Por Marco Gaspari

(Matéria originalmente publicada na revista poeiraZine nº 25)

A literatura já nos brindou com, entre outros, Lovecraft, Tolkien e Frank Herbert. Mentes geniais, artífices de civilizações fantásticas, com mitologias próprias e personagens fascinantes. Na música, mais particularmente no rock, ninguém foi mais longe nesse quesito do que o grupo setentista francês Magma. Seu líder, Christian Vander (baterista, cantor, compositor e mentor), não se contentou apenas em criar música: ele viajou no tempo, se deslocou no universo, viveu novas civilizações, testemunhou batalhas épicas e voltou para contar. Não na língua dos homens, mas numa espécie de esperanto intergaláctico.

Filho de músico de jazz e de uma mãe apaixonada pelo gênero, o adolescente Christian Vander, aos 13 anos, em plena idade da inconstância, descobriu uma certeza: amava John Coltrane acima de todas as coisas. Para ele o som que Trane tirava de seu saxofone não era deste mundo.

Imagine então sua tristeza quando, aos 17 anos, já um baterista promissor e dono de uma técnica admirada e disputada por muitas bandas de jazz parisienses, o jovem Vander foi surpreendido pela notícia da morte de seu ídolo.

Quer dizer que Coltrane não era Deus! Que podia morrer como todos os mortais e deixá-lo órfão inclusive de objetivos, uma vez que de repente morreu também o jazz, esgotado como gênero e enterrado junto com o gênio.

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Com essas confusões na cabeça, volta-se para o rhythm’n’blues, o free jazz e o rock, tocando em algumas bandas da Paris do final dos anos 60. Mas o grande problema do rock na França da época era a pobreza do cenário. Muito pop idolatrado pelo público e exageradamente enaltecido pela imprensa, mas pouca qualidade aos olhos de um músico do seu gabarito.

A partir dessa constatação, e seduzido pelas novas possibilidades que o rock apresentava, sua mente passa a processar o som que ele iria mostrar ao mundo num futuro bem próximo.

Começou a cercar-se de músicos talentosos, mas de pouca relevância no rock e jazz franceses da época, e cada um deles tinha liberdade para acrescentar suas especiarias a um caldeirão que já cozinhava em fogo brando um molho elaborado a base de muito Coltrane, free jazz, Stravisnky, Bártok, Wagner e Carl Orff.

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Entre estes músicos estava Klaus Blasquiz, um ótimo cantor de blues e um desenhista apaixonado por história em quadrinhos. Principalmente através dessa influência de Blasquiz começa a tomar forma a idéia de se criar um novo mundo, com uma língua própria e toda uma mitologia. E para ser documento sonoro e porta voz desse novo microcosmo nasce o Magma.

Vamos imaginar então esse novo mundo, situado séculos no futuro, aonde o nosso planeta chegou a um nível tal de degradação física, ambiental e mental que pouca esperança restou aos que nele habitam. Nesse cenário, um grupo de terráqueos mais esclarecidos financia a construção de uma espaçonave e parte ao encontro de uma espécie de utopia: o longínquo planeta Kobaïa, onde uma civilização tecnologicamente avançada a ponto de voltar-se para a espiritualidade pode ajudar os terráqueos a encontrar um destino melhor.

Kobaian, a língua falada nesse planeta e inventada pela banda para se expressar e cantar suas músicas, tem na sua concepção vocalizações livres, sintaxes germânicas e eslavas e uma forma de escrita peculiar e de grande apelo gráfico. Um truquezinho apenas: o kobaian cantado pelo Magma soa muito inglês aos ouvidos de um francês.

No finalzinho dos anos 60 o grupo assina com a Philips e seu primeiro álbum duplo é lançado em 1970. Olhando de hoje era uma revolução, mas bem que a banda sofreu apupos da imprensa na época, pois todo o seu contexto, somado ao fato do grupo se apresentar todo de preto, ostentando enormes logotipos vermelhos no peito, levantou suspeitas e acusações de que eles seriam entusiastas do nazifascismo.

Bom, mas vamos à história do Magma, passando a palavra a quem melhor soube contá-la: seus discos.


Magma kobaia(1)Kobaïa (1970)

O primeiro disco do Magma é duplo, com sete músicos na formação da banda: Christian Vander nos vocais e bateria, Claude Engel na guitarra, Francis Moze no baixo, François Cahen ao piano, o saxofonista Teddy Lasry, o flautista Richard Raux e Klaus Blasquiz nos vocais.

O disco 1 conta a história da partida da Terra, da viagem e chegada a Kobaïa e os novos tempos no planeta, onde a convivência com os avançados e pacíficos habitantes locais permite que uma nova sociedade seja construída, alcançando um alto nível de desenvolvimento tecnológico. No disco 2, uma espaçonave com problemas surge na órbita de Kobaïa e é resgatada. Fica-se sabendo pelos tripulantes da nave que a Terra continua seu processo de degradação. Impressionados com o grau de harmonia e desenvolvimento da nova civilização de Kobaïa, eles sugerem que uma comitiva de kobaians viaje com eles de volta à Terra para propagar sua filosofia e salvá-la da destruição certa.

Contemporâneo do disco Third, do Soft Machine e dos primeiros do Chicago, este trabalho do Magma também apresenta o grupo como um forte representante da recente corrente jazz-rock, sustentado por um potente naipe de metais. Mas as semelhanças acabam por aí. Musicalmente, as composições de Christian Vander se revelariam únicas e anos à frente de tudo o que era feito no rock da época, pouco inclinadas a improvisações e, apesar da formação jazzística do baterista e líder, muito mais propensas a alimentar todo um novo vocabulário de timbres e harmonias que povoava a cabeça desse incrível músico.


1141275781001º Degrees Centigrades (1971)

Sai o guitarrista Claude Engel  e os músicos responsáveis pelos metais são substituídos. François Cahen opta pelo piano elétrico e a voz de Klaus Basquiz adquire um timbre mais espectral, praticamente alienígena.

A saga continua: assim que a comitiva kobaian aterrissa na Terra, ela é aparentemente cercada de boas vindas. Os terráqueos passam então a conhecer a história da civilização de Kobaïa e suas idéias para que a vida na Terra possa, através da espiritualidade,  progredir rumo à purificação. Nem é preciso dizer que as autoridades acham tudo isso subversivo demais e acabam prendendo toda a comitiva e se apropriando de sua espaçonave. Um aviso, porém, havia sido mandado à Kobaïa e uma força de resgate vem em socorro dos prisioneiros. Mediante o poderio bélico dos alienígenas, não resta alternativa a não ser libertar a comitiva e devolver sua espaçonave. Os kobaian partem para nunca mais voltar, mas a força de sua mensagem será preservada para as futuras gerações.

Este trabalho dá continuidade ao jazz-rock experimental apresentado no disco duplo de estréia. São apenas 3 longas faixas, onde começa a se manifestar a obsessão de Vander por frases repetitivas, criando um clima denso, muito propício para o uso de sincopados e instrumentos em contraponto,  tudo fluindo feito lava incandescente.


Magma_-_Mekanïk_Destruktïw_KommandöhMekanïk Destruktïw Kommandöh (1973)

Mudanças sensíveis na formação da banda, permanecendo apenas Christian Vander e Klaus Blasquiz. Entram Jannik Top no baixo, Jean-Luc Manderlier nos teclados, Rene Garber e Teddy Lasry nos metais, Claude Olmos na guitarra e Stella Vander nos corais.

Considerado por muitos a obra prima do Magma, MDK é o terceiro movimento da sinfonia Theusz Hamttaahk ( Tempo de Ódio), que compreende o período entre a visita dos kobaian à Terra e a marcha celestial rumo ao esclarecimento, liderada pelo espiritualista  Nebëhr Gudahtt, testemunha da mensagem dos kobaian aos terraqueos. No MDK, Gudahtt inicia uma pregação baseada no princípio de que a única salvação para os habitantes da Terra seria através da purificação pessoal e da comunhão espiritual com o ser supremo, o Kreühn Köhrmahn. Num primeiro momento, Gudahtt é rejeitado pela população, mas aos poucos a força de sua mensagem acaba prevalecendo e ele passa a ter uma legião de seguidores.

Assim como a formação da banda, o som do MDK muda sensivelmente em relação aos álbuns anteriores. Temos aqui um Magma menos jazzístico e muito mais Wagneriano, com um coro de 8 vozes injetando doses maciças de dramaticidade. O baixo de Jannik Top e o desempenho de Vander na bateria são excepcionais.


cover_44763052005Wurdah Ïtah (1974)

Este disco, creditado como trabalho solo de Christian Vander, é uma trilha sonora para o filme Tristan et Iseult, do diretor Ivan Lagrange. Vander, Top, Blasquiz e Stella são os músicos presentes e interpretam, na realidade, o segundo movimento da sinfonia Theusz Hamttaahk. O primeiro movimento dessa obra, de 35 minutos, era interpretada basicamente nos shows da banda e só foi registrada em disco no álbum ao vivo Retrospectw I-II, de 1981.

Existe uma historinha curiosa por trás das gravações de Wurdah Ïtah (Terra Morta). Uns anos antes, Vander e Blasquiz estavam em um estúdio trabalhando na primeira versão do MDK e resolveram juntar a banda para gravar também um esboço do que seria o Wurdah Ïtah. Após ouvirem a gravação, Laurent Thibault pede para levar a fita, prometendo devolvê-la no dia seguinte. Thibault acaba mostrando o som para Ivan Lagrange que se preparava para iniciar as filmagens de Tristan et Iseult. Seduzido pela música, o diretor resolve utilizá-la sem avisar ninguém. Só depois do filme pronto é que Vander é comunicado e ao constatar a versão cheia de imperfeições de sua música, fica revoltado e exige que ela seja convenientemente gravada em disco, embora seja o som da antiga banda o que se ouve no filme.


1214593Köhntarkösz (1974)

Um Magma sem metais. Manderlier, Garber, Olmos e Lasry saem da banda e entram Brian Godding na guitarra e Gerard Bikialo e Michel Graillier nos teclados, juntando-se a Vander, Blasquiz e Top.

Este disco registra o primeiro movimento do que seria um segundo ciclo da sinfonia Theusz Hamttaahk. Köhntarkösz é um homem que pertence ao povo de Zeuhl Wortz e a história se passa numa época em que esse povo sofre a invasão dos temíveis Ork, alienígenas feitos de matéria indestrutível. Ele descobre a tumba de Ementeht-Re, um sábio que viveu no antigo Egito e que foi assassinado antes de alcançar seu grande objetivo, a imortalidade. Ao entrar na tumba, Köhntarkösz tem uma visão de Ementeht-Re e este revela seus segredos, inclusive como destruir os Ork.

Musicalmente, esta talvez seja a mais intensa, intrincada e dinâmica obra do Magma. A nova formação, que privilegia os teclados, substitui a proposital rigidez presente nos discos anteriores por uma atmosfera que alterna passagens sombrias, picos de tensão épica e momentos de etérea delicadeza, como na faixa Coltrane Sündia (Coltrane descansa em paz), que encerra o álbum.


tn_400__coverMagma Live/ Hhaï (1975)

Novas mudanças na formação da banda que lançou este álbum ao vivo na metade dos anos 70. Permanecem Vander e Blasquiz e os novos nomes são Bernard Paganotti no baixo, Gabrid Federow na guitarra, Didier Lockwood no violino e Benoit Widdeman e Jean-Pol Asseline nos teclados. Stella Vander volta a dividir os vocais.

O mais acessível e eclético disco do Magma. O álbum duplo traz 6 músicas, 5 delas presentes nos discos anteriores, mas com níveis de drama, emoção e dinamismo muito mais intensos do que as registradas em estúdio. Hhaï, a única inédita do disco, pertence ao ciclo de Ementeht-Re, iniciado no discoKöhntarkösz. Uma outra música inédita desse ciclo (denominada justamente Ementeht-Re) seria acrescentada na versão em CD lançada nos anos 90 pelo selo Seventh.


000 (1) Üdü Wüdü (1976)

Voltam Graillier e Jannik Top, que alterna o baixo com Bernard Paganotti. Permanecem Vander, Blasquiz, Stella e Widemann. Os metais retornam de forma incidental, desta vez com Alain Hatot e Pierre Dutour. Uma novidade: o sintetizador é acrescentado ao som da banda, pilotado por Patrick Gauthier, que tocou na banda Heldon.

Três músicas deste disco retomam a saga de Ementeht-Re. Os temíveis Ork, que se não bastasse serem indestrutíveis também eram invisíveis, continuam a atacar. Apenas uma viagem no tempo seria capaz de capacitar alguém para enxergá-los. “De Futura” (faixa de 18 minutos) conta essa viagem, uma jornada que ensina como cessar o ilusório movimento do tempo que impede que os Ork sejam vistos.

Várias marcas registradas do som da banda estão presentes neste disco. Do jazz-rock dos primeiros tempos aos sons mecânicos e repetitivos da época do MDK, dos corais poderosos aos arranjos complexos dos trabalhos mais recentes. O inédito sintetizador acrescenta um clima ainda mais sinistro ao já sufocante microcosmo do Magma.


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Inedits (1977)

Uma coletânea de materiais gravados ao vivo em shows do Magma durante sua existência. Os músicos da banda variam de música para música e em algumas delas apresentam uma formação nunca reunida nos álbuns de estúdio. Não são as músicas completas, mas excertos que privilegiam mais as seções instrumentais de shows gravados nos anos em que foram lançados o 1001º Centigrades, o MDK e o Köhntarkösz. Disco muito interessante, com uma pegada bem mais jazz-rock.


cover_501819112009Attahk (1978)

Vander, Blasquiz, Stella, Paganotti, Widemann, Jean-Luc Chevallier na guitarra e Tony Russo e Jacques Bolognesi nos metais registram este que pode ser considerado o disco que decreta oficialmente o fim da saga kobaian.

Já havia acontecido no álbum Üdü Wüdü e agora se repete neste disco. A temática de algumas músicas parece fugir da história que vem sendo contada desde o primeiro LP, como se o fio da meada já estivesse escapando das mãos de seus criadores. No entanto, Attahk ainda brinda os ouvintes com a história de Ourgon e Gorgo, dois personagens enigmáticos, envolvidos numa espécie de batalha contra o demônio. Os dois são representados na capa do disco, numa magnífica ilustração do mestre surrealista H. R. Giger.

Como a história envolve uma expressiva carga de espiritualidade, o clima e as emoções presentes neste trabalho são surpreendentemente otimistas para um disco do Magma, com os vocais assumindo até mesmo um caráter gospel. Mais um belo álbum e outro grande exemplo de como é rica a visão musical de Christian Vander.


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Univeria Zekt e a Zeuhl Music

Em 1972, com a formação que gravou o disco1001º Centigrades, o Magma assume o nome Univeria Zekt e lança um álbum chamado The Unnamables. Neste disco, o único gravado pelo Univeria Zekt, o grupo abandona a linha ficção científica de seus dois primeiros lançamentos, o que de certa forma facilita ao ouvinte absorver melhor o excelente jazz- rock que o grupo fazia na época.

Univeria Zekt também pode ser considerado a primeira manifestação de um estilo musical que passou a ser conhecido como Zeuhl Music (Música Celestial), composto de grupos formados por músicos saídos do Magma após suas diversas formações ou influenciados pelo universo musical da banda. A Zeuhl Music engloba dezenas de artistas e grupos e assumiu status de subgênero dentro do rock progressivo.

François Breant, François Cahen, Couer Magique, Daniel Denis, Eskaton, Gong (disco Flying Teapot), Patrick Goutier, Didier Lockwood, Perception, Yochk’o Seffer, Shub Niggurat, Laurent Thibault, Jannick Top, Weidorje, Xaal e Zao são apenas uma parte do fenômeno Zeuhl Music.

Pequeno dicionário Kobaian / Português

^emgalai           apocalipse
blum               povo
deuhl              dilúvio
dewa               árvore
dreiak             hipocrisia
drest              explosão
dun                coração
eden               sem
falt               suor
fennh              lâmina
geun               pobre
glao               sangue
hamtaahk           ódio
hamtai, hamatai    saudações
hell, hel          vida
hundin             infinito
hurt               primeiro
itah               terra
kalain             paixão
klawiehr           teclados
kobaia             eterna
krematohm          cremação
l^em               ruído
l^emworitst^em     escuro
lah                ar
lants^em           fantasma
lantsei            fugir
lidente            destino
lihns              chuva
loile              sede
luszt              perfeito
maneh              conjunto
mennh, meletsi     cheiro
muss               vital
nansei             sempre
noszfeuhl          sem fim
otsilennhet^e      imaginação
rait, raitah       queimar
rinst^e            prisioneiro
rogh               aparência
rownah             purgação
runhd^e            imperturbável
saaht              doloroso
sewolawen          silencio
siri               choroy
slibenli           nuvem
soia               noite
sowilei            delicado
stauhi             cinzas
tendiwa            alma
theusz             tempo
udea               fruta
und^em             oceano
undazir            visão
unsai              passado
urwa               violência
walomend^em        universo
wlasik             desculpa
wurdah             morte
zain               cérebro
zanka              sol
zess               mestre
zeuhl              musica celestial
zunh               som
zur                você

Esta pequena matéria aborda apenas parte do vastíssimo universo sonoro do Magma, que foi enriquecido com vários outros LPs e CDs lançados de 1980 até hoje, muitos deles com materiais inéditos gravados nos anos 70. Ela também não tem a mínima pretensão de ser dona da verdade, uma vez que o assunto Magma é complexo e sujeito a inúmeras interpretações. Foi baseada, principalmente, em informações colhidas nas seguintes fontes:

. Magma, do jornalista Antoine de Caunes. Livro lançado pela editora francesa Albin Michel em 1978

. The World of Magma, de Peter Thelen. Artigo da revista musical inglesa Exposé, outono de 1995.

. Magma: The Classic Years, de Rob Walker. Idem acima.

. Gibraltar. Encyclopedia of Progressive Rock.

. Sites da internet dedicados ao grupo.

4 comentários

  1. Leonardo

    Se não me engano o disco Köhntarkösz foi o único que saiu no Brasil, certo?

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  2. Marco Mayer

    o show deles em São Paulo, em novembro do ano passado, foi incrível. tocaram Theusz Hamtaahk, MDK e boa parte de Emehntehtt-Ré (composição publicada no disco de 2009 da qual fazem parte Zombies, Rindë e Hhaï)

    Responder

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