Por Alisson Caetano e Nilo Vieira

Não havia opção melhor para estreia de artistas nacionais nesta seção. Além do Sepultura ser a banda brasileira mais conhecida mundo afora, sua discografia é repleta de nuances – mesmo a divisão em fases, separada por vocalistas, rende blocos heterogêneos. Dessa forma, procuramos elencar os catorze álbuns do grupo com viés pessoal (repetir a mesma ordem de sempre é muito chato!), sem esquecer do critério estético. A lista ficou polêmica? Acertamos? Sinta-se à vontade para opinar, e também colocar sua ordem nos comentários para fomentar a discussão.


14. Machine Messiah [2017]

Por Nilo Vieira:De modo geral, a fase Derrick Green é caracterizada por boas ideias (líricas e musicais) com execuções desfavoráveis. Seu trabalho mais recente é um exemplo certeiro. Embora interessantes no papel, as inserções de ritmos regionais, arranjos orquestrais e introduções climáticas pouco adicionam à semântica das canções. Em “Phantom Self” e “Sworn Oath”, por exemplo, cria-se um contraste incômodo: o Sepultura tem a capacidade de ir além do metal, e parece trabalhar de modo burocrático dentro dele. As passagens não metálicas acabam como mero adereço para um groove metal pouco arrojado, e a sensação que fica é a do passado sendo requentado com menos brilho. Todavia, não deixa de ser irônico que os poucos bons momentos de Machine Messiah estejam em músicas com riffs na veia do thrash, como na direta “Vandals Nest” e na instrumental prog “Iceberg Dances”, que não chegam a ser destaques na discografia como um todo. Nas letras, o tom alarmista faz com que temas atuais e urgentes (robotização da sociedade, dependência tecnológica crescente) soem como um episódio de Black Mirror roteirizado por Andreas e Derrick. No fim, o conteúdo faz jus à bagunça que é a capa, pintura da artista filipina Camille Della Rosa.


13. Nation [2001]

Por Nilo Vieira: A concorrência pela lanterna é acirrada, e quem coloca Nation em tal posição não está errado. Em quinze faixas, uma verdadeira salada mista é apresentada. Hardcore, participação especial do grupo de violoncelistas Apocalyptica, intro dub em “Tribe to a Nation”, Derrick Green cantando em português no refrão de “Uma cura” e, claro, o horrendo hino aos fãs “Sepulnation” – até hoje tentam emplacar como clássico. Iggor Cavalera, até então força motriz do Sepultura, soa acomodado até demais e o mesmo vale para Andreas. E ainda assim, os melhores momentos do registro são músicas cadenciadas, mais especificamente “The Ways of Faith” e a meditativa “Water”. É verdade que nesse ato de “atirar pra tudo que é lado”, poucos são os acertos. Todavia, dois pontos colocam o álbum acima de Machine Messiah: a produção correta (não mais que isso) de Steve Evetts e a real ousadia em um período incerto, onde a gravadora Roadrunner claramente tinha preferência por Max Cavalera e seu Soulfly. Não parece loucura afirmar que Machine Messiah inclusive toma este álbum como inspiração em determinados momentos. Na “disputa” contra a banda de Max à época, o Sepultura ordenhou a sonoridade de Roots de modo menos derivativo. Nada disso eleva o aproveitamento baixíssimo de Nation, porém. E pensar que existe uma versão do disco com cinco bônus…


12. A-Lex [2009]

Por Nilo Vieira: Embalados pelo relativo sucesso crítico do antecessor, o Sepultura apostou novamente em um álbum conceitual – dessa vez baseado na clássica obra Laranja Mecânica. Pena que as semelhanças positivas parem por aí: A-Lex é marcado pelo excesso de colesterol. As quatro instrumentais homônimas se prolongam demais, do mesmo modo em que faixas curtas como “Enough Said” e “Forceful Behavior” parecem só inchar o repertório. Nem no aspecto lírico estas parecem adicionar alguma coisa ao conceito. Riffs monocromáticos e solos mirrados reforçam o timbre oleoso de Andreas. A brincadeira orquestrada em “Ludwig Van” se torna ponto alto não só pelo ecletismo do grupo, mas por tirar as seis cordas do primeiro plano por um tempo. Vale também destacar a dupla de abertura, uma sapecada sem rodeios que remete à era de ouro da banda. A produção exagerou nos graves de guitarra, porém realçou a excelente performance de Derrick Green (tecnicamente, muito mais vocalista que Max Cavalera). Fosse livro, daria pra dizer que a capa – escultura de Kris Kuksi – engana bem. Como não é o caso, cabe reformular a anedota dos entusiastas literários: leia o livro, também veja o filme, não insista no disco. Stanley Kubrick se saiu melhor sonorizando sua versão para o livro de Anthony Burgess.


11. Roorback [2003]

Por Alisson Caetano: O primeiro disco pela SPV – Steamhammer é bem quisto entre fãs dessa fase do Sepultura por ser aquele que mais joga em terreno seguro. A ênfase em andamentos diretos e mais hardcore do disco anterior deram mais espaço para a volta de ritmos quebrados e para o groove, ou seja, uma familiaridade com a fase clássica do grupo. Se por um lado isso soa como ponto a favor, como nas ótimas “Godless” e “Apes of God”, com Andreas fazendo um ótimo trabalho em riffs mais dissonantes e um bom fundo atmosférico, o restante não empolga da mesma forma e vai demais na segurança, sem nunca conseguir um resultado acima do mediano. Se não há aberrações musicais similares ao disco anterior, pesa muito contra o disco o desempenho vocal forçado e cheio de cacoetes de Derrick Green, jogando lá embaixo a apreciação de algumas músicas com boas ideias rítmicas, como em “Mind War”, que casa bem timbres de guitarra de hardcore com tempos quebrados, mas que dá nos nervos com a pronúncia cheia de maneirismos de Derrick, algo que não dá pra entender, visto o ótimo trabalho que ele fez em sua estreia. Hoje, é mais lembrado pelo bom cover de “Bullet in the Blue Sky”, do U2 (daqueles que podem ser considerados melhores que o original) do que por qualquer outra coisa.


10. Kairos [2011]

Por Nilo Vieira: O primeiro trabalho da banda pela gravadora Nuclear Blast gerou muitas expectativas. Além do selo alemão, o experiente Roy Z (guitarrista de Bruce Dickinson) seria o responsável por produzir o “disco mais brutal da história do Sepultura”, segundo Andreas Kisser. Se entrega pauladas competentes como “Mask”, “Seethe” e “No One Will Stand”, Kairos ainda assim não cumpre tal premissa. Muito por parte da direção de Roy que, se fez bem ao enxugar a gordura do repertório e timbres, por outro lado investiu em gravação digital muito padrão (típico da Nuclear Blast recente). Sua ideia de transformar “Spectrum”, antes mais direta, em composição climática também é questionável. Não menos que as letras banais, os interlúdios desnecessários e a versão operante de “Just One Fix”, do Ministry – um disco inspirado pela trajetória de décadas da banda com cover no meio? Quem assistiu o streaming das gravações na época também pôde constatar que o desempenho do baterista Jean Dolabella foi podado. Ao vivo o negócio funcionava melhor, vide as apresentações do Sepultura no Rock in Rio daquele ano. A opção de “estreia” em tons mais tradicionais rendeu um álbum competente, mas pouco marcante no geral.


9. Dante XXI [2006]

Por Alisson Caetano: A ambição do Sepultura não cessou nem nos momentos de maior incerteza do grupo. Após estabilizados com alguns lançamentos, o primeiro passo para fora de uma zona de conforto foi dado com um disco conceitual. Usando como inspiração a poesia épica A Divina Comédia, do escritor italiano Dante Alighieri, Dante XXI usa das metáforas teológicas do poema original para tecer críticas ao sistema político e social daquele período. A criatividade se mostra presente na variedade das canções, que tiram os excessos percussivos de outrora e conseguem uma boa mescla do Sepultura hardcore do Nation com inserções na medida de elementos sinfônicos medievais. Os singles dão uma noção interessante desta mescla, como na boa “Ostia”, música em mid-tempo e arranjos de corda criando uma atmosfera interessante (e em um raro momento onde Andreas é econômico nos solos). “Convicted In Life” dá sequência à parte inicial do disco com uma música mais comedida em experimentos, mostrando a veia mais porradeira que a fase Derrick tem a oferecer. Mesmo sendo o disco mais interessante instrumentalmente dessa fase, o disco peca pela simplicidade na abordagem do conceito. As letras, mesmo divididas entre Andreas e Derrick (nativo na língua inglesa), não se arriscam em passagem mais aprofundadas e esbarram em uma lírica rasa e simplista, como é o exemplo de “Nuclear Seven”, uma crítica ao sistema político globalizado extremamente clichê.


8. The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart [2013]

Por Alisson Caetano: A despeito do nome quilométrico, Mediator foi o primeiro disco do Sepultura, depois de uma sequência de discos conceituais, a não contar com uma trama que amarrasse as músicas em conceito único. Apesar da inspiração livre no filme Metropolis, clássico do expressionismo alemão, a banda preferiu por uma abordagem mais sutil para as letras do que algo mais grandioso. Isso dá um frescor muito bem vindo ao disco, sem fazer da experiência deste uma coisa ultra profunda. A produção, assinada por Ross Robinson, é uma de suas mais eficientes e joga a favor das faixas, dando ares mais sombrios e conferindo ao disco um extremismo extra para encaixar com a pegada de várias das letras do disco. Ainda que a banda esbarre no clichê das críticas fáceis e quase infantis, caso de “The Vatican”, continua sendo surpreendente que a banda consiga mandar uma faixa pesada, atmosférica e com dinâmicas emprestadas do death metal, coisa que não se via desde a fase com Max. Há também um lado mais “humano”, tanto pela escolha acertada de “Da Lama Ao Caos”, clássico da Nação Zumbi, para encerrar o registro com um dos momentos mais interessantes do registro, quanto por “Grief” que, apesar de piegas, é uma lembrança da tragédia na boate Kiss e à todas as vítimas do incêndio. Ao se livrar de conceitos muitas vezes inchados e desnecessários, focar esforços em músicas com núcleos mais bem definidos e que falem isoladamente, o Sepultura conseguiu um resultado digno de elogios.


7. Against [1998]

Por Alisson CaetanoRoots ganhou duas sequências lógicas após toda a briga que resultou na saída de Max da banda. O primeiro disco do Soulfly foi a primeira a dar seguimento, e hoje mais soa como uma tentativa datada de surfar no movimento nu-metal que o próprio Roots ajudou a dar forma. Against, por outro lado, é uma sequência mais inteligente e versátil do que qualquer  coisa que Max fez posteriormente, e bote na conta seus discos com o Soulfly, Cavalera Conspiracy e Killer be Killed. Seguindo com as ideias percussivas do disco anterior, a banda, mesmo com o futuro posto à prova, deu-se a liberdade de dar espaço para o desenvolvimento de novas ideias. A adição de mais influências vindas do hardcore, seja pelas curtas “Drowned Out” e “Reza” (com vocal do João Gordo), ou pelas letras curtas e diretas, é algo que, curiosamente, dá mais dinâmica ao disco, diluindo a percussividade e o groove incessante com porradas mais certeiras. Quanto aos vocais, é o desempenho mais intenso e técnico de Derrick com a banda, dando bastante variação ao seu gutural e encaixando bastante personalidade com sua veia hardcore. A rejeição pela substituição de uma personalidade tão carismática quanto era o Max fez de Against um saco de pancadas fácil para qualquer um. O disco mais injustiçado da carreira da banda, facilmente.


6. Roots [1996]

Por Nilo Vieira: Mais de vinte anos depois, Roots segue provocando reações inflamadas. Detratores seguem com o discurso clichê de “se venderam/ viraram paga pau de gringo”. Na antemão, a admiração ufanista que afirma que “eles inventaram o new metal/ fizeram o disco mais inovador já lançado por uma banda brasileira”. A verdade está no meio termo: Roots é sim um trabalho ambicioso e influente, mas longe de ser irretocável. Considerando que os trechos tribais (influência do Neurosis) já eram centrais no antecessor e que o então “novo metal” começava a ganhar espaço (Korn e Deftones abriram turnês de Ozzy Osbourne), é questionável chamar o disco de visionário. A sonoridade seca gerou canções com impacto ainda mais direto, mas também fez com que o tracklist repetisse variações de groove e discurso – embora as menções à Amazônia e ditadura militar sejam muito válidas. Goste ou não dele, Carlinhos Brown (o preterido inicial para o cargo era Naná Vasconcelos) é o único convidado especial que faz diferença em Roots: além de contrastar bem com Max no hit “Rattamahatta”, suas inserções percussivas em “Ambush” e “Endangered Species” são certeiras e criam atmosfera peculiar. No mesmo tom, “Itsári” (instrumental acústico junto do canto de cura “Datsi Wawere”) mostra o respeito do Sepultura pela tribo Xavante e impede que todo o conceito de Roots se torne algo meramente mercadológico. Apesar de oscilar entre hits absolutos com alto punch e valor de replay (“Roots Bloody Roots”, “Attitude” e “Rattamahatta”) e faixas menos marcantes (“Breed Apart”, “Dusted” e “Lookaway”), o saldo de Roots é bastante positivo. Inegável que esta fusão metálico-brasileira abriu muitas portas no gênero e fincou por definitivo a bandeira do país nele – junto de Holy Land, do Angra, lançado no mesmo ano.


5. Morbid Visions [1986]

Por Alisson Caetano: O charme de Morbid Visions está na honestidade que o disco emana. Gravado nas condições mais precárias possíveis, ele só viu a luz do dia por conta da vontade de alguns garotos de fazer a diferença em um ambiente nada propício para isso. Vivendo em uma Minas Gerais transpirando os efeitos da ditadura militar, o Sepultura é o reflexo de garotos cansados da repressão social expondo ao mundo o seu protesto na forma de guitarras barulhentas, podreira musical e letras satânicas porcamente traduzidas das bandas extremas europeias. Os mais experientes não se resguardam em dizer que está aqui um dos primeiros exemplares genuínos do estilo death metal  — foi lançado no intervalo entre Seven Churches do Possessed e o Scream Bloody Gore, do Death. A produção nada refinada e a falta de técnica de todo mundo envolvido — Max já confessou que ninguém sabia sequer afinar as guitarras — fez com que a brutalidade tomasse a linha de frente da obra. Verdadeiras pérolas, como “Mayhem”, a primeira versão de “Troops of Doom” e “Show Me the Wrath” mostram que, a despeito da podreira e das letras descaradamente ginasiais, existia um potencial absurdo no que os garotos podiam oferecer. Acaba que a principal fonte de críticas reservadas à este disco é, na verdade, as principais qualidades que ele possui. Morbid Visions é prova que não é necessário mais que um monte de boas ideias e força de vontade para fazer um disco que, na essência, é um dos mais empolgantes e divertidos que os mineiros conseguiram fazer.


4. Chaos A.D. [1993]

Por Nilo Vieira: A afirmação de que, antes de Chaos A.D., o Sepultura era apenas uma banda comum de thrash é purismo, mas não há como contrariar que o álbum foi ponto de virada em sua carreira. Percussão tribal inspirada no Neurosis, trechos industriais à la Godflesh e Ministry, ritmos regionais brasileiros, hardcore nova iorquino e o groove de afinações mais baixas do Pantera. Tudo está aqui, misturado de maneira harmoniosa ao thrash bruto de outrora. O resultado é o trabalho mais representativo do grupo. A produção de Andy Wallace é primorosa e realça a dinâmica entre os instrumentos: tudo soa encorpado, sem jamais precisar encobrir outrem. Nas letras, mesmo os versos panfletários de “Propaganda” e “Territory” – que casam com a urgência proposta no som – dizem respeito à pautas contemporâneas do Brasil. Em “Biotech is Godzilla” (com participação de Jello Biafra, do Dead Kennedys) e “Manifest”, abordando o massacre do Carandiru, estas surgem ainda mais específicas e mostram sujeitos antenados e críticos. Sem esquecer do resgate cultural em “Kaiowas”, tanto no uso da viola caipira como pela homenagem à tribo homônima. O único porém é o cover de “The Hunt”, do New Model Army. Nem de longe compromete, mas é muito corretinho e poderia ser substituído pela versão definitiva de “Polícia”, do Titãs, que acabou ficando pra bônus. Na lista de melhores discos nacionais dos anos 90 deste site, encabeçada por Chaos A.D., questionou-se “entre Arise e Roots, por que preferir o meio termo?” e parece que é uma pergunta que se responde sozinha. Dez anos após o clássico do Misfits de onde Max tirou a ideia para o título, o Sepultura renovou a trilha sonora para o fim do mundo neste LP que segue agradando gregos e troianos.


3. Beneath The Remains [1989]

Por Alisson Caetano: Há a história de que Max pegou uma cópia do Schizophrenia, pôs debaixo do braço e foi para os Estados Unidos em busca de um contrato. Se a história é romantizada ou não, o que importa é que deu certo. Com um contrato efetivo pela Roadrunner, a banda trouxe o produtor Scott Burns, hoje uma lenda do metal extremo e responsável por dar todo o molde do death metal da Flórida, para produzir o primeiro disco de uma fase mais profissional da banda. O risco de trazer um produtor com uma característica de produção tão forte poderia acarretar em uma quebra na personalidade da banda, mas felizmente isso não ocorre. Hoje ainda é difícil cravar se trata-se de um disco de thrash ou de death metal. Os riffs velozes fazem contraste com ótimas variações de andamentos e as primeiras mostras da capacidade do grupo em criar músicas com gooves mais que convincentes. Tecnicamente a banda evoluiu monstruosamente. Igor se revela um monstro na bateria com muita criatividade e segurança nas execuções. Também é a estreia “pra valer” de Andreas como guitarrista e compositor, já que boa parte do Schizophrenia já estava pronta quando chegou. Brutalidades como “Mass Hypnosis” e “Lobotomy” denunciam a influência que Andreas trouxe para a banda, com solos mais policromáticos e com uma pegada mais noise. Até Max, que facilmente era o integrante mais limitado do grupo, conseguiu melhorar seu gutural, dando mais fluidez sem deixar a profundidade de lado. Parte disso com ajuda do vocalista do Atheist, Kelly Schaefer, que além de ajudar Max na pronúncia das letras, compôs “Stronger than Hate”. Beneath the Remains foi a prova do potencial dos mineiros, já que vendeu bem para uma banda desconhecida e ganhou respeito dos fãs na época, uma ótima preparação para o auge que estava por vir.


2. Arise [1991]

Por Alisson Caetano: Enquanto até aqui não houveram tantas discordâncias significativas de posições, agora eu posso fazer um mea culpaArise é facilmente o auge em todos os sentidos para os mineiros, e não é nenhuma polêmica considerá-lo o melhor disco da banda (não está em primeiro na lista por um detalhe). Gravado na Flórida por exigência de Scott Burns — apesar do entusiasmo dele para vir ao Brasil, o mesmo desistiu da ideia depois de ter alguns de seus equipamentos roubados –, pela primeira vez a banda estava totalmente confortável para fazer o disco nas melhores condições possíveis. O Morrisound Studios encaixou como uma luva para as ideias do quarteto, que experimentou mais incisivamente com idéias industriais e percussões tribais, muito bem inseridas diretamente na forma de Igor ao tocar bateria. Cada influência trazida pela banda, seja das mais óbvias, como as vindas do hardcore europeu, até as menos óbvias, como ideias de dissonâncias e colagens sonoras, foram primorosamente trabalhadas para se tornarem homogêneas no disco, seja pela atmosférica e densa “Desperate Cry”, um épico que em pouco menos de 7 minutos de duração, consegue passar tantas nuances de maneira tão intensa que muita banda progressiva sonham em conseguir, ou em “Under Siege (Regnum Irae)”, uma abordagem distinta de uma crítica constante nas letras do Sepultura (religião), com uma música cadenciada e com um trabalho de guitarras de Andreas emprestando vários conceitos de bandas industriais, mostrando a diferença entre inspiração e cópia barata. Um disco basicamente perfeito, onde nem um cover estraga o resultado (sejamos francos, “Orgasmatron” é muito melhor aqui do que em sua versão original), que ainda serve de referência para lembrar o que era a banda em sua glória máxima.


1. Schizophrenia [1987]

Por Nilo Vieira: Muito se fala em como a entrada de Andreas Kisser elevou o nível musical do Sepultura, mas a verdade é que Jairo “Tormentor” Guedes compôs 90% de Schizophrenia antes de sair. Isso nos leva então, ao único registro da banda com “três guitarristas” que, apesar de sanduichado entre a estreia cult e o sucesso internacional de Beneath the Remains, é seu disco mais brutal. A transição entre o metal rústico e maior sofisticação instrumental permite ouvir uma banda tanto madura quanto na flor da idade, de modo similar a Ride the Lightning, do Metallica – com direito até à uma longa faixa instrumental, “Inquisition Symphony”. Os solos estão mais elaborados (vide “To the Wall”), enquanto a violência dos riffs rende uma sonoridade híbrida que encontrava poucos equivalentes na época, onde o metal extremo estava ainda em período formativo. Blasfêmias juvenis dão espaço à versos pessimistas, e nem o nível primário de inglês diminui tamanho niilismo. Reclamar da produção a esta altura do campeonato é de um preciosismo arrogante: além de gravações hi-end serem algo para poucos afortunados então, a sujeira dos timbres joga à favor da estética proposta aqui. Chame de jeitinho brasileiro ou DNA subdesenvolvido terceiro mundista, o fato é que Schizophrenia é (mais uma) prova de que o cenário nacional desde então sabia imprimir personalidade particular na música pesada, independente das (várias) dificuldades. A gravadora Cogumelo pode se gabar de, no mesmo ano, ter lançado dois registros seminais do metal brasilis. E nós aqui seguiremos celebrando tal legado. Melhor disco do Sepultura, e ponto final.

 

28 comentários

  1. Diogo Maia de Carvalho

    A minha lista difere em vários pontos. Aqui vai, só que do melhor ao pior:

    1º – Beneath The Remains
    2º – Chaos A.D.
    3º – Arise
    4º – Roots
    5º – Machine Messiah
    6º – The Mediator Between Head And Hands Must Be The Heart
    7º – A-Alex
    8º – Schizophrenia
    9º – Dante XXI
    10º – Against
    11º – Kairos
    12º- Morbid Visions
    13º – Roorback
    14º – Nation

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  2. André Kaminski

    Sério Alisson que você acha que o Max era o mais limitado do grupo? Sempre falaram que quem teve muito mais dificuldade de acompanhar a banda por muitos anos foi o Paulo Jr, que só gravou verdadeiramente o baixo em estúdio a partir do Roots. Hoje ele parece ter evoluído bem.

    No mais, a minha lista difere bastante porque sou um dos que gosta de uns discos da fase Derrick.

    1º – Beneath The Remains
    2º – Arise
    3º – Schizophrenia
    4º – Dante XXI
    5º – Roots
    6º – A-Lex
    7º – Morbid Visions
    8º – The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart
    9º – Kairos
    10º – Chaos A.D. (o que menos gosto da fase Max)
    11º – Machine Messiah
    12º – Roorback
    13º – Nation
    14º – Against

    Sim, eu gosto muito de A-lex principalmente pelo Jean Dolabella que, como diz o craque Neto, “é um baita de um baterista”.

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    • Alisson Caetano

      Sim, o Paulo é meio nulo na banda, mas ainda é operante. O Max tem boas ideias nessa fase clássica, mas como vocal ele só aprimorou a partir do Beneath e como guitarrista ele não fazia mais do que dar peso para as músicas mandando uns power chords básicos, já que a guitarra dele só tem as 4 primeiras cordas e várias vezes ele só usa como enfeite.

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    • Giroud fazendo gol na Holanda

      Já ouvi gente falando que o Paulo gravou a partir do Arise, do Chaos, do Roots… será que ele mesmo nunca se pronunciou? kkkkkk

      No mais, estranha a posição do Chaos AD na lista. Teria alguma razão em particular?

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      • André Kaminski

        Cara, não gosto muito de “Kaiowas”, “Amen” e o cover da “The Hunt”. Nem mesmo “Refuse/Resist” me envelheceu bem nos últimos tempos. Nada em particular a respeito das escolhas sonoras da banda, é questão mesmo de que o disco nunca “bateu” comigo, diferente dos que estão acima dele.

    • El comentarista

      Inclusive lembrei agora que naquele documentário do Kairos o Xisto fala “o Jean me ajudou a encontrar as notas certas, pois ele também toca baixo… melhor que eu!” Hauahuahha

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  3. Diogo Bizotto

    Em se tratando de Sepultura, a coisa mais fácil é escolher os quatro mais bem colocados. Depois deles, há uma diferença bem nítida em relação a qualquer outro. Difícil, ao menos pra mim, é decidir se “Beneath the Remains” ou “Arise” ocupa o primeiro posto. Mais difícil ainda é ordenar a sequência de discos entre “Against” e “Machine Messiah”, pois, com uma ou outra exceção, não variam tanto assim de nível, é mais questão de preferência pessoal, por isso não achei nenhum grande absurdo nessa lista. Ok, exceção talvez ao fato de “Machine Messiah” ter ficado abaixo de “Nation”. Achei até maldade. Não é um grande disco, mas é facilmente superior ao desconjuntamento de “Nation”. Aliás, lembro bem que, desde a época em que lançaram “Nation”, nossa imprensa musical chapa branquíssima vem com o papo furado de “agora o Sepultura se encontrou”, “agora vai” e opiniões afins, chegava a ser cansativo e previsível. Dava inclusive a impressão de que a banda estava sempre precisando superar um trauma e mostrar seu valor. Aquele elogio que mais parece reforço positivo do que um elogio autêntico.

    No mais, achei um pouco estranho o fato de duas pessoas dividirem uma seção como essa, que não envolve apenas escrever pequenas resenhas dos discos, mas ordená-los de forma conjunta. Se a dupla chegou a um acordo, bem, então está ok. Também achei que algumas das resenhas ficaram mais com cara de discografia comentada do que como a seção pede, mas isso não é tão fácil assim, não tomem como uma grande crítica.

    De qualquer maneira, o Sepultura foi uma escolha acertada para dar continuidade à seção. É uma banda de vulto, discografia longa e digna do debate. Por ora fico devendo minha lista ordenada, pois ainda preciso dar uma reouvida em alguns álbuns, mas logo devo trazê-la por aqui.

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    • O Comentarista (Fake do Alisson)

      Fala, patrão. Agradeço pelo comentário, respondendo por partes:

      1) Nós dois sabíamos que o Machine na lanterna causaria polêmica, mas não foi uma decisão forçada – tanto que até considerei o Nation em tal posição. De modo geral, não temos muito apreço por discos recentes “volta às origens” de bandas thrash e, como argumentei ali, pesou que Nation inclusive é meio referência para Messiah em alguns pontos. Quanto à repercussão, concordo, e acho que no âmbito dos fãs o negócio é pior ainda…

      2) Sim, foi em comum acordo! A divisão aconteceu porque, conversa indo e vindo, os dois sugeriram o Sepultura. Quanto aos textos, entendo e concordo. Eu mesmo ficava na dúvida (“será que tá muito direto? será que tem muita coisa?”) e, sem estar no WordPress pra ter a noção exata do tamanho do bloco, acabei indo na fé. De toda forma, já surgiram ideias para os próximos abordados, e estamos aí – sempre aprendendo!

      Valeu!

      Responder
      • Diogo Bizotto

        Sinto esse lance “volta às origens” mais forte no “Kairos”, mas aí eu posso estar enganado, pois ainda estou devendo audições mais detalhadas dos últimos discos. Um fato que achei positivo no “Machine Messiah” é que o Andreas Kisser largou um pouco de mão aqueles timbres excessivamente gordurosos e que contribuem pra falta de dinâmicas sentida há muito tempo, além de evidenciar como parece que ele ficou mais preguiçoso nas duas últimas décadas.

  4. Davi Pascale

    Minha lista é essa aqui:

    01) Chaos A.D.
    02) Arise
    03) Beneath The Remains
    04) Roots
    05) Roorback
    06) Kairos
    07) Machine Messiah
    08) Schizophrenia
    09) Nation
    10) Dante XXI
    11) The Mediator Between Head And Hands Must Be The Heart
    12) Against
    13) A-Lex
    14) Morbid Visions

    Responder
  5. Diogo Bizotto

    No fim, o conteúdo faz jus à bagunça que é a capa, pintura da artista filipina Camille Della Rosa.

    Eu vejo essa capa e não consigo deixar de pensar que parece coisa de banda prog italiana.

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  6. CLEIBSOM CARLOS

    Para mim, de longe, o NATION é o melhor disco do SEPULTURA da fase Derrick! Talvez por ser “experimental demais” ele cause essa ojeriza nas pessoas, mas como gosto de coisas mais ousadas, o disco me desce muito bem!

    Responder
    • Diogo Bizotto

      Acontece, normal. Vejam o exemplo do nosso amigo Mairon, que prefere o “Hot Space” em se tratando de Queen. Perto disso, considerar “Nation” o melhor com Derrick até que é bem aceitável.

      Responder
      • Diogo Maia de Carvalho

        E acha o Never Say Die o melhor do Sabbath, haha.

      • Diogo Bizotto

        Bah, havia até esquecido dessa… Não sei qual é a escolha mais indigesta!

      • Fake do Alisson

        Já comentei e repito: esse velhote é um desafio pra ciência!

      • Diogo Bizotto

        Claro! Caso contrário, seu nome sequer passaria por nossas cabeças.

  7. Diogo Bizotto

    Quanto aos vocais, é o desempenho mais intenso e técnico de Derrick com a banda, dando bastante variação ao seu gutural e encaixando bastante personalidade com sua veia hardcore.

    Pior que eu nunca havia parado para pensar nisso e, reouvindo o disco, talvez compartilhe da mesma opinião. Em outros pode até haver mais variação, mas isso não significa necessariamente ser melhor. “Against” é pé na porta, violência desenfreada e gritaria. Os vocais dele em “Boycott”, pra citar o exemplo mais evidente, fazem toda a diferença.

    Responder
  8. Diogo Bizotto

    Ok, correndo o risco de me arrepender amanhã mesmo, especialmente em se tratando das posições de 8 a 11. Do melhor ao pior:

    1. Beneath the Remains
    2. Arise
    3. Schizophrenia
    4. Chaos A.D.
    5. Morbid Visions
    6. Roots
    7. The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart
    8. Kairos
    9. Against
    10. Dante XXI
    11. Machine Messiah
    12. Roorback
    13. A-Lex
    14. Nation

    Responder
    • Fake do Alisson

      Lista bem coerente. Mostra que seu apreço maior é pela fase thrash, e que mesmo reconhecendo as qualidades entende que Roots não é impecável.

      Responder
  9. Diogo Maia de Carvalho

    Reouvindo o Beneath ontem no carro voltando pra casa eu talvez tenha chegado à conclusão de que ele é o meu disco de Metal “extremo” preferido, se bobear até mesmo o meu disco de Metal favorito de todos, mas aí é o tipo de conclusão à qual eu não devo chegar nunca.

    Responder
  10. Mairon

    Não consigo ouvir a fase Derrick, então, do Melhor ao Pior da era Max

    1. Bestial Devastation
    2. Morbid Visions
    3. Beneath the Remains
    4. Arise
    5. Chaos A. D.
    6. Schizophrenia
    7. Roots

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    • Fake do Alisson

      Pô, meio estranho preferir a fase podreirona e botar o Schizo depois do Chaos… mas doido que cada lista aqui é diferente!

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  11. Manoel

    A fase do Derrick não me apetece da mesma forma dos irmãos Cavalera, pois para mim parece muito forçada. Não sou do clube do Trash Metal, pois ouço coisas mais soturnas, melancólicos e progressivas, mas acho o Sepultura fenomenal. E Chaos AD. é qualidade pura e vibrante do inicio ao fim.

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  12. Anônimo

    O Sepultura deveria ter acabado assim que o mendigão do Max caiu fora. De lá pra cá os caras se transformaram em uma banda de Midas oooops digo de merda. Mas podemos dizer que eles tem o toque de midas, porque quando eles tocam os instrumentos só sai merda. E o Paulo Xisto é um sortudo do caralho, porque ele não toca nada(só bronha) e mesmo assim continua tocando na maior banda de metal nacional ganhando muito dinheiro e se divertindo. Se duvidar até o finado Sid Vicious devia tocar mais que ele, e o Paulo faria o Sid parecer o Billy Sheehan hahahahaha.

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  13. Regis Alexandre Scharf

    14 – Nation
    13 – Kairos
    12 – Against
    11 – The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart
    10 – Roorback
    09 – Dante XXI
    08 – Machine Messiah
    07- Morbid Visions
    06- A-Lex
    05 – Schizophrenia
    04 – Roots
    03 – Beneath the Remains
    02 – Chaos AD
    01 – Arise

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