Por Ronaldo Rodrigues

O Iron Butterfly é uma icônica banda de rock psicodélico formada em San Diego, California, em 1966. Apesar de seu primeiro registro ter sido lançado apenas no início de 1968, a banda passou todo o verão do amor (1967) esculpindo a psicodelia no rock da costa oeste norte-americana. In-a-Gadda-da-Vida, tanto a canção quando o álbum, fizeram estrondoso sucesso na época. Passando por diversas formações ao longo dos anos e poucos períodos inativos de 1966 até hoje, a banda encontra-se na ativa em shows sem lançar material novo de estúdio desde 1975. Logo após o lançamento do primeiro disco, a banda se reformulou quase que completamente em seu line-up; saíram Jerry Penroad (baixo), Danny Weis (guitarra) e Darry Deloach (vocais) para a entrada de Lee Dorman (baixo) e Eric Braun (guitarra), um jovem de apenas 17 anos na época, com Doug Ingle assumindo os vocais e a liderança da banda junto com o baterista Ron Bushy. Ao longo dos anos, os fãs foram sendo abastecidos por suas performances nos palcos e por vários discos ao vivo. Além de seus primeiros discos, a banda é conhecida pelos teclados fantasmagóricos de Doug Ingle, que deu uma forte identidade à banda, e por ter sido berço de Lee Dorman e Larry (Rhino) Reinhardt, que viriam a formar o Captain Beyond em 1971.


Heavy [1968]

Gravado em 1967 mas lançado em janeiro de 1968 pela ATCO (uma subsidiária da já poderosa Atlantic Records), a estreia do Iron Butterfly marca o território da banda com todas suas impressões digitais – os teclados soturnos de Doug Ingle e sua voz empostada, os coros macabros, o baixo certeiro e bem presente de Jerry Penrod (o que continuaria com o subestimado e talentoso Lee Dorman), as guitarras fuzz e uma maneira sombria de reler a estrutura de composição do sunshine pop. Tudo isso é possível ouvir em “Possession”, uma faixa que é praticamente uma síntese da carreira da banda nos anos 60. Obviamente, como estamos em 1968 na Califórnia, é natural encontrar aquele groove sacolejante que fazia cabeleiras psicodélicas voar pelo ar, como em “Unconscious Power”, “Gentle as it May Seem” e “Stampled Ideas”. Para os easy-riders, as arrastadas “Get Out of my Life Woman”, “You Can’t Win” e “Look for the Sun” são certeiras; “So-Lo” é o lado mais soft da banda e músicas como esta se tornariam frequentes nos discos seguintes e “Fields of Sun” tem um instrumental muito rebuscado, onde o órgão Vox é substituído pelo piano sendo uma das melhores e mais distintas músicas de Heavy. O disco se encerra solenemente com a viajante e psicodélica “Iron Butterfly Theme”


In-A-Gadda-da-Vida [1968]

O disco mais conhecido da banda e que lhe deu maior projeção. A faixa título ganhou stauts de hit psicodélico ao ter uma versão editada e ser muito executada nas rádios norte-americanas e européias. Na original em disco, as icônicas frases de teclados de sua intro e o riff hipnótico se estendem por longos (e há quem diga desnecessários) 17 minutos, com solos individuais de todos os instrumentos. Há que se destacar que isto era novidade nas gravações de rock em estúdio em 1968 – uma faixa ocupar todo um lado do LP, ter solo de baixo e de bateria (o que já ocorria com frequência ao vivo, mas era devidamente limado em estúdio). Outro detalhe que torna mítico In-A-Gadda-da-Vida é que a faixa originalmente deveria se chamar “In the Garden of Eden”, mas Doug Ingle, chapado, balbuciou o nome da canção errado e assim ficou. Mas nem só da faixa título vive o segundo disco do Iron Butterfly: “Most Anything You Want” e “Flowers and Beads” são como uma versão ardida para os Mamas and the Papas; “My Mirage” e “Termination” dão sequência ao lado mais soturno de Heavy e “Are you Happy”, com as guitarras em destaque, é pura psicodelia de 1968.


Ball [1969]

Em pouco mais de 12 meses chegava à praça o terceiro disco do Iron Butterfly (o primeiro, em janeiro de 68, o segundo em junho de 68 e este terceiro em fevereiro de 69). O embalo da banda era evidente com tours constantes, e há muita coerência entre estes primeiros lançamentos; a banda sabia bem onde queria chegar e atingiu uma assinatura própria muito rapidamente. Após a gravação deste disco, ingressam Larry Reinhardt e Mike Pinera (que era membro do Blues Image) nas guitarras, mas as guitarras aqui ainda são executadas unicamente pelo prodigioso Eric Braunn. A abertura de Ball já é estrondosa e acachapante com “In the Times of Our Lives”; “Lonely Boy” é uma suave balada, embebida em soul music; “Real Fright” experimenta novas batidas e tem muitas mudanças; “It Must be Love” é algo já ouvido nos discos anteriores, mas repleta de bons solos de guitarra; “Her Favorite Style” é esquisitinha e cafona e “Filled With Fear” tem uma rica musicalidade, já apontando para um proto-prog. O disco se encerra com a bela “Belda-Beast”, que alterna momentos mais densos com partes sutis de muita beleza.


Live [1970]

Em abril de 1970 chegava às lojas Live, contendo registros de um show ocorrido em maio de 1969 na cidade natal da banda, San Diego, divulgando o álbum Ball, e ainda contando com a performance do guitarrista Eric Braunn. O disco já abre com a primeira faixa do disco anterior, em uma possante versão para “In the Times of Our Lives”, onde o baixo de Lee Dorman fica em evidência e reforça sua posição de músico subestimado e “Filled with Fear” soa ainda melhor e mais viva aqui do quem estúdio. A banda era bastante correta e fiel ao vivo, reproduzindo com muita proximidade os arranjos realizados em estúdio; o que diferencia é a pegada, bem mais intensa no palco. Vale destacar que Live tem boa qualidade de gravação e a execução da banda é primorosa. O disco se encerra com duas faixas de In-a-Gadda-da-Vida: “Are you Happy” e a própria faixa título, ambas em ótimas e energéticas interpretações. Live é uma boa forma de conhecer a banda, pois o repertório, apesar de curto, é muito bem executado e representativo da banda.


Metarmophosis [1970]

Três meses depois do lançamento de Live, o mercado já estava abastecido novamente de Iron Butterfly, uma banda com uma produtividade incrível no período. Metamorphosis é o último disco desta primeira fase e já mostra o grupo apontando novos caminhos; Doug Ingle adota o órgão Hammond e o baixo de Lee Dorman mescla-se mais intensamente com a dupla de guitarristas Larry Reinhardt e Mike Pinera, que passam a fazer um trabalho mais sinérgico em dobras e frases conjuntas. A banda investe fortemente em sons com grooves deliciosos como “New Day”, “Shady Lady” e “Best Years of Our Life”, sintonizando-se bastante com o que fazia o Steppenwolf na mesma época. “Slower than Guns” é uma lindíssima canção, com a banda arriscando-se com violões, violoncelos e cítaras; “Soldier in Our Town” é r&b bem chapado, que é sucedido pelo rock nervoso de “Eazy Rider” e o disco se encerra com o blues dramático de “Butterfly Bleu”, que descamba para a experimentação e a auto-indulgência instrumental. Esta formação do Iron Butterfly duraria apenas até o início de 1971, com Reinhardt e Dorman formando em seguida o Captain Beyond e Mike Pinera formando o supergrupo Ramatam, com Mitch Mitchell e April Lawton.


Scorching Beauty [1975]

A primeira de muitas reencarnações do Iron Butterfly ocorre em 1974, com o reencontro de Eric Braunn e Ron Bushy. Eles retomaram a banda com o baixista Philip Kramer e o tecladista Howard Reitzes, com Eric Braunn assumindo também os vocais. Neste ponto reside a maior fraqueza do disco; além do som lembrar muito pouco do Iron Butterfly de 5 ou 6 anos antes, o grupo adota uma sonoridade bem mais afeita ao hard rock/glam-rock, com as guitarras em absoluto destaque. O disco tem lá seus momentos – “Hard Miseree” e “Lonely Hearts” são rocks energéticos, “Pearly Gates” tenta resgatar um pouco da sonoridade sessentista da banda e “Before you Go” tem boas frases de guitarra. O resto varia entre o pouco memorável e o desconfortável. A MCA não ficou contente com o fraco resultado das vendas do disco, mas em contrato estava previsto mais um lançamento.


Sun and Steel [1975]

Mais pesado e bem produzido que o anterior Sun and Steel ainda peca pelos vocais de Eric Braunn. As guitarras estão mais pesadas e cortantes, os teclados tem maior liberdade e a banda soa próxima aos trabalhos do Spooky Tooth. A variedade de timbres de teclados tentava conectar o som do Iron Butterfly com o rock daquele meado de década de 70 – Minimoogs e Mellotrons dão as caras e fazem bonito em meio ao hard rock viajante que a banda executa. A faixa título abre bem o trabalho, seguida da empolgante “Lightin'”, com vocoders em um ritmo seguro de Ron Bushy e um ótimo solo de Hammond realizado por Bill DeMartines (que substituiu Howard Reitzes); já “Beyond the Milk Way”, emula a Electric Light Orchestra e há vários momentos bem genéricos no disco. É inegável que Sun and Steel traz um bom entretenimento ao ouvinte com faixas como “Scion”, “Get it Out” e “Watch the World Going By”, mas fica um gosto amargo ao se constatar que a originalidade da banda havia se esgotado quase que inteiramente com a saída de Doug Ingle.


 

5 comentários

  1. Mairon

    “a banda é conhecida pelos teclados fantasmagóricos de Doug Ingle, que deu uma forte identidade à banda, e por ter sido berço de Lee Dorman e Larry (Rhino) Reinhardt, que viriam a formar o Captain Beyond em 1971.”

    E também por terem sido um dos promovedores daquelas projeções de bolhas malucas que fizeram a festa alucinógena de muita banda no final dos anos 60.

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  2. Mairon

    Uma das minhas bandas de cabeceira em termos da formação musical. Depois de um tempo, me afastei um pouco do som do Iron Butterfly, mas ouvi muito esses discos sensacionalmente bem resenhados pelo Ronaldo. O meu preferido é o Metamorphosis, um discaço que uniu dois monstros na guitarra, e mudou bastante o som do Iron Butterfly. In-A-Gadda-Da-Vida é o disco mais famoso, e não é à toa, pois é um discaço, assim como Ball e Heavy. Sun & Steel e Scorching Beauty não honram o nome da banda. O Live citado pelo Ronaldo (bela lembrança) é bem gravado e talz, mas não consigo gostar tanto dele assim. Gosto mais de um álbum lançado posteriormente, gravado em 1968 no Fillmore, que parece ser bem mais sensato e realístico com os shows do grupo. Outro belo ao vivo é o Live in Sweden 1971, somente com Butterfly Bleu e In-a-Gadda-da-Vida, ambas com mais de 20 minutos cada. Sonzeira das boas!!!

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    • Ronaldo

      Valeu Mairon!!! tb é uma banda que faz parte da minha formação musical, uma das primeiras psicodélicas que ouvi…mas naquela época eu esperava algo mais hard e não assimilei tanto. Obviamente, classicos como Possession e In-a-gadda-da-vida me pegaram de cara, mas as outras nem tanto. Hoje aprecio tudo! acho que o Heavy é meu favorito, apesar de que considero, como escrevi no texto, que os três primeiros discos são muito equivalentes. O Metamorphosis é diferente, mas ótimo tb!
      Não sabia dessa que eles popularizaram os light-shows! abraço!

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      • Mairon

        Tem uma entrevista com o Bill Graham que ele conta como o Fillmore cresceu com os shows de luzes que o Iron Butterfly levava para lá. As outras bandas levavam alguma coisa, mas foi o Iron quem, com sua música psicodélica, conseguia “chapar” a plateia melhor com os efeitos. Assim como o Floyd em Londres.

        Se não me engano, o Iron inclusive tinha um cara contratado só para ficar criando as imagens.

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