Budgie – Never Turn Your Back on a Friend [1973]

11 de setembro, 2017 | por Fernando Bueno
Resenha de Álbum
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Por Fernando Bueno

Qualquer garoto na faixa de 10-12 anos que gostava de futebol no início da década de 90 provavelmente assistia o Globo Esporte diariamente. A abertura do programa global continha uma música que ficou na cabeça de todos e marcou época. Só bastante tempo depois da música já ser bem conhecida por conta do programa esportivo é que se soube que se chamava “Bread Fan” e era executada pelo Metallica. Então a maior banda da época, os americanos ajudaram a trazer para o imaginário dos fãs o nome de um grupo pouco conhecido e que era, na verdade, os verdadeiros autores da música: o Budgie.

Os britânicos do Budgie foram considerados por muito tempo apenas uma cópia piorada do Rush, mesmo já tendo lançado três LPs anos antes do primeiro registro da banda canadense. A comparação era fácil de ser feita já que eram um grupo com três componentes, o som era uma mistura de hard rock com passagens de rock progressivo e, principalmente, seu baixista também era o cantor. Porque isso era o principal? Lembrem-se agora de todos os comentários elogiosos ou não sobre a voz de Geedy Lee, pois Burke Shelley tem uma voz tão característica quando o músico canadense. Diria até que a voz aguda de Shelley consegue ser mais peculiar que a de Lee. Além do mais, saca só a cara de nerd da figura. Não parece que ele é amigo de infância de Geddy Lee?

Ray Phillips, Tony Bourge e Burke Shelley

Never Turn Your Back On A Friend é considerado o melhor lançamento da história da banda. É também o seu terceiro álbum e o grande salto que foi dado desde o primeiro, autointitulado em 1971, e pelo bom Squawk, de 1972, em termos de produção e composição só é comprarável a seu sucessor, o também ótimo In for the Kill, 1974. Bandolier, de 1975, fecha a quina de discos indispensáveis do grupo.

O riff inconfundível de “Breadfan” abre o disco com talvez a faixa mais conhecida do Budgie (thank you Lars and James!!!). A guitarra de Tony Bourge entrega ao ouvinte algo de que na época nem se pensava em chamar de heavy metal. A velocidade com que Shelley canta e pronuncia as palavras é um desafio para qualquer um que quer ser fluente na língua inglesa. A faixa seguinte é uma ótima regravação para “Baby Please Don’t Go” dando mais uma prova do quanto o blues era importante para o rock and roll da época. Alías essa canção, de Big Joe Williams, é considerada uma das mais tocadas, arranjada e rearranjadas da história do estilo.

Pisando um pouco no freio temos “You Know I’ll Always Love You” baseada em voz e um bonito dedilhado cheio de variações. O baterista Ray Phillips é destaque na longa introdução de “You’re the Biggest Thing Since Powered Milk”. O solo de bateria cheio de efeitos abre a faixa mais purpleniana das faixas do disco. “In the Grip of the Tyrefitter’s Hand” é outra bastante lembrada pelos fãs da banda por conta de seus riffs e variações.

“Riding My Nightmare” é outra faixa calma de apenas voz e violão. As vozes dobradas de seu refrão são os destaques. Mas na verdade mesmo a canção tem o objetivo de introduzir a música que mais representa Never Turn You Back On A Friend, “Parents”. O épico de dez minutos prova que o Budgie é uma banda subestimada além de ser uma das melhores contribuições do grupo para o rock progressivo. Shelley consegue passar emoção de um modo que em nenhuma outra música acontece. A melodia é basicamente feita com a voz sobre baixo e bateria, enquanto a guitarra faz pequenos comentários durante as estrofes. Na metade da faixa as ótima frases de guitarras sobrepostas com sons que emulam o canto de pássaros nos remete às capas da banda sempre com o seu mascote, um periquito (budgie) gigante.

Por falar em capas não podemos deixar de citar, apesar de ser praticamente óbvio, que é mais um trabalho de Roger Dean. O artista é talvez o não músico mais importante do rock progressivo.

Never Turn Your Back on A Friend é um daqueles discos que possuem músicas variadas que agradam todos os tipo ouvintes e fãs do rock dos anos 70. Led Zeppelin, Deep Purple, Uriah Heep e várias outras bandas podem ser citadas para ajudar a classificar o som da banda. Eles foram bastante importantes para o desenvolvimento do heavy metal na Inglaterra e foi um dos pilares para a New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM). Como citado no início do texto o Metallica ajudou sua popularização com ”Breadfan” do single para “Harvest of Sorrow” de 1988. Mas os americanos regravaram outra faixa do Budgie, “Crash Course in Brain Surgery”. O Iron Maiden também prestou homenagem à seus conterâneos com “I Can’t See My Felling”, do álbum Bandolier, que saiu no single para “From Here to Eternity”. E aí, você ainda não conhece o Budgie? Que tal começar por esse disco!

Track List

1. Breadfan
2. Baby Please Don’t Go
3. You Know I’ll Always love You
4. You’re the Biggest Thing Since Powered Milk
5. In the Grip of Tyrefitter’s Hand
6. Riding My Nightmare
7. Parents



3 Comentarios

  1. Francisco disse:

    Budgie é daquelas bandas que merecia um reconhecimento maior por sua obra. “Never turn on your back on a friend”, “In for the kill” e “Bandolier” são álbuns de enorme qualidade e forrados com grandes composições. Tony Bourge deveria ser mais reverenciado entre os grandes guitarristas do hard rock. O que acontece com o Budgie é mais ou menos o que ocorre com Rory Gallagher: poucos conhecem, mas, ao terem contato com o trabalho deles, acabam se apaixonando. O Budgie não é uma banda revolucionária, ou essencial para os rumos do rock, mas, com certeza, cumpre com louvor o seu papel de fazer o ouvinte balançar as madeixas (os que têm) com satisfação…

  2. José Carlos Araujo de Paula Souza disse:

    Taí uma falha no meu currículo musical… não conheço praticamente nada do Budgie, falha essa ainda mais imperdoável com as facilidades de hoje… vou corrigir isso!

  3. Ronaldo disse:

    Eu só acho uma pena que o Budgie tenha tido uma produção tão aquém de suas qualidades musicais em seus primeiros discos. Este trabalho não é exceção – bateria muito grave, baixo mais alto que a guitarra, som abafado…a coisa só melhorou um pouco no disco seguinte e ficou boa mesmo do Bandolier pra frente. Merecem uma discografia comentada aqui na CR, uma grande banda. Do repertório desta primeira fase os registros ao vivo representam melhor a potência da banda.
    Abraço!

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