Sem muita enrolação ou notas acerca deste ano que se encerra, fica uma lista das boas coisas que vou deixar na recordação de 2018. A ordem talvez pouco importe. Com o tempo, espero redescobrir coisas que deixei passar, então este é apenas um retrato do momento que fechei o ano e o saldo de tudo que acabei aproveitando dele.

Car Seat Headrest – Twin Fantasy (Face to Face)

Reinterpretação do clássico indie de Bandcamp Twin Fantasy (Mirror to Mirror), a presença deste numa lista melhores do ano pode até ser contestada pelo fato do disco não apresentar composições inteiramente novas ou até mesmo não apresentar nada refrescante para a trajetória de Will Toledo. O esquema de guitarras altas, versos pegajosos e melodias acessíveis é o mesmo de discos passados e de referências diretas do rock alternativo dos anos 90 (Weezer, principalmente). O que me cativou de imediato é a proximidade íntima que o disco tem comigo. Por falar de temas como a juventude, identidade, descobertas, angústias, amores, e todas as loucuras que nos acometem quando somos jovens. A intensidade passada pelo instrumental apenas acompanha a entrega de Will nos vocais, passando exatamente as emoções pertinentes, mesmo que com vocais errantes. Não é inovador, sequer agradou a totalidade dos fãs da banda, mas está aqui por questões emocionais e pessoais.

Idles – Joy as an Act of Resistance.

Antigos conceitos retrabalhados para tempos atuais. Essa tem sido a regra para vários trabalhos mais recentes, e ainda que alguns falhem em tentar reinserir estilos ou temas no contexto atual, ainda surgem alguns para se destacar. É o caso da banda inglesa Idles, que já vinha de críticas positivas com seu disco de estréia, o bom Brutalism, e acabam de refinar ainda mais sua mensagem aqui. O post-punk energético e furioso executado pelo quinteto já seria chamativo suficiente, mas é na mensagem que a banda ganha a simpatia. Falando diretamente sobre problemas atuais de maneira direta e sem muitos floreios, Joy toca em temas pertinentes, como masculinidade tóxica, machismo, padrões impostos pela sociedade e política, sempre de maneira mais direta e afrontosa possível. Versos pungentes como “I go outside and I feel free / ‘Cause I smash mirrors and fuck TV”, “I’m like Stone Cold Steve Austin / I put homophobes in coffins” são tudo o que precisamos nos tempos recentes para sairmos do marasmo em que estamos.

Esoctrilihum – Pandaemorthium (Forbidden Formulas to Awaken the Blind Sovereigns of Nothingness)

Passou completamente batido por todos os portais “especializados em metal”, sintoma de que basta ter boa vontade para escrever meia dúzia de linhas na internet para ganhar o título de “crítico especializado”. Gravado por uma única pessoa, e provavelmente dentro da própria casa — dado a crueza e claustrofobia provocado pela sonoridade geral do registro –, Pandaemorthium Inhüma (abaixo eu falo sobre ele) são, juntos, as obras mais desafiadoras e singulares lançados por uma banda de metal em pelo menos 5 anos. Essa primeira parte é a mais frenética e devastadora das duas, com faixas longas que se desdobram imprevisivelmente entre quebras de ritmos, dissonâncias e uma saraivada de riffs e batidas grotescas, sem a menor preocupação em se enquadrar dentro de qualquer gênero: quando quer ser black metal, ele o faz, e quando quer ir para o death metal, também o faz, e tudo de maneira natural.

Esoctrilihum – Inhüma

Por poucos detalhes este ficou abaixo do Pandaemorthium. Em uma sacada que eu chamaria de certeira, Asthânghul (alcunha que o sujeito usa para responder pelo Esoctrilihum) resolveu não optar por lançar um disco longuíssimo, mas sim separar em dois trabalhos que compartilham de um DNA, mas que possuem vida própria pelos caminhos que optam por abordar. Este é bem mais atmosférico e trabalha bem mais camadas e climas do que o anterior. Porém, tudo isso sem criar longos trechos de monotonia ou silêncio. Tudo é feito na base violência, entregando um panorama extremamente grotesco, construído com linhas de guitarras dissonantes e soluções rítmicas imprevisíveis.

Earl Sweatshirt – Some Rap Songs

Foram 3 anos de espera desde que Earl lançou seu último trabalho, o sombrio e niilista I Don’t Like Shit, I Don’t Go Outside, disco que já era uma evolução direta de Doris, mas que ainda parecia não entregar todo potencial do artista. Pois enfim Earl entrega seu trabalho mais pessoal e surpreendente. 15 faixas divididas em 24 minutos. Poucas passam dos 2 minutos de duração. A impressão que se tem é de um disco que se aproxima mais de um fluxo de consciência do que um disco pensado faixa a faixa. A titulo de comparação, é como se a dupla Madlib e MF Doom tivessem fumado crack ao invés de maconha para gravarem o Madvillainy. Os samples são em sua totalidade sombrios e distorcidos. A voz de Earl tem a pegada mais grave possível, aumentando o grau de claustrofobia causado pelas faixas. A temática é a mesma de todos os seus trabalhos (depressão, ansiedade, amadurecimento e drogas), mas com o acompanhamento certos, tal como se fosse um diário da mente torturada de um adolescente de 24 anos passando pelo seu período mais difícil. Mais que um disco, é um apanhado de memórias temporais de difícil, mas interessante, digestão.

Daughters – You Won’t Get What You Want

Eu conheço pouca coisa dos discos anteriores, um meio termo entre o caos dissonante do Neurosis e o noisecore do Full of Hell, nada muito surpreendente. Se o sentimento de descrença na humanidade e niilismo dos primeiros discos ficava perdido no meio de uma confusão previsível de guitarras agudas e loucura desenfreada enfiada em discos de 15 minutos, aqui a coisa ganhou dimensões assustadoramente novas. O som agora é mais dinâmico e intimidador. Sons industriais, vocais graves que lembram Nick Cave e atmosfera intimidadora. O disco não é nada convidativo e prazeroso. O intuito é te fazer sentir desprezo pela vida e querer sair batendo aleatoriamente em pessoas na rua com uma barra de ferro. Acredite, ele te fará pensar em fazer isso.

Portal – ION

Se imagine no universo Lovecraftiano, você acaba de tomar conhecimento acerca de seres inomináveis e, por consequência, cai em uma espiral de loucura, onde seres de outra dimensão brincam com sua mente enquanto você vivencia aquilo tudo em torpor, sem a possibilidade de fazer absolutamente nada a respeito. Esta e a sensação ao se escutar esse disco. A temática lovecraftiana, o horror surrealista e as paisagens bizarras criadas por músicas em altíssima frequência, produção ríspida e com uma técnica totalmente desprendida das convenções do gênero elevaram a música da banda a outros patamares de qualidade.

Pusha T – DAYTONA

Kanye West tirou 0 ano para polemizar no mesmo nível que usou para compôr e produzir. Enquanto passou boa parte de seu tempo livre tuitanto um monte de groselhas em apoio ao governo Trump, também passou tempo considerável gravando não apenas o seu próprio disco, mas também compondo e produzindo mais 4 discos: a estreia de seu projeto com o rapper Kid Cudi no Kids See Ghosts, o terceiro disco da cantora Teyana Taylor (K.T.S.E.), o décimo terceiro disco do Nas (NASIR) e este aqui presente. Mesmo compartilhando estilo de produção e conceito de duração (todos não passam da marca dos 29 minutos de duração), é na estrela do rapper Pusha T onde essa saga acaba brilhando mais. Com seu flow afiado perfeitamente encaixado nos beats minimalistas, mas eficientes, DAYTONA mostra a mente fervilhante de West para criar peças provocadoras, deixando espaço para uma musicalidade refrescante e momentos genuinamente memoráveis (“If You Know, You Know”). E claro, uma das capas mais perturbadoras do ano.

Sleep – The Sciences

Os meritos de The Sciences não estão em novidades e inovações apresentadas. Pelo menos metade do tracklist já vinha sendo desenvolvido em shows de anos antes, muitas vezes no formato final. O que eleva a qualidade é a experiência do trio. O cuidado preciso ao trabalhar detalhes de produção e execução (provavelmente o disco de rock mais bem produzido do ano), além de manter o DNA dos discos clássicos vivo. Quem não é fã do estilo sabbathico improvisado e de estilo livre da banda não vai passar a gostar agora. Em suma, é um disco exclusivamente para os fãs.

Denzel Curry – TA13OO

Uma das revelações do trap recente, Denzel Curry já havia lançado aquele que talvez seja um dos discos essenciais do estilo, Imperial. Em seu novo trabalho, três EP’s reunidos em um único disco se complementam em um storytelling sobre sua recente trajetória, de altos e baixos, felicidades e momentos sombrios. A musicalidade talvez seja a mais rica de sua discografia, dando espaço para baladas e trechos cantados e para as tradicionais banguers agressivas. A variedade de abordagens acaba elevando a qualidade e sustentam o disco por repetidas audições.

13 comentários

  1. Mairon

    Cara, esse disco do Idles – Joy as an Act of Resistance – estava em quase todas as listas que vi de 2018 antes de montar a minha. Não ouvi, mas vê-lo aqui na lista do Alisson me motiva a ouvi-lo.

    Valeu meu caro

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    • Alisson Caetano

      Esse vem sendo mais bem elogiado que o anterior deles. É bem interessante, recomendo. Rock pegado, guitarra pesada, bem direto ao ponto mesmo.

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  2. Ronaldo

    Lista instigante, mas questiono se o termo “compor” é algo que se aplica a rap e congêneres. Aquilo não é composição, mas sim montagem. Ninguém ali toca instrumento nenhum (pickup e mesa de som não são instrumentos musicais). Sendo assim, boa vontade e um pouco de técnica e o cara produz 10 discos em 1 ano.

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    • Fake do Alisson

      Amigo, só a curadoria refinada e uso de contratempos de um Endtroducing ou Donuts já invalidam este seu purismo barato (isso falando de discos instrumentais, nos vocais ainda temos o aspecto de flow e, claro, as letras). Já é tecnicamente mais complexo que um Greta Van Fleet, que elogiaste, por exemplo.

      Inclusive é curioso notar que essa coisa de “lançar 10 discos no ano” é também comum no cenário do rock psicodélico (o King Gizzard está aí como exemplo recente).

      Abraços

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    • Serena

      “Não dá para chamar isso de cantar, é só gritaria”, “Mas parece que ele está latindo”, “É uma bateria ou uma britadeira?”, “Ele não está tocando guitarra, essa distorção é só ruído”, “Meu sobrinho de três anos faz melhor”, “Isso é um helicóptero?”, “É um cachorro uivando?”, “Ele gravou fritando bacon?”, “Parece o chiado da televisão”, “Parece alguém arrastando o armário”, “Mas ele tá morrendo?”, “Tem certeza que é a mesma música? Já fazem vinte minutos”, “Eu acho que ele dormiu no piano”, “Mas só três acordes?”, “Por que eles não tocam a mesma música?”, “isso não é música, é barulho!”… não é música, é barulho… é música, é barulho!

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    • Alisson Caetano

      Dá até preguiça de ter que apresentar mil e um exemplos de aplicação de técnicas musicais em discos de rap e hip Hop pra quem sequer tem vontade de acreditar. Já que o Nilo (meu fake) fez isso com bastante competência e de forma sucinta, resta dizer que comentar qualquer coisa além aqui é desnecessário.

      Minto, faltou falar nas construções líricas (muitas delas de maneira extremamente complexas e que deixariam Chico Buarque emocionado) e tudo isso com flow.

      Boa noite pra todo mundo.

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    • Comi o Cadão

      Discordo. Uma lista moderna e cheia de novos bons sons. O Alisson é o único desse grupo de comunistas que consegue trazer novidades, e não a mesmice de outros. Eu meu amiguinho adoramos, bofe. Muito obrigado!!

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  3. António Marcos

    Lista instigante, com outros sons, outras batidas, outras pulsações (by Ira). Pode-se desgostar, mas é uma viagem interessante.

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  4. Anônimo

    Vocês esqueceram de comentar a versão comemorativa do White Album dos Beatles, lamentável! Brincadeira rapaziada, a página é ótima e os comentários de vocês além de divertidos também acrescentam muita informação. Não acho graça outra página comentando sobre esse disco “crássico” dos Beatles, queria ver vocês aqui falando sobre ele, que nem esses debates que vocês fazem com os melhores de ano tal e as listas dos melhores álbuns de vários estilos.

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  5. Sebastião Ferreira

    Não ouvi nenhum dos discos listados, mas por saber que é do Alisson, sem dúvidas é coisa boa e vale a pena a conferida no youtube.
    Seria tão bom ver mais artigos seus por aqui do que mais um artigo sobre Iron Maiden ou outra banda farofa fazendo música coxinha vencida.

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