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Por Mairon Machado
Quando falamos sobre Bob Dylan, estamos falando de uma lenda viva da música, com mais de cincoenta anos de carreira e diversas fases que marcaram e influenciaram todas as gerações a partir dos anos 60. Nomes como David Bowie, Bruce Springsteen, John Lennon, Neil Young e tantos outros, pagaram (e pagam) tributo ao norte-americano, nascido na pequena cidade de Duluth, Minnesota, e viveu boa parte de sua infância em outra cidade muito pequena daquele estado, Hibbing.
Esse período de infância, junto da ascensão da carreira de Dylan na década de 60, culminando com o trágico acidente de moto que quase acabou com a vida do mesmo em 1967, foram extremamente muito bem retratadas pelo diretor Martin Scorcese no excelente documentário No Direction Home, lançado em DVD duplo no ano de 2005.
Através de depoimentos honestos e emocionantes, com legendas em português, de nomes como o próprio Dylan, Joan Baez, Suze Rotolo (primeira namorada de Dylan), Dave Van Ronk, Pete Seeger e Liam Clancy (cantores folk que acompanharam a carreira de Dylan no seu início), Al Kooper (pianista que tocou com Dylan em 1965), Allen Ginsberg (poeta e amigo de Dylan), as cantoras folk Marris Staples e Maria Muldaur, e diversos outros nomes fortemente ligados à carreira do músico na década de 60, somos levados por este filme com quase três horas e meia de duração, através de imagens raras e muita música boa.

O Pequeno Dylan

O documentário abre com Dylan acompanhado pelo The Hawks (futura The Band) interpretando “Like a Rolling Stone na noite do dia 21 de maio de 1966, na cidade de Newcastle, em um momento crucial, quando ele decidiu largar seu lado folk para seguir uma carreira elétrica, o que foi menosprezado pelos fãs antigos, mas angariou muitos outros.
Daí em diante, temos Dylan contando sobre sua infância, como ele se sentia infeliz na pequena Hibbing, o medo da guerra que seus colegas e familiares tinham, suas influências e descobertas de cantores folk, principalmente Woody Guthrie, o abandono dos estudos e sua chegada em Nova Iorque, quando finalmente encontrou-se como músico, tocando em vários clubes da Greenwich Villlage, ao lado de nomes como Odetta, Dave Van Ronk, Gene Vincent and the Blue Caps, The Weavers e Clancy Brothers. Esse trecho do filme mostra apresentações raríssimas (em preto e branco) desses e de outros nomes do folk americano, como Hank Williams, Muddy Waters,Webb Pierce, Jonny Cash e Johnnie Ray, para Dylan o “Cara” que fez ele virar cantor, e que valorizam ainda mais o que Scorcese preparou para os fãs, mas ainda vem mais.

Dylan em Nova Iorque

Não tarda para o simpático Dylan aparecer sozinho, em preto e branco, interpretando “Man of Constant Sorrow” para um especial da TV americana, em março de 1964, no programa Folk Songs and More Folk Songs, e ainda “Blowin’ in the Wind”, em 1963, também para uma TV americana, nessa que é considerada a primeira apresentação na TV feita por Dylan.
Entre depoimentos diversos, que falam sobre as primeiras gravações de Dylan, seu relacionamento com os amigos e sua capacidade de criar, bem como cativar os colegas e fãs, apresentações jamais vistas ou raríssimas estão presentes, com destaque para a versão de “Only a Pawn in Their Game”, somente com Dylan ao violão em frente a um pequeno caminhão, cercado por diversos negros, durante um manifesto para o  Movimento dos Direitos Humanos em Greenwood, Mississipi, no ano de 1963, promovido pelo cantor Pete Seeger, e imagens de Dylan com os The Hawks na sua turnê europeia de 1965.

Dylan apresentando-se com Pete Seeger para o Movimento dos Direitos Humanos

O principal destaque dessa primeira parte do documentário (que está no DVD 1) fica por conta do coroamento de Dylan como o principal nome do folk rock americano e das canções de protesto durante o Newport Folk Festival de 1963, quando, ao lado da cantora Joan Baez, a América e o mundo tem o contato direto com uma obra atemporal na história da música. É aqui que encerra-se o primeiro DVD, com Dylan no ponto de inflexão de sua carreira, vivendo o auge de um sucesso inesperado por todos, menos por ele.
O DVD 2 volta para Newcastle, com “Just Like Tom Thumb’s Blues” e muita eletricidade na carreira de Dylan. O garoto tímido que aparecia praticamente escondido atrás de seu violão e sua harmônica começa a colocar as manguinhas de fora, e recebe com dificuldades a tarefa de ser ídolo de alguém.
Perguntas estúpidas de repórteres ainda mais estúpidos são menosprezadas e rechaçadas por um Dylan agressivo, diferente do que no início de carreira, assim como um processo praticamente de reclusão começa a ser destaque na vida de Dylan. Um pouco antes, ele realiza sua maior apresentação até então, durante a Marcha de Washington, em 1963, quando temos o famoso de Marin Luther King, com a frase “I have a dream!”. A interpretação de “When the Ship Comes In” é mostrada praticamente na íntegra, em outro grande momento que poucas pessoas tiveram acesso na era digital.

Joan Baez e Bob Dylan no Newport Folk Festival (1963)

Dylan tornasse figurinha carimbada entre os artistas folk, e sua apresentação na edição de 1964 é enaltecida com versões para “All I Really Want to Do” e “Mr. Tambourine Man”. Com as diferentes tentativas de filmagem para o clipe de “Subterranean Homesick Blues”, retiradas do filme Don’t Look Back (1965), No Direction Home dá uma guinada de 180°, levando Dylan para a Europa como o maior nome da música americana até então.
Por lá, ainda com diversos depoimentos, podemos conferir trechos de “Love Minus Zero / No Limit”, em uma apresentação caseira praticamente inédita, feita em Londres, em 1965, e a polêmica versão de “Maggie’s Farm” no Newport Folk Festival de 1965, acompanhado por Barry Goldberg (piano) Al Kooper (órgão), Mike Bloomfield (guitarra), Jerome Arnold (baixo) e Sam Lay (bateria), alguns deles membro da Paul Butterfield Blues Band.
Esse show deu muito o que falar. A começar que nessa canção, é impressionante o grande número de vaias dos presentes por verem Dylan apresentando-se com uma guitarra elétrica. Pete Seeger, amigo fiel de Dylan, foi um dos que mais se revoltou com aquilo, e ameaçou cortar os cabos de energia elétrica do palco com um machado. Temos ainda um trecho de “Like a Rolling Stone” no mesmo festival, e depoimentos honestos de diversos envolvidos mostrando o quão “absurdo” foi a atitude de Dylan naquele dia.

Polêmica apresentação de Dylan no Newport Folk Festival (1965)

O melhor fica quando Dylan acaba abandonando o palco após “Phantom Engineer”, tendo apresentado apenas três canções, e deixando o mestre de cerimônias Peter Yarrow de saias justas, com vaias e mas vaias para Dylan, que foi convencido a voltar e interpretar ao violão, sozinho, “It’s All Over Now Baby Blue”, recebendo daí sim uma grande ovação e aplausos, mas com uma cara de muito decepcionado. Tudo isso está presente no filme, que não para por aí.
Dylan praticamente cospe nos repórteres, insulta os fãs que pedem autógrafos e também é insultado por diversos europeus, que querem o velho Dylan folk ao invés do novo Dylan, acompanhado por Robbie Robertson (guitarras), Rick Danko (baixo), Garth Hudson (órgão) e Mickey Jones (bateria). O filme ganha tons de dramaticidade, com Dylan explicando que não queria de jeito nenhum seguir uma carreira de manifestante, que não fazia canções de protesto, e que isso era algo que ele nunca foi, e que ele pretendia ser apenas um artista de rock para mostrar sua música.

Bob Dylan na Europa (1966)

O ápice dessa “guerra” entre Dylan, fãs e imprensa acaba sendo a apresentação no Royal Albert Hall, que eu já tratei do CD aqui, quando antes de “Like a Rolling Stone”, um fã chama de Dylan de “Judas!”, que responde dizendo “Você é um mentiroso” e “Vamos tocar essa porra bem alto”, em uma atitude inimaginável para o músico até então, soltando os acordes desse clássico, e encerrando o filme exatamente aí, anunciando que semanas depois, Dylan sofreu um trágico acidente de moto (29 de julho de 1966), que deixou ele de fora do mundo da música por mais de quatro anos (e dos palcos por quase oito anos).
O filme já é valioso pela quantidade de imagens, depoimentos e apresentações raríssimas que Scorcese trouxe aos fãs, mas o fantástico DVD duplo tem mais preciosidades. Nos famosos extras, estão apresentações completas de algumas canções (ver lista abaixo) apresentadas durante o filme, além de outras que não constam durante os duzentos e oito minutos de No Direction Home, que são “Girl of the North Country” para umespecial de TV canadense, em fevereiro de 1964, “I Can’t Leave Her Behind” em Glasgow, Escócia, na data de 19 de maio de 1966, e “One Too Many Mornings” no Teatro Odeon, em Liverpool, no dia primeiro de maio de 1966.
Complementam os extras a participação especial de alguns convidados dando uma canjinha em suas casas. Aqui, estão Marris Staples, “A Hard Rain’s Gonna Fall” , Liam Clancy com “Girl of the North Country, Joan Baez tocando violão e cantando “Love is Just a Four-Letter Words”, e Maria Muldaur com “Lord, Protect My Child”, além de uma peça promocional de “Positively 4th Street”, um pequeno documentário sobre Dylan em 65.
No Direction Home é um documentário essencial para quem gosta da história da música, e principalmente, para os fãs de Dylan. Afinal, o período aqui representado é talvez o mais importante vivido pelo americano, e certamente, a alta quantidade de raridades compensa o investimento, que ultimamente não tem sido tão elevado, já que esse DVD duplo é facilmente encontrado em diversas lojas especializadas no assunto. É ir atrás e divertir-se.

Contra-capa do DVD duplo

Canções que aparecem em trechos no DVD 1
1. Like a Rolling Stone *
2. Mr. Tambourine Man
3. Leopard-Skin Pill-Box Hat
4. Desolation Raw
5. Man of Constant Sorrow *
6. Baby, Let Me Follow You Down
7. Blowin’ in the Wind *
8. A Hard Rain’s A-Gonna Fall
9. Ballad of a Thin Man
10. Only a Pawn in Their Game
11. With God on Our Side
12. Only a Pawn in Their Game
13. With God on Our Side
14. Takin’ World War III Blues
15. Blowin’ in the Wind
Canções que aparecem em trechos no DVD 2
1. “Just Like Tom Thumb’s Blues”
2. “When the Ship Comes In”
3. “Chimes of Freedom”
4. “All I Really Want to Do”
5. “Mr. Tambourine Man”
6. “It’s Alright Ma (I’m Only Bleeding)”
7. “Gates of Eden”
8. “Subterranean Homesick Blues”
9. “Love Minus Zero / No Limit”
10. “Maggie’s Farm”
11. “Like a Rolling Stone”
12. “It’s All Over Now Baby Blue”
13. “Tell Me Momma”
14. “Visons of Johanna”
15. “Like a Rolling Stone”
* as canções com esse símbolo aparecem na íntegra como bônus

4 comentários

  1. Igor Maxwel

    Apesar de reconhecer seu talento e sua importância para a música mundial, nunca gostei de Bob Dylan. Na boa, ele não consegue despertar meu interesse com suas obras. Vou passar os próximos comentários para quem gosta verdadeiramente dele…

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  2. António Marcos

    Dylan se enquadra na categoria de gênios que não agradam a todos como Lou Reed, Leonard Cohen, Syd Barret, Walter Franco e outros, mas que produziram (produzem) música de qualidade e que foge do padrão. o documentário é excelente, padrão Scorsese de qualidade.

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    • Mairon

      O documentário é excelente. A atual carreira de Dylan que nem tanto. Abraços meu caro Antônio

      Responder

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