Soul Enema – Of Clans and Clones and Clowns [2017]

29 de setembro, 2017 | por Ulisses Macedo
Direto do Forno
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Por Ulisses Macedo

Compor, lançar discos e se estabelecer não é tarefa fácil para nenhuma banda. Apesar de formada em 2001, a Soul Enema, liderada pelo tecladista e compositor Constantin Glantz, mostrou ao mundo sua estréia (Thin Ice Crawling) apenas em 2010, já com muitas composições ainda bem anteriores a esse período. E somente sete anos depois o grupo israelense nos dá uma sequência, porém com uma formação completamente diferente e da qual Constantin é o único membro remanescente. O processo de composição desenrolou-se durante todo esse tempo, e o resultado é um rock progressivo já dotado de identidade própria, transitando entre Ocidente e Oriente, ora acessível e ora complexo, ora sério e ora bem-humorado.

São 14 faixas com uma agradável diversidade de elementos tanto musicais quanto líricos. Em certa entrevista, o próprio Constantin definiu o estilo da banda como uma sopa que vai “de ABBA a Zappa, e de King Crimson a King Diamond”. De fato, a dobradinha de abertura com o peso de “Omon Ra” e a ligeiramente jazzística “Cannibalissimo Ltd.” já revela que a banda não quer fazer música da forma mais convencional, mas seu jeito extravagante está com as arestas aparadas a ponto de apelar a uma grande gama de ouvidos. “Spymania“, uma das melhores do álbum, tem uma interação bastante ocupada entre baixo e bateria fazendo a camada para que a guitarra e o teclado façam pequenos solos à vontade, enquanto a vocalista Noa Gruman declama os versos baseados em HQs.

Soul Enema

Gruman traz uma performance com interpretações perfeitamente dinâmicas. Séria, irônica, canastrã, triste, por vezes até um pouco exagerada; mas está tudo aí, em um timbre e intensidade bastante orgânicos, uma particularidade que consegue prender a atenção – algo que eu não esperava vindo de uma vocalista do metal sinfônico (ela é frontwoman do Scardust). Ela foi a escolha certa para encarar o caldeirão de gêneros musicais que o Soul Enema propõe durante a audição. E quando sua voz dá espaço para o instrumental, o leitor é convidado para uma montanha-russa em que figuram os teclados de Constantin e a guitarra de Yoel Genin, que discretamente conversam um com o outro, provocando uma sinuosa, e ao mesmo tempo acessível musicalidade de toques teatrais suportada pela ótima “cozinha” de Michael Rosenfeld (baixo, cítara, violino) e Dor Levin (bateria, percussão).

O virtuosismo por aqui não é exacerbado, e a complexidade típica do rock progressivo se encontra em tal medida a não espantar os menos chegados nas convenções do estilo (como eu), mas as frequentes passagens instrumentais não me deixavam esquecer de que eu estava ouvindo, de fato, um disco que possui essa distintiva etiqueta. Ainda assim, apesar de contidas em faixas que variam entre cinco e oito minutos, as viradas e mudanças de andamento são marcadamente pontuadas, e as seções e pontes de cada composição costumam evidenciar tanto a batida pesada do heavy metal quanto, por vezes, a estrutura musical de ritmos folclóricos orientais e instrumentos pouco usuais, tanto discretamente quanto de forma mais óbvia.

(Imagem retirada do Bandcamp da banda)

A esquisita e memorável “Dear Bollock (Was a Sensitive Man)” é um exemplo extremo do background israelense do Soul Enema, soando como um cruzamento entre uma cantiga regional irônica e o heavy metal, com uma percussão efetiva e vocais bem debochados de Constantin. É uma faixa curta, mas a banda se dá muito bem nesse filão, vide “Octopus Song”, que é minha preferida do CD, pois Norma a interpreta de forma mais próxima a de musicais. Na trilogia “Aral Sea” encontra-se o aspecto ambicioso típico do rock progressivo tradicional – são pouco mais de 20 minutos majoritariamente instrumentais, intercalando com influências do Oriente Médio e do prog sinfônico.

A banda veio muito bem acompanhada neste segundo registro, trazendo uma quantidade significativa de convidados – os mais gabaritados são Yossi Sassi (ex-Orphaned Land, também israelense), Arjen Anthony Lucassen (Ayreon) e Sergey Kalugin (Orgia Pravednikov), que figuram em grupos progressivos de renome. Há também o uso de flautas (“In Bed With an Enemy“), cítara (“The Age of Cosmic Baboon”) e até do shamisen japonês (“Dear Bollock (Was a Sensitive Man)”) ao longo do tracklist. Posso apontar a duração acima do necessário (73 minutos) como único aspecto que me desagradou. A dinamicidade que o grupo apresenta é o grande atrativo, é verdade, mas não quando aliada à duração proposta pela banda. Assim, não dá para justificar a permissão de entrada de algumas composições menos interessantes que poderiam ter  sido deixadas de lado, mais especificamente “Breaking the Waves”, “In Bed With an Enemy” e “The Age of Cosmic Baboon” (um trio que, infelizmente, se encontra unido bem na primeira metade do álbum), pois a banda se mostrou tão adepta em transitar por diversos gêneros mantendo uma identidade própria que faixas como essas são justamente as que soam mais próximas de algo formuláico, feito de forma automática, contribuindo em praticamente nada em termos de evidenciar os aspectos interessantes do quinteto.

Ouvi o álbum quase uma dúzia de vezes e já adianto que é pouco provável que figure entre meus preferidos do ano, mas os doentes por rock progressivo irão aproveitar cada minuto da audição. De qualquer forma, a banda garantiu lugar permanente no meu radar no caso de futuros lançamentos – com a esperança de que não demorem quase uma década para realizá-los. Por ora, leitor, aproveite que o Sr. Glantz é bonzinho e disponibiliza o álbum completo – e com letras – em seu canal oficial no YouTube.

Tracklist:

  1. Omon Ra
  2. Cannibalissimo Ltd.
  3. Spymania
  4. Breaking the Waves
  5. The Age of Cosmic Baboon
  6. In Bed With an Enemy (feat. Sergey Kalugin)
  7. Last Days of Rome
  8. Dear Bollock (Was a Sensitive Man)
  9. Aral Sea 1: Feeding Hand
  10. Aral Sea 2: Dustbin of History (feat. Yossi Sassi)
  11. Aral Sea 3: Epilogue (feat. Sergey Kalugin)
  12. Octopus Song
  13. Eternal Child (feat. Arjen Lucassen)
  14. Of Clans and Clones and Clowns



3 Comentarios

  1. Mairon disse:

    Legal que tu curtiu a indicação, Ulisses.

    O ano de 2017 tem sido produtivo em termos de lançamento. Passado o primeiro semestre, vários foram os discos que despontaram no cenário mundial e que chamaram a atenção da imprensa e de fãs. Nomes consagrados como Roger Waters, Sepultura e Metallica estão entre os grandes vendedores de álbuns no atual período, mas existem outras bandas que, apesar de terem vendas modestas perto dos gigantes citados, são capazes de conquistar seu espaço ao sol. E é o caso do do Soul Enema.

    Eu achei o disco interessante, para dizer o mínimo. Gostei de “Omon Ra” pelas inserções orientais, e cheia de mudanças, com muito destaque para o solo de moog por Glantz, e o bonito solo de Genin, que irá agradar fãs do DT.

    “Cannibalissimo Ltd.” me lembrou Piazzolla, e é precioso o solo central no moog, que vai trazer um grande cheiro de ELP para os seguidores dos britânicos.

    Nightwish foi o que veio a mente quando ouvi “Spymania” (André Kaminski, ouça essa), assim como “Breaking the Waves”.

    Melhor faixa para “The Age of Cosmic Baboon”. Quando a Sitar e os instrumentos orientais aparecem nesta instrumental, o arrepio surge no corpo. O mesmo ocorre em “Dear Bollock (Was a Sensitive Man)”.

    A suite “Aral Sea” é uma experiência sonora gratificante para quem passeou pelo álbum. Com certeza, a presença dos instrumentos orientais é uma atração enorme, mas os diversos trechos intrincados, trabalhados e bem complexos, ficam grudados no ouvinte por algum tempo, e mostram que sim, há música boa por todo o mundo.

    Apesar da imagem da capa ser algo no mínimo horrível, é uma boa pedida para o feriado que vai vir em breve (12/10) acompanhar os 73 minutos de um álbum no mínimo curioso, mas que com o passar do tempo, certamente irá estar se tornando uma audição constante para audiófilos do atual prog metal mundial.

    • André Kaminski disse:

      Ouvi agora Mairon, lembra um pouco principalmente o teclado, embora a estrutura deles seja do progressivo e do Nightwish mais metal sinfônico padrão.

      O disco é bem legal, um meio termo entre o rock e o metal progressivo. É um disco que irei ouvir com mais cuidado para a minha lista de melhores de 2017.

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