Por Ronaldo Rodrigues

Recentemente, voltei de uma incrível viagem pela Califórnia. Tratava-se de minha primeira viagem aos Estados Unidos. O plano era chegar em San Francisco, descer até Los Angeles pela costa, esticando até o extremo sul do estado (San Diego) e retornar a San Francisco passando pelo Parque Nacional de Yosemite.

Sempre tive apreço pela cultura norte americana e a viagem envolveria a solução parcial de alguns sonhos juvenis, de conhecer algumas locações icônicas. Uma viagem de carro por lá sempre me despertou o imaginário do romance “On the Road”, de Jack Kerouac, e especialmente a temática e a sonoridade de tantas e tantas músicas que amo. A cultura do surfe, idem. Não poderia deixar de embalar todo esse sonho com uma trilha sonora perfeita e genuinamente americana. E posso dizer com tranquilidade que muita coisa que eu apenas pressentia, sobre a relação entre o lugar e a música que de lá surgiu, fez todo o sentido.

Enquanto minha noiva cuidava de um planejamento detalhado de hospedagens e pontos turísticos, minhas atenções foram mais egoístas e se concentraram em estudar a estrada e montar uma trilha sonora que me fizesse mergulhar naquela paisagem, ou ao menos naquilo que idealizei pra ela.

Ao longo de semanas antes da partida, fui coletando músicas de bandas e artistas americanos (alguns poucos ingleses e canadenses também) dentre rock pesado, country rock, soul music, blues e folk, buscando imaginar paisagens nas quais haveria o melhor encaixe entre som e imagem. O desejo se mostrou uma quase insanidade na prática, pela minha mania de catalogação. Foram cerca de 600 músicas, dentre as quais cerca de 250 colocadas em determinada ordem, como se fosse uma cuidadosa programação de rádio e sem repetições.

Antes da viagem, contudo, o passeio por San Francisco me reservou conhecer o berço da psicodelia norte-americana – a Haight – Ashbury. Ficamos hospedados no começo desta área, um bairro repleto de casa com a tradicional arquitetura de San Francisco e as conhecidas ladeiras da cidade. O hotel ficava na rua Fillmore , que apesar do nome, não era a rua onde ficava o lendário Filmore West. Chegamos a passar bem próximo do local onde era, na esquina da Market Street com a avenida Van Ness, mas sem procurar de fato. Na rua de trás do hotel, havia uma pequena loja de discos especializada em jazz e focada em LPs, na qual arrematei um álbum do Modern Jazz Quartet. Avançado pela rua Haight, muitos resquícios do verão do amor e da época hippie no estilo das lojas, nas butiques e nos bares. Era um dia de chuva, que não favoreceu o passeio (nem permitiu muitas fotos), mas trouxe uma sensação de atingir um marco da história do rock. E ali foi possível também sentir um pouco do culto que os americanos tem pela banda Grateful Dead, algo que equivale ao fanatismo despertado por Raul Seixas no Brasil (guardada as devidas proporções). Almoçamos por ali em um bar bem tradicional americano, ao som de Muddy Waters, Howlin’ Wolf e outros bambas.

No final da rua Haight visitei a filial da Amoeba Records, a maior loja de discos do mundo atualmente. A ideia era voltar com a bolsa cheia de discos, já que coincidentemente era dia de Black Friday. Havia levado alguns discos para trocar (itens repetidos ou que não tinha mais interesse) e me surpreendi com a facilidade com que essa transação foi feita e o bom retorno que obtive em dinheiro com isso. O acervo da loja é realmente fascinante e é possível passar um dia inteiro por lá, além de rolar muita música boa no interior da loja. Me ative apenas a seção dos CDs e confesso ter me desapontado pela falta de descontos e pelos preços de modo geral, levando em conta também o câmbio pouco convidativo. Apenas DVDs e souvenires estavam em promoção. A política da loja me pareceu um pouco estranha, já que frequentemente se encontram discos raros (inclusive de outros países) mais baratos do que discos de medalhões, há pouca diferença de preço entre CDs usados e novos e os cobiçados mini lps japoneses são tão ou mais caros do que no Brasil. Versões em digipack ou as chamadas “deluxe edition” não eram tão comuns como eu esperava. A seção de LPs era tão grande ou até maior que a de CDs e disputadíssima pelos clientes. Sai de lá com algumas boas compras (vide fotos) apesar do orçamento limitado, mas esperava levar mais itens com o mesmo valor.

Depois de ter alugado um carro em San Francisco, a saída da cidade e o trajeto em toda a sua região metropolitana teve muito groove e sons possantes de Buddy Miles, Rare Earth, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Redbone, J Geils Band, Stevie Wonder, Chicago, Blood Sweat and Tears…Perdi um dos acessos para a chamada Highway One (Cabrillo Highway), que liga SF a Los Angeles pela costa. O erro me fez perder o início da estrada, a qual só acessei a partir de Half Moon Bay. Por ali, o clima era nublado com alternância de trechos com sol.

Chegando na beira do Pacífico, a mancha urbana se desfazia e as paisagens se descortinavam a direita e à esquerda da estrada. A trilha sonora passava a conter Crosby Stills and Nash, James Gang, Big Star, Manassas, Arthur Lee, Jeff Simons, Byrds…A beleza do trecho é extremamente variada e heterogênea – falésias e vegetação costeira rala, colinas semi desérticas, rochas, arbustos…e no som quase que telepaticamente toda a variedade do rock americano nos fazia companhia. A parada aconteceu na charmosa cidade de Carmel e voltamos um pouco para dormir e passear brevemente na simpática Monterey, terra do lendário festival de 1967.

O segundo dia da trip seria coroado com sol radiante e o pique do dia trazia Canned Heat, Mountain, Grateful Dead, Jamul, Demian…Após Carmel, adentrávamos a área da Floresta Nacional de Los Padres, com as estonteantes sequências de mar e montanha do Big Sur, o trecho mais belo da estrada. Ali nos acompanhou além dos já citados o som de Allman Brothers, America, Hot Tuna, Marshall Tucker Band, Eagles, Poco…Um dos trechos mais sinuosos da estrada e também dos mais belos do dia foi deliciosamente embalado por “Homeward Through the Haze“, de Graham Nash e Dave Crosby, música que ficará pra sempre associada com aquele lugar em meu coração. Em um dos muitos mirantes da estrada, entendi perfeitamente o espírito de uma canção como “Going to California”, do Led Zeppelin e todos os outros britânicos que prestam reverência à América em suas músicas. Em San Simeon, uma pequena pausa para apreciar focas e leões marinhos. Após um dia inteiro degustando paisagens lindas, era hora de refrescar o coração e a mente. A pausa foi feita em San Luis Obispo.

O terceiro dia raiava com o mesmo céu perfeito e a estrada nos reservaria combinações ainda mais inusitadas e belas de litoral, campos e colinas semi áridas. Nos alto falantes, as paisagens mais retas se encaixaram bem com rocks mais diretos como Mountain, Nitzinger, Cactus, Doobie Brothers, Creedence Clearwater Revival, Blackfoot…Já mais próximo de LA, os trechos do litoral de Ventura rememoraram a belíssima “Ventura Highway”, do America. Contudo, foi a faixa “Three Roses”, do primeiro álbum do trio, que fez o casamento perfeito entre o que vimos e ouvimos. Dali em dia, palmeiras e belas casas de veraneio ao longo das montanhas de Santa Monica foram nos introduzindo na megalópole californiana.

Nosso destino era Long Beach, onde nos hospedaríamos na casa de minha cunhada. No dia seguinte, após um merecido descanso, entramos para conhecer o miolo de Los Angeles. Entramos no museu The Broad para ver obras de artistas modernos como Andy Warhol e Roy Lichtenstein, passamos pela sala de concertos Walt Disney Concert Hall e fomos numa livraria descolada (The Last Bookstore), que tinha uma suculenta seção de discos. Como o objetivo ali não era exatamente comprar discos, dei apenas uma passada rápida por uma seção promocional de LPs, que tinha ótimos preços. Não coleciono LPs, mas levei dois itens na oportunidade – o primeiro álbum da Marshall Tucker Band (em perfeito estado) e um disco raro no Brasil, o primeiro da banda Madura (duplo, com a capa um tanto detonada) pela bagatela total de 4 dólares!

Os dias seguintes me fizeram conhecer os arredores da região metropolitana de LA e outras cidades, cuja descrição visual e sonora se prolongaria demais no texto (foram mais de 1000 km rodados em 14 dias). Em um dos dias fomos à Hollywood e na Sunset Boulevard (outra clássica locação da história do rock) ficava outra filial da Amoeba Records, ainda maior do que a de San Francisco. Valeu pelo passeio e dali levei outros três CDs – o primeiro álbum de Bruce Springsteen, a clássica coletânea Nuggets e a compilação Blues, de Jimi Hendrix. Nosso colega Fernando Bueno támbem já esteve lá anos atrás e relatou sua experiência neste texto (link). O passeio por Beverly Hills e West Hollywood me levou a passar em frente ao histórico Whisky a Go Go, palco de muitos expoentes do rock sessentista, e pela antiga Tower Records, uma das maiores lojas de discos dos EUA, aberta em 1971 mas falida em 2006. No píer de Santa Monica, visitamos o marco final da antiga Route 66. A parte final da viagem nos levou para curtir a neve das montanhas de Yosemite e ouvir bons sons dos canadenses do Guess Who, dentre vários outros.

Ainda tratando sobre lojas de discos, visitei a Fingerprints em Long Beach, com bom acervo de bandas contemporâneas e indie-rock, mas com preços salgados para CDs e LPs, e vi algumas lojas de discos nas cidades em San Luis Obispo e Ventura (sem visita-las). Pude ver a força do LP, um certo inflacionamento no preço dos CDs e o desprestígio do DVD (os estoques eram enormes, boas ofertas e poucas pessoas rodeavam essas seções) ao longo dessas incursões. No comércio de modo geral, sempre havia alguma trilha sonora boa – Eagles (e sua onipresente Hotel California, além de outras canções), Neil Young, Allman Brothers, Beatles, Janis Joplin, Jimi Hendrix…Infelizmente não consegui ver nenhum show por lá. Mas isso será assunto para minha próxima ida.

5 comentários

  1. Mairon

    Que baita texto. Também quero fazer uma excursão dessas para os EUA e Canadá. Acredito que o país dos Alces também deve ter várias ofertas de discos. Que relato massa Ronaldo, muito obrigado!

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    • Ronaldo

      Valeu meu caro!!! é um troço que desejo a todos meus amigos – que consigam fazer uma viagem como essa que eu fiz…abraço!

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  2. Fernando Bueno

    Fiquei com vergonha dos meus textos lendo o Ronaldo. Que descrição fantástica do local ainda mais fazendo as referências às bandas que passaram (algumas ainda passam) pelos locais visitados. Quando viajei para lá acabei ficando apenas na cidade de Los Angeles e saindo pouco para os arredores. Mas um das coisas que nunca vou esquecer foi ter conhecidos as famosas casas noturnas da Sunset Strip…
    Parabéns pelo texto Ronaldo!

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