Por Jose Leonardo Aronna

Esta matéria foi originalmente elaborada para a comunidade do orkut chamada Rock & Cultura, na qual era moderador. O texto foi criado consultando diversas revistas, livros, blogs roqueiros, entre outros. O Traffic é uma banda que eu acho muito interessante e infelizmente não é muito comentada por aí. Espero que gostem.

Formado na Inglaterra no ano de 1967, o Traffic era constituído por Steve Winwood (teclados, guitarra, voz), Dave Mason (guitarra,voz), Chris Wood (instrumentos de sopro), e Jim Capaldi (bateria, voz). O som da banda consistia na mistura da voz soul de Steve Winwood e uma ênfase nos teclados e saxofones, com melodias e ritmos jazzy, rock, folk e pop. Os dois primeiros álbuns foram lançados num período que teve tanto de turbulento como criativo, graças às desavenças entre o talentoso Dave Mason e o resto do grupo. Mason abandonou por duas vezes a banda, logo após a gravação de cada álbum (a segunda foi definitivamente).

Este fato marcou o fim do grupo, pelo menos momentaneamente, algo que levou Steve Winwood a aceitar o convite de Eric Clapton e Ginger Baker para formar o Blind Faith. Após o fim desse curto projeto, Winwood reformou novamente o Traffic, desta vez no formato de trio (sem David Mason) que era por vezes aumentado em número, ora em estúdio, ora ao vivo, mantendo sempre uma orientação musical baseada em jazz, folk e rock. Contando sempre com os arranjos impecáveis do trio Winwood-Capaldi-Wood, a alta qualidade musical foi garantida até à extinção do grupo, em 1974. Vinte anos após, a banda retornaria, mas isso veremos depois.

Ao longo de sua carreira a banda lançou oito álbuns de estúdio, três álbuns ao vivo e nove singles no Reino Unido. Além disso, várias coletâneas também foram lançadas em diversos países.


Traffic-Mr.-Fantasy-CoverTraffic – Mr. Fantasy [1967]

Tendo em conta o talento e competência de Steve Winwood e Dave Mason em compor e interpretar canções pop, ninguém esperaria um primeiro disco tão experimental e psicodélico. A verdade é que apesar de Winwood, desde os 15 anos, ser um conceituado vocalista, agora com 19 anos, o músico sentia que a sua inclinação musical começava a fugir ao R&B e soul que o havia tornado famoso na sua banda anterior, o Spencer Davis Group. Mason por sua vez, um aparente desconhecido, revelava uma enorme maturidade musical e ambição ao nível de qualquer músico de topo. No disco de estreia Mason contribui com as composições mais experimentais, as psicodélicas “House For Everyone”, “Utterly Simple” (dominada por cítara), e “Hope I Never Find Me There”. Todas possuíam interessantes letras, um imaginário incrivelmente detalhado e uma cuidada e exótica instrumentação. O estilo psicodélico está também presente em temas como “Heaven Is In Your Mind” (com floreados de piano, guitarra e seção rítmica em bom plano) e a divertida “Berkshire Poppies”. Ao contrário de Mason, que escrevia letras e música sozinho, Winwood aproveitava o talento de Jim Capaldi nas letras e colaborava com ele também na parte musical. O disco apresentava também o multi-instrumentista de sopros, Chris Wood, possuidor de um estilo musical refinado, equilibrado e flexível. Além do psicodelismo, o disco mostra rock com tendências jazz em “Dear Mr Fantasy” e “Giving To You”. A elegante balada acústica (acompanhada por órgão) No Face, No Name, No Number“, mostra Winwood em direta exposição de sentimentos. Jim Capaldi faz a sua estreia vocal no tema (da sua autoria) “Dealer”, que conta com elaborada percussão e belos violões de influência latina. Lançado numa época em que o estilo psicodélico era bastante popular, o disco conseguiu chegar aos topos das paradas de diferentes países. Mas esta boa recepção não foi suficiente para disfarçar os atritos desenvolvidos entre Mason e os restantes membros do Traffic. Estas diferenças resultaram na saída de Mason e um ponto de interrogação em relação ao futuro da banda.


Traffic_(album)Traffic – Traffic [1968]

Em 1968 Dave Mason voltava ao Traffic. Apesar da natureza individualista do músico lhe ter custado o lugar no ano anterior, nesta nova oportunidade pouco parecia ter mudado e Mason trazia consigo o seu espírito mandão. Além da colaboração com Jim Capaldi que escreve a letra de “Vagabond Virgin“, Mason encarrega-se de escrever música e letra das suas canções. E é uma das suas composições que abre o ecléctico e auto-intitulado Traffic. “You Can All Join In” mostra uma veia folk-rock-pop direta, divertida, e ritmada, algo que Mason executava com uma naturalidade espantosa. Na orientação mais progressiva e influenciada por soul e jazz, estava Steve Winwood cujos espaços musicais se desenvolviam de forma mais sutil. O tema blues-rock-psicodélico “Pearly Queen” (da autoria de Winwood) tornar-se-ia um número favorito em apresentações ao vivo. “Who Knows What Tomorrow May Bring“, é outro exemplo do estilo soul-blues irresistível que assentava na perfeição sobre o timbre de Steve Winwood.


Traffic_-_Last_ExitTraffic – Last Exit [1969]

Sem nunca receber o devido reconhecimento, o Traffic extinguia-se após a turnê de apoio ao segundo disco. A evidente incompatibilidade entre Dave Mason e o resto do grupo fez com que o Traffic fosse na maior parte das vezes um trio em vez de um quarteto. A pouca confiança que o grupo tinha em continuar como um trio, aliada à proposta irrecusável que Winwood recebeu de Clapton para formar uma nova banda, ditou assim o fim deste inventivo grupo inglês. Last Exit juntou dois temas ao vivo a canções que haviam ficado de fora dos discos anteriores, bem como faixas lançadas apenas em singles. A composição de David Mason, “Just For You”, mostra tudo o que ele sabe fazer de melhor, pop contagioso e ritmado. Temas como “Shanghai Noodle Factory” e “Withering Tree” apresentam a outra faceta do Traffic, os mini-épicos soul-pop com toques de misticismo. “Medicated Goo” fecha com boa disposição a parte de estúdio do disco. A segunda parte é composta por dezessete minutos gravado ao vivo (sem Mason) no Fillmore West, estendidos por duas covers soul-blues, “Feeling Good” e “Blind Man“.Last Exit nunca consegue atingir nada de muito concreto dada a sua curta duração e a mistura pouco harmoniosa dos temas ao vivo com as restantes canções do disco. No entanto consegue mostrar bem algumas virtudes que o grupo possuía tanto ao vivo, como em estúdio. Pensava-se na época que Last Exit seria o fim da banda, mas a imprevisibilidade do destino voltaria a unir Steve Winwood, Jim Capaldi e Chris Wood um ano depois.


traffic4Traffic – John Barleycorn Must Die [1970]

Dave Mason havia abandonado o Traffic pela segunda vez. Estes acontecimentos e outros levaram o grupo a decidir pôr fim a sua carreira (se bem que por pouco tempo) em 1969. No mesmo ano, Steve Winwood formou o Blind Faith juntamente com Eric Clapton. Apesar da boa recepção do disco, o Blind Faith encerrou suas atividades alguns meses depois. Em 1970, Winwood, um artista que já tocara com bandas de sucesso desde garoto, hesitante, começou a gravar um álbum solo. Pouco tempo depois de ter iniciado o processo, percebeu que não conseguia continuar sem outros dois membros dos Traffic, Chris Wood e Jim Capaldi. As sessões de gravação correram muito bem, e desde cedo o trio demonstrou uma nova energia e um espírito renovado. Neste álbum, a veia jazz do grupo está em grande evidência e poucos são os traços do passado. Abrindo com a dupla “Glad/Freedom Rider“, o disco imprime um contagioso ritmo jazz-rock com excelentes passagens de piano de Steve Winwood e coloridos floreados de Chris Wood no saxofone e flauta. Wood mostra o seu valor como um dos melhores instrumentistas de sopro no rock dos anos 70. No tema que dá título ao disco, “John Barleycorn Must Die“, o grupo aborda uma música tradicional do folk inglês, transformando-a num dueto vocal composto por Winwood e Jim Capaldi e introduzindo gentis e elegantes arranjos de violão e flauta. Mas não há como esconder a alma soul de Steve Winwood, evidente nas interpretações de “Empty Pages” e “Every Mother’s Son“. Fluído, com grande personalidade, John Barleycorn Must Die mostrava um grupo empenhado em traçar um rumo diferente, mais calmo e misterioso. O disco resultou no maior sucesso que o grupo alguma vez tinha alcançado. Contra as probabilidades o Traffic continuava…


Steve-Winwood-Welcome-To-The-Ca-131209Traffic – Welcome To The Canteen [1971]

Após o lançamento de John Barleycorn Must Die, o Traffic pretendia entrar em turnê. Mas se em estúdio Steve Winwood podia tocar piano, baixo e guitarra, ao vivo as coisas não eram tão fáceis de conjugar. Para isso o grupo contratou um baixista (Rick Grech, ex-companheiro de Winwood no Blind Faith, um percussionista (Reebop Kwaku Baah) e mais um baterista (Jim Gordon). Nesta altura a banda devia um disco à companhia discográfica que os representava nos Estados Unidos. Para cumprir essa obrigação contratual decidiram gravar um disco ao vivo. Mas a verdadeira surpresa foi o convite a Dave Mason. Mason estava de volta, no entanto, as razões por detrás desta reunião (temporária) pareciam definitivamente estranhas. Abrindo com “Medicated Goo”, o grupo elevava a nostalgia dos que assistiam ao concerto. Mason assume o controle da guitarra e o faz com bastante personalidade, mostrando que a sua carreira solo o ajudou no desenvolvimento da sua técnica. “Sad And Deep As You” e “Shouldn’t Have Took More Than You Gave”, dois temas do seu primeiro disco solo, são aqui interpretados com o cunho próprio do Traffic. A presença de Jim Gordon na bateria e de Jim Capaldi e Rebop na percussão, dão ao disco uma camada rítmica exótica, algo muito evidente em “40,000 Headmen“. A parte final do álbum é composta por duas longas jams, “Dear Mr. Fantasy” e “Gimme Some Lovin’“, clássico da carreira inicial de Winwood com o Spencer Davis Group. O disco é uma espécie de regresso ao passado, não sendo sonoramente próximo de John Barleycorn, nem indicador da direção musical futura do grupo. Por esta altura Mason manifestou publicamente a sua vontade de se juntar definitivamente ao grupo, esbarrando na vontade de Winwood que, prevendo um futuro turbulento, prontamente negou essa possibilidade. Welcome to The Canteen conseguiu um sucesso considerável, mas o Traffic não perdeu muito tempo, entrando em estúdio logo a seguir para preparar o próximo álbum, que viria a lançado dois meses depois. Mas isso fica para a próxima semana …

21 comentários

  1. Ronaldo

    Que maravilha! dá vontade de ouvir todos de novo…ótimo texto, Leonardo!
    Abraço,
    Ronaldo

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  2. Mairon

    Bandaça. Uma das grandes de todos os tempos. John Barleycorn Must Die para mim é fácil fácil disco de cabeceira. Que venha a segunda parte

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  3. Marcello

    Banda fantástica que, penso eu, nunca atingiu o que poderia. As duas músicas de Dave Mason no lado gravado em estúdio de Last Exit, pelo que eu soube, são de um single solo – confere? Dos discos resenhados aqui, prefiro o segundo e o John Barleycorn (ainda que, desta música, goste mais da versão do Fairport Convention – aliás, uma grande banda que raramente dá as caras aqui). Quanto ao Welcome to The Canteen, Mason saiu após apenas sete shows porque Steve Winwood deixou claro que ele não estava nos planos de uma gravação em estúdio. Na minha opinião, o Traffic perdeu com isso, pois Mason tinha provado que era um excelente compositor em Alone Together – um disco brilhante e injustamente esquecido. Agora é aguardar a segunda parte!

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    • Leonardo

      Obrigado, Marcello.
      Just For You é o single de estreia do Mason tendo Little Woman como lado B e saiu em 1968. Mas desconheço se é a mesma versão do Last Exit. Provavelmente seja.
      Qual seria a outra música, pois Just For You é a única música apenas assinada por
      Mason?
      Something’s Got a Hold of My Toe é assinada por Mason, Winwood e Capaldi, mas pesquisando não está em nenhum disco solo ou single do Mason. Aliás, Dave só participa dessas duas faixas no Last Exit.
      Abraço

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      • Marcello

        Erro meu, a primeira edição em CD que consegui desse disco era uma pirata russa e trazia uma música extra do Mason, mas não a tenho mais (os perigos de emprestar CDs…). Não me lembro do nome, mas tenho quase certeza de que saiu no Alone Together.

      • Leonardo

        Seria legal se pudesse resgatar outras matérias que se perderam…

      • Mairon

        Tenho que vasculhar os e-mails, Leonardo!!

      • Leonardo

        Mairon, eu ainda tenho muita coisa aqui no meu PC das matérias que escrevi e que foram perdidas. Caso haja interesse posso te enviar: Steamhammer, Folk, Clássicos da Harvest, Neon Records, Grandes discos ao vivo, Renaissance,

      • Mairon

        Manda pra nós Leonardo. Será uma alegria!!!

    • Francisco

      Fairport Convention, Fotheringay, Steeleye Span, Pentangle… Essas bandas bem que merecem uma analisada por parte dos consultores…

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      • Mairon

        Só banda fera aí. Valeu Francisco!!

  4. Manoel

    Creio que duas semanas atrás ouvi o disco de 68 dessa banda. Dentro de um mesmo álbum, numa audição mais atenta, notamos tamanha versatilidade do grupo. Eles possuem algumas musicas que parecem soarem simples, mas não o são. Houve situações que me remeteram a Jethro Tull. Acredito que serviu de influência para bandas posteriores de rock progressivo e psicodélico.

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  5. Fernando Bueno

    Banda fantástica!!!
    Porém me entristece que a carreira tenha sido tão conturbada e que os discos fossem lançados sem a seriedade necessária. Dos discos citados aqui três são de estúdio e eles são perfeitos. Porém os outros dois ficam com uma cara de catado, que é difícil considerar um disco em si. O Welcome to the Canteen mesmo…o Jim Capaldo ficou totalmente em segundo plano nesse disco com a presença de outros dois percussionistas. Será que eram necessários mesmo?

    Responder
  6. Fernando Bueno

    Banda fantástica!!!
    Porém me entristece que a carreira tenha sido tão conturbada e que os discos fossem lançados sem a seriedade necessária. Dos discos citados aqui três são de estúdio e eles são perfeitos. Porém os outros dois ficam com uma cara de catado, que é difícil considerar um disco em si. O Welcome to the Canteen mesmo…o Jim Capaldi ficou totalmente em segundo plano nesse disco com a presença de outros dois percussionistas. Será que eram necessários mesmo?

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    • Leonardo

      Eu li uma vez que o Jim nunca se sentiu um verdadeiro baterista e sim um compositor percussionista… E que Jim Gordon e Reebop eram mais talentosos do que ele como percussionistas. Não sei se isso é verdade!

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      • Marcello

        Lembro-me de ter lido que Jim Capaldi, no começo dos anos 70, senti -se muito inseguro quanto às suas habilidades como baterista, e por isso a banda contratou outro. Já Reebop impressionara bastante Steve Winwood, que o convidou para o grupo. Seja como for, o ataque percussivo da banda era tudo o que Duane Allman planejava para a Allman Brothers Band, que ele pretendia que tivesse três bateristas/percussionistas.

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