Por Mairon Machado

Depois de apreciarmos a coleção de Emerson Marques, dedicada quase que inteiramente a Bruce Springsteen, hoje apresentamos a coleção do jovem carioca Tadeu Kebian, um apaixonado pela música da Era de Ouro das Rádios Nacionais, e em especial, ao artista Cauby Peixoto. Uma coleção valiosa, apaixonada e imensa, como veremos nas linhas abaixo.


Visão geral da coleção

Olá Tadeu, tudo certo? Puxa o mochinho e bem-vindo à nossa caverna. Obrigado por compartilhar sua paixão pela música conosco. Por favor, apresente-se aos nossos leitores.

Opa, beleza! É um enorme prazer estar aqui na Consultoria do Rock. Me chamo Tadeu Kebian, tenho 21 anos, sou do Rio de Janeiro e coleciono desde 2012.

O que primeiro lhe vem à mente no que se refere as lembranças iniciais de quando se fala sobre sua paixão pela música?

Olha, me recordo que quando eu tinha uns 6 anos eu estava na casa dos meus avós quando escutei meu avô em seu quarto ouvindo música e a partir daí me interessei.

Os primeiros LPs

Qual e por que foi o primeiro disco que você comprou? Que idade você tinha ao adquiri-lo? Você ainda o tem?

Bem, o meu primeiro disco (na verdade foram três) eu ganhei do meu pai, Cauby é o show, Cauby – Estrelas Solitárias e Cauby e Angela – Ao Vivo. Eu tinha 14 anos e ainda tenho esses discos até hoje.

Em que momento você percebeu que estava tornando-se um colecionador?

Até o momento em que ganhei os discos, nunca tinha tido contato com eles. Quando vi aquela bolacha preta, foi amor a primeira vista.

O que é a música para você?

Música é tudo, um remédio, o estado d’alma.

Como a sua família lida com relação a sua coleção e aos seus discos, e como você se divide para conseguir dar conta de audições, catalogações e garimpo?

Bem, eu moro sozinho desde os 18 anos, então por parte da minha família não tem nenhuma reclamação. Mas mesmo quando morava com meus pais, eles não reclamavam muito da coleção, era meu pai que financiava o meu “vício”. Tenho a vida um pouco corrida, trabalho todos os dias, mas sempre procuro dedicar ao menos um dia no mês para viajar a São Paulo, faço um bate/volta atrás dos discos. As audições eu faço geralmente antes de dormir. Quanto a catalogação, nunca fui fã. Prefiro me aventurar e sacar um disco da estante e ouvir, mas deixo os meus preferidos em destaque.

Um destaque especial aos compactos (acima) e vinis de 78 rpm (centro e abaixo)

Apresente os números da sua coleção, as mídias mais comuns e como é a organização das mesmas nas prateleiras?

Hoje estou com 4.325 discos de 12”, 3500 78 RPM, 750 10”, além dos compactos que ainda não realizei a contagem, mas são mais de 1500. Ao todo são mais de 10.000 discos.

Creio que você seja um dos maiores colecionadores de discos de 78 rpm do Brasil, quiçá do mundo. Como você adquire esse tipo de mídia? E para manter o equipamento de audição em dia, é muito difícil conseguir as agulhas dos toca-discos de 78 rpm, ou você possui um toca-discos já com diferentes velocidades?

Tenho uma boa coleção, mas existem outros colecionadores com números superiores aos meus. São discos um pouco difíceis de serem encontrados, devido a sua fragilidade, poucos comerciantes querem trabalhar com esse tipo de disco. Geralmente consigo através de contato, que é algo fundamental. Eu possuo TD com três velocidades, mas os 78 RPM exigem agulhas especiais que são difíceis de achar, por isso acabei comprando uma grafonola suíça dos anos 30 e a uso para reproduzir estes discos.

Clássicos e raridades da Era de Ouro do rádio brasileiro

Por que a música nacional da Era do Rádio lhe atrai? O que ela possui de mais atraente, que lhe faz sentir o arrepio e a vontade de ouvir determinado álbum/canção por diversas vezes?

Na minha opinião foi a fase mais gloriosa da nossa música, quando pesquisamos sobre a era do rádio vemos grandes nomes que estão eternizados até os dias de hoje. Acho a letra das músicas mais caprichadas, com sentimento.

Dentre os grandes nomes da música nacional, seu maior ídolo é Cauby Peixoto? Qual é o diferencial de Cauby em relação aos demais cantores e cantoras da época?

Sim, Cauby é único e incomparável. Uma voz maravilhosa e personalidade única. Nunca teve medo do novo e de ser quem era, escreveu seu nome com letras de fogo que jamais se apagará.

Com o maior ídolo: Cauby Peixoto

Você teve a oportunidade de conversar com seu ídolo. Conte-nos quantas vezes foram essas oportunidades, e claro, como foi a sensação de estar diante de um ícone como Cauby.

Sim, por diversas vezes estive ao lado de Cauby, uma pessoa maravilhosa! Ser humano de primeira… Sempre que estive ao seu lado eu ficava com um frio na barriga, sabe?! Mas o Cauby me deixava confortável, sabia do amor que tinha por ele. Lembro que quando teve o coquetel do lançamento do seu filme, que eu participei, ele mandou o segurança me chamar para ficar ao lado dele na mesa. Fiquei sentado entre ele e a Angela Maria, foi um momento único!

Conte-nos como foi sua participação no filme de Cauby Peixoto, e por que você foi escolhido para participar?

Cauby veio ao Rio para um show após 7 anos de ausência. Assim que eu soube, tentei de todos os modos conseguir conhecer ele pessoalmente, tirar uma foto e pegar um autógrafo. Foi então que eu soube que o Cauby só atenderia a equipe do filme. Descobri que era a Comalt que estava gravando e entrei em contato com eles, e foi assim que eles me convidaram para registrar o nosso encontro.E o filme me abriu as portas para que eu me aproximasse do Cauby e de outros cantores que eu sou fã.

Grandes nomes masculinos da Era do Rádio e do samba: Agnaldo Timóteo, Elymar Santos, Ataulpho Alves Jr. e Emílio Santiago

Cauby é consagrado por sua grande voz, grandes parcerias e também por grandes versões. Cauby chegou a gravar um disco inteiro dedicado aos Beatles (Caubeatles, de 2011). Qual sua opinião sobre esse álbum, bem como os dedicados à Nat King Cole (Cauby Sings Nat King Cole) e Frank Sinatra (Cauby Canta Sinatra)?

Como disse anteriormente, Cauby nunca teve medo do novo. Eu gosto desses discos pois o Cauby cantou o que gostava, dando a cara dele sem se prender no original. Cauby cantando Sinatra é imbatível.

E das parcerias com Ângela Maria, Elis Regina, entre outros, quais as que mais lhe agradam?

Angela Maria, sem dúvida. Minha querida e eterna rainha que também tive a honra de ter a amizade.

Com grandes cantoras brasileiras: Angela Maria, Wanderlea, Eymar Fonseca e Joana

Você já pensou, ou pretende, montra um site/blog/projeto de divulgação sobre a carreira e a obra de Cauby Peixoto, ou da Era do Rádio em geral? Creio que seria uma ótima experiência para divulgar algo tão relevante e importante para a arte nacional, quiçá, mundial

Devido a minha falta de tempo fica difícil fazer algo do tipo, mas sempre estou disponível pra fazer colaborações, como já fiz para a filial da Rede Globo na Bahia. A missão do colecionador é além de preservar, fazer uma contribuição social.

Que outros nomes da Era do Rádio você aprecia?

Luciene Franco, Ellen de Lima, Lana Bittencourt e Dóris Monteiro são alguns nomes que também gosto e que tive a oportunidade de conhecer.

Grandes nomes femininos da Era do rádio: Ellen de Lima, Adelaide Chiozzo, Doris Monteiro e Lana Bittencourt.

Por ser um estilo bastante diferenciado do que costumamos ver em nosso site, mate-me uma curiosidade. Como é garimpar obras tão antigas e raras? Há lojas dedicadas somente a esse estilo de música?

Não existem lojas específicas, a arte de colecionar este tipo de material está realmente no garimpo. Quando algumas lojas separam esse material, geralmente tem um preço um pouco alto, por se tratar de discos mais antigos.

Você já sofreu algum tipo de preconceito por se dizer um fã de música da Era do Rádio?

Com toda certeza, sou tido como “velho” pelo pessoal da minha idade. Mas após a minha aproximação dos artistas, participação do filme e etc, deu uma diminuída… Mas no começo, quando eu ainda estudava, ficava isolado.

Nomes de sucesso na TV e na música: Rogéria, Divina Valéria e Elke Maravilha

Você esteve em outros países. Quais países você visitou? Teve um tempo para garimpo? Se sim, como foi garimpar em terras estrangeiras?

Sim, estive na Argentina e na França. O garimpo sempre está no roteiro das viagens. É a mesma coisa que aqui, em termos de garimpo. A única coisa é que em Paris a produção de discos está a todo vapor, então temos mais acesso aos lançamentos e a um preço convidativo.

Além da Era do Rádio, que outros estilos você possui em suas prateleiras?

Possuo de tudo aqui. Tenho desde a música clássica até Nina Hagen. Tenho algumas curiosidades, como um disco com discursos de Adolf Hitler.

O raro álbum sobre Hitler

Voltando a sua coleção, quais os álbuns mais raros que você tem?

Esse disco que falei do Hitler faz parte dos raros. Mas eu não me ligo muito nisso, não busco o disco pela raridade. Acho isso uma bobagem, não passa de um meio de acariciar o ego e alguns colecionadores.

Há algum disco que você busca há tempos, mas ainda não achou por um preço justo?

Não procuro os discos, eles que me acham! (risos). Não trabalho com listas, prefiro ir a caça.

O mais caro (acima) e a maior pechincha (abaixo) adquiridos por Tadeu. No centro, um raríssimo álbum do tenor Tito Schipa, autografado pelo próprio, e datado de 1932

Qual a maior pechincha que você já conseguiu barganhar, e qual o maior diamante que você se fez de seus rins para poder adquiri-lo?

Bem, quando estive em Buenos Aires consegui um compacto em 78 RPM da Columbia que não encontrei na internet e paguei algo em torno de 10 reais por ele, não chega a ser uma pechincha, mas pela raridade acaba se tornando. O mais caro que adquiri foi o primeiro LP da Marlene, R$ 1.500,00.

Qual a maior loucura que você já fez para assistir a um show ou comprar um álbum?

Creio que assistir ao mesmo show em dias seguidos, quando fui ver o Cauby pela primeira vez em 2013. Não pelo meu ponto de vista, mas sim pelo que ouvi dos outros. Pra mim nada é loucura, colecionar é uma arte, uma paixão.

Várias gerações da voz feminina brasileira: Claudette Soares, Eliana Pittman e Gottsha, Alaíde Costa e Marion Duarte

Qual é o disco que você faz questão de apresentar aos amigos grupo, e qual aquele que você gosta, mas sabe que a galera vai acabar fugindo de sua casa quando você coloca para ouvir?

O LP da Thereza Curi é um disco fantástico! Não tem como não gostar. Ao contrário da música clássica que muitos torcem o nariz.

Como você faz para atualizar-se sobre música nos dias de hoje?

A internet nos deixa sempre por dentro das novidades e também o boca a boca entre amigos que curtem as mesmas coisas que eu são coisas importantes.

Joias da FNAC francesa

Quais as principais lojas/sites que você utiliza para ampliar sua coleção?

Eu gosto de ir em lojas sem nome, aquelas bem desorganizadas. Sinto prazer em passar horas procurando discos.

Que bandas ou artistas da atualidade você indica para nossos leitores darem uma ouvida e conhecer?

O único que eu indico com as devidas glórias é o Márcio Gomes, que tem uma voz incrível. Um verdadeiro instrumento. Bebeu na fonte dos maiores cantores deste país.

Com Marcio Gomes, Andyara Peixoto (irmã de Cauby) e Luciene Franco

Quais os dez melhores discos da década de 60, 70, 80, 90, 2000 e atual?

Eu não gosto de dividir a música por décadas, acho que ela é algo atemporal. Não tem comparação com a qualidade que nós tínhamos nos anos 60 com o que é produzido agora.

Cite dez discos que você levaria para uma ilha deserta, e o que precisaria ter por lá para desfrutar do momento?

Cauby Peixoto – Cauby é o Show

Liberace – Here’s Liberace

Claude François – For Ever

Ivon Curi – Ivon Curi no Sambão e Sinhá

Thereza – Thereza no Sarau

Luciene – Pelos Caminhos do Mundo

Eliana e Booker Pittman – na Boate Porão 73

Isaura Garcia – Sempre Personalíssima

Tom Jobim – The Wonderful World of Antonio Carlos Jobim

Angela Maria – Estrela da Canção

Dalida – Olympia 67.

Mais raridades

Indique três discos que mudaram sua vida, e conte um pouco por que de cada um deles.

Eu não gostaria de indicar três discos, mas sim um cantor que infelizmente é pouco conhecido e reconhecido: Claude François, o gênio por trás de “My Way”, que foi eternizada na voz de Elvis e Sinatra. Ele tem músicas maravilhosas e uma história incrível, infelizmente morreu tragicamente.

Conte-nos alguma história engraçada/curiosa envolvendo a compra/venda de um álbum que ocorreu nesse período, ou algum outro fato que lhe venha à mente relacionado com a música.

Eu estava caminhando as margens do rio Sena em direção a uma loja de discos quando me deparei com uma barraca com discos, eu passei direto porque o sinal estava fechado, quando cheguei na faixa de pedestres o sinal abriu e então eu resolvi voltar… Naquela barraca eu consegui o primeiro disco do Claude François e o primeiro da Dalida. Por uma pressa boba quase perdi esses discos, mas por sorte do destino o universo conspirou ao meu favor.

Raridades compradas na França

Qual será o futuro da sua coleção?

Pretendo que ela cresça cada vez mais, quero preservar a música para as próximas gerações. Já tenho aqui alguns discos centenários, acho que é uma missão importante preservar a história.

Você também é um apreciador e colecionador de revistas antigas. Qual a importância das mesmas em relação à sua paixão pela música?

As revistas são fontes primárias para pesquisas, coisas que não conseguimos encontrar na internet podemos encontrar nelas. Isso vale para qualquer tipo de pesquisa, a busca pelas fontes primárias é essencial. Ter acesso a conteúdos da época é ter em mãos parte da história, é fantástico.

Autógrafos em revistas e no raríssimo primeiro LP de Angela Maria

Alguma coisa mais que gostaria de passar para nossos leitores?
Bem, quero agradecer a oportunidade de mostrar um pouquinho da minha coleção e falar um pouquinho desta minha grande paixão. Gostaria que todos os colecionadores seguissem com sua paixão e sejam felizes com o que tenham em suas prateleiras e com os seus garimpos, independente da quantidade ou valor. Infelizmente no meio do colecionismo existem muitos que acabam desencorajando os outros, mas deixo aqui a minha dica. Nunca façam isso! É um hobbie muito prazeroso e deve ser curtido ao máximo! Um forte abraço a todos!

14 comentários

  1. Fernando Bueno

    Fiquei esperando uma foto da granofola…rs
    Vi que existem algumas pilhas de LPs e fiquei me perguntando: o correto não é armazená-los em pé?

    Responder
    • Mairon

      Também tive essa curiosidade. Ao que parece, os de 78 rpm é melhor guardar na horizontal. Será que é por conta da espessura dos bichos?

      Responder
      • Tadeu Kebian

        A melhor forma de armazenar os discos de 78 RPM é de forma horizontal, ao contrário dos LPs. Eles até podem ficar na vertical, mas somente se estiverem em uma capa de papel rígido.

    • Tadeu Kebian

      Minha coleção não é focada em rock, mas tenho alguns discos. Cauby foi pioneiro no Rock, sabia?

      Responder
    • Mairon

      Carlos, Rock acima de nós, boa música acima de todos!!! E Cauby foi fodástico!!!

      Responder
    • MACIEL

      Pois é, Cauby Peixoto e toda essa baboseira brasileira é um pé no saco. Uma das piores entrevistas do site.

      Responder
  2. Wagner

    Que demais,21 anos e com uma coleção de encher os olhos!!Q bom q ele é um dos que não deixará a mídia morrer!!

    Responder
  3. André Kaminski

    Aliás, teu nome e essa coleção não me é estranha, você já andou mostrando ela anteriormente, não?

    Responder
    • Tadeu Kebian

      Em 2014 o pessoal da Collectors Room fez uma entrevista comigo…

      Responder
  4. Tiago Bittencourt França

    Linda coleção. Diferente de tudo que já vi por aqui. Parabéns meu caro. Abraço!

    Responder
  5. Francisco

    Tenho o maior respeito por pessoas que procuram preservar a memória da cultura nacional. E sim: Cauby foi um gigante da voz!

    Responder
  6. CLEIBSOM CARLOS

    Um canastrão como o Cauby, o tataravô do David Coverdale, sendo elogiado no Consultoria é, no mínimo, “curioso”…O que posso dizer, para ser educado e contemporizador, é que o mano aí tem o gosto muito antiquado.

    Responder

Deixar comentário

Seu email NÃO será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.