Por Daniel Benedetti

“Fortunate Son” é uma canção da banda norte-americana Creedence Clearwater Revival, presente em seu 4º álbum de estúdio, Willy and the Poor Boys, lançado em 2 de novembro de 1969. A música foi composta pelo líder e coração do grupo, o vocalista e guitarrista John Fogerty, e bem rapidamente assumiu o caráter de “Hino Antiguerra” e se tornou uma forte expressão do movimento da Contracultura em oposição ao envolvimento norte-americano na Guerra do Vietnã.

A Guerra do Vietnã (ou segunda Guerra da Indochina, ou ainda Guerra de Resistência contra a América) foi um conflito armado que se deu no sudeste asiático (Vietnã, Laos e Camboja), entre o Vietnã do Norte e o Vietnã do Sul, de 1º de novembro de 1955 a 30 de abril de 1975.

Uma das características principais deste conflito, ocorrido no auge da chamada Guerra Fria, foi que o Vietnã do Norte era apoiado pelos países comunistas (União Soviética, China, etc.) enquanto o Vietnã do Sul era apoiado por países anticomunistas, em especial, os Estados Unidos.

A presença norte-americana na guerra foi intensificada a partir de 1965 após, no ano anterior, o navio contratorpedeiro USS Maddox ter sido supostamente atacado pelos norte-vietnamitas. Estima-se que mais de 2 milhões de soldados norte-americanos participaram da guerra.

Paralelamente, e como foi citado acima, a chamada Contracultura da década de 1960 foi um fenômeno cultural anti-establishment que se desenvolveu primeiro no Reino Unido e depois nos Estados Unidos, antes de se espalhar por grande parte do mundo ocidental entre meados dos anos 1960 e meados da década de 1970.

O movimento ganhou impulso à medida que o Movimento dos Direitos Civis (Estados Unidos) continuou a crescer e se tornaria mais tarde revolucionário com a expansão da extensa intervenção militar do governo dos EUA no Vietnã. Com o progresso da década de 1960, tensões sociais generalizadas também se desenvolveram em relação a outras questões e tenderam a fluir segundo linhas geracionais relativas à sexualidade humana, direitos das mulheres, modos tradicionais de autoridade, experimentação com drogas psicoativas e diferentes interpretações do chamado “Sonho Americano”.

Foi neste complexo caldeirão político econômico-social em que “Fortunate Son” foi composta. Em Willy and the Poor Boys, além do supracitado John Fogerty, o Creedence Clearwater Revival era composto pelo guitarrista Tom Fogerty (irmão de John), pelo baixista Stu Cook e pelo baterista Doug Clifford.

A bateria de Clifford é essencial na rápida introdução da canção, criando um clima de expectativa. O riff principal é excelente, em um Hard Blues Rock primoroso, embalado por vocais bem agressivos de John. A letra, inteligentemente, contrapõe o nacionalismo inflamado no cidadão em oposição à forma como o estado o usa:

Some folks are born
Made to wave the flag
Ooh, they’re red, whit and blue
And when the band plays Hail To The Chief
They point the cannon right at you

O refrão é incrível e sua letra é autoexplicativa:

It ain’t me
It ain’t me
I ain’t no millionaire’s son
It ain’t me
It ain’t me
I ain’t no fortunate one

De acordo com seu livro de memórias, lançado em 2015, John Fogerty estava pensando em David Eisenhower, neto do presidente Dwight D. Eisenhower, que se casou com Julie Nixon, filha do então presidente eleito Richard Nixon em 1968, quando escreveu a canção:

“Fortunate Son não foi realmente inspirada por nenhum evento. Julie Nixon estava namorando David Eisenhower. Você ouviria sobre o filho deste senador ou aquele congressista que recebeu um adiamento das forças armadas ou uma posição de escolha nas forças armadas. Eles pareciam privilegiados e, querendo ou não, essas pessoas eram simbólicas no sentido de que não estavam sendo tocadas pelo que seus pais estavam fazendo. Eles não estavam sendo afetados como o resto de nós”. (presente no livro Fortunate Son: My Life, My Music).

Helicópteros norte-americanos no Vietnã.

Na próxima estrofe, a crítica sutil contra o egoísmo e o excesso de individualismo é nítida ao se contrapor a riqueza (Silver spoon in hand / Lord don’t they help themselves) às atitudes mesquinhas (Lord, the house looks like a rummage sale):

Some folks are born
Silver spoon in hand
Lord don’t they help themselves
But when the tax man comes to the door
Lord, the house looks like a rummage sale

Na segunda vez em que se repete o refrão, a letra sofre uma pequena variação, com John trocando senator’s son por millionaire’s son.

Na terceira estrofe, a letra reflete sobre quem são as pessoas que são enviadas para a guerra:

Some folks inherit
Star spangled eyes
Ooh, they send you down to war
And when you ask them
How much should we give?
They only answer: More! More! More!

A faixa termina com o refrão sendo repetido em “fade out”:

It ain’t me
It ain’t me
I ain’t no military son
It ain’t me
It ain’t me
I ain’t no fortunate one

It ain’t me
It ain’t me
I ain’t no fortunate son

De modo geral, uma boa interpretação para “Fortunate Son” é o sentimento de injustiça, ou seja, somente os desafortunados seriam enviados para uma guerra que eles mesmo não causaram.

“Fortunate Son” havia sido lançada como single (junto a “Down on the Corner”), antes mesmo do álbum Willy and the Poor Boys, em setembro de 1969. Ela alcançaria a 3ª posição da principal parada norte-americana desta natureza. Em 2014, a revista norte-americana Rolling Stone a colocaria na 99ª posição de sua lista 500 Greatest Songs of All Time. O single vendeu mais de 2 milhões de cópias somente nos Estados Unidos.

A Guerra do Vietnã terminou em 30 de abril de 1975, com a vitória do Vietnã do Norte e a unificação do país em um único, com a queda da cidade de Saigon. Entre diversos horrores e atrocidades, cometidos por ambos os lados, estimam-se que houve de 1,5 a 2 milhões de vietnamitas mortos. As baixas norte-americanas ficam em 58 mil mortos e mais de 300 mil feridos. Uma carnificina.

Portanto, “Fortunate Son” se transformou em um emblema antiguerra a partir de então, sendo, ademais, um dos maiores clássicos do Creedence Clearwater Revival.

3 comentários

  1. Ronaldo

    Muito legal! não sabia que essa música tinha essa conotação (na real nunca tinha me atentado a letra dela)…ótima pauta e ótimo texto. Sonzão!
    Abraço,

    Responder

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