Por Micael Machado

Clockwork Angels é, ao que tudo indica, o último disco de estúdio da carreira do grupo canadense Rush. Lançado em 2012, o registro tem suas letras baseadas em uma história criada pelo baterista Neil Peart, e as músicas do mesmo serviriam para contar esta história, em um claro exemplo do que se costumou chamar de “álbum conceitual” no mundo da música. Acontece que, ao contrário de outros discos do mesmo estilo lançados ao longo do tempo, o conto imaginado por Peart é bastante difícil de ser compreendido quando escutamos apenas a versão musicada do mesmo. Para ajudar esta compreensão, além de expandir o universo do conto, o letrista do Rush uniu-se ao conceituado escritor norte-americano Kevin J. Anderson, e ambos escreveram juntos o livro de mesmo nome, lançado no mesmo ano do disco, e que no Brasil recebeu o título Os Anjos do Tempo (sendo lançado no país pela editora Belas Letras, em versões tanto brochura quanto com capa dura). É importante dizer que tanto as letras do álbum quanto a obra escrita foram escritas ao mesmo tempo, com uma influenciando a outra, e que o trabalho de confecção das mesmas levou muito mais tempo do que aquele efetivamente usado para gravações ou escritas por parte de ambos os grupos (no caso, o Rush e a dupla Peart/Anderson).

A história imaginada por Peart e ampliada e “arredondada” por Anderson narra a trajetória do jovem Owen Hardy, que vive em um pequeno vilarejo de um país chamado Albion, um local onde tudo ocorre com uma mesma rotina dia após dia, e onde os eventos são tão previsíveis que até mesmo o horário de começar a chover pode ser previsto com exatidão dias antes de acontecer. A estabilidade e a precisão dos acontecimentos são controladas pelo administrador do país, o misterioso e poderoso Relojoeiro, que, com a ajuda de seus monges alquimistas, controla tudo o que ocorre sob seus domínios, mantendo a todos felizes e bem sustentados em seus papéis nesta sociedade aparentemente justa e igualitária.

A versão em capa dura de Os Anjos do Tempo

Por impulso, curiosidade, destino ou pura estupidez juvenil (a resposta é dada mais adiante na obra), Owen aceita o convite de um estranho desconhecido, e parte rumo à Crown City, a capital do país, que ele sempre sonhara em conhecer, devido às histórias contadas a ele por sua mãe. Esta é a parte do conto que corresponde à música “BU2B”, e, no trecho correspondente à faixa título, encontramos o jovem já na cidade grande, deslumbrado com as novas descobertas e com o quanto aquele lugar é diferente de seu pequeno povoado (algo com o qual consegui me identificar plenamente, pois também morei muito tempo em uma pequena cidade do interior para depois vir morar na “cidade grande”, no caso, a capital do estado onde nasci, o Rio Grande do Sul). Algo que não aparece no disco é a amizade que Owen faz com uma trupe de circo, da qual passará a fazer parte, e com quem aprenderá conceitos que o tornarão em uma pessoa mais madura e adulta, como responsabilidade, lealdade, amizade e até o que ele julga ser o verdadeiro amor.

Os eventos vão se desenrolando até chegarmos ao trecho correspondente à faixa “Carnies” (que, no livro, vem antes de sua antecessora no disco, chamada “The Anarchist”). Neste ponto, eventos alheios à vontade de Owen fazem com que ele seja obrigado a deixar Albion, partindo em uma jornada (iniciada em “Halo Effect”) que o levará a conhecer locais e conceitos bem distantes daqueles pregados e mantidos sob o domínio do Relojoeiro. A fome, o desprezo, a maldade, a exploração, a traição e o escárnio de um ser humano para com o outro são o que Owen encontra longe de sua terra, e apenas em poucas e raras ocasiões ele encontra simpatia ou apoio em seu período naquela terra desconhecida. Tudo isto leva Hardy a partir em novas jornadas, em busca não só de um local onde consiga se adaptar para viver, mas também de respostas para as aflições que passam a invadir sua mente ao perceber que o mundo no qual viveu até então não passava de uma espécie de fantasia artificial criada e mantida por seu antigo governante, e que seria necessário ele amadurecer e se fortificar para realmente sobreviver no “mundo real” onde agora se encontrava.

Os autores e sua obra: Kevin J. Anderson e Neil Peart

O livro corria muito bem até então, mas, quando Owen parte para suas mais audaciosas aventuras, a obra vira ficcional demais, perdendo, a meu ver, a verossimilhança que mantinha até ali, e adotando uma dose maior e mais fortemente presente de uma fantasia que, embora constante, ainda era bastante aceitável para o leitor do texto (ainda mais sendo este um fã de ficção científica, como no meu caso). Os trechos da obra que correspondem a “Seven Cities of Gold”, “The Wreckers” e “Headlong Flight” soam forçados demais, com conveniências de roteiro (se é que se pode chamar assim, visto esta ser uma obra escrita, e não visual) desnecessárias e preguiçosas que, embora façam a história progredir de forma interessante e até mesmo empolgante em alguns trechos, me fez questionar várias vezes qual seria o motivo da dupla de escritores te escolhido seguir o caminho adotado, e não um mais simples e mais próximo da realidade, o que os tornaria mais aceitáveis ao meu paladar literário.

Os trechos correspondentes às músicas “BU2B2” e “Wish Them Well” encaminham o “final feliz” encontrado em “The Garden”, algo já previsto pelo leitor devido ao revelador prólogo do livro, em mais uma solução fácil adotada pelos autores, mas que, surpreendentemente, não chega a ser de todo decepcionante. Ao tratar de temas como a passagem da adolescência para a fase adulta (com a necessidade de um amadurecimento não só físico, mas de caráter e personalidade), a forma como a população aceita ser governada por uma ditadura (aparentemente benéfica, mas de muitas formas castradora das liberdades individuais e de pensamento) apenas por não conhecer uma alternativa diferente, a eterna rivalidade ordem versus caos (e suas consequências tanto para um lado quanto para o outro), além de tópicos mais “comuns” como amizade, desilusões amorosas, desejo por aventuras e o eterno questionamento do papel do indivíduo no mundo e na sociedade, Os Anjos do Tempo torna-se, em seu sub-texto, bem mais profundo do que aparenta na superfície, onde se transforma apenas uma boa aventura de ficção com toques de magia e fantasia, mas que, devido a escolhas de roteiro que, a mim, não agradaram, poderia ter sido mais bem sucedida quando se pensa na premissa criada por seus idealizadores.

Contracapa de Os Anjos do Tempo

No final da obra, há um interessantíssimo posfácio escrito por Peart tratando sobre a confecção da mesma, suas fontes de inspiração e como os debates entre ele e o coautor Anderson foram mudando não só o texto, mas as músicas que resultaram no disco complementado pelo livro (também foi lançada uma história em quadrinhos baseada no tema, a qual, infelizmente, não tive acesso quando da escrita deste artigo). É neste posfácio que Peart confirma algo que percebi ao longo do texto (e que, felizmente, não foi arruinado pela bela tradução feita por Bruno Mattos, que ajudou a leitura e a compreensão do livro a fluírem com agilidade): as pequenas e espalhadas referências a letras, discos e músicas presentes em discos anteriores do Rush. São nomes de canções, frases completas ou apenas uma ou outra palavra que aparecem aqui e ali ao longo da escrita, e que, como Peart afirma, “não atrapalham a leitura daqueles que não pescarem, mas poderão entreter aqueles que perceberem”. Se você for um fã da banda, como eu, é mais um ponto a ficar atento na leitura do obra, um livro, que, no mínimo, fará você finalmente compreender a história contada no disco de mesmo nome, além de lhe fornecer novas ideias sobre o significado de várias letras do mesmo. Boa diversão!

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