Por Jose Leonardo Aronna

Neon Records foi um selo, altamente colecionável, criado no início de 1971, para rivalizar com a Harvest e a Vertigo, e foi fundado por Olav Wyper, ex-executivo da Vertigo, que resolveu desta vez, criar um novo selo numa outra gravadora, no caso a RCA. Os poucos discos lançados pela Neon, assemelham-se àqueles lançados pelo período áureo da Vertigo (swirl years), ou seja, além de terem se tornado verdadeiras raridades, foram lançados com capas com bela arte gráfica e fotografia (algumas criadas por Marcus Keef, que também colaborava com a Vertigo), capas duplas ou triplas, etc. Aliás, 6 artistas que lançaram seus Lps pela Neon, foram inicialmente programados para terem seus álbuns lançados pela Vertigo: Running Man, Indian Summer, Shape Of The Rain, Dando Shaft, Tonton Macoute e Chris McGregor’s Brotherhood Of Man.

Infelizmente o selo teve uma curta duração, apenas 11 álbuns foram editados, uma mistura variada de folk, jazz-rock e rock progressivo de artistas obscuros. Alguns tiveram lançamentos em outros selos, antes e depois de seus lançamentos na Neon e a maioria, como é de costume acontecer, desapareceu sem deixar rastro. Todos os álbuns foram lançados em 1971. A RCA não deve ter gostado das baixas vendas dos álbuns e cancelou seu selo alternativo, no início de 1972.

Os discos lançados pela Neon Records foram os seguintes:

Artista: Título (catálogo)

Fairweather: Beginning From An End (NE1)
Chris McGregor: Brotherhood Of Breath (NE2)
Indian Summer: Indian Summer (NE3)
Tonton Macoute: Tonton Macoute (NE4)
Dando Shaft: Dando Shaft (NE5)
Spring: Spring (NE6)
Shape Of The Rain: Riley, Riley, Wood & Maggett (NE7)
Raw Material: Time Is (NE8)
Centipede: Septober Energy (NE9)
Mike Westbrook: Metropolis (NE10)
Running Man: Running Man (NE11)

Nessa primeira parte, analisaremos o primeiro e único Lp da banda Spring.

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O grupo Spring tem um status legendário entre os aficcionados em teclados. Enquanto muitas bandas borbulhavam na efervescência criativa da cena progressiva inglesa no início dos anos 70, apenas o Spring foi atrevido o suficiente para empregar três “mellotronistas” em sua formação. Para qualquer pessoa familiarizada com a insegurança irritante do mellotron, especialmente em apresentações ao vivo, é impressionante que a banda conseguiu gravar e fazer turnês por dois anos, sem que houvesse algum problema com o delicado instrumento.

A banda foi formada em Leicester, no início de 1970 e era constituída por Pat Moran (vocal), Ray Martinez (guitarras), Kips Brown (teclados), Pique Withers (bateria) e Adrian Maloney (baixo), os quais já haviam tocado em várias bandas locais.

Há males que vem para o bem, diz o ditado: Após um show em Cardiff, a van da banda quebrou em algum lugar no campo galês, coincidentemente muito perto de onde o produtor e engenheiro de som Kingsley Ward criou recentemente o Rockfield Studios. Ward, mais tarde, se vangloriava com a “coincidência de encontrar um grupo com um automóvel quebrado em sua própria cidade natal, quando se passou meses, em busca por todo o país, de novos talentos”. Ele ficou particularmente intrigado com o fato de que a banda possuía um Mellotron, e convidou-os, na semana seguinte para fazer um teste e o resultado foi “bom o suficiente para querer me envolver com eles” . A banda estava ensaiando no Rockfield quando o produtor Gus Dudgeon (David Bowie, Elton John) ouviou-os tocando e manifestou interesse em produzi-los. Alguns meses mais tarde, as sessões tiveram lugar no Rockfield e Trident Studios, em Londres, e o álbum resultante foi lançado pela gravadora RCA/Neon em 1971.

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Com uma combinação de mellotrons reunidos, guitarras e vocais melódicos, o som é comparável em alguns aspectos com o Moody Blues ou os momentos mais pastorais do King Crimson. Uma dramática capa tripla concebida para o álbum tornou-o favorito entre os colecionadores de vinil. Já li comentários de que este seria um álbum conceitual, ou pelo menos teria um tema para ele. Como já enfatizado, o mellotron é destaque em tudo, menos em duas faixas do álbum original. Também não é encontrado nas três bonus tracks. Apesar de que, três dos cinco membros da banda tocam esse instrumento, não significa que eles tiveram três mellotrons ao mesmo tempo no estúdio ou no palco.

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Capa tripla do Lp

A faixa de abertura, “The Prisoner (Eight by Ten)” tem uma ótima introdução com muito mellotron antes de ouvirmos leves sons de tambores e o vocal melancólico. O órgão também se torna presente em alguns trechos da canção. “Grail” é uma faixa interessante com seus vocais misteriosos e que contem uma boa sessão instrumental. Ao final há um curto trecho de mellotron acentuado pela guitarra. “Boats” é uma canção envolvente e bonita, uma pequena peça acústica, apresentando um lindo dedilhado de guitarra. “Shipwrecked Soldier” tem uma característica de canção de protesto dos anos 60, com destaque para a bateria, tipo uma marcha de infantaria e com um trabalho de guitarra envolvente. O mellotron se destaca em vários momentos da canção.

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Capa tripla interna do Lp

O lado B inicia com “Golden Fleece”, com o mellotron a todo o vapor. Guitarra, baixo e bateria se juntam. Os vocais se destacam e um belo solo de guitarra é precedido por um solo de órgão. Quase ao final, mais destaque para o mellotron, com o dedilhado de guitarra se unindo a ele. Em “Inside Out”, o órgão é o destaque e a bateria soa mais encorpada. Temos um interlúdio que parece ser um som de xilofone (ou seria o mellotron?), A seguir temos a balada “Song To Absent Friends (The Island)” com destaque para o piano, com sua bela melodia. Uma canção triste, evidenciada pelo vocal de Moran e o ritmo lento. O álbum se encerra com “Gazing”, que é marcado pela ausência da voz de Moran por quase um minuto e meio. Muito mais mellotron nessa faixa e também a guitarra de Martinez, num ritmo crescente, num estilo mais bluesy e também um pouco de improviso. As faixas bonus são interessantes, e mostram um som um pouco mais distanciado da proposta inicial. Enfim, nenhuma obra-prima, mas um álbum relaxante, melódico e agradável.

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Selo do Lp

Depois de uma turnê pelo Reino Unido, abrindo para o Velvet Underground, juntamente com Keith Christmas & The Sutherland Brothers, a banda se separou em 1972 após tentativas abortadas de gravar um segundo álbum. Duas músicas inéditas, Hendre Mews e A World Full Of Whispers, dessas sessões (com novo baixista Peter Decindis) apareceram pela primeira vez em 1992, quando o álbum foi editado em cd, junto com “Fools Gold” das primeiras sessões do álbum. Moran mais tarde se tornaria produtor e trabalharia com Van der Graaf Generator, Iggy Pop, Robert Plant e Lou Gamm. Infelizmente Pat morreu no início de 2011. Martinez se tornou um guitarrista de estúdio, trabalhando com Alkatraz, Michael Chapman, Gypsy, Tim Rose e Robert Plant. Kip Brown acabaria tocando com bandas locais em Leicester enquanto que Adrian Malone abandoria a cena musical. Pique Whiters seria baterista de estúdio para o Rockfield Studios, onde tocou com Dave Edmunds e Magna Carta. Depois de mais sessões de estúdio, ele se juntaria ao Dire Straits, com o nome de Pick Withers, tocando em seus primeiros quatro álbuns.

Em 2007 foi lançado, inicialmente no Japão e Estados Unidos, o álbum Spring 2, com o material gravado e demos para o segundo disco da banda. No ano seguinte, o selo Akarma lança Second Harvest, com as mesmas faixas.

Track listing:

1. The Prisoner (Eight By Ten)
2. Grail
3. Boats
4. Shipwrecked Soldier
5. Golden Fleece
6. Inside Out
7. Song To Absent Friends (The Island)
8. Gazing

Bonus tracks:

9. Fools Gold (1st album outtake)
10. Hendre Mews (from unreleased 2nd LP)
11. A World Full Of Whispers (from unreleased 2nd LP)

4 comentários

  1. Francisco

    Spring é mais uma daquelas bandas dos anos 70, que não tiveram muita sorte e, após uma curta carreira, sumiram no tempo. As primeiras músicas que ouvi dessa banda foram “Gazing” e “Grail”. A beleza dessas composições me fez procurar outras faixas do grupo, e realmente, para quem curte mellotrons e guitarras melodiosas, Spring é uma boa pedida. Foi lançado um segundo álbum da banda, com gravações de 1973, que não foram lançadas. O álbum com essas gravações é chamado de “Spring 2” ou “Second harvest”, e foi lançado em 2008, salvo engano. Dessa leva, destaco “Jack & Jim” e “A painted ship”. Ótimo artigo! Aguardo o texto sobre a banda Tonton Macoute.

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    • Leonardo

      Obrigado, Francisco! Os próximos serão as matérias sobre o Indian Summer, Tonton
      Macoute e Raw Material.

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  2. Ronaldo

    Muito legal, Leonardo! gosto do Spring…Shipwreck Soldier acho um lindo som…mas são poucos momentos do disco em que os três mellotrons são executados simultaneamente. O mesmo acontecia com o Fleetwood Mac e suas três guitarras…em estúdio há pouquíssimos momentos em que as três foram utilizadas.
    Abraço!

    Responder
    • Leonardo

      Obrigado, Ronaldo! Realmente o Spring é uma banda peculiar e muito interessante.

      Responder

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