Por Ronaldo Rodrigues

Fotos: Carlos Vaz

O Som Nosso de Cada Dia, uma das mais importantes formações brasileiras do rock nos anos 70, alternou diversos períodos de atividade após os anos 90. Na primeira metade daquela década, a banda lançou o mítico Snegs (1974) em CD e o álbum Live 94, com sua formação original agregada a outros músicos. Mas o retorno da banda foi interrompido pelo abrupto falecimento do baterista e vocalista Pedrinho Batera. Em meados de 2007-2008 a banda fez um novo retorno aos palco, com a dupla Pedro Baldanza (baixo/voz) e Manito (teclados, sopros) e uma formação extendida, se apresentando em grandes ocasiões como o Festival Psicodália e duas edições da Virada Cultural de São Paulo. Em 2011, o tecladista Manito faleceu e um novo hiato se colocou para a banda. Em 2015 Pedro Baldanza gravou um disco inédito, sob a alcunha de Pedro Baldanza Trio, mantendo a mesma verve do Som Nosso de Cada Dia. De lá pra cá, Baldanza tem mantido sua lendária banda tão ativa quanto possível – tocando, compondo e ensaiando novas canções e recuperando a velha chama acesa e nunca ofuscada daquele som ousado e eclético. Em 2017, uma bem vinda remasterização de Snegs foi lançada em embalagem caprichada pela produtora paulista Moshimoshi, dando um tratamento à altura daquela obra. E eis que chegamos até o dia 05 de maio último, no qual o Som Nosso de Cada Dia tocaria pela primeira vez no majestoso Teatro Municipal de Niterói (RJ). Vale ressaltar que desde 1975 o Som Nosso não tocava no Rio de Janeiro e arredores.

A base da banda foi mantida desde o período 2007-2008 – Edson Ghilardi na bateria (também baterista da versão atual do Terreno Baldio) e os múltiplos (pois se dividem entre muitas bandas distintas) e competentes Marcelo Schevano na guitarra e Fernando Cardoso nos teclados, acompanham Pedro Baldanza no baixo e vocais, sendo complementado pela presença de Pedro Calasso, na percussão e vocais. O quinteto subiu ao palco do teatro por intermédio de uma associação entre as produtoras Vértice Cultural e Moshimoshi com a parceria do portal BeProg, empresas que tem tido ousadia equivalente à música progressiva com a qual trabalham nesse cenário de crise infinita em que nosso país (sobre)vive. O local era imbatível para aquela magnitude de som – um teatro magnífico em instalações, som e iluminação.

E eis que a música começa balbuciante, climática, introspecta, rompendo a quietude com intervenções da percussão, notas suaves de baixo, ruídos dos teclados, rufos…e tudo explode na sensitiva dramaticidade de “Água Limpa”, atemporal canção do segundo álbum da banda, de 1977. Surpreendentemente, após uma rápida passeada pela canção, a banda se deita sobre improvisações revoltas e essa foi a tônica de boa parte do show. Como o próprio Pedro Baldanza citou em uma de suas falas durantes as músicas, a ideia ali era traçar os mesmos caminhos que a banda adotava nos anos 70, sempre com muita liberdade para expressar sua musicalidade. O que viria a ser um deleite para um apreciador de uma musicalidade rica e sem reservas como este que vos escreve.

Pois bem, sentado na frisa superior ao lado do palco, pude apreciar a amplidão das performances de Fernando Cardoso e de Marcelo Schevano, um em cada canto do palco e que, com suas próprias assinaturas, foram os grandes bastiões do show. Ao mesmo tempo em que tudo o que eles faziam nas músicas remetiam a Manito ou à Egídio Conde em seus respectivos instrumentos, o Som Nosso de Cada Dia contemporâneo tem um registro indelével da participação destes dois respeitados músicos. Na inédita e urgente “Lixo Per Capita”, um duelo embasbacante entre os instrumentos se fez ressoar, o mesmo que foi repetido em uma longa sessão de improvisos na densa “A Outra Face”. Nesta faixa, que encerrou o show, o grupo pareceu entrar em um vórtice ritualístico, com todos solando simultaneamente. “Massavilha” foi executada com perfeição por Fernando Cardoso e o timbre da guitarra de Marcelo Schevano em “Snegs de Biufrais” e “Direccion de Aquarius” foi o carimbo no passaporte de uma viagem. Ambas apareceram em versões deliciosamente extendidas. “Tinta Preta Fosca” foi outra repleta de improvisos, com um solo cortante de Schevano e a melhor performance vocal de Calasso. “Vida de Artista” surgiu no bis, cheia de energia, lacrando os corações de todos na plateia

 

Pedro Baldanza, pelo avançar da idade, já não tem uma garganta capaz de suprir os agudos necessários para a reprodução das linhas vocais gravadas em Snegs e tampouco o percussionista Pedro Calasso também o consegue, apesar de ter boa voz, expressão e presença de palco. Muitas linhas vocais foram adaptadas para esta situação. Neste ponto residiu o único e pequeno “senão” deste grande espetáculo. O baixo de Pedro e o vigor de sua performance foram magníficos em cada segundo de som; Edson Ghilardi transmitiu segurança e equilíbrio na banda, ainda que não buscasse destaque para seu instrumento no panorama da banda, mas sempre reforçando a qualidade e o alto nível musical deste conjunto.

Já tinha tido a oportunidade de ver o Som Nosso de Cada Dia em outras ocasiões e nenhuma delas tinha me emocionado tanto quanto esta. Som perfeito, luz incrível, banda dando o melhor de si e plateia ensandecida. Sai do teatro rápido pois seria repetitivo ficar falando para meus amigos o que aquilo tinha representado pra mim. Chegando em casa, notas musicais ainda flutuavam na minha cabeça e me tiraram o sono.

1 comentário

  1. Mairon

    Deve ter sido uma experiência e tanto. Tomara que venha para o Rio Grande do Sul em breve.

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