Discografias Comentadas: Stage Dolls

1 de outubro, 2017 | por André Kaminski
Discografias Comentadas
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Terje Storli (baixo), Torstein Flakne (vocais e guitarras) e Erlend Antonsen (bateria)

Por André Kaminski

O Stage Dolls, diferente de outras bandas de hard rock/AOR oitentista, não é lá uma banda recheada de histórias cabulosas para contar. Formada na Noruega em 1983 pelo vocalista e guitarrista Torstein Flakne e o baixista Terje Storli, ambos se conheceram ainda garotos quando participaram de uma competição de bandas em 1976 em Trondheim, na região próxima ao “braço geográfico” norueguês. A antiga banda de Terje precisava de um “guitarrista de aluguel” e Torstein de um dinheiro. Começaram a ensaiar junto ao baterista Erlend Antonsen, a banda foi rebatizada e o Stage Dolls havia se formado. Mandaram suas canções para a Polygram que aceitou de imediato vide o sucesso do hard rock na época, e logo começaram a fazer tours de apoio e a gravar seu primeiro disco. Porém, eu notei que a banda tem um ponto fraco: as capas de seus discos todas feias ou simplórias. Felizmente o que importa mais está no conteúdo e não na aparência, então vamos lá!


Soldier’s Gun [1985]

Um disco mediano com algumas boas canções é o que representa a estreia do Stage Dolls. Ainda um tanto jovens e crus em suas composições, a banda resolve aqui fazer rocks padrões sem ainda conseguir algum destaque na cena europeia. Há boas canções como “Queen of Hearts” com estilo de single e um belo saxofone em “Photograph”, a balada “While the Bombs are Falling” e canções de pegada mais glam como “Left Foot Boogie”, mas sem conseguir que algumas delas tenham aquele gancho matador ou aquela melodia marcante como manda a receita do hard oitentista. Em geral são rocks leves que não desagradam, mas que não marcam o ouvinte. O disco vendeu pouco mesmo na Noruega, mas serviu como aprendizado para álbuns melhores que viriam depois.


Commandos [1986]

O baterista Erlend Antonsen deixa a banda e em seu lugar entra Steinar Krokstad. E o novo integrante foi muito bem vindo, com uma energia muito melhor e com batidas mais marcantes do que o anterior. Não a toa, Commandos já foi muito melhor recebido e é um disco bem superior ao debut. O disco foi lançado nos Estados Unidos e vendeu mais do que o anterior, com a faixa “Commandos” sendo bastante tocada nas rádios americanas. Considero também a melhor canção do disco. O álbum ficou 11 semanas entre os mais vendidos na Noruega, sendo seu pico a oitava posição. A banda aqui já ganha reputação como uma das mais populares do país nórdico. “Prelude” parece uma faixa de piada em que um teclado começa tocar uma melodia singela e Torstein dá um grito “Stop It”, e assim “Heart to Heart” entra com uma pegada muito mais AOR e cujo estilo me lembrou o Journey e o trabalho solo do Eric Martin do Mr. Big. Mais teclado e um jeitão comercial fizeram bem a banda. As melodias são muito bonitas, perfeitas para estar no carro junto a mulher num clima apaixonado. Também destaco a linda “Young Hearts” um AOR deliciosamente bem feito e com um refrão marcante e “Rock You” é um pouco mais pesada e hard rocker, com o baixo em bastante destaque e a guitarra também pesando mais embora continue soando melódica como o restante do álbum. Recomendo muito este disco para quem curte o estilo pois não irá se decepcionar.


Stage Dolls [1988]

Um pouco mais direto que o anterior e menos tecladeiro, o fato é que a banda buscou um estilo mais tradicional de hard rock, embora as melodias pegajosas e o trato AOR ainda se fazem presentes. O single “Love Cries” chegou ao número 46 da Billboard, o que foi um grande feito para esses desconhecidos noruegueses já que foram a segunda banda do país a conseguir emplacar algo nos charts americanos (a primeira foi o a-ha). Dentre outras canções também muito boas, destaco “Lorraine” uma canção que poderia muito bem ser gravada pelo Harem Scarem e “Don’t Stop Believin'” que apesar do nome, é uma canção própria sem ter nada relacionado ao clássico do Journey. “Hanoi Waters” me lembra muito a alguma coisa do Praying Mantis, da época do Dennis Stratton. O disco em si segue melodioso e um pouco mais hard rocker, e se tornou o mais bem sucedido deles em sua amada Noruega. Dentre as bandas locais, sem dúvidas eles estavam apenas atrás dos conterrâneos do TNT em termos de fama e sucesso, embora fossem (e ainda são) relativamente desconhecidos no restante do mundo.


Stripped [1991]

Mais influenciado pelo hard americano, neste álbum os caras deram uma diminuída ainda maior nos teclados e na velocidade.. É fato que há meio que um receio quanto aos discos noventistas de bandas de hard rock da década anterior, mas dá para encarar Stripped sem medo de algo mais “punk-grungeado”. A banda segue fiel ao estilo que adotou e as canções seguem boas, embora em um nível abaixo do terceiro disco. Gosto de “Love Don’t Bother Me” uma balada agradável e cheia de feeling, além de “Rock This City” ambas bem feitas e que poderiam se encaixar perfeitamente em qualquer um dos discos anteriores que não faria feio. Porém, é bom lembrar que é o disco mais “adocicado” dos caras e isso pode espantar alguns rockeiros diabéticos.


Dig [1997]

Aqui a banda começa a dar uma derrapada e passa a se repetir um tanto demais. A saída do baterista Steinar Krokstad parece ter afetado a pegada rítmica da banda (este foi para o Vagabond, banda que contava com Jorn Lande, ainda um desconhecido na época). Entrou Morten Skogstad que se mantém no cargo até hoje. Mesmo com uma produção mais limpa que os anos 90 trouxeram as bandas, o fato é que o Stage Dolls ainda se mantém muito estagnado em termos de composições, soando tal como os quatro discos anteriores mas sem a qualidade deles. Apenas “Good Times” me soou boa com suas guitarras já com uma pegada country, com o restante passando entre o médio e o esquecível, usando um padrão de composição linear e pouco inventivo. Os anos 90 não foram um período bom para o hard rock, com pouca coisa se destacando e parece que o “padrão” da década também atingiu o Stage Dolls. Infelizmente pouco se tira de proveito deste disco.


Get a Life [2004]

Longos 7 anos se passaram, e lamentavelmente a banda não mudou muito do Dig para cá. Mais composições sem graça, insossas, guitarras pouco memoráveis e refrãos idem. A produção deu uma melhorada e o baixo está mais proeminente, mas não foi o suficiente para levantar as composições. Triste falar isso de uma banda que considero um destaque no estilo AOR, mas acabou que este disco tocou todo e em nada me atinge. Para não dizer que tudo seja ruim, “Don’t Fight It” é a melhorzinha mas já é quase o final do disco. A banda aqui volta a postar mais nos teclados, mas estes se demonstram ainda sem brilho ou ainda quase como cópias daquilo que a banda fez lá nos anos 80. Dá para pular para o último álbum.


Always [2010]

A banda melhorou e deu uma mudada nas composições, o que foi algo bastante positivo para seus fãs. As guitarras possuem um peso maior e algumas influências do rock norte-americano se encaixaram muito bem com as músicas, coisa que apareceu de leve em discos anteriores. Possivelmente o Bruce Springsteen serviu de inspiração. “Rainin’ on a Sunny Day” é uma bela canção que me lembra algo daquilo que ouvi do “The Boss” em seus vários discos que entraram nos Melhores de Todos os Tempos. A música título “Always” é muito boa, com um riff pegajoso e refrão facilmente cantarolável. O peso retorna em “Rollin” cheia de solos de guitarra e as melodias bonitas e refrãos cheios de backing vocals aprecem em “Highway’s Open”. Por fim, ainda curti muito “Saturday Night” no molde daqueles rocks dançantes dos anos 60, com direito a naipe de metais e cantora soul fazendo backings, sendo a diferença de possuir uma produção atualizada. A banda acertou e muito neste disco, no mesmo nível do segundo e terceiro álbuns e acredito que os fãs tenham gostado muito.


Os caras tiveram um pequeno e breve sucesso mundialmente ali no terceiro disco, entretanto são bem conhecidos na Noruega. Eles acabaram de encerrar uma turnê agora no início de setembro e segundo a banda, Torstein se concentra em compor novas músicas para um novo disco. Durante os anos entre os discos, é comum a banda lançar um ou dois singles com novas músicas que logo após são incorporadas aos shows, mesmo que não estejam dentro do catálogo da discografia inicial. Em resumo, o Stage Dolls fez uma carreira sólida no underground, sem grandes sucessos ou cifras, mas o suficiente para pagar as contas e viver bem lá na Escandinávia. Também não são uma banda de brigas ou egos inflados, tendo apenas duas trocas de bateristas lá nos primórdios da banda. São trabalhos que valem a pena conhecer e se você curte hard oitentista mais na linha AOR, pode experimentar ouvi-los sem qualquer receio.

Terje Storli (baixo), Torstein Flakne (vocais e guitarras) e Morten Skogstad (bateria).



5 Comentarios

  1. Tiago Bittencourt França disse:

    Fala André, eu como grande apreciador de um bom AOR não pude deixar de conferir imediatamente este belíssimo texto. Inclusive atualmente estou numa fase bem AOR (de novo) e peguei recentemente os primeiros trabalhos do Paul Sabu, o primeiro White Sister e os dois álbuns clássicos do Giant. Quanto ao Stage Dolls, infelizmente não conheço nada da banda mas sempre tive boas referências. Qual álbum vc recomenda pra me pegar de jeito com o som dos caras?? Abraço!

    • André Kaminski disse:

      Olá Tiago, sempre feliz por vê-lo aqui.

      Esse primeiro do White Sister eu conheço e também gostei bastante. Tecladeira a rodo nele!

      Recomendo começar pelo terceiro auto-intitulado e depois o segundo Commandos. Depois você pode ver se o som dos caras te agrada. Abraços!

  2. Tiago Bittencourt França disse:

    Valeu meu amigo. Vou já conferir. Grande abraço!

  3. Diogo Bizotto disse:

    André, eu tenho lá meu conhecimento sobre hard/AOR, mas confesso que não apenas nunca ouvi o Stage Dolls como o nome sequer me vem à lembrança. Já botei o Soulseek pra trabalhar e logo vou corrigir esse problema. Obrigado pela indicação. Só não entendi bem o lance do “braço geográfico”, mas isso é o menos importante…

    • André Kaminski disse:

      É aquele “”braço comprido” que forma o norte da Noruega.

      Então Diogo, eles são um tanto menos “tecladeiros” que as bandas mais tradicionais do estilo, indo na linha “soft rock” em muitos momentos. Mas é uma banda que acho que vai gostar dos discos.

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