David-Gilmour-no-Brasil

Por Fernando Bueno e Mairon Machado

Os consultores Fernando e Mairon estiveram presentes em dois dos quatro shows que David Gilmour fez no Brasil, e trazem hoje para nós um pouco da emoção que foram as noites de 12 e 16 de dezembro de 2015, as quais ficarão eternizadas no Hall de maiores shows da história brasileira.

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São Paulo (FB)

EXTRA!!! EXTRA!!! EXTRA!!!

Interrompemos a nossa programação normal para relatar um acontecimento único. Não tinha intenção de fazer uma resenha sobre um desses shows que David Gilmour estão fazendo no Brasil. Por ser algo que atrairia muita gente não achei necessário isso já que provavelmente muitos sites estarão relatando o que presenciaram nesses dias. Porém, me senti obrigado a registrar minhas percepções sobre esse acontecimento histórico que houve aqui no Brasil. Também cheguei até pensar em procurar algum dicionário de adjetivos pois o meu repertório seria pequeno para descrever o que senti.

David Gilmour é meu guitarrista preferido dentre uma infinidade de assumidades no instrumento. Steve Howe, Randy Rhoads, Eric Clapton e Robert Fripp estão dentre aqueles guitarristas que estão no pódio dos meus preferidos, e todos eles tem que me desculpar. Esses músicos podem ser tecnicamente melhores que David Gilmour, mas nenhum deles consegue transmitir tanta emoção em cada nota tocada. Seus shows inéditos aqui no Brasil nesse final de ano de 2015 certamente comprovam isso.

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É de se admirar a comoção de qualquer movimento que Gilmour fazia causava no público. A começar pela loucura que foi conseguir comprar um ingresso para o show. As filas virtuais que aconteceram no dia da compra com mais de três/quatro dezenas de milhares de interessados mostrava o quanto a presença do músico fez falta aqui no Brasil. Certamente o ineditismo desse evento ajudou aumentar a procura por um dos ingressos. A procura foi tanta que a venda para o dia 12 de dezembro foi tão rápida que tiveram que acrescentar mais uma data para São Paulo.

Era possível avistar camisetas com o nome do músico e também de sua antiga banda desde a Galeria do Rock ainda na manhã de sábado. Inclusive as camisetas alusivas ao último disco se esgotaram nas lojas de lá. A cada estação do metrô mais e mais fãs entravam em direção ao Terminal da Barra Funda. Nem a noite chuvosa estragou a animação dos que estavam por ali. Já dentro do estádio as barraquinhas de merchandising também tiveram seus estoques esgotados e até mesmo os copos de cerveja que servem como um ótimo souvenir eram disputados.

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O momento que ele pisou no palco foi o primeiro de uma série de picos de emoção do público, que aconteceram também quando ele soltou a primeira nota da guitarra ou quando cantou a primeira palavra. A introdução do show com três músicas de seu novo disco, inclusive a excelente faixa título, achei bastante adequada. Mesmo a grande maioria dos presentes não ter tido ao menos a curiosidade de ouvir o disco a excitação era tanta que abraçaria qualquer coisa que fosse jogada por David.

O que mais me impressionou, e também me emocionou, foi a forma que o público participou nas músicas mais conhecidas do Pink Floyd. Acho que nem em “Love of My Life” no Rock in Rio de 1985 o público cantou tão alto quando em “Wish You Were Here”. Em “Us and Them” a energia que vinha do palco nas partes mais fortes da música foi tão impressionante que foi difícil segurar as lágrimas que só foram se secar no intervalo do show.

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Gostei da inclusão de “Astronomy Domine” logo antes de “Shine On You Crazy Diamond”, fechando um pequeno bloco de homenagem à Syd Barret. “Fat Old Sun” e “Sorrow” foram surpresas deliciosas. A mescla de músicas solo com as do Floyd foi muito bem dosadas. Aliás tenho que comentar que o telão foi muito bem utilizados nessas músicas mais desconhecidas pelo público fazendo quem não conhecia as canções ficassem mais íntimos delas acompanhando o que se passava em tela como em “The Girl in the Yellow Dress”.

O final apoteótico com três clássicos do Pink Floyd deixou todo mundo com a certeza de que tinha presenciado algo único. Ao final de um show desses sempre temos aquelas sensação de quero mais e não seria diferente dessa vez. Acredito que se houvesse a possibilidades de sair do estádio, comprar um novo ingresso para uma hipotética continuação do show todos fariam tranquilamente. Os primeiros, e possivelmente únicos, shows de David Gilmour em solo brasileiro foram históricos. Fico com uma certeza, se o inglês ganhasse um segundo para cada pessoa que ele emocionou durante toda sua carreira eles seria imortal.

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Set List

  1. 5 A.M.
  2. Rattle That Lock
  3. Faces of Stone
  4. Wish You Were Here
  5. A Boat Lies Waiting
  6. The Blue
  7. Money
  8. Us and Them
  9. In Any Tongue
  10. High Hopes
  11. Astronomy Domine
  12. Shine On You Crazy Diamond
  13. Fat Old Sun
  14. On an Island
  15. The Girl in the Yellow Dress
  16. Today
  17. Sorrow
  18. Run Like Hell
  19. Time / Breathe (Reprise)
  20. Comfortably Numb

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Porto Alegre (MM)

Depois desse belíssimo relato do Bueno sobre o show de São Paulo, trago minhas impressões sobre o show de Porto Alegre, show não, um verdadeiro espetáculo proporcionado por seis cordas, uma palheta e uma generosíssima dose de talento e competência advinda do senhor David Gilmour.

Com exceção da longa espera no sol escaldante da capital gaúcha, prolongada pela desastrosa organização do evento, que deixou mais de cinco mil fãs torrando por mais de uma hora além do horário programado para a abertura dos portões, a estreia do ex-Pink Floyd em terras gaúchas foi a pura perfeição.

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Antes de Gilmour pisar no palco, o músico Duca Leindecker, acompanhado de sua banda, fez os gaúchos relembrarem de velhos sucessos do Cidadão Quem, banda famosa no Rio Grande do Sul dos anos 90, e da qual Duca fazia parte. Entre canções que marcaram época para uma geração de jovens e adolescentes da década de 90, Duca acabou deixando marcado para os presentes um cover feito com bastante maestria para o incrível solo de Eddie Van Halen, “Cathedral”, surpreendendo à todos os que já lotavam a Arena por volta das 19 horas, pois Duca nunca teve uma fama de ser um virtuose na guitarra. E sobre a lotação aliás, cabe aqui dizer que acho estranho as pessoas falarem sobre crise financeira no país, mas comprarem mais de 40 mil ingressos com preço mínimo em torno de 200 reais. Onde está a crise?

Depois do show de Duca, com pouco menos de uma hora, o palco preparou-se para a atração principal.

Gilmour foi impecável desde o início. A bela “5 A. M.”, do novo disco, Rattle That Lock, abriu os trabalhos seguida pela faixa-título e “Faces of Stone”, fazendo com que as três primeiras canções do show fossem exatamente as três primeiras canções do novo álbum, as quais amaciaram as gargantas para os fãs poderem soltar a voz no primeiro grande clássico da noite, “Wish You Were Here”, com um momento inesquecível onde Gilmour sentiu toda a emoção da plateia, e cordialmente deixou os mais de 40 mil presentes levarem a letra através dos acordes de seu violão. Lindo de ver e lindo de lembrar.

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Depois de conquistado o território, Gilmour foi mesclando canções de sua carreira solo com clássicos do Pink Floyd. “Money” trouxe a presença do saxofonista curitibano João de Macedo Mello, que mesmo com apenas 20 anos, mandou ver no eterno solo criado por Dick Parry no álbum Dark Side of the Moon (1973), e me causou o primeiro grande arrepio da noite. Macedo também mandou bem na linda “Us And Them”, outra do clássico Dark Side of the Moon, e que fez eu ir às lágrimas, já que esta é uma de minhas canções favoritas do Pink Floyd, e ouvi-la e vê-la sendo interpretada pelo seu criador há pouco menos de 5 m de distância é de uma incapacidade de segurar as lágrimas até mesmo para um salso-chorão.

Antes das duas, rolou “A Boat Lies Waiting”, a quarta faixa de Rattle That Lock, e “The Blue”, do seu antecessor, On An Island (2006), e depois da pequena passada por Dark Side of the Moon, veio “In Any Tongue”, quinta faixa de Rattle That Lock, o que para quem vem acompanhando a carreira solo de Gilmour, não é uma surpresa, já que ele sempre insere muitas músicas do seu mais recente lançamento em suas turnês, e elas encaixam-se perfeitamente entre as canções clássicas do Pink Floyd.

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Falando em canções clássicas, a primeira parte do show encerrou com a linda “High Hopes”. Antes dela, o famoso telão circular já havia abrilhantado os olhos dos fãs com imagens clássicas dos clipes de “Money” e “Us and Them”, além de closes caprichados na guitarra de Gilmour durante seus solos, mas confesso que ver o famoso clipe da última faixa de “The Division Bell” ali, enorme diante dos meus olhos, me levou novamente às lágrimas. Melhor ainda, ouvir o solo de Gilmour, sentado na sua slide guitar, e depois tocando violão, foi uma comoção não só em mim, mas em todo mundo que estava ao meu lado. Era uma sensação de nostalgia e incredibilidade, além de alegria, que poucas vezes presenciei em um show. Se acabasse ali, teria sido perfeito, e quando Gilmour anunciou que iria fazer uma pausa de quinze minutos, a ficha caiu, já que se essa primeira hora de show havia sido tão impactante assim, tínhamos que nos preparar para a próxima etapa da viagem sonora que o inglês e sua banda iria nos propiciar.

O intervalo serviu para recarregar as baterias. Apesar dos preços nada convidativos para as bebidas (um copo de água custava R$ 10,00 reais), eu e minha esposa decidimos não beber, já que tivemos a sorte de sermos contemplados com dois copos alusivos ao show, completinhos de Budweiser, e então, do ponto de vista hidratação estávamos bem. Mas as pernas estavam bastante cansadas, até por que um dia antes havíamos enfrentado uma longa viagem de mais de 600 km entre São Borja e Porto Alegre. Sentamos no chão e ficamos esperando Gilmour voltar ao palco, enquanto o pessoal em nossa volta se abraçava e largava os tradicionais “Buda que partiu!” entre outras frases de exclamação e exaltação com o presenciado.

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As luzes apagaram-se novamente, e o show recomeçou com uma pancada, “Astronomy Domine”, resgatada do clássico The Piper at the Gates of Dawn, o primeiro disco do Pink Floyd, lá de 1967, e que não possuía Gilmour nas guitarras na época, mas sim o fundador Syd Barrett, e foi de uma ensurdecência incrível. Que pancada! Uma violência absurda que iniciou as homenagens à Barrett, seguida pela leveza de “Shine On You Crazy Diamond”, a qual completou recentemente 40 anos (a faixa foi lançada em 1975, no álbum Wish You Were Here), e fazendo a Arena urrar com o Gm dos teclados, e também com o magnífico solo de Gilmour, causando obviamente mais lágrimas e mais arrepios nesse que vos escreve.

O telão então virou um gigantesco sol vermelho para Gilmour resgatar outra preciosidade, “Fat Old Sun”, de Atom Heart Mother (1970), e surpreender aos presentes com uma impactante apresentação para “Come Back to Life”, de The Division Bell. Gilmour retornou com mais duas canções de Rattle That Lock, com os desenhos da história de “The Girl in the Yellow Dress” preenchendo o telão, e a bela “Today”, para então mais uma vez nos surpreender com “Sorrow”, faixa que acabou tornando-se um tanto quanto obscura, já que ela advém de A Momentary Lapse of Reason (1987), um álbum considerado menor na discografia do Pink Floyd, mas que para quem viveu o Pink Floyd nos anos 80, que nem eu, trouxe as imagens do VHS Delicate Sound of Thunder (1989). “Sorrow” mostrou que o velhinho está em uma ótima forma, e foi muito legal ver o baixista Guy Pratt e o tecladistas Jon Carin se divertindo com essa faixa, já que ambos também estavam lá no Delicate Sound of Thunder, e vem acompanhando Gilmour em quase todos os shows desde então.

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A segunda parte da apresentação encerrou com”Run Like Hell”, tendo muitas luzes estroboscópicas e todos usando óculos escuros (apenas resgatando a banda de Gilmour, formada por Jon Carin, Guy Pratt e João de Mello, já citados, além de: Phil Manzarena – guitarra, vocais; Steve Distanislao – bateria; Theo Travis – saxofone; Bryan Chambers – vocais; e Lucita Jules – vocais) e não tardou para que o Bis surgisse, causando mais comoção ainda, primeiro com os despertadores de “Time / Breathe (Reprise)”, seguindo com a lindíssima “Comfortably Numb”, cantada por Carin e Gilmour, e com um solo estupendo de guitarra, para colocar a casa abaixo e fazer com que a viagem, o longo tempo de espera na fila, e todos os contratempos, valessem muito a pena.

Aliás, só o solo de “Comfortably Numb” já valeu cada centavo investido. Gilmour foi perfeito, arrancando uivos de sua Fender como só ele consegue, e o show de lasers em sua volta criou um clima espacial e viajante que auxiliou ainda mais para arrancar os olhos dos glóbulos oculares, trazendo êxtase para todos os presentes.

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A volta para casa foi lenta e complicada por conta do enorme trânsito nos entornos da Arena, mas mesmo assim, a anestesia causada pelas quase três horas de show foi suficiente para que o tempo passasse rápido, enquanto as imagens e os sons da primeira visita de Gilmour no solo gaúcho se tornasse inesquecível. E que não seja a última.

Set list

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  1. 5 A.M.
  2. Rattle That Lock
  3. Faces of Stone
  4. Wish You Were Here
  5. A Boat Lies Waiting
  6. The Blue
  7. Money
  8. Us and Them
  9. In Any Tongue
  10. High Hopes
  11. Astronomy Domine
  12. Shine On You Crazy DiamondIMG_1498
  13. Fat Old Sun
  14. Coming Back to Life
  15. The Girl in the Yellow Dress
  16. Today
  17. Sorrow
  18. Run Like Hell
  19. Time / Breathe (Reprise)
  20. Comfortably Numb

7 comentários

  1. José Leonardo G. Aronna

    Ótimas resenhas! Um dos melhores shows que vi em minha vida!

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  2. Igor Maxwel

    Só ficou faltando o Roger Waters nesses shows, seria bom ver os dois juntos novamente…

    Responder
  3. José Leonardo G. Aronna

    Uma coisa que não consigo entender pq que é suprimido uma parte do solo em Shine On…

    Responder
    • maironmachado

      Desta feita foram o solo de teclado e o segundo solo de guitarra. Mas mesmo assim, inesquecível

      Responder
  4. José Leonardo G. Aronna

    Desde que o PF ressurgiu em 1987, Shine On é reduzida nas apresentações ao vivo. Não me recordo se no show do RW em 2002 tb estava editada.

    Responder

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