“Eu não sou sertanejo. Eu sou roqueiro.”

Almir Sater (Entrevista de Rodrigo Teixeira para o site Overmundo)

Por André Kaminski

E ele tem toda razão. Qualquer um que pegar seus discos pode notar claramente a influência rocker no modo de tocar e compor desse artista fantástico. Almir Eduardo Melke Sater, sul-mato grossense nascido em 1956, é o nosso foco de hoje. Conhecido como um dos mestres da nossa viola caipira brasileira junto a nomes como Renato Andrade, o próprio Renato Teixeira que gravou dois discos em conjunto com ele e Tião Carreiro, Almir Sater encanta gerações com sua sonoridade ao qual melhor chamo de “folk brasileiro”. Suas músicas são muito mais do que apenas o sertanejo. Sater também mistura música paraguaia e andina, country e o já citado rock ao qual declarou ser fã de Eric Clapton, Paul Simon, Cat Stevens, Beatles e Jethro Tull.

Em 1982

Meu primeiro contato com o cantor foi quando eu era bem criança, lá pelos 4 ou 5 anos de idade. Meu pai era colecionador de vinis de MPB, mas abria mão para alguns poucos artistas de fora, tais como Raul Seixas, Marisa Monte e Almir Sater. Quando se divorciaram, minha mãe ficou com a vitrola e alguns poucos vinis, entre eles o Rasta Bonito (1989). Ela tocava o álbum direto. Eu, que demorei para me interessar por música (quando eu tinha lá meus 17 anos, hoje tenho 31), só fui me interessar em ir atrás de seus discos há uns 7 anos. E aí vieram memórias e um clique mental em como aquela música era melodiosa, brilhante e mesmo de bastante pegada.

Almir Sater só tem um defeito: ter nascido no Brasil. Tivesse ele nascido por aqui e crescido nos Estados Unidos ou ter se bandeado para fazer carreira por lá e eu acredito que ele seria conhecido mundialmente e seus discos venerados por milhões de pessoas. Para mim, ele é o Bob Dylan brasileiro.

Já vou adiantando: buscarei um dicionário e tentarei ser menos repetitivo nos elogios, porque serão muitos. Há apenas um único disco mediano em sua carreira, com o restante sendo um melhor que o outro.


Estradeiro [1981]

Sater aqui demonstra em suas canções aquilo que todo jovem instrumentista de 25 anos, cheio de energia e querendo um lugar ao sol costuma fazer em seus primeiros discos: foco mais na técnica e na velocidade das notas, uma maneira de mostrar aos demais que de fato domina plenamente o instrumento. Isso nas primeiras faixas, sendo da quarta em diante um foco maior em melodias de poucas notas. O disco já começa com uma pegada forte de bateria e a viola de 10 cordas ponteada de maneira rápida e técnica em “Estradeiro” com um coro de vozes feminino finalizando a canção, para depois seguir numa canção sertaneja mais tradicional e focado no instrumento favorito de Sater em “Canta Viola”. “Semente” segue de maneira melódica e com vozes ao fundo em um sertanejo mais tradicional típico de Tião Carreiro. “O Carrapicho e a Pimenta” já demonstra a primeira mistura do sertanejo tradicional com alguns efeitos de teclado e flauta no refrão, algo que costuma aparecer muito no folk progressivo. Dentre outras faixas,  destaco a “Flor do Amor” em que um toque grave e repetitivo de viola da base contrapõe com um agudo solo de Almir para daí este finalizar a curta faixa com seus vocais. “Luz da Fé” começa baixa e lenta, num estilo mais popular e menos sertanejo e aí entra um belo coro de vozes no refrão injetando energia para depois recomeçar os ponteios. O baixo dá o tom principal em “Bicho Preguiça” em mais uma canção já mais próxima de um folk nacional. O disco finaliza com a boa instrumental”No Quintal da Casa”. Um bom disco de Almir, mas este ainda estava amadurecendo em termos de composições e aparentemente ainda se sentia um pouco acanhado para soltar mesmo a voz, coisa que faria mais adiante na carreira.


Doma [1982]

Que diferença! Nesse apenas um ano entre o anterior e este, percebe-se já uma nítida evolução quanto a qualidade das composições e Almir aqui começa a demonstrar aquilo pelo qual ficou conhecido: instrumentos diferentes dos usuais dentro do folk brasileiro. O violino é bastante usado. Os teclados volta e meia dão uma atmosfera diferenciada. Em “Trem do Pantanal” e “Galopada” o violino está lá fazendo solos, a primeira em estilo mais sertanejo tradicional e a segunda com um ritmo que lembra muito a música nordestina. A técnica e as notas rápidas de viola são o destaque na faixa-título “Doma” que ficou maravilhosamente linda misturando o popular da viola com o erudito do violino. Que instrumental fantástico, um dos meus preferidos de sua discografia. “O Último Condor” já tem um instrumental lembrando muito o folk europeu com a bateria dando mais corpo a canção e mesmo um teclado contribuindo na melodia dando um ar mais moderno mas sem desfigurar as raízes brasileiras no toque de Almir. Após três músicas seguindo mais no estilo tradicional dentro de um folk brasileiro (mas “Cavaleiro da Lua” possui uma batida rock muito bem visível), cito ainda “Varandas” uma daquelas baladas de emocionar. “Na Subida do Balão” é uma típica música para agitar um salão de uma festa junina. “Viola e Vinho Velho” se destaca em um belo solo de violino inicial junto a base feita da viola sendo mais uma balada. A música de encerramento “Peão” finaliza já usando uma estrutura composicional que Almir iria usar muito em várias canções suas da fase mais pop com muito canto em praticamente toda a composição (quem o ouve regularmente reconhecerá essa estrutura). Um disco excelente da carreira do sul matogrossense que já chama a atenção da imprensa lá na década de 80.


Instrumental [1985]

O primeiro de seus discos inteiramente instrumentais e com algumas canções que viriam a se tornar clássicas em sua carreira. Apesar do jeitão caboclo de Almir na capa, é fato que há ainda muito de folk estrangeiro influenciando várias de suas composições. “Corumbá” é uma folk sertaneja típica do Mato Grosso enquanto “Minas Gerais” já resgata o velho caipira do interior do sudeste remetendo aos velhos sertanejos da região. Após a curta “Vinheta do Capeta”, temos já um dos primeiros clássicos de Almir que é “Luzeiro”. Só de ouvir os primeiros minutos o pessoal já irá reconhecer como a música de abertura do Globo Rural, há não sei quantos anos. E ainda uma das minhas preferidas de Almir. Que dedilhado fantástico e mesmo a percussão sendo de bateria eletrônica, não fica estranho. Até um berimbau aparece por aqui. Almir também recria um clássico de Tião Carreiro e Pardinho que é “Rio de Lágrimas” com a viola de Almir fazendo o que seria a “voz” e o violão o instrumental. Gosto muito ainda de uma segunda versão de “Doma” do disco anterior sem os vocais e diria até superior à original e a canção que finaliza o disco que é “… E de Minas prá Riba” em que até mesmo uma cítara indiana surge com destaque e acredito que sendo um acordeão europeu fazendo uma mescla instrumental de cair o queixo. Mesmo quem não seja muito chegado a discos instrumentais deveria experimentar as lindezas deste disco.


Cria [1986]

A partir daqui, Almir Sater inicia um período chamado “pop”, usando ainda mais de teclado e simplificando suas canções. Como podem reparar, há uma diferença visível entre as capas desse disco e do anterior, com a aparência “urbanizada” de Almir. Longe de ser um disco ruim, apenas acho as composições aqui sem brilho dentro de tudo o que Sater produziu e ainda produziria em sua carreira. Há três canções que considero do mesmo nível de tantos outros álbuns dele: a faixa de abertura “Razões”, “Kikiô” e “Mais um Verão”. A primeira tem um clima sereno e bacana, com um toque moderno que se encaixou bem com a canção.”Kikiô” é uma bela balada com um solo de saxofone muito bem colocado e contando um pouco das duas principais etnias indígenas do Brasil: Tupi e Guarani. Já “Mais um Verão” Sater retorna a focar na viola remetendo bastante ao primeiro disco. Neste álbum há também a música que acho mais xaropenta de sua carreira: “Água que Correu”. Sou roqueiro e essa é a primeira música de sua carreira com um solo de guitarra (elétrica mesmo). Mas sei lá, me soa como uma música fraca descartada pelo Erasmo Carlos. A versão um tanto mais moderna de “Rio de Lágrimas” também não ficou legal. A bateria eletrônica descaracterizou demais a música. No geral, um disco mediano. Almir iria brilhar mesmo logo na sequência.


Rasta Bonito [1989]

Seu melhor álbum da carreira, recheado de clássicos. Almir abraça o country, o pop, o sertanejo, o folk e o rock, mistura tudo e nos apresenta um álbum incrível e empolgante. “Rasta Bonito” é um country espetacular, que canção! A vontade que dá é subir no cavalo e sair galopando pelo mato a grande velocidade e sem rumo. Iê iêêêêêê!! “Tristeza do Jeca” é outra balada com uma letra linda demais. Almir canta quase sussurrando. “Capim Azul” é outra instrumental famosíssima iniciando na viola sertaneja e passando para uma pegada country em conjunto com o banjo, gaita de boca e com o violino. Até o baixo tem alguns segundos de destaque. Aí chega o maior clássico de Almir que é “Um Violeiro Toca”. Sem palavras sobre o quão bonita é esta canção. Então Almir se arrisca no inglês e canta duas canções nesse idioma em sequência: a ótima “Homeless Souls” que eu apenas gostaria de saber quem é Joe Lech, creditado como co-autor da canção. Procurei sobre ele na internet e não encontrei nada. Seguida do clássico country de Pee Wee King e Redd Stewart”Tennessee Waltz” em que Almir manda ver em uma grande versão. “Canoa” só me lembra uma gravação de uma menininha ranheta com uns 3 anos dançando essa música em uma filmagem da minha família (ela que me perdoe, tive que citar). Ainda quero citar também a conhecida “Boiada” com um piano e o que me aparenta ser um órgão Hammond (estou certo?) ou algum som de teclado configurado para tal que mistura muito bem o mundo do moderno com o tradicional. Disco excelente, uma obra prima do Bob Dylan do Pantanal.


Instrumental Dois [1990]

Este disco (cuja última faixa não é instrumental) foi gravado antes de Rasta Bonito (1989), entre 1987 e 1988, porém lançado alguns anos depois. Particularmente, acho este álbum até superior ao instrumental de 1985 devido ao seu refinamento e a orquestração de algumas faixas. E olha que é difícil superar a obra prima que foi o primeiro instrumental. Almir deixa soltar seus dedos e sua inseparável viola nos traz melodias, solos e suas novas influências adquiridas nos anos posteriores. Aqui já iniciamos com “Fronteira”, com uma clara influência paraguaia em seu toque de viola. “Europa” já lembra um pouco as canções de antigos trovadores europeus em seu toque que mistura viola caipira e violino. “Rasta” remete ao primeiro instrumental em um resgate da viola solando como principal instrumento da música. “Mazurca – Choro” como o nome já diz, é uma improvisação de Almir na viola no ritmo de um choro brasileiro muito comum nas primeiras décadas do século XX. “Encontro das Águas” tem a refinação de uma orquestra junto a viola que fez um mix incrível de popular com erudito. Gosto ainda da doçura encontrada na curta “Marionete” e da técnica de dedilhado que ouvimos em “Segredo”. Mais um grandioso disco que este artista espetacular nos presenteou.


Na segunda parte, daqui duas semanas, trarei os últimos três discos solo que Almir gravou e ainda os dois mais recentes que fez junto ao seu ídolo e amigo Renato Teixeira. Espero que tenham curtido esta viagem pelo interior do Brasil.

13 comentários

  1. Igor Maxwel

    É indiscutível o fato de que “Rasta Bonito” seja a obra máxima da carreira de Almir Sater, mas acho que a música mais xarope dele seja “Tocando em Frente” talvez pela sua exposição excessiva na mídia publicitária e também por ter rapidamente perdido a graça de sua mensagem na letra. A culpada de tudo isso foi a Paula Fernandes…

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    • Francisco

      “Tocando em frente” é muito chata mesmo. Mas o Almir Sater é um artista de primeira.

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      • Igor Maxwel

        Chicão, é o seguinte: antes da Paula Fernandes assassinar esta música, “Tocando em Frente” não era chata nas décadas anteriores, mas depois que ela a regravou passou hoje a ser uma chatice. E sobre o homenageado desta primeira parte de sua discografia comentada, posso dizer que o Sr. Sater é realmente um baita artista. Além de violeiro, compositor e intérprete, ele é também um excelente ator. Já assistiu as novelas Pantanal (TV Manchete, 1990), Rei do Gado (TV Globo, 1996) e Bicho do Mato (Record, 2006) ? Clássicos da dramaturgia brasileira. Todas as três com a participação dele, acompanhado pelo “grandão” Sérgio Reis.

      • André Kaminski

        Mas eu não entendo como uma música pode se tornar “chata” só porque outra artista cantou. Aí o demérito é da artista e não da música.

  2. Rafael Bonatto Bíscaro

    Um grande artista e instrumentista! Há pérolas e outras nem tanto assim na discografia, mas que vale a pena ouvir. De fato a Paula Fernandes bagunçou com “Tocando em Frente”.

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    • Igor Maxwel

      Pois é Rafael… O fato da Paulinha estar estragando as músicas dos outros é algo que não consigo compreender… DEPLORÁVEL!!!

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      • Rafael Bonatto Bíscaro

        Pois é Igor. Porém se fosse apenas essa música, tava bom…hahaha
        Mas é uma coletânea versões estranhas feitas por ela.

  3. Davi Pascale

    Parabéns André,

    Muito legal a matéria. Sou muito fã do Almir Sater. Daí só me falta o Estradeiro. Esse cara é muito fera…

    E parem de falar mal da Paula Fernandes. Que coisa feia… É uma das poucas artistas da nova safra de sertanejo que faz um trabalho bacaninha. Sem contar que a mina é gata demais.

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    • Igor Maxwel

      Eu não falei mal dela, apenas disse que acho bem estranho a PF regravar músicas de outros artistas, não fica muito bem com ela não… Talvez seja por isso que a PF está só descendo ladeira abaixo desde seu primeiro disco ao vivo…

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    • André Kaminski

      Obrigado Davi. Almir é um artista que merece muito mais divulgação e conhecimento de suas obras incríveis mesmo para nosso site focado em rock.

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  4. Diogo Bizotto

    Esse é o tipo de publicação que, ouso dizer, nos diferencia de uma penca de sites por aí que versam sobre música, especialmente sobre rock. Meu conhecimento a respeito da carreira de Almir Sater é ínfimo, mas isso não me impede de valorizar o trabalho de um artista como esse, representativo da enormidade que é o Brasil, tanto de área quanto de culturas, cada uma com suas nuances particulares. O Mato Grosso do Sul está em uma posição geográfica muito privilegiada, a distâncias não muito longas nem de Bolívia e Paraguai, nem do Sudeste e seu caráter dominante, nem do Norte amazônico. Isso transparece na cultura local e acredito que tenha sido instrumental na construção dessa identidade musical que Almir representa. Grato, André.

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    • André Kaminski

      Agradeço o elogio, meu caro Diogo. Muita gente só reconhece o seu sertanejo de raiz, mas a verdade é que Almir possui um caldeirão enorme de influências tanto nacionais quanto internacionais que o faz ser um músico diferenciado dos demais. Ouça seus discos, garanto que você irá valorizá-lo ainda mais.

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