Por Daniel Benedetti

Neste texto, pretende-se abordar a passagem do ótimo vocalista John Lawton pelo Uriah Heep, focando nos discos lançados durante este período e contextualizando o momento vivido pelo grupo. Em junho de 1976, o Uriah Heep lançava High and Mighty, seu nono álbum de estúdio. O grupo era formado pelo guitarrista Mick Box, pelo baixista John Wetton, pelo baterista Lee Kerslake, pelo tecladista Ken Hensley e pelo vocalista David Byron.

O álbum não foi bem recebido, já que, estilisticamente, ele se desviou de sua veia anterior, voltada ao Rock Progressivo, para um território mais mainstream, resultando na ausência de uma das ‘assinaturas’ do grupo, ou seja, longas composições e temas fantásticos.

High and Mighty é considerado leve até mesmo pelo guitarrista Mick Box. A questão da produção, aqui, tornou-se o ponto de maior conflito. Com o manager e produtor Gerry Bron comprometido com projetos não musicais (incluindo seu serviço de táxi-aéreo), a banda decidiu produzir o álbum por si mesma.Bron,  mais tarde, declarou que o resultado foi o pior álbum do Heep, enquanto Ken Hensley acusou o gerente de deliberadamente ignorar os interesses da banda. O disco, no entanto, foi lançado de maneira luxuosa (com jornalistas e empresários sendo levados para o topo de uma montanha suíça para uma recepção).

Foto de David Slowey

No entanto, a suntuosa festa para o lançamento do trabalho não combinou com a qualidade dos shows ao vivo, que estavam cada vez mais caóticos, devido à inconsistência do vocalista David Byron no palco. Ken Hensley afirmou que era comum Byron ficar bêbado após os shows, mas as apresentações da banda sempre vinham em primeiro lugar. Quando os shows se tornaram o ‘segundo plano’, os problemas vieram à tona. O biógrafo da banda, Kirk Blows, afirma: “A distância entre David e o resto (da banda) cresceu para proporções impraticáveis”.

Em julho de 1976, após o último show de uma turnê espanhola, Byron foi demitido. Logo o baixista John Wetton anunciou que também estava saindo do conjunto.

O Uriah Heep recrutou o baixista Trevor Bolder (ex-David Bowie), e depois de ter feito testes com David Coverdale (Deep Purple, Whitesnake), Ian Hunter e Gary Holton (Heavy Metal Kids) trouxe John Lawton para a posição de vocalista.

John Lawton

Mas quem é John Lawton?

John Cooper Lawton nasceu em 11 de julho de 1946, em Halifax, na Inglaterra. Lawton começou sua carreira musical em North Shields, no Reino Unido, durante o início dos anos 60, com um conjunto chamado The Deans, o qual não passava de um bando de garotos que decidiram, ao acaso, que John deveria ser o vocalista. Ele então se mudou para o grupo West One e depois para o Stonewall, este, incluía John Miles, Vic Malcolm (que seria do Geordie) e Paul Thompson (que faria parte do Roxy Music). Depois que o Stonewall terminou sua carreira no Top Ten Club, em Hamburgo, em 1969, Lawton decidiu ficar na Alemanha, onde conheceu Peter Hesslein, Dieter Horns, Peter Hecht e Joachim Reitenbach, que eram membros de uma banda chamada The German Bonds.

Os caras se juntaram para gravar um álbum sob o nome de Asterix, em 1970, e logo mudaram sua denominação para Lucifer’s Friend. Com o conjunto, antes de se juntar ao Heep, Lawton lançou os discos Lucifer’s Friend (1970), Where the Groupies Killed the Blues (1972), I’m Just a Rock ‘n’ Roll Singer (1973), Banquet (1974) e Mind Exploding (1975).

Naquele período, Lawton também se juntou ao Les Humphries Singers, um grupo que consistia de um grande número de cantores, de diversas origens étnicas, alguns dos quais, como John, que também se apresentavam com outros conjuntos. Com a entrada de Lawton, o Uriah Heep se afastaria totalmente das letras orientadas para a fantasia e das composições intrincadas, voltando-se para um som hard rock mais direto, típico da época. Hensley afirmou: “Ele tinha uma voz que pensei que nos daria uma nova dimensão”.


Firefly  [1977]

Em fevereiro de 1977, o Uriah Heep lançava Firefly, seu 10º álbum de estúdio. A produção ficou a cargo do manager da banda, Gerry Bron, e os selos responsáveis foram o Bronze Records e Warner Bros. (Estados Unidos e Canadá). As gravações ocorreram entre outubro e novembro de 1976, no Roundhouse Recording Studios, em Londres, na Inglaterra. O disco começa com “The Hanging Tree”, um Hard Rock que flerta com uma musicalidade mais Pop, com o teclado de Hensley bem proeminente. “Been Away Too Long” explora de modo inteligente toda a potência vocal de Lawton. “Who Needs Me” é rápida e direta, com bom trabalho de Kerslake na bateria e lembra os tempos (mais) clássicos da banda. A bonita “Wise Man” é uma faixa mais suave e demonstra o talento de Lawton nos vocais. “Do You Know” é outro eficiente Hard Rock e que até remete aos primeiros trabalhos do Queen. “Rollin’ On” possui uma pegada Bluesy, com o baixo de Bolder muito presente e um refrão que permanece “grudado” na memória. Já em “Sympathy”, o Hard com certo swing volta à cena, em uma construção divertida. “Firefly” encerra o disco em uma canção de início arrastado, mas que vai ganhando intensidade com o seu desenrolar. Firefly não fez sucesso no Reino Unido e atingiu apenas a 166ª colocação na principal parada norte-americana, a Billboard 200, embora tenha conquistado a 6ª e a 13ª posições nas paradas de Noruega e Dinamarca, respectivamente. “Wise Man” foi o primeiro single e “Sympathy” o segundo, no entanto, nenhum deles repercutiu em termos das paradas britânica e norte-americana.

Faixas:

  1. The Hanging Tree
  2. Been Away Too Long
  3. Who Needs Me
  4. Wise Man
  5. Do You Know
  6. Rollin’ On
  7. Sympathy
  8. Firefly

Formação:

John Lawton – Vocal

Mick Box – Guitarra

Ken Hensley – Teclados, Guitarras, Vocal em “Firefly”

Trevor Bolder – Baixo

Lee Kerslake – Bateria, Vocal em “Firefly”


A banda então excursionou pelos EUA, em suporte ao Kiss. Paul Stanley chegou a declarar: “Eles eram incrivelmente profissionais e tão consistentes que, em suas piores noites, eram excelentes e, nas melhores, eram formidáveis”.


Innocent Victim [1977]

Ainda no mesmo ano que Firefly, a Bronze Records soltou Innocent Victim em novembro de 1977 no Reino Unido (Nos EUA, a gravadora responsável foi a Warner). As gravações ocorreram, novamente, no Roundhouse Recording Studios, entre julho e setembro daquele mesmo ano. Gerry Bron retornou para a produção, desta feita ao lado de Ken Hensley. Há pouco mais de um ano, o consultor André Kaminski fez uma resenha deste álbum, com a sua habitual excelência, de modo que é desnecessário uma nova descrição do disco. Acesse-a aqui. De modo geral, há uma evidente tentativa do Uriah Heep suavizar sua sonoridade, aproximando-se consideravelmente do estilo AOR, o que é evidente no single “Free Me”. Entretanto, os melhores momentos do disco estão presentes quando o grupo foge do AOR, ou seja, em canções como a roqueira “Roller”, a balada “Illusion” e a metálica “Free ‘n’ Easy”. Lawton atua de modo competente. Embora não tenha causado barulho no Reino Unido e Estados Unidos, o single “Free Me” estoura na Nova Zelândia (3º lugar), e vai muito bem na Alemanha (e mercados contíguos, como Suíça e Áustria). Desta forma, Innocent Victim acaba atingindo a 15ª posição da principal parada de discos alemã, estimando-se que tenha ultrapassado a marca de 1 milhão de cópias vendidas apenas naquele país.

Faixas:

  1. Keep On Ridin’
  2. Flyin’ High
  3. Roller
  4. Free ‘n’ Easy
  5. Illusion
  6. Free Me
  7. Cheat ‘n’ Lie
  8. The Dance
  9. Choices

Formação:

John Lawton – Vocal

Mick Box – Guitarras

Ken Hensley – Teclados, Guitarras

Trevor Bolder – Baixo

Lee Kerslake – Bateria


Conforme foi dito, na Alemanha Innocent Victim fez sucesso, coincidindo com o relançamento do single “Lady in Black” (originalmente do álbum Salisbury, de 1971). Nesta época, havia 3 singles do Uriah Heep, simultaneamente, na parada alemã: “Wise Man” (de Firefly), “Lady in Black” e “Free Me”. Em janeiro do ano seguinte, o Uriah Heep tocou na Suíça com o Scorpions.


Fallen Angel [1978]

Nos meses de abril, julho e agosto de 1978, o Uriah Heep retornou ao Roundhouse Recording Studios, em Londres, para a gravação de Fallen Angel, seu décimo segundo álbum de estúdio, novamente contando com Gerry Bron e Ken Hensley na produção. A Bronze Records continuava sendo a gravadora, mas a Chrysalis passou a ser o selo responsável pela distribuição do disco na América do Norte. A arte da capa foi desenvolvida por Chris Achilleos, o mesmo artista desenhou a capa para o álbum Lovehunter, do Whitesnake, um ano depois. “Woman of the Night” possui teclados proeminentes, sintetizadores e um riff até interessante, com os vocais de Lawton sendo um destaque. “Falling in Love” é mais curta e direta, com um coro de vozes curioso no refrão. “One More Night (Last Farewell)” flerta ainda mais com o Pop, em um AOR ao estilo Foreigner. Já “Put Your Lovin’ on Me” é mais cadenciada e com um ritmo mais contido. “Come Back to Me” é a balada que encerra o lado A do disco. O lado B é aberto com “Whad’ya Say”, uma música quase ‘disco’. “Save It” resgata a sonoridade Rock dos anos 50. “Love or Nothing” continua com a pegada mais suave do álbum. “I’m Alive” flerta com o AOR uma vez mais, com guitarras mais presentes e vocais mais intensos de Lawton. “Fallen Angel” encerra o trabalho com uma abordagem mais próxima ao Uriah Heep clássico, embora muito mais leve. “Love or Nothing” atingiu a 36ª posição, enquanto “Come Back to Me” ficou com a 40ª colocação, ambas na principal parada alemã desta natureza, país onde o trabalho foi melhor recebido. Já Fallen Angel conquistou a modesta 186ª posição na Billboard 200, alcançando o 10º e o 18º lugares nas paradas de Noruega e Alemanha, respectivamente. Entretanto, o álbum pode ser considerado uma obra esquecível dentro da discografia de um conjunto do calibre do Uriah Heep.

Faixas:

  1. Woman of the Night
  2. Falling in Love
  3. One More Night (Last Farewell)
  4. Put Your Lovin’ on Me
  5. Come Back to Me
  6. Whad’ya Say
  7. Save It
  8. Love or Nothing
  9. I’m Alive
  10. Fallen Angel

Formação:

John Lawton – Vocal

Mick Box – Guitarras

Ken Hensley – Teclados, Sintetizadores, Slide Guitar, Guitarras

Trevor Bolder – Baixo

Lee Kerslake – Bateria

Músico Adicional:

Chris Mercer – Saxofone em “Save It”


Fallen Angel completou uma trinca de álbuns de estúdio com uma formação consistente da banda (apenas a segunda vez em sua carreira). O trabalho até foi bem recebido na época, por exemplo, pela revista Sounds. Enquanto isso, a aparente estabilidade do período de Lawton no grupo era desmentida pela agitação dos bastidores, comumente relacionada a Ken Hensley, economicamente ganhando muito mais que seus colegas e com Mick Box o acusando de usar indiscriminadamente tudo aquilo que compunha, incluindo material “precário”, segundo o guitarrista.

Entretanto, o grande racha se desenvolveu entre Hensley e John Lawton. Como o biógrafo Kirk Blows relatou: “a combinação de atrito constante entre os dois (resultando na coisa mais próxima da violência que o grupo havia visto) e a presença constante da esposa de Lawton na estrada finalmente levou o vocalista a ‘pegar o boné’, logo depois do grupo tocar no Bilzen Festival, na Bélgica, em agosto de 1979”. John Sloman (Lone Star) foi contratado, um vocalista mais jovem (e que tocava teclado e guitarra). Mas, quase que instantaneamente, Lee Kerslake saiu do conjunto, depois de uma briga com o manager Gerry Bron, a quem o baterista acusou de favorecer o material de Hensley.

Várias faixas do (então) próximo álbum tiveram que ser regravadas com um novo baterista, Chris Slade (Manfred Mann’s Earth Band). Conquest foi lançado em fevereiro de 1980.

*****

John Lawton lançou um álbum solo em 1980, Heartbeat, em que cantou à frente de todo o Lucifer’s Friend. O retorno oficial ao conjunto seria ainda naquele ano, mas o grupo lançaria o disco Mean Machine apenas em  1981. Durante sua carreira, Lawton também trabalhou com alguns dos grandes nomes do rock, em diferentes projetos, incluindo o “Butterfly Ball” live at Royal Albert Hall, em 1975, de Roger Glover, e que contava com David Coverdale, Glenn Hughes, Ian Gillan e Twiggy. Ele também cantou no “Wizard’s Convention II”, de Eddie Hardin, com Chris Farlowe, Denny Laine, Paul Jones e Tony Ashton.

Em 1986, o Uriah Heep lançou Live in Europe 79, que, como obviamente o nome diz, foi gravado naquele ano, e que contava com John Lawton nos vocais. Em 1995, ele voltou brevemente para o Uriah Heep, por duas semanas, para continuar a turnê do grupo por África do Sul e Áustria (com o Deep Purple), cobrindo a ausência do vocalista Bernie Shaw, o qual estava com problemas vocais na época.

 

5 comentários

  1. André Kaminski

    Claro que a fase clássica do Heep é indiscutível, mas confesso que tenho uma simpatia especial pela fase Lawton, principalmente pelo Innocent Victim, que eu resenhei ano passado e agradeço pelas palavras, Daniel!

    Responder
    • Daniel

      Que nada, apenas fui justo, André. Você descreveu o Innocent Victim com exatidão, não precisava acrescentar uma linha sequer ao seu trabalho. Concordo que o Heep clássico é incrivelmente superior, mas, por gostar muito da voz do Lawton, acabo sendo condescendente com estes discos da fase dele.

      Responder
  2. Marcello

    John Lawton é um excelente vocalista, e o Live in Europe ’79 mostra que ele não fazia nada feio com o material antigo da banda. É pena que, à exceção do Firefly, os discos da banda com ele são pouco inspirados, ainda que tenham bons momentos.

    Responder
    • Daniel

      Exato, o Live in Europe ’79 prova a capacidade dele. Penso que o Lucifer’s Friend (do qual gosto muito) é mesmo a melhor maneira de conhecer o trabalho do Lawton, mas também curto o que ele gravou com o Heep. Só o Fallen Angel que acho bem ruinzinho mesmo. Obrigado pelo comentário.

      Responder
      • Marcello

        Para ser honesto, eu gosto dos três discos, até porque adoro Uriah Heep. Mas que eles deixam a desejar em relação ao que veio antes, isso deixam… O Lucifer’s Friend é uma grande banda, merece um destaque aqui no site. Quem se habilita?

Deixar comentário

Seu email NÃO será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.