Por Fernando Bueno

Um fenômeno nacional muito comum dentro do heavy metal, pelo menos aqui no Brasil, é uma espécie de bairrismo às avessas. Geralmente as bandas de fora são as mais festejadas pelos fãs e a cena nacional acaba ficando à margem de tudo isso. A discussão sobre a valorização das bandas do país já rendeu muito e não é o foco desse texto. Porém comecei com esse pensamento para tentar imaginar o que acontece com as bandas dos países vizinhos ao nosso aqui da América Latina. Sabemos que os fãs desses países são tão ou mais apaixonados pelo rock and roll e o metal quanto os brasileiros. Quem conhece a Argentina comenta que a cena roqueira da cidade é tão ou mais agitada quanto a de São Paulo. Mas e suas bandas nacionais? Como são tratadas em seus países de origem? Será que eles têm em maior conta as bandas de seus países do que os brasileiros têm pelas suas? Alguma delas conseguiu romper as fronteiras e conseguiu reconhecimento em outros países?

Esse texto é uma tentativa de fazer uma continuação de outro que fiz em fevereiro de 2016 acerca do heavy metal francês. A ideia era apresentar bandas que cantassem em sua própria língua e não em inglês, como quase a totalidade das grandes bandas de metal mundial. E isso é algo que muita gente ainda torce o nariz. Ouvir sonoridades de línguas que fogem do inglês permanece um tabu entre os fãs de metal. Assim, pensei que seria interessante, agora, mudar o idioma para o segundo mais falado ao redor do globo terrestre, o espanhol.

Vi o mapa mostrado acima há algum tempo na Whiplash – a fonte é o famoso Encyclopedia Metallum – mostrando a quantidade de bandas para cada um milhão de habitantes e me chamou atenção o Chile. São 113 bandas a cada um milhão de habitantes sendo que o Brasil teria apenas 23. Acabei não incluindo nenhuma banda do Chile aqui na lista, mas vale o registro desse dado interessante. Perdemos também para outros países como a Argentina, Uruguai, Colômbia e até mesmo para Costa Rica e Porto Rico.

Eu poderia ficar apenas com bandas da América Latina, mas achei injusto não abordar pelo menos uma banda do país de onde surgiu o idioma. Também fiz questão de pegar apenas uma banda de cada país para fazer algo um pouco mais abrangente. Quando fiz o texto sobre o metal francês comentei que estava passando por uma fase de desbravar bandas pouco conhecidas do metal mundial. Aquelas bandas que surgiram, tiveram um sucesso efêmero e desapareceram, mas deixaram suas obras para a posteridade, mesmo sendo de difícil acesso. Percebi que essa fase ainda não acabou e possivelmente nunca acabará. Por algum motivo adoro essas bandas que ficaram pelo caminho. E nessa busca por grupos assim, cheguei à algumas que tinham o espanhol como idioma para suas letras. Por coincidência três desses discos são do mesmo ano e isso não foi intencional, mas fica aí uma mostra do quer era feito há exatos 30 anos no metal aqui na América do Sul. Vamos à elas!


Barón Rojo – Metalmorphosis (1983)
Origem: Espanha

Como disse, fiz questão de colocar uma banda espanhola por ser pátria mãe do idioma escolhido para o tema dessa vez e é justo começar por eles. Esse é o terceiro disco do Barón Rojo, que bebeu bastante da fonte da então iniciante NWOBHM para moldar seu som. Inclusive Metalmorphosis foi gravado na Inglaterra e suas primeiras cópias vinha com um compacto de 7” com duas músicas inéditas que é um fantástico item de colecionador. O álbum inicia com um riff a la Richie Blackmore em “Casi me mato”. Suas faixas, no geral, são cadenciadas, sem muita velocidade fora algumas passagens aqui e alí, inclusive o maior destaque ao meu ver “Hiroshima” é até mais lenta do que o restante. Ou bom destaque é “El malo”, com um jeitão de hard setentista muito bem-vindo.

Line up: Armando de castro (guitarra), Carlos de Castro (guitarra), Hermes Calabria (bateria) e Sherpa (baixo e voz)

1. Casi me mato
2. Rokero indomable
3. Tierra de vândalos
4. ¿Qué puedo hacer?
5. Siempre estás allí
6. Hiroshima
7. El malo
8. Diosa razón
9. Se escapa el tiempo


Arkangel – Arkangel (1981)
Origem: Venezuela

Esqueçam a lamentável situação política que vive a Venezuela hoje em dia. O país já foi um dos mais rico do mundo e levando em consideração o ano do lançamento desse disco do Arkangel podemos dizer que também foi um dos pioneiros do heavy metal no continente. Só como comparação o debut autointitulado da banda paraense de heavy metal, o Stress, que é considerado o primeiro disco de metal do Brasil sairia só um ano depois. E um conselho aos leitores: não deixem passar a oportunidade de ouvir esse disco agora. Não deixe para depois, já que vocês acabarão nem lembrando mais. É incrível que esse disco tenha sido lançado ao mesmo tempo em que a NWOBHM estava fervilhando na Inglaterra, no mesmo ano que o Iron Maiden gravava seu Killers e Paul Di Anno ainda era seu frontman. Uma coisa é a influência musical passar rapidamente de país para país hoje em dia, com a internet e facilidade de locomoção. Mas em 1981 é algo que realmente impressiona. Ainda mais um som tão similar à tudo o que estava surgindo lá na Europa. É só lembrar que mesmo as bandas alemãs de heavy tradicional, que estão a algumas poucas horas de viagem da Inglaterra foram surgir dois ou três anos depois. Repito: não percam a chance de ouví-lo.

Line up: Breno Díaz (baixo), Giancarlo Picozzi (guitarra), Paul Gillman (vocal), Giorgio Picozzi (bateria) e Freddy Marshall (guitarra)

1. Vagón de la muerte
2. Libertad
3. Loco por el rock & roll
4. Barón Rojo
5. Nada es eterno
6. Hombre robot
7. Un niño nace
8. Asesino
9. Héroes caídos
10. Arkangel


Rata Blanca – Rata Blanca (1988)
Origem: Argentina

Esse não é o disco mais festejado dos hermanos argentinos. O álbum de 1990, Magos, Espadas Y Rosas, é mais bem avaliado. Mas queria manter as coisas nos anos 80. O Rata Blanca é talvez o grupo de metal argentino mais conhecido pelos fãs brasileiros. Com certeza a participação deles no Monsters of Rock de 1995 tenha influência nisso. Lembro que na volta para casa depois do festival alguns do ônibus da excursão que eu estava brincavam com as pronuncia das palavras que foram entoadas pelo vocalista. O que mostra um pouco como nós tratamos o metal em outros idiomas. O debut foi gravado por um vocalista que foi substituído já para a gravação do próximo disco. Saúl Blanch tinha uma idade um pouco mais avançada que o resto da banda e talvez isso tenha influenciado sua saída, mas sua voz é bastante marcante pelos altos agudos que ele alcança. Os destaques do disco ficam para “El Sueño de la Gitana” e “Chico Callejero”, já a guitarra de seu líder Walter Giardino é o destaque técnico do disco – ouçam “Sólo para Amarte”. Inclusive, ao longo da sua discografia, a técnica do músico vai se tornando mais apurada e comparações com o que era feito no Rata Blanca com a banda solo de Yngwie Malmsteen começaram cedo, basta ouvir “Preludio Obsesivo”.

Line up: Walter Giardino (guitarra), Gustavo Rowek (bateria), Guillermo Sánchez (baixo), Sergio Berdichevsky (guitarra) e Saúl Blanch (vocal)

1. La misma mujer
2. Sólo para amarte
3. Gente del sur
4. Rompe el hechizo
5. El sueño de la gitana
6. Chico callejero
7. Preludio obsessivo
8. El último ataque
9. Otoño medieval


Megaton – Megaton (1988)
Origem: México

Última banda que conheci dessa lista e isso aconteceu há poucas semanas. Apesar de ser um lançamento de 1988, a sonoridade parece a de um disco de alguns anos anteriores. Se compararmos esse álbum com o do Arkangel, comentado acima, sem saber os anos de lançamento provavelmente chegaríamos a conclusão de que eles foram contemporâneos. Isso mostra o quanto a banda venezuelana estava bem mais antenada que outras do continente sulamericano. Talvez as coisas demoraram mais à chegar no México do que na Venezuela. A produção do disco é muito parecida com a que tínhamos no Brasil na época, ou seja, fraca. Nem mesmo o volume relativo dos instrumentos se mantém constante ao longo do disco. Interessante que a primeira faixa fala de um longínquo ano 2000. Na época isso parecia muito distante mesmo e hoje temos mais anos à frente do ano 2000 do que eles tinham para chegar à ele. A banda é bastante cultuada lá no México e é sempre um exemplo para as novas que surgem por lá.

Line up: Miguel Carrillo (baixo), Pedro Zavala Montes (bateria), Beto Najera (guitarra), Raul Ochoa (guitarra) e Salvador Aguilar (vocal)

1. Niños del 2000
2. Poseído
3. Con los brazos abiertos
4. Vida después de la muerte
5. Llamado de rock
6. Bajo control
7. Mala mujer
8. Príncipe
9. El precio


Masacre – Sin Piedad (1988)
Origem: Peru

Originalmente lançado em 1988 e, pelo que pude averiguar, apenas em cassete. Em 1991 saiu a versão em CD. Mas as informações são contraditórias e é difícil de confirmar, além de que as capas desses lançamentos também são diferentes. Também podemos encontrar a banda com seu nome sendo grafado por M.A.S.A.C.R.E., modo que particularmente não gosto. Heavy metal tradicionalíssimo, que facilmente agradará os fãs das bandas clássicas do estilo. “Cuando El Diablo Piso La Tierra” inicia com um dedilhado que remete à “Remember Tomorrow”, mas em seguida a velocidade da música aumenta e o destaque fica para a bateria. “Hasta el Final” mostra a voz potente e aguda de Cervantes. Se já tivemos uma lembrança de Iron Maiden em uma faixa agora “22 Acacia Avenue” vem à mente em “Entes del Mal”. A banda deixou um pouco do metal tradicional e atacou o metal progressivo ao longo de sua carreira, mas essa é uma informação que tenho por ter lido e não pode ter ouvido alguma coisa. Metal progressivo atualmente não é minha prioridade. Quem sabe um dia.

Lineu up: Martín Tuesta (guitarra), El Loco Cervantes (vocal), Miguel Tuesta (baixo), Coqui Tramontana (guitarra) e Pier Paolo De Bernardi (bateria)

1. La Ciudad
2. Cuando El Diablo Piso la Tierra
3. Hasta el Final
4. Rosa y Espina
5. Entes del Mal
6. Sueño y Terror
7. El Hechicero
8. Fugo en el Alma

5 comentários

  1. Marcelo Lucifuge

    Puta texto! Parabéns ao Fernando por excepcional matéria. Adoro metal espanhol por questão familiar e recomendo a quem não conhece ir atrás de Mago de Oz, Tierra Santa, Saratoga, Angeles del Infierno e Zenobia, só para começar (todos da Espanha). Foda que no Brasil não tem público, o Mago de Oz e o Tierra Santa já fizeram turnês em todos os países latinos vizinhos do Brasil, por mais de três ou quatro vezes, mas nunca se arriscaram para cá…. tive que ver o Mago em Buenos Aires….

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  2. Marcel

    Indico o já citado “Angeles Del Infierno”, também da Espanha. Uma baita banda, como diriam por aí 😉

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