O fim de uma era

Por Davi Pascale

Muitas vezes, um trabalho ao vivo serve para registrar uma turnê muito bem sucedida, um momento único na carreira de um artista. No caso do Cachorro Grande, esse álbum vai acabar se tornando o registro de uma era. O fim da chamada formação clássica. Para quem está por fora, o guitarrista Marcelo Gross, membro fundador e um dos principais compositores do conjunto, foi mandado embora.

Em matéria para a Folha, o vocalista Beto Bruno deixou claro que o afastamento do músico, principalmente no processo de composição dos 2 últimos discos, foi um dos principais motivos para que ocorresse seu desligamento. Para quem não acompanha a banda tão de perto, Costa do Marfim e Electromod foram dois discos que se distanciaram um pouco da sonoridade clássica do Cachorro Grande, e apresenta os músicos flertando com o eletrônico. Atitude que dividiu os fãs e, pelo visto, a banda. A saída de Gross é um grande baque. Além de ter ajudado a compor alguns de seus principais sucessos, o músico era tido como um dos favoritos dos fãs.

O Cachorro Grande sempre foi uma banda boa de palco. Quem já teve a oportunidade de assistir uma apresentação dos rapazes sabe que seus shows são sempre explosivos e que os músicos têm bastante atitude. Portanto, o registro é bem-vindo. Já nas primeiras músicas do set – “Você Não Sabe O Que Perdeu” e “Hey Amigo” – nota-se uma empolgação fora do comum. Beto Bruno se destaca nessa trinca inicial demonstrando um vocal forte, cheio de garra.

Conforme o show vai avançando, os músicos vão se soltando. Já em “Desentoa”, podemos notar Marcelo Gross soltando as asinhas e arriscando alguns improvisos. O baixista Rodolfo Krieger assume os microfones em uma versão enérgica de “Deixa Fudê”, e mantém o nível do show. Se nos discos mais atuais os garotos vêm brincando com a sonoridade eletrônica, o mesmo não ocorre nos palcos. Aqui continua tudo como sempre foi. Com as guitarras de Gross e os vocais de Beto se sobressaindo.

O repertório entrega o que o título sugere, ou seja, um set focado em seus principais clássicos. Como os músicos optaram por fazer um álbum simples e já possuem um bom tempo de estrada, sempre vai ter algo que gostaríamos de ouvir e não entrou. Contudo, não há como negar que o repertório foi muito bem escolhido. Os números essenciais estão aqui, de fato.

“Bom Brasileiro” vem na sequencia demonstrando que os gaúchos também são bons para criação de baladas. No final dessa, Gross se destaca com um bonito solo. Seu primeiro grande momento no show. “Que Loucura” vem à seguir. Sempre gostei do trabalho de bateria desse som. Simples, mas casa perfeitamente com a música. E aquela levada explorando bumbo e caixa na ponte e no refrão, sempre me remeteu aos Beatles, algo que me agrada bastante.

“As Próximas Horas Serão Muito Boas” resgata a pegada rock n roll do espetáculo e abre espaço para a psicodelia de “Como Era Bom”, único som resgatado do elogiado Costa do Marfim. De todas as canções do disco é a que mais se aproxima da sonoridade clássica dos garotos. A ordem das músicas possui uma sequencia lógica. “Roda Gigante”, vinda do álbum Todos Os Tempos, ajuda a manter a pegada psicodélica.

O repertório foi realmente escolhido à dedo. A performance é muito boa. Mais do que isso, é um trabalho extremamente honesto. A impressão que dá, inclusive, é que os músicos fizeram um autêntico álbum ao vivo, sem aquela tonelada de overdubs. Ouvindo com atenção é possível pegar um ou outro deslize, inclusive. Gosto dessa ideia do disco ser cru. Contudo, preciso fazer uma crítica. A sonoridade final ficou um pouco magra, carecendo de um pouquinho de brilho. Às vezes, me dá a impressão de que o CD não foi devidamente masterizado. Se minhas suspeitas estiverem certas, trata-se de um erro e tanto.

Muitos artistas criam um momento no set onde o ritmo cai um pouquinho para depois voltar a explodir no final. Foi isso o que fizeram. Temos uma sequência de 4 (ótimas) baladas já perto do fim do show; a beatle “Debaixo do Chapéu” e a animada “Velha Amiga” são as primeiras a aparecerem, mas o publico levantou de verdade na divertida “Dia Perfeito”, onde temos Marcelo Gross e Beto Bruno dividindo os vocais. “Sinceramente” traz a curiosa participação de Samuel Rosa, líder do Skank. Não é segredo para ninguém que as duas bandas possuem estilos diferentes, mas também não é segredo para ninguém que ambos os artistas são fãs declarados dos rapazes de Liverpool (escute Cosmotron e tire suas conclusões). E a verdade é que a parceria funcionou bem, ficou bacana. Para encerrar a apresentação, os músicos resgataram seus dois primeiros sucessos: “Lunático” e “Sexperienced”. Ambos, executados com uma garra invejável.

Em resumo, Clássicos dá uma bela dimensão do que é uma apresentação do Cachorro Grande e também da bonita trajetória que construíram. Os músicos se encontravam em uma ótima fase. Se a qualidade de gravação fosse um pouco melhor teríamos um trabalho quase que irretocável. Realmente, uma pena ver os caras se distanciando à essa altura do campeonato. Vamos ver o que eles vão aprontar na nova fase…

Nota: 8,0 / 10,0

Faixas:

  • Introdução (Interligado)
  • Você Não Sabe O Que Perdeu
  • Hey Amigo
  • Conflitos Existenciais
  • Desentoa
  • Deixa Fudê
  • Bom Brasileiro
  • Que Loucura
  • As Próximas Horas Serão Muito Boas
  • Como Era Bom
  • Roda Gigante
  • Debaixo do Chapéu
  • Velha Amiga
  • Dia Perfeito
  • Sinceramente
  • Lunático
  • Sexperienced

11 comentários

  1. Manoel

    Conheci a banda através da musica “Que Loucura”. Eu só gosto do primeiro disco dos caras. Em se tratando também do Skank, tanto um quanto o outro são fãs declarados dos Beatles (Aliás, quem não é?). Quando iniciei a audição de Cosmotron, aquilo me remeteu a Tomorrow Never Knows. Gosto muito do vocal rasgado do vocalista. Parabens pela sua resenha, Davi, pois eu acho muito dificil analisar um álbum, pois isso requer conhecimento do que fala e abrangência.

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    • Anônimo

      Eu gosto do segundo também, foi muito bem gravado e é um o registro mais cru e sujo deles. Tanto o repertório daquele disco quanto os shows desse período foram os melhores da carreira deles. A Cachorro Grande fazia muita bandinha que se dizia “hardcore” naquela época parecer uma bandinha pop tamanho o barulho e a agressividade que o som deles tinha. E fora o carisma deles em cima do palco, eles são bons músicos mesmo.

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      • Davi Pascale

        O disco que veio encartado no Outra Coisa. Por alguma razão sempre achei as músicas desse disco melhores ao vivo do que no álbum…

      • Anônimo

        Davi, eu também consegui esse cd comprando a finada revista do Lobobão digo Lobão, hoje lelé da cuca e enxergando comunismo até embaixo da cama. Voltando à Cachorro Grande, esse álbum “As Próximas Horas Serão Muito Boas” é muito bom mesmo. E como você mesmo observou, as músicas ficavam ainda melhores ao vivo. A Cachorro fazia um Dead Fish da vida parecer uma bandinha pop e não de “rárdicori”, tamanha era a podreira deles ao vivo.

    • Davi Pascale

      Sim. A primeira música do Cosmotron (Skank) tem a mesma bateria de Tomorrow Never Knows. Fato…

      Sempre gostei do Cachorro Grande. Acompanho desde o primeiro álbum também. A primeira que ouvi acho que foi Sexperienced. Obrigado pelo elogio…

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  2. Ronaldo

    Achei pelo título que era a banda tendo feito covers de clássicos do rock…mas são eles próprios com uma boa dose de pretensão se chamando de clássicos. Belo texto!
    Abraço

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    • Davi Pascale

      Na verdade, vejo mais como uma brincadeira por eles terem regravado os clássicos da banda… Obrigado pelo elogio…

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  3. Anônimo

    Pelo menos eles não inventaram de tocar Helter Skelter e fazê-la parecer música de acampamento cantada por moleques espinhentos. hahahahaha

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  4. Anônimo

    Esses caras começaram bem tocando um som de garagem que remetia à um Stooges, The Who, Beatles, Stones e de repente eles mudam o estilo e se tornaram uma bandinha chata pacas querendo soar como Stone Roses, Oasis e Happy Mondays. Fora a arrogância e o estrelismo deles. Certa feita me deparei com uma entrevista deles dez anos atrás aonde eles afirmavam que “não aguentavam mais frequentar a Rua Augusta em São Paulo porque os fãs ficavam incomodando eles e pedindo autógrafo. O mais arrogante deles sem dúvida sempre foi o Groselha digo Gross. Ô sujeitinho de nariz empinado rapaz!

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    • Davi Pascale

      Eu gosto do trabalho deles de um modo geral. O ultimo foi o que achei mais fraco. Mas realmente, a influência de britpop é tão latente quanto a de British Invasion…

      Agora… Será que essa declaração não foi em ar de zoeira? Os caras são meio zoeiros e eles não são uma banda tããão assediada assim… Quanto ao Gross, troquei ideia, pessoalmente, com ele 2 vezes e ele foi muito educado nas 2. Estranho…

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