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Por Davi Pascale

Texto escrito originalmente em 2013

Estava revirando minha coleção de discos essa semana e me deparei com esse CD que não escutava há algum tempo. Todo mundo conhece o famoso trabalho de estréia da norte-americana Sheryl Crow intitulado Tuesday Night Music Club que invadiu as rádios do mundo todo em 1993 com musicas como “All I Wanna Do”, “Leaving Las Vegas”, “Strong Enough”, “Can´t Cry Anymore”, “Run, Baby Run”… O que muitos não sabem, contudo, é que esse não era exatamente o início de sua carreira.

Antes de atingir o estrelato, Sheryl Suzanne Crow, nascida na pequena cidade Kenett, foi professora de música em uma escola primária chamada Kellison (localizada em outra pequena cidade dos Estados Unidos, Fenton). Atuou ainda como cantora de jingles, foi backing vocal em turnês de artistas do calibre de Michael Jackson, Joe Cocker e Bonnie Raitt, compôs para artistas renomados (como “Love You Blind” de Celine Dion, por exemplo) e gravou backing vocals no disco de outras grandes estrelas como Rod Stewart, Stevie Wonder e Don Henley.

Seu primeiro álbum, na realidade, foi gravado dois anos antes de atingir a fama. Para a produção foi chamado o inglês Hugh Charles Padhgam, profissional renomado que já tinha trabalhado em álbuns como Invisible Touch (Genesis), Synchronicity (The Police) e Press to Play (Paul McCartney), só para citar alguns. Na lista de músicos, além da própria Sheryl, estavam nomes como Vinnie Colaiuta (baterista que já acompanhou artistas como Jeff Beck, Sting e Frank Zappa), Pino Palladino (atual baixista do The Who) e o guitarrista Dominic Miller (guitarrista que já trabalhou com Sting, Phil Collins e King Swamp).

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A cantora norte-americana assinou seu contrato com a A&M Records em 1991. Logo de cara, entrou em estúdio para gravar seu material de estréia. O material ficou pronto no ano seguinte e deveria ter sido lançado em 22 de Setembro de 1992. No entanto, de ultima hora, o material foi engavetado. A gravadora dizia que o álbum não era comercial o suficiente. Sheryl, por outro lado, gostava das músicas, mas não gostava da sonoridade do álbum. Unindo o útil ao agradável, a artista resolveu começar com outro projeto, do zero mesmo, que acabou resultando no disco que todos conhecem.

Vale ressaltar uma curiosidade… Muitos tratam esse álbum como o disco “nunca lançado”. O CD que eu tenho (bootleg, obviamente), inclusive, traz essa informação. No entanto, isso é uma meia verdade. Como assim? É verdade que esse CD nunca foi para as lojas, mas a gravadora chegou a iniciar seu trabalho de divulgação antes de abortá-lo. O material realmente não existe no formato compact disc, mas algumas fitas cassetes foram distribuídas para os jornalistas da época com esse material. Essas fitas foram prensadas pela A&M Records, portanto, é um material oficial.  Ou seja, ele existe promocionalmente. Foi daí que nasceram os famosos bootlegs…

O lado A trazia as canções “All Kinds Of People”, “Father, Son”, “What Does It Matter”, “Indian Summer”, “I Will Walk With You” e encerrava com “Love You Blind”. Já o lado B trazia as faixas “Near Me”, “When Love Is Over”, “You Want It All”, “Hundreads of Tears”, “The Last Time” e “The Borrowed Time”.

Mas afinal de contas… O album era tão ruim assim? Ele é ou não é comercial? Vamos à ele… No meu CD, está gravado primeiro o lado B e depois o lado A, mas vou manter a sequência acima para não confundir os leitores…

Começaremos pelo primeiro lado da tal fita. “All Kinds os People” e “Indian Summer” são musicas que poderiam facilmente terem se tornado grandes hits na década de 80. Traziam boas linhas vocais, teclado em excesso e refrões de fácil assimilação. Entretanto, em se tratando de anos 1990, os arranjos já soavam um pouco ultrapassados para a época. As músicas, contudo, não são ruins. Inclusive, “All Kinds of People” foi regravada mais tarde por Tina Turner em seu álbum Wildest Dreams. “Father´s Son”, por outro lado, já dava uma dica do que a cantora faria no futuro com forte presença de violões e já trazendo seu estilo característico de cantar. Poderia facilmente ter sido regravado em trabalhos posteriores, assim como a linda balada “What Does It Matter” que além de trazer uma bonita orquestração, ainda contou com a participação mais do que especial do ‘eagle’ Don Henley. A faixa já trazia uma roupagem bem madura e agradaria seus atuais fãs. “I Will Walk With You” é mais uma balada que tem o piano como base principal. Entretanto o refrão com coral por trás, com uma guitarra crescendo no solo no meio de uma musica, traz de volta aquela sonoridade pop oitentista que me agrada, mas já estava saindo de moda nessa época. O lado A encerra com “Love You Blind” que é aquela faixa que citei ter sido gravada por Celine Dion lá no inicio do texto. Uma faixa não mais do que razoável.

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O lado B inicia com a boa “Near Me” que, mais uma vez, eliminando os teclados, torna-se uma canção típica da artista. A única desse segundo lado com tal característica, mas não a única faixa bacana. As animadas “You Want It All” e “The Last Time” também são muito boas. Além de trazerem um ótimo trabalho vocal, já davam a dica de quão talentosa era Sheryl Crow enquanto compositora. Os arranjos são bem legais. “The Last Time”, para mim, é um dos pontos alto do álbum. “When Love Is Over”, “Hundreds of Tears” e “Borrowed Times”  trazem de volta aquele lado baladeiro com fortes influencias da década de 80. Dessas 3, a única que considero fraquinha é “When Love Is Over”.

Em resumo, o álbum é bem legal, mas realmente não traz, ao menos na maior parte do tempo, uma sonoridade que nos remeta imediatamente à imagem da artista. Durante o CD ela transita por diferentes sonoridades, o que demonstra que ainda estava em busca do seu som. Algo perfeitamente normal para quem está iniciando uma carreira. Entretanto, não concordo com a gravadora de que o álbum não era comercial. Pelo contrario, acho mais pop do que o som posterior dela. E algumas músicas daí, com pequenos ajustes (dando uma atualizada nos arranjos, para ser mais preciso), tornariam-se hits fácil, fácil…

Entendo a crítica que a artista faz ao material. Para quem não está por dentro, ela costuma dizer que acha a produção exagerada e que quando resolveu fazer o (ótimo) Tuesday Night Music Club, a principal meta dela era buscar um som mais polido. Realmente há um exagero no uso dos teclados, que na verdade é o que ajuda a dar essa cara oitentista que tanto mencionei no texto. Entretanto, não acho que seja um material ultrajante a ponto de ficar trancando a sete chaves. Pelo contrario, como disse anteriormente, o disco é bom… Ainda acho que deveria lançar esse material oficialmente, afinal faz parte da historia e o respeito dela enquanto artista já está mais do que conquistado. Em 2013, fez 20 anos que ela atingiu a fama. Seria a “desculpa” ideal para colocar esse material nas lojas, mas pelo visto não vai rolar…

Para os fãs e colecionadores, existem várias edições bootlegs desse material. Essa edição que tenho é tida como uma das que tem melhor qualidade de som, mas não tive acesso à outros bootlegs para comparar e afirmar com precisão. Esse CD que tenho foi prensado em 1997 e além de trazer o material demo, trazia ainda versões ao vivo de “Leaving Las Vegas”, “Can´t Cry Anymore” e “Happy” (canção dos Rolling Stones). A capa foi extraída do single da “All I Wanna Do”. O cara não se dignou nem em apagar o nome da musica da foto. A única mudança foi transformar a imagem em preto e branco, como se fosse um xerox. Embora a produção gráfica não seja animal, nem encarte tem, a qualidade de áudio é muito boa. Quem é fã, vale a pena ter. Ele é conhecido pelo nome de The Unreleased Album. Na contracapa vocês vão ver um pequeno texto indicando que o material foi gravado em 1990. Não foi!! É de 1992. A capa está errada! Vocês vão ralar um pouquinho para encontrar, desembolsar uma grana razoável (não tenho idéia de quanto custe esse exemplar atualmente, mas normalmente um CD bootleg costuma custar em torno de 70 a 100 reais, salvo raras exceções), mas até que ela resolva colocá-lo nas lojas, é nossa única alternativa.

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Tracklist (obedecendo a ordem original):

1. All Kinds of People
2. Father´s Son
3. What Does It Matter
4. Indian Summer
5. I Will Walk With You
6. Love You Blind
7. Near Me
8. When Love Is Over
9. You Want It All
10. Hundreds of Tears
11. The Last Time
12. Borrowed Time

2 comentários

  1. Ronaldo Rodrigues

    Gosto do Sheryl Crowl e não fazia ideia dessa história toda! bem legal a pauta e ótimo texto…vou dar uma conferida. Abraço!

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    • Davi Pascale

      Valeu, Ronaldo. Não sabia que você gostava da Sheryl Crow. Sempre gostei dela. Acho ela bem talentosa.

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