Por Mairon Machado

Com Davi Pascale, Diogo Bizotto, Ronaldo Rodrigues e Ulisses Macedo

O lançamento do álbum Songs of Experience, décimo quarto disco de estúdio dos irlandeses do U2, ocorreu na última sexta-feira, 1º de dezembro. Sem o mesmo estardalhaço promocional de seu antecessor, Songs of Innocence, o disco já possuía algumas canções sendo divulgadas nos shows do grupo e, portanto, muito do que está nele não é novidade. Cinco consultores ouviram o álbum e aqui apresentamos as primeiras impressões sobre um disco que certamente estará figurando nas listas de lançamentos mais importantes de 2017.


Davi: U2 solta mais um álbum. Tem artista que cada vez que solta um trabalho novo, o mundo musical para. O U2 é um desses artistas. Ou seja, a expectativa é grande. É preciso ter um pouco de cuidado com esse fator. A trupe liderada por Bono chegou a fazer trabalhos atemporais como War, The Joshua Tree e Atchung Baby no passado. Esse novo álbum não é um novo clássico. Contudo, traz um material extremamente bem resolvido. Diria que é seu melhor trabalho desde How To Dismantle An Atomic Bomb. Quem ouvir sem maiores pretensões irá encontrar um disco extremamente bonito e cativante. A primeira metade do álbum é a mais forte, onde destaco “Lights of Home” com um bom riff de The Edge, o single “You´re The Best Thing About Me”, a bonita “Get Out Your Own Way”, além do rock “American Soul”. Essa, para mim, é a melhor faixa do álbum. Canção que apresenta as marcas registradas dos rapazes, ao mesmo tempo em que traz uma dose de modernidade no arranjo. Da segunda metade, destaco a bonita balada “Love Is Bigger Than Anything In It´s Way”, além de “Landlady” que, apesar de ter um arranjo um pouco sonso, traz um grande trabalho vocal de Bono. Songs of Experience é um disco que deve ser ouvido com atenção e que certamente agradará seus fieis seguidores, onde me incluo.


Versão em CD

Diogo: Tudo que rodeia o U2 ocorre em grande escala. Os superlativos são fartos. A enorme comoção por conta de suas passagens pelo Brasil, por exemplo, dá ideia de uma banda de grande sucesso e relevância. A primeira metade dessa afirmação sem dúvida está correta, mas a segunda é altamente questionável. Sim, muito do pop rock desta e da década anterior deve sua existência àquilo o que o U2 fez, inclusive em álbuns lançados de 2000 em diante. All that You Can’t Leave Behind (2000) é um grande disco. Ecos de suas faixas são ouvidas em muitas formações posteriores a essa época. Hoje em dia, contudo, o quarteto soa mais como um subproduto de si mesmo e daqueles que influenciou do que como um grupo que merece o sucesso que tem. Sendo bem honesto, o único grande álbum lançado após Achtung Baby (1991) foi mesmo All that You Can’t Leave Behind. Depois disso, grandes músicas isoladas em discos no máximo medianos. Em Songs of Innocence (2014), pior registro dos irlandeses, nem isso. Vejam bem, quem escreve aqui não é alguém que detesta a banda, mas alguém que admira e muito o trabalho sensacional que o U2 fez até Achtung Baby e respeita muito do que foi feito depois. Songs of Experience não é tão fraco quanto Songs of Innocence, um álbum desprovido de vida, mas é bem pouco superior. Gostaria de poder destacar algumas faixas que o salvam, mas bah, está difícil. A única e branda luz no fim do túnel é a última faixa, “13 (There Is a Light)”. O Bono de hoje em dia não serve nem para engraxar as botas daquele Bono de outrora, que esgoelava letras que possuíam alguma relevância sem necessariamente parecerem saídas de algum livro de autoajuda (ou de um “textão” de Facebook). Adam Clayton e Larry Mullen Jr. soam monótonos. Nem The Edge, que normalmente injeta algum ânimo com suas paisagens guitarrísticas, é digno de algum destaque. Quem quer um álbum totalmente ameno, incapaz de gerar alguma reação mais forte, pode até gostar. Para mim, falta uma dose cavalar de ânimo, inspiração e vergonha na cara. Pode servir para uma bandinha sem rosto qualquer de pop rock, mas não para o U2.


Mairon: Curti muito esse novo disco do U2. Experimental conforme o nome sugere, o álbum traz letras muito bonitas, e uma musicalidade surpreende. Começa com uma tecladeira viajante na linda “Love is All We Have Left”, teclados também presentes nas belas “Love Is Bigger Than Anything In Its Way” e “The Little Things That Give You Away”, que remetem bastante ao U2 dos anos 80, e depois, divide-se em faixas com refrãos grudentos (“Get Out Of Your Own Way”, “Red Flag Day”, “13 (There Is A Light)” e “You’re The Best Thing About Me” ) e surpresas, como o rock com inspirações nos anos 50 de “The Showman (Little More Better)”. Aliás, o que me surpreendeu mais fortemente foi o uso de violões com mais força, essencialmente em “Lights of Home”,  para mim a melhor faixa do U2 nessa década, e o retorno aos eletrônicos de Zooropa e Pop em “The Blackout” (que puta baixo) e “American Soul”, faixa igualmente sensacional, e com um baita refrão para pular nos shows. Óbvio que há faixas de menor intensidade, no caso “Landlady” e “Summer Of Love”, mas longe de serem ruins. No geral, é um baita disco, melhor que seu antecessor e que certamente, vai alegrar à todos os fãs da banda.


Versão em vinil azul duplo

Ronaldo: Como anti-fã do U2 que sou, não havia nenhuma expectativa quanto a este lançamento. Aparecem uns riffs de guitarra quentes ao longo do disco, mas o encaixe deles na música parece que vai sempre na intenção de dilui-los. Há bons momentos, mas os refrões tem sempre aquela coisa mezzo messiânica que o U2 tornou uma marca registrada. Infelizmente eles soaram mais como seus discípulos (e são MUITOS!) do que como quem inventou a parada. Fiquei boquiaberto com a qualidade da gravação e a produção do disco, ainda que isso fosse esperado, afinal trata-se de uma banda que está no topo do mundo e tem todo os recursos à mão. Só faltou usar tudo isso a favor de músicas realmente boas. Parece que The Edge está tocando na sala da sua casa, ele que é o destaque do disco, seja pela sonoridade, pelas frases e pelos riffs de qualidade. Não faço ideia de como os fãs da banda reagiriam a esse disco, mas o disco tem muitos elementos para capturar o ouvinte eventual da banda. Não é um disco ruim, é digno do nome U2 na minha opinião; contudo, falta sustância e musicalidade para convencer os que estão fora do redil da banda.


Ulisses: O U2 tem dois lados: músicas de qualidade e opiniões políticas. Em Songs of Experience, o lado musical não se revela forte o suficiente a ponto de merecer espaço permanente na sua prateleira de CDs e/ou no player de mp3 do celular. As letras, por sua vez, tornaram-se vagas e pouco interessantes, tendo em “American Soul” e “Summer of Love” as únicas espetadas relevantes. O tracklist é composto de diversas facetas sonoras da banda, algo que conta pontos a favor do álbum, embora as composições ainda sejam anêmicas. A pulsante “Red Flag Day” e a dançante “The Blackout” chamam mais atenção devido à quantidade de energia vital que emanam. Destaque, mas destaque mesmo, só na bela “Lights of Home”, bem equilibrada e com um coral funcional no final. O apelo morno e impotente da maior parte do disco acaba fazendo um grande contraste com a comemoração de 30 anos de The Joshua Tree (1987), não sendo nem de longe um arrasa-quarteirão como este foi. Não é um disco horroroso, ofensivo aos ouvidos, mas carece de elementos cativantes. Quem é fã da banda certamente fica feliz de ter mais material para banhar os ouvidos, mas os admiradores dos clássicos (que merecem a alcunha) não precisam perder seu tempo em Experience com mais do que uma meia dúzia de audições.

9 comentários

  1. Diogo Bizotto

    Sem o mesmo estardalhaço promocional de seu antecessor, Songs of Innocence

    Sem uma das maiores cagadas publicitárias já feitas por uma banda, você quer dizer? Enfiando o disco nas bibliotecas de áudio de dezenas de milhões de pessoas sem que elas consentissem, tipo spam mesmo.

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  2. Diogo Bizotto

    Diria que é seu melhor trabalho desde How To Dismantle An Atomic Bomb

    Para mim, esse espaço cabe a “No Line on the Horizon”. Não é boooom de verdade, mas é regular e ao menos traz uma baita canção, que é “Magnificent”, digna do U2 de qualidade, além de outras bem ok.

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    • Davi

      Também é um bom disco. Do U2, na real, só não consigo gostar do Zooropa. Acho bem fraco. Dos outros, eu gosto. Alguns, considero fantásticos. Outros, bonzinhos apenas. Mas concordo que faz tempo que eles não lançam um puuuuta disco. O ultimo disco que me impressionou de fato foi o All That You Can´t Leave Behind. De todo modo, gostei do disco.

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  3. Diogo Bizotto

    Infelizmente eles soaram mais como seus discípulos (e são MUITOS!) do que como quem inventou a parada

    Dá pra dizer que as comparações com bandas tipo Coldplay cada vez mais fazem sentido, não?

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    • Ronaldo

      Perfeitamente, Diogo!
      os “discípulos” emulam tão bem os “mestres” que o material novo dos “mestres” soa como mais um dos discípulos. Isso em suma quer dizer que aquilo que os “mestres” não é assim algo tão especial e único. Muitos conseguem fazer e se dão bem fazendo.
      Abraço,

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  4. Marco

    Essas bandas longevas não suportam envelhecer. Abusam das plásticas, do botox e de repente o som está a cara do Tiririca (por mais que o Tiririca não mereça passar por esta comparação).

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  5. Antonio Marcos

    Tenho grande apreço pelo Mairon Machado e considero suas análises excelente, mas não consigo concordar em relação ao novo cd do U2. Após a clássica tríade Achtung Baby, Zooropa e Pop, o U2 não conseguiu mais produzir um grande álbum, ainda que alguns cds lançados após esses três tivessem duas ou três músicas interessantes. O novo lançamento seria um clássico se tivesse sido lançado pelo Coldplay. Para o U2, é mais do mesmo.

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    • Diogo Bizotto

      Bah, Antonio Marcos, eu acho que nem para clássico do Coldplay serve. Passo muito, muito longe de ser admirador da banda, mas “A Rush of Blood to the Head” é um bom disco, muito superior a qualquer coisa que o U2 lançou nos últimos 15 anos. Seria no máximo um álbum mediano mesmo para os seguidores do U2.

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