Por Micael Machado

Com seu autointitulado disco de estreia. de 1992, o quinteto californiano Body Count chamou a atenção por vários fatores, como: misturar rap com metal (algo bastante incomum na época), ter o conhecido rapper Ice T nos vocais, ser formado apenas por músicos negros, e, principalmente, pela violenta “Cop Killer”, cuja letra criticava os excessos da polícia de Los Angeles (especialmente os de contexto racista), e defendia que era melhor matar um policial do que ser morto por ele (a faixa acabou censurada, sendo retirada das versões posteriores do registro, e substituída por um discurso lido por Jello Biafra, ex-Dead Kennedys. Como represália, a banda distribuiu gratuitamente para o público singles com a música nos seus shows da época). A polêmica deu combustível para que o grupo mantivesse o interesse em seu segundo registro, Born Dead, de 1994, mas o mesmo já havia arrefecido bastante quando saiu Violent Demise: The Last Days, o terceiro disco, de 1997. A morte de três integrantes da banda (o baterista Beatmaster V, que teve leucemia, o guitarrista D-Roc, que foi vítima de um linfoma, e o baixista Mooseman, morto em um até hoje mal explicado tiroteio em uma rua de Los Angeles) forçou uma parada para o Body Count, que, com novos integrantes, tentou um retorno em 2006, com o álbum Murder 4 Hire, o qual, apesar da qualidade, acabou não dando em nada.

Ice T se envolveu com o cinema e a televisão (conseguindo um papel de destaque na série Law And Order: Special Victims Unit), mas, em 2013, reagrupou o Body Count com o guitarrista original Ernie C, o baixista Vincent Price, o guitarrista Juan of the Dead e o baterista Ill Will, além da presença de Sean E Sean nos samplers e backing vocals. Com este time, o grupo lançou em 2014 Manslaughter, que conseguiu alguma repercussão graças à nova versão para a clássica “Institutionalized”, do Suicidal Tendencies. A mesma formação se manteve junta, e lança agora em 2017 Bloodlust, disco que tem tudo para recuperar o respeito e o prestígio que o Body Count conquistou em seus primeiros anos.

Body Count em 2017: Ill Will (ao fundo), Juan of the Dead e Ernie C, Vincent Price e Sean E Sean (mais à frente), Ice T (em primeiro plano)

Já nos primeiros segundos da faixa de abertura, “Civil War”, temos a voz de Dave Mustaine, do Megadeth, em um discurso do tipo “utilidade pública”, que termina anunciando: “a América agora está empenhada em uma guerra civil”! Sem ser arrastada, a música se desenvolve em um ritmo mais lento, tendo um veloz solo de guitarra mais próximo ao final que soa bem ao estilo de Mustaine, embora eu não tenha informações de que foi ele realmente quem fez o registro do mesmo. Outro convidado especial é Max Cavalera (Soulfly, Cavalera Conspiracy, ex-Nailbomb e Sepultura), que participa nos vocais da brutal “All Love Is Lost” (onde Ice T deixa transparecer muita raiva em sua voz), mas a participação mais destacada acaba sendo a de Randy Blythe, do Lamb of God, que divide os vocais de “Walk With Me…“, que, ao alternar partes velozes com outras cadenciadas, acaba sendo um dos maiores destaques do track list. Também foi registrada uma homenagem ao Slayer (citada por Ice T como uma das maiores influências do grupo em uma falsa entrevista registrada no começo da faixa), com as covers para as clássicas “Raining In Blood” e “Postmortem”, feitas com competência, embora o rapper sofra para conseguir cantar as velozes linhas vocais da segunda.

Nas demais faixas, o grupo alterna músicas mais cadenciadas mixadas a partes “pula-pula” (como a faixa título e “This Is Why We Ride”, com todas as características típicas de uma composição do Body Count), faixas mais sombrias (“Here I Go Again”, com Ice rapeando ao invés de cantar) e composições que alternam velocidade e partes cadenciadas (como a interessante “Black Hoodie“, a nervosa “The Ski Mask Way“, um dos destaques do disco, e que traz uma vinheta no início, lembrando as faixas do primeiro disco, algo que também acontece em “No Lives Matter“. Não por acaso, as três faixas receberam vídeos promocionais para divulgação), com a vinheta “God, Please Believe Me” (onde o destaque vai para a linha de guitarra de Ernie C) fechando o track list do álbum.

Contracapa de Bloodlust

Como disse antes, Bloodlust tem tudo para reconquistar um papel de destaque para os californianos, pois, efetivamente, é um registro superior aos seus últimos discos. Resta saber se o público de metal dos tempos atuais (onde o streaming toma conta das “playlists” e a importância do artista em relação ao que se ouve é cada vez menor) continua interessado na música do quinteto, a qual, tanto em relação aos riffs e melodias, quanto às letras raivosas e expositivas, continua atual e necessária como sempre. Que o grupo recupere seu lugar de direito, e continue lançando álbuns desta qualidade.

Tracklist:

01. Civil War (ft. Dave Mustaine)
02. The Ski Mask Way
03. This Is Why We Ride
04. All Love Is Lost (ft. Max Cavalera)
05. Raining In Blood / Postmortem
06. God, Please Believe Me
07. Walk With Me… (ft. Randy Blythe)
08. Here I Go Again
09. No Lives Matter
10. Bloodlust
11. Black Hoodie

3 comentários

  1. Diogo Bizotto

    Escutei pouco ainda esse disco novo, mas, ao menos por ora, o julgo em um nível um pouco abaixo do anterior. É um bom álbum, mas “Manslaughter” é um dos mais legais que ouvi nos últimos anos. Esperava pouco tendo em vista a curva descendente dos lançamentos da banda, mas me surpreendi. É melhor, inclusive, que o primeiro, apesar de obviamente menos importante tendo em vista o contexto muito diferente. Acho que a inclusão do Juan of the Dead, um cara com um background mais thrash metal, foi muito importante nessa retomada, pois a banda está bem melhor no setor de riffs. Por ora, minhas preferidas são “Walk With Me”, “No Lives Matter”, “Black Hoodie” e a faixa-título. Uma correção, Micael, o vocal de “Postmortem” foi feito pelo baixista, Vincent Price, que foi outra boa inclusão no line-up, visto seus créditos como compositor. Aliás, a formação original (e os falecidos) que me perdoem, mas acho que a atual sem dúvida é superior.

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    • micaelmachado

      Valeu pela correção, Diogo! Eu redigi o texto sem o encarte, então esses “detalhes técnicos” acabaram me falhando!

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  2. Fernando Bueno

    Ouvindo o disco aqui e por enquanto estou gostando. Lembro-me de que o disco de 1992 apareceu, sabe-se lá como, no meio do meu grupo de amigos e o povo pirou. Foi um puta impacto.

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