Review Exclusivo: Los Hermanos (Porto Alegre, 17 de outubro de 2015)

20 de outubro, 2015 | por Mairon
Resenha de Show
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Por Mairon Machado

Três anos. Esse é o tempo que os fãs ficaram longe do grupo carioca Los Hermanos, que voltou à ativa para uma rápida turnê caça-níqueis, a qual está sendo divulgada como “o último encontro da banda”, e que passou por Porto Alegre no último sábado, dia 17 de outubro.

Para celebrar esse reencontro, o quarteto Marcelo Camelo (voz, guitarra, baixo, percussão), Rodrigo Amarante (voz, guitarra, baixo, percussão), Rodrigo Barba (bateria) e Bruno Medina (teclados), acompanhados de Gabriel Bubu (baixo, guitarra) e do essencial naipe de metais construído por Bubu (trompete), Mauro Zacharias (trombone) e Marcelo Costa (flugelhorn, clarinete, trompete, saxofone), foram escalados para inaugurar o Anfiteatro Beira-Rio, um Anfiteatro construído na parte de traz de uma das goleiras do estádio do Sport Club Internacional. Em princípio, essa seria uma escolha errada, já que ao lado o Internacional oferece o gigantesco ginásio Gigantinho, um local fechado e abrigado de chuva, só que durante o show, ficou provado que a escolha foi muito boa, não só por ser ao livre, mas também por que a acústica ficou muito melhor do que a acústica do Gigantinho.

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O palco do Los Hermanos, com o trio de metais, Marcelo Camelo, Rodrigo Barba, Rodrigo Amarante e Gabriel Bubu (Bruno Medina no telão)

Aliás, por Ventura, tudo funcionou perfeitamente dentro e fora do Estádio. O estacionamento não teve nenhum empecilho de entrada ou saída, assim como os portões de acesso não mostraram nenhum congestionamento na saída, mostrando que realmente um estádio de Copa do Mundo tem seus méritos.

Outra atração a parte foi os mais de 15 mil fãs que estiveram presentes. A maioria em uma faixa etária dos 20 aos 40 anos, já havia visto o Los Hermanos outras vezes, e não se importaram em pagar o salgado preço do ingresso para conferir uma das bandas mais amadas e odiadas dos últimos anos no rock nacional, e que mesmo estando há 10 anos sem lançar um material novo, ainda conquista cada vez mais fãs (era possível ver muita gente que devia ter pelo menos uns cinco anos quando 4, o último disco oficial do grupo, foi lançado em 2005).

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Camelo e Amarante (acima); Destaque para Amarante (abaixo)

Esses fãs são diferente do que estamos acostumados a ver em outros shows, já que não ficam filmando o show o tempo inteiro – no máximo, registram algumas fotos em seus celulares -, não gritam “Ah, eu sou gaúcho!” ou “Toca Raul” o tempo todo, e tão pouco fazem insinuações pró ou contra os principais times do Rio Grande do Sul, coisas que infelizmente são tradicionais nos shows realizados em Porto Alegre. Não, você não vê isso no show do Los Hermanos. O que você vê são pessoas que sabem o que querem ouvir, que cantam junto todas as canções, e que independente do tempo ou da distância que estão do seu ídolo, jamais deixarão surgir o Bloco do Eu Sozinho.

E esses mesmos fãs não tiveram do que reclamar. Os cariocas entregaram-se para um espetáculo marcante, que aqueceu a fria noite de sábado e deixou aquela sensação de “Por que não continuam na ativa”. Mesmo que muitos critiquem o estilo e as letras do grupo, é impressionante como a banda muda de estilo como quem troca de cuecas, seja quando Camelo e Amarante alternam-se nos vocais principais, seja apenas seguindo com apenas um deles, cantando músicas tão distintas como a violenta “Azedume” abrindo espaço para a suave “Pois É” (no caso de Camelo), ou então da tristeza e profundidade de “Sentimental” para o embalo jazzístico de “Primeiro Andar” (no caso de Amarante).

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O palco em “De Onde Vem a Calma”

Logo no início da apresentação, que começou com um atraso de uns vinte minutos, dava para se ver que a saudade que os fãs carregavam das últimas duas apresentações da banda em 2012 não ia ser tão simples de ser sanada. Afinal, as cinco primeira canções da noite (“O Vencedor”, “Retrato pra Iaiá”, “Além do que Se Vê”, “Todo Carnaval Tem Seu Fim” e “O Vento”), fizeram o chão do Beira-Rio tremer, e muitos perderam a voz logo de cara. Para amenizar, o grupo encaixou três canções menos conhecidas, que fizeram com que alguns preservassem a voz, mas outros, cantassem com mais vibração as faixas “Cadê Teu Suín-?”, “Do Sétimo Andar” e “Samba a Dois”.

Nesse meio tempo, foi possível contemplar com mais calma o conjunto de telas que formaram o imenso telão, o qual circundava todo o palco, e que ora apresentava imagens dos músicos, ora iluminava-se com cores ou detalhes especiais para cada canção, dando ainda mais interação entre palco e plateia, além daquela que já estava sendo causada através da fala e dos ouvidos.

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Detalhes do palco

A partir de então, o grupo soltou a mão, com interpretações inspiradíssimas que abrangeram os quatro álbuns do grupo, deixando a plateia cada vez mais enlouquecida e aplaudindo insanamente ao final de cada canção. Amarante é um show a parte. Suas dancinhas engraçadas no palco, o seu carisma, regados por long necks, vinho e um “cigarro”, o fazem com certeza ser o Hermano mais adorado pelos fãs. Além disso, ele é de uma simpatia enorme, agradecendo e brincando com a plateia e com os colegas de banda todo o tempo.

No contraponto, Camelo é bastante comedido, mas ao mesmo tempo, de uma humildade que pouco se vê entre os artistas do rock. Rodrigo Barba é o que mais impressiona. Como o baterista evoluiu desde que o grupo surgiu lá em 1999 com “Anna Julia”, de Los Hermanos. Está tocando muito, com viradas e rufadas não comuns anteriormente, e inclusive, chegando a fazer um longo solo – ovacionadíssimo – durante “Deixa o Verão”. Bruno Medina é o John Paul Jones da banda, já que apesar de não aparecer como os demais, faz o seu papel com muita precisão, e tornando-se fundamental em faixas como “Sentimental”, que colocou o Beira-Rio em prantos sob a linda imagem dos celulares ligados, iluminando as arquibancadas e o gramado do local.

Show de luzes em "Sentimental"

Show de luzes em “Sentimental”

Aliás, “Sentimental” deve ter sido a canção mais aguardada e cantada durante a primeira parte do show. Para todos os lados, era um mar de gente cantando e chorando, e a comoção atingiu o palco, pois percebia-se claramente que os cariocas também estavam a base de uma carregada dose de emoção. Por outro lado, foi incrível e surpreendente a reação dos fãs quando “Tenha Dó” e “Descoberta”, as duas primeiras canções do primeiro álbum da banda, foram apresentadas na sequência. Para quem acha que o grupo sobrevivia apenas de “Anna Julia” naquela época, ficou claro que ela é apenas mais uma canção que os fãs gostam, já que essas duas pauladas foram cantadas aos berros pela plateia.

Ficar passando por cada uma das músicas não seria conveniente, mas não posso deixar de citar o Bis apresentado pela banda. Depois de mais de uma hora e quarenta minutos de apresentação, o grupo deixou o palco sob aplausos ensandecidos, e o pedido de mais gritando tão alto quanto podiam os fãs. Surpreendendo novamente, o Los Hermanos voltou com a quase desconhecida “Adeus Você”, para então emendar novamente com a sequência original de Los Hermanos, agora com “Anna Julia”, “Quem Sabe” e “Pierrot”, respectivamente terceira, quarta e quinta faixa do álbum de estreia da banda, e que também encerraram os shows de 2012.

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Amarante, prestes a pular na plateia, mas impedido por um roadie

“Anna Julia” é um clássico inquestionável, que mesmo que você não goste, tem que admitir um pouco de respeito principalmente por ter sido regravada por George Harrison, mas afirmo novamente que ela foi apenas mais uma, já que “Quem Sabe” fez todo mundo enlouquecer. O naipe de metais sacudia a mente dos fãs, enquanto Amarante caminhou na frente dos fãs, acredito eu que pronto para executar um mosh, mas que por pedidos de um roadie apavorado, acabou não realizando. E quando Barba puxou o ritmo de “Pierrot”, foi a deixa para o estádio vir a baixo. A pancada frevo-metal fez o pessoal que mora do outro lado da cidade sentir a casa tremer aos gritos de “Chora” que eram exalados em virtude da tristeza do personagem principal da história. Que loucura! Um festival de arrepios e cordas vocais sendo estraçalhadas sem piedade, mas com muita alegria e prazer.

A partir dali, não havia mais o que ser feito. Apesar de muitas canções terem ficado de fora, é impossível não ficar satisfeito com duas horas e quinze minutos de apresentação, com pelo menos cinquenta por centro de cada um dos álbuns sendo apresentados, e com uma alegria que, tomara Deus e os egos do quarteto, não demore mais três anos para voltar aos palcos. Inesquecível (mais uma vez)

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Encerramento

Set List

1. O Vencedor
2. Retrato pra Iaiá
3. Além do que Se Vê
4. Todo carnaval tem seu fim
5. O Vento
6. Cadê Teu Suín-?
7. Do Sétimo Andar
8. Samba a Dois
9. Condicional
10. Azedume
11. Pois É
12. Morena
13. Um Par
14. O Velho e o Moço
15. A Outra
16. Paquetá
17. Sentimental
18. Primeiro Andar
19. Tenha Dó
20. Descoberta
21. Deixa o Verão
22. De onde Vem a Calma
23. Conversa de Botas Batidas
24. Último Romance
25. A Flor

Bis

26. Adeus Você
27. Anna Júlia
28. Quem Sabe
29. Pierrot



17 Comentarios

  1. Marco Gaspari disse:

    A Banda do Mar, que eu gosto muito, fez eu me interessar pelos Los Hermanos, que eu não consigo gostar. Mas não há dúvida pra mim de que o material disponível ao vivo deles no youtube dá de 10 a zero nas gravações de estúdio. Imagino então que esse show foi tão legal quanto o Mairon deu a entender. Mas não resisto: se existe um cemitério de elefantes, espero que Porto Alegre seja um cemitério de camelos e que a banda tenha ido aí para morrer finalmente. Sobra mais tempo para a vozinha da Mallu e o som deliciosamente tatibitati da Banda do Mar sem fim…

    • Eudes Baima disse:

      Na verdade, Gaspari, gosto bastante do trabalho de estúdio. Vi-os duas vezes ao vivo e achei-os desleixados…

      • maironmachado disse:

        Eu acho que a banda funciona muito melhor em estúdio, já que ao vivo, a plateia toma conta.

        • Marco Gaspari disse:

          Eu gosto mais ao vivo e pronto!

          • Micael disse:

            Ao vivo é só emoção! Em estúdio, por vezes é mais “frio”, mas é bom também! Como ao vivo atualmente é coisa rara, também prefiro essa versão (apoio ao Marco sempre)!

          • Marco Gaspari disse:

            Isso aí, Micael. Conosco ninguém podosco.

  2. António Marcos disse:

    Los Hermanos foi a pá de cal no rock brazuca. O texto ficou ótimo, mantendo o padrão de qualidade do Mairon, porém a banda é péssima. O único momento memorável foi o soco que Camelo levou do Chorão.

    • maironmachado disse:

      Obrigado pelo padrão qualidade Antônio Marcos, mas permita-me discordar de você. Acho que o rock brazuca não foi enterrado ainda. Tem muita banda boa no mercado, basta dar uma procurada. Cito quatro que tenho ouvido bastante: O Terno, El Efecto, Rinoceronte e Facção Caipira. Abraços

  3. Eudes Baima disse:

    Tocaram aqui em Fortaleza na semana anterior. Tinha visto a banda, de que gosto bastante, duas vezes ao vivo, e achei decepcionante. Mas meus filhos disseram que neste último show entraram na hora, tocaram bem e até reviveram Ana Júlia.

  4. Davi Pascale disse:

    Ótimo texto, Mairon. Acho o Bloco do Eu Sozinho discaço, considero um dos melhores álbuns brasileiros da década de 2000. Uma pena que não conseguiram manter o padrão dos discos, ao menos, na minha visão. Nunca vi uma apresentação dos caras. Só assisti pelo televisor, sempre achei eles medianos ao vivo, mas aquela história, assistir no local é outro impacto, outra emoção. Bela resenha!

    • maironmachado disse:

      Muito obrigado Davi. Eu tenho 4 como o melhor disco da banda, seguido por Ventura, Bloco do Eu Sozinho e Los Hermanos. O Multishow passa a apresentação da banda em São Paulo no dia 24, é uma boa hora de ir lá dar um confere meu caro. Abraços

  5. caio disse:

    não preciso ler a resenha pra saber que banda de poeminhas das humanas eh um saco

  6. Micael disse:

    Cara, que super show! Finalmente os organizadores “descobriram” (“criaram”) um local adequado em Porto Alegre para show entre dez e vinte mil pessoas (ou até mais, se desmancharem a configuração de anfiteatro e usarem o resto do estádio), o qual foi inaugurado a contento, com uma das melhores dentre todas as apresentações dos Hermanos na capital! Curioso como a banda continua a crescer ano após ano, mesmo sem se apresentar ao vivo e sendo tão odiada por tantos quanto a idolatram. Aos que não gostam, apenas lamento, pois nunca saberão a alegria e a emoção que é estar presente a um show destes cariocas, que em um momento estão fazendo você chorar como uma criança ao ouvir uma canção tão triste quanto bela, e no momento seguinte lhe fazem bater cabeça e urrar guturalmente como se você estivesse em um show de Death Metal! Uma sensação indescritível, que o Mairon chegou próximo de explanar em seu belo e emocionante relato, mas que só pode ser plenamente vivenciada e experimentada “in loco”! Espero poder viver tudo isso em breve, e que não me façam esperar mais três anos para isso!

  7. Nunca engoli, muito menos entendi esse messianismo em volta do Los Hermanos. Rock lo-fi básico sem sal e que não me diz absolutamente nada. Mas os fãs são realmente devotos e devem ter seus motivos para gostar dos barbudos.

    Texto com padrão de qualidade do Mairon, parabéns.

  8. Caio disse:

    Eu não consigo dissocia a banda de um universotario… Daqueles mais amor por favor sou poeta e fotógrafo

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