Por André Kaminski

De todas as pessoas que conheço pessoalmente, somente eu e um velho amigo que comprou este disco (ao qual na casa dele o ouvi pela primeira vez) gostamos dele. Na internet, as resenhas são bem divergentes. Enquanto há aqueles que gostaram na época, há também uma grande parcela que o odiou. Porém, já dá para se ver alguns textos mais recentes chamando o álbum de injustiçado. E este é mais um deles.

Devido à semana Helloween que tivemos há algum tempo, me inspirei a escrever este texto defendendo e apontando as qualidades que este ótimo (repito, ÓTIMO) disco do Helloween apresenta e que nenhum dos lançamentos posteriores mostrou elementos que o remetem a ele (para a alegria dos fãs antigos e infelicidade minha).

Segundo o baixista Markus Grosskopf, um funcionário de uma gravadora japonesa falou a Michael Weikath que a nova formação (com os recém chegados Sascha Gerstner na guitarra e Dani Löble na bateria, substituindo Roland Grapow e Uli Kusch respectivamente) era tão boa que poderia gravar um novo Keeper. Weikath não levou a sério, mas a gravadora insistiu para que eles fizessem um. Então a banda toda acabou aceitando e resolveram buscar as mesmas temáticas dos dois álbuns mais aclamados do Helloween. Todavia, resolveram que este seria um álbum com uma pegada bem diferente dos clássicos oitentistas, soando mais moderno e melódico que os anteriores.

Michael Weikath (guitarras), Markus Grosskopf (baixo), Dani Löble (bateria), Andi Deris (vocais) e Sascha Gerstner (guitarras e teclados)

E aí está a diferença: o Helloween saiu de sua zona de conforto produzindo músicas com um estilo mais moderno, abusando de teclados, sintetizadores e com um toque meio industrial, com aquele humor que é um representante perfeito do chavão “Happy Happy Helloween” que a banda sempre se caracterizou.

Para muitos, o maior defeito dele é se chamar Keeper of the Seven Keys, título do qual os fãs criam expectativas de que ouviriam uma nova “Eagle Fly Free” e tantos outros clássicos. Porém, a questão principal se você deseja realmente dar uma nova chance a este disco, é que você simplesmente deve esquecer quaisquer comparações com os Keepers antigos. Não é um álbum oitentista. Não é um power/speed metal clássico. Não vai ter agudos do Kiske nele. Não vai ter backings do Kai Hansen. Não vai ter bateria ultra-veloz de Schwichtenberg. Se o Helloween só representa isso para ti, melhor mesmo continuar nos anos 80. O som aqui é outro.

Como o disco é duplo e as faixas são muitas, vou citar apenas as que mais gosto.

“The King for a 1000 Years” inicia com aquela intro narrada falando um pouco da história do rei dos 1000 anos, para logo depois um coro feminino dar os backings e a música estourar em uma interpretação maliciosa e cheia de variações vocais do subestimado Andi Deris. Aqui ele possui uma liberdade jamais vista nos álbuns antigos para cantar do jeito dele (e mesmo nos álbuns seguintes quando voltou a ser um sujeito se esforçando para soar ao estilo Kiske). Sua voz soa como ele se sente a vontade, colocando emoção e força em cada palavra, sem precisar ter que impressionar ninguém com agudos. O instrumental, dos 5 minutos até os 7:30 antes do coro de vozes é um show de solos e empolgação. As variações de velocidade por aqui são sempre surpreendentes e imprevisíveis. Aliás, um dos maiores méritos do disco todo é você nunca saber o que virá no minuto seguinte. O refrão dessa música é de facílima memorização, dá para cantar junto na segunda vez que o ouve.

“The Invisible Man” começa com uma pequena introdução de baixo, logo seguida de um baita riff e um solo de guitarra de Weikath e Gerstner para então vir outra canção de instrumental variado e refrão ganchudo. “Mrs. God” é curtinha e mais uma de melodias intrigantes e ganchudas, com uma letra tirando um sarro dos homens.

No segundo disco, que aprecio mais que o primeiro, “Occasion Avenue” é mais uma que se utiliza de elementos do metal industrial misturados com o metal mais clássico do Helloween. É uma das minhas canções favoritas do álbum porque consegue unir com perfeição o metal mais clássico com uma sonoridade mais moderna. “Light the Universe” é um lindo dueto de Andi Deris e a convidada Candice Night, esposa do senhor Ritchie Blackmore, sendo uma balada bonita e que devido a ela fui atrás de conhecer o Blackmore’s Night. Mais uma ótima faixa é “Come Alive” com o destaque ao baixo e a mais uma grande interpretação de Andi. “Get It Up” lembra bastante o estilo das músicas do Master of the Rings e que poderia estar tranquilamente no tracklist deste outro destaque dos alemães. Agora a melhor de todas vem no final com “My Life For One More Day”, fechando de vez a saga Keepers como se fosse o próprio guardião dizendo que não pode salvar a humanidade e os incentivando a lutar para mudar seus destinos. Uma linda música de esperança composta por Deris e Grosskopf (este último fazia tempo que não tinha um grande acerto em termos de composição).

Quanto as outras canções, “Born on Judgement Day” é uma faixa mediana para baixo mais ao jeito Helloween clássico oitentista. Mas é uma música curiosa visto que a banda abriu espaço até para Grosskopf e Löble solarem alguns segundos com seus instrumentos, algo não muito comum na banda. A única faixa ruim mesmo é “Do You Know What Are You Fighting For”, em nada memorável e com um instrumental genérico. Coincidência ou não, essas duas faixas inferiores que citei foram compostas por Weikath. Assim, minha admiração por Deris aumenta ainda mais. As outras canções como “Pleasure Drone”, “Shade in the Shadows” e mais algumas são boas e não deixam o nível do disco cair.

Finalizando, eu diria que você pode muito bem dar uma chance a este álbum caso também aprecie ou veja qualidade em Chameleon [1993] e Dark Ride [2000], os outros dois discos também bastante diferenciados do Helloween mais tradicional. A banda em vários momentos foge do tradicional, principalmente nas músicas de Deris que assinou sete delas. Esqueça os outros Keepers. Esqueça o título Keeper of the Seven Keys e veja se talvez as coisas não mudam de perspectiva. É um álbum muito diferente não só do Helloween, mas do heavy metal como um todo.

Tracklist

Disco 1

  1. The King for a 1000 Years
  2. The Invisible Man
  3. Born On Judgement Day
  4. Pleasure Drone
  5. Mrs. God
  6. Silent Rain

Disco 2

  1. Occasion Avenue
  2. Light the Universe
  3. Do You Know What Are You Fighting For
  4. Come Alive
  5. The Shade in the Shadow
  6. Get It Up
  7. My Life For One More Day

5 comentários

  1. Fernando Bueno

    Eu sou um dos que acham que o disco não deveria ter se chamado Kepper of the Seven Keys. Ainda mais sabendo que isso foi resultado de uma pressão da gravadora. A própria banda sofreu com isso. E não precisava ser um CD duplo né? Tem muito filler ali. Mas seu texto me incentivou a ouví-lo de novo

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    • André Kaminski

      O pior é que cada disco tem, creio eu, uns 40 minutos. Ou seja, caberia certinho em um cd apenas, podendo tirar aí um minuto de umas três faixas que deixaria o trabalho em si mais barato para vender. Mas provavelmente isso foi decisão da gravadora tentando arrancar um dinheiro a mais dos fãs.

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  2. Marcel

    Faz muito tempo que não escuto e me lembro que não gostei muito não, também achei sem necessidade ser duplo. Gosto da The King for a 1000 Years, mas me lembro muito pouco do resto. Preciso re-ouvir.

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  3. paulo

    Eu comprei esse álbum assim que saiu nacional pela Hellion. Não é nenhuma obra prima mas sempre o achei bem legal. Continuo curtindo.

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  4. José Carlos Araujo de Paula Souza

    Eu gosto desse álbum!!! Se fosse um pouco mais enxuto, e com outro nome, seria ótimo!!! A faixa “The King For A Thousand Years” é uma obra prima, perfeita!! E eu adoro a “My Life For One More Day”, musicaça!!!

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