Por Felipe Lemos

Os apreciadores de grandes séries televisivas podem estar familiarizados com aquele sentimento de orfandade, que aparece ao finalizarem uma obra que acompanharam por algum tempo, e que lhes impactaram significativamente. Produções de nível altíssimo, que nos passam o desejo de poder acompanha-las por muito mais tempo, e que nos transmitem um “vazio” quando chegamos ao fim, pois os episódios já faziam parte de sua rotina diária, e, inevitavelmente, teremos que “partir pra outra”. Esta é exatamente a sensação que What Does This Button Do?: Bruce Dickinson, An Autobiography (2017) nos passa ao terminarmos a leitura.

Bruce como piloto na The Book Of Souls World Tour (2016).

Lançada no Brasil no início de 2018 Bruce Dickinson, Uma Autobiografia – Para que serve este botão? (editora Intrinseca, tradução: Jaime Biaggio) nos traz com detalhes toda a jornada do lendário vocalista pelo mundo da música, dos aviões, da esgrima, dos livros e entre outras de suas inúmeras atividades. Iniciando pela infância complicada, sendo ele filho de pais muito jovens e criado pelos avós maternos, além de frequentar um colégio interno sofrendo com bullying; passando pelo descobrimento da paixão pela música e toda loucura exaustiva das turnês nos anos 80 com o Iron Maiden, e por fim contando com detalhes impressionantes como surgiu e como ele desenvolveu todo o amor pela aviação (Dickinson chega até a descrever especificações técnicas de algumas aeronaves e testes de Brevês para voo.)

A qualidade, a fluidez e o ótimo humor na escrita dispensam comentários, escancarando como Bruce Dickinson escreve bem, o que não é surpresa, visto que Bruce já havia lançado dois livros de ficção: The Adventures of Lord Iffy Boatrace (1990) e The Missionary Position – The Further Advances of Lord Iffy Boatrace (1992). Desta maneira, a leitura é super agradável e não cansa em nenhum momento, diferentemente da Biografia lançada em 2006 por Joe Shooman “Bruce Dickinson: Flashing Metal with Iron Maiden and flying solo” (“Bruce Dickinson: Os altos voos com o Iron Maiden e o voo solo de um dos maiores músicos do Heavy Metal”, lançada no Brasil em 2013 pela editora Gutenberg e tradução de Eliel Vieira) que se desenvolve de maneira muito mais densa e cansativa . Dickinson conta situações cômicas vividas em turnê como, por exemplo, quando o alter ego do grande produtor Martin Birch “Marvin” resolvia dar as caras; quando conheceu seu maior ídolo Ian Gillan; ou até mesmo quando passou por apuros em um avião de pequeno porte pilotado por ninguém mais ninguém menos que o baterista Nicko Mcbrain. Outra passagem que vale destaque é a turnê do álbum Powerslave (1984) em toda sua extensão e exaustão, evidenciando o show da banda no primeiro Rock In Rio de 1985, onde Bruce relata toda a histeria dos fãs brasileiros, a novidade de estar em um continente nunca visitado e os desastres técnicos do show em si.

Bruce Dickinson na World Slavery Tour (1984/1985)

Não espere encontrar detalhes da vida particular de Dickinson como casamentos, filhos, esposas, relacionamentos e minúcias de sua vida empresarial. Sua saída do Iron Maiden no final de 1993 também não recebe nenhuma grande descrição. Segundo o próprio, ele não quis introduzir em sua autobiografia elementos que poderiam tornar a leitura entediante. Até mesmo o fatídico episódio com Sharon Osbourne no Ozzfest em 2005 foi deixado de fora, talvez até mesmo para não dar holofotes ou a menor importância à atitude no mínimo infeliz da esposa de Ozzy Osbourne.
Vale destacar ainda dois capítulos do livro que são, de certa forma, especiais: O primeiro, chamado “Sob fogo cruzado”, narra o show que Bruce fez com sua banda solo na cidade de Sarajevo (hoje capital da Bósnia e Herzegovina), em pleno cerco da Guerra da Bósnia em 1994, na turnê de promoção de seu segundo disco solo Balls to Piccasso (1994), mas já contando com a formação da banda que gravaria o álbum Skunkworks em 1995. Bruce narra à maneira de como o fato de presenciar uma cidade sitiada e em guerra faz com que passemos a enxergar a vida de uma forma completamente diferente. Vilas inteiramente destroçadas, crianças órfãs e sem nenhum rumo, dentre outras situações terríveis, são contadas aqui. A banda decidiu fazer o show, mesmo com condições de segurança muito longe das ideais para trazer um pouco de alegria e luz a vida de toda aquela comunidade. Ambos, banda e público, arriscaram suas vidas para vivenciarem o show. Em 2017 foi lançado nos cinemas o documentário Scream for me Sarajevo, mostrando cenas e tudo o que envolveu este show. Posteriormente foi lançado em DVD e Blu-ray, além do CD e LP duplo com a trilha sonora do documentário (contendo algumas faixas raras, lançadas anteriormente apenas como faixas bônus em edições especiais de seus discos).

Bruce no show de Sarajevo (1994)

Já o segundo “Foda-se câncer”, apresenta toda a luta recente de Bruce contra a doença, desde o incômodo inicial de alguns sintomas e as pesquisas feitas por ele mesmo sobre os problemas, até o diagnóstico e toda batalha diária, causada por um tratamento devastador. Dickinson em nenhum momento apela para narrativas demasiadamente emocionais e com clichês de sofrimento mórbido. Os fatos são narrados aqui de forma direta e crua. Como o mesmo escreveu, vencer o câncer era o seu novo “trabalho” a partir de então. Assim, ele conta tudo o que fez para combater a doença, como por exemplo, suas imensas pesquisas sobre o tratamento e até medicamentos ou substâncias alternativas para auxiliá-lo no período. Em nenhum momento Bruce se demonstrou excessivamente pessimista ou otimista. Sempre se focava nos números reais das possibilidades calculadas pelos médicos. No fim, como todos sabemos, o multitalentoso frontman teve uma recuperação completa e muito mais rápida do que a esperada, como de praxe para ele, superando seus limites.

A autobiografia de Bruce Dickinson é uma leitura essencial para todo fã da Donzela ou até mesmo de Rock e Metal em geral. Mesmo para aqueles que já conhecem muitos detalhes da vida e carreira do vocalista, sua autobiografia consegue nos aproximar mais ainda de seu lado pessoal, pois nos passa a impressão de estarmos sentados em um pub ouvindo Bruce contar suas histórias.

Dickinson, Bruce. Uma Autobiografia: Para que serve este botão? [tradução Jaime Biaggio]. 1° Edição. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018.

11 comentários

  1. Micael

    Comprei recentemente em uma promoção, estou esperando chegar para ler, mas este texto já aumentou a ansiedade!

    Eu gostei da outra biografia citada na matéria, e, se esta for mesmo melhor, então sei que tenho uma grande leitura pela frente!

    Valeu, Felipe!

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    • Felipe Lemos

      Sim Micael. Acho que você vai curtir. Aqui temos o senso de humor característico de Bruce em muitas histórias, deixando a leitura mais leve e divertida. Muito obrigado por comentar. Abraço!

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  2. Felipe Lemos

    Bom, eu já esperava que Bruce fosse detalhar bastante sua outra grande paixão na vida em sua autobiografia, o que na minha opinião, não desmerece em nenhum momento o livro. Obrigado por comentar João!

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  3. Igor Maxwel

    O War Room de “Powerslave” não entrou dessa vez nessa semana, mas entrou a autobiografia do Sr. “Air Raid Siren”! Enfim, quem só tem a ganhar somos nós, fãs dele e do Maiden também.

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    • Todo dia o Igor Maxwell pedindo a mesma coisa de anos atrás num post diferente mesmo depois de ser avisado que não vai rolar

      🤔

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    • Fernando Bueno

      Igor…a ideia do War Room é sempre ter alguém das pessoas que participam que NUNCA ouviu o disco. Para conseguir isso nem a minha avó pode ser escalada pois quando eu ouvia lá no fim dos anos 80 ela deve ter enjoado do disco.

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      • Igor Maxwel

        Mas Fernandão, sabe o por que dessa minha insistência com o site fazer um War Room de “Powerslave”? É por que eu não gostei muito daquele War Room de “The Number of the Beast” feito em 2012, quando o terceiro disco do Maiden completava 30 anos de lançamento. Eu achei que ficou faltando alguma coisa nele… A ideia da Consultoria fazer esse War Room muito sugerido por mim, não é apenas para comemorar os 34 anos de Powerslave recentemente completados na segunda-feira dia 3 de setembro (um daqueles discos que não tem o que tirar nem pôr), mas também para compensar o que foi feito na já citada homenagem ao TNOTB, que pra mim, saiu um pouco meia-boca por um detalhe ausente, que eu acho que você sabe qual é esse detalhe… Mas enfim, que seja essa a última vez (definitivamente) em que falo desse assunto à exaustão aqui na Consultoria.

  4. Zué

    Olá…no site do submarino está meno de 20 reais…comprei ontem..fica a dica!

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