecendo as virtudes e importância do Novos Baianos para a cultura brasileira.

Por outro lado, o livro peca ao praticamente eximir-se de contar a história da banda pós-saída de Moraes, deixando uma sensação de que a banda acabou do nada, mas é um mero detalhe. Afinal, para um grupo tão importante quanto o Novos Baianos, é impossível dizer que sua história um dia irá acabar.

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