Por Amanda Cipullo

Ao longo da vida já ouvi muita gente dizer que blues em português não presta. Ainda assim, esta é uma fala que sempre surpreende. “O que será que ouvem esses tipos amargurados?”, penso. Será que conhecem Nuno Mindelis, Celso Blues Boy, André Christovam, Blues Etílicos… E Alceu Valença? Será que já pararam para prestar atenção no Alceu – afinal quer coisa mais blues que as letras do cara?

O que escutam os que dizem que blues é coisa de estadunidense não dá para saber, no entanto, dá para imaginar que nunca escutaram uma porrada de coisas. Bêbados Habilidosos, por exemplo.

Confesso que até os 20 anos eu mesma nunca os tinha escutado. Acontece que, certo dia, essa maravilha chamada YouTube me levou a paragens musicais até então desconhecidas. Foi assim que os descobri, por acaso. Também por acaso, acabei descobrindo “Ele é o Blues”, um documentário que fala sobre a trajetória Renato Fernandes, fundador e frontman da banda. Ao assisti-lo pela primeira vez, notei um rosto conhecido em meio aos depoimentos: Fabio Brum, figura que eu já conhecia como guitarrista do Saco de Ratos – banda composta originalmente por Mário Bortolotto no vocal, Fabio Pagotto no baixo, Ricardo Vecchione na bateria, e Marcelo Watanabe e Brum, nas guitarras – e ex-guitarrista do Made in Brazil, mas que até então eu ainda não sabia que havia também feito parte do Bêbados Habilidosos. Coincidentemente, na mesma semana desta descoberta, eu iria fazer uma entrevista com Fabio para o Casos de Rock – um site sobre música para o qual eu escrevia na época. Timing perfeito, não é?

Posto isto, vamos aos Bêbados!

Bêbados Habilidosos é uma banda de Campo Grande – sim, Mato Grosso do Sul, caso você não se dê muito bem com mapas, ou ache que o polo cultural e musical brasileiro se restringe ao Sul e Sudeste. Lá, Renato Fernandes, o bluesman extremamente habilidoso na arte de beber, começou a se apresentar na noite de Campo Grande cantando, a contragosto, MPB. Inspirado em seus ídolos bluseiros do Mississippi, começou a compor canções. Segundo ele mesmo, inicialmente, o resultado era desastroso. Acontece que é na repetição que as coisas ganham forma. Fernandes continuou compondo, colocando em suas letras uma mistura de fatos ébrios da própria vida com relatos e cenas que ouviu e presenciou. E foi aí que a coisa toda ganhou forma.

Nos anos de 1990, Renato e Fabio Brum fundaram a Blues Band – possivelmente a primeira banda de blues do Mato Grosso do Sul. Em 1995 a banda acabou. Desta dissolução formaram-se duas bandas. Renato, com Edney Costa na bateria, Marcelo Rezende no baixo e Rodrigo Itamar na guitarra, formou o Bêbados Habilidosos. Fabio Brum e Marcos Yallouz, em parceria com ex-membros da banda Alta Tensão, o Bando do Velho Jack. Banda esta que ficou na ativa até 1997, época em que Brum resolveu passar uma temporada nos Estados Unidos. Algum tempo após a sua volta, Renato o convidou para se juntar ao Bêbados. Juntos gravaram dois discos: Envelhecidos 12 anos (2004), e Embriagados ao vivo (2005). Há ainda um terceiro álbum, Estúdio 104 Sessions, lançado em 2010, quando Fabio Brum já não estava mais na banda.

Nesta fase, o grupo, já conhecido pelos bares e palcos de Campo Grande começou a receber convites para se apresentarem em outras cidades. Acabaram vindo fazer shows em São Paulo, a convite de Mário Bortolotto, o dramaturgo rock’n’roller que, mais tarde, iniciou uma parceria musical que dura até hoje com Fabio Brum. No entanto, Renato e os outros membros da banda nunca quiseram viver na cidade cinza, mas Brum queria. Por essa razão saiu da banda que continuou na ativa no Mato Grosso do Sul, com outra formação – fato que obviamente não o impediu de, esporadicamente, tocar com velhos amigos.

Em 2014, a banda acabou. No ano seguinte, Renato Fernandes faleceu deixando um vasto legado de blues cantado em português com um groove arrebatador e letras descaralhantes, do jeito que deve ser. Ainda hoje, é possível escutar várias de suas canções ao vivo tanto em tributos que amigos e fãs fazem a Renato, em Campo Grande, quanto em shows do Saco de Ratos, ou nos pocket shows que Brum e Bortolotto eventualmente fazem pelos bares e palcos de São Paulo.

E, bem, para quem ainda hoje pensa que blues não pode ser em português, tá aí uma ótima oportunidade de descobrir as letras de Renato Fernandes, afinal, ele era o blues.

4 comentários

  1. André Kaminski

    Comecei aqui a ouvir descompromissadamente o Envelhecido 12 Anos e realmente é uma banda que vale muito a pena. O disco rodou inteiro facilmente. O Renato tinha uma voz grave típica do blues rock. Agora lamentei foi saber por este texto que ele já faleceu. Poderia nos dizer o que aconteceu com ele?

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    • Kurtz

      Teve inúmeras paradas cardíacas, creio que umas 7, entre a manhã e a tarde de 15 de fevereiro de 2015.

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      • André Kaminski

        Nossa cara, que foda. Lamentável. Obrigado pela informação, Kurtz.

  2. Erik Artioli Barrera

    A banda está de volta, desde 2017, a banda tinha feito uma promessa a Renatão de nunca parar de tocar, e arrumaram outro vocalista, e estão dando continuidade. será lançado um cd novo no dia 31 de agosto. sigam a banda no instagram. @bebadoshabilidosos

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