Maravilhas do Mundo Prog: Procol Harum – In Held ‘Twas In I [1968]

15 de novembro, 2012 | por Mairon
Maravilhas do Mundo Prog
3


Por Mairon Machado

O grupo britânico Procol Harum é um dos grupos mais injustiçados da história do progressivo. Fundado em 1967, no auge da psicodelia londrina, o quinteto foi um dos pilares do que posteriormente convencionou-se a chamar de rock sinfônico, ou mais precisamente, o rock progressivo, dividindo o bastão taco-a-taco com outro injustiçado britânico, o Moody Blues.

Mas diferente do Moody Blues, que tem suas raízes no rhythm & blues americano (com o ótimo The Magnificent Moodies, de 1965), o Procol Harum já nasceu pomposo, sinfônico e revolucionário. Tudo graças às mentes de seus principais fundadores, o tecladista Matthew Fisher e o pianista Gary Brooker.
The Paramounts: Gary Brooker, B. J. Wilson, Robin Trower e Chris Copping

Brooker era o líder de um quarteto beat chamado The Paramounts, o mesmo que gravou o clássico “Poison Ivy”, de Jerry Leiber e Mike Stoller, em 1964, clássico esse eternizado por bandas como Rolling Stones, The Hollies, Manfred Man e até nossa Rita Lee (que gravou “Poison Ivy” em português, batizada de “Erva Venenosa”, no álbum 3001 (2000). 

No The Paramounts, acompanhavam Brooker o guitarrista Robin Trower o baixista Chris Copping e o baterista B. J. Wilson. Porém, apesar de ter gravado outros singles, o The Paramounts não conseguiu alcançar mais nenhum êxito, encerrando as atividades em 1966. 

Porém, Brooker não queria sair do mundo da música, e decidiu montar um novo grupo. Assim, agregou forças com o organista Matthew Fisher, o guitarrista Ray Royer, e o baixista David Knights, além do poeta Keith Reid. O nome de batismo do novo conjunto, Procol Harum, uma homenagem ao gato do empresário do grupo, Guy Stevens. 

Matthew Fisher, Ray Royer, Bobby Harrison, David Knights e Gary Brooker

O Procol Harum logo conseguiu um contrato com a EMI britânica, e no dia 10 de fevereiro de 1967, entrou no Olympic Studios para gravar o seu maior sucesso comercial, “A Whiter Shade of Pale”, tendo na bateria o músico contratado Bill Eyden. O compacto desta canção foi lançado em 12 de maio do mesmo ano, e se tornou um dos poucos singles a superar a marca de dez milhões de cópias vendidas em todo o mundo (apenas trinta singles conseguiram essa façanha), alcançando a primeira posição no Reino Unido e na Austrália, aonde permaneceu nessa posição por oito semanas. 

O incrível sucesso de “A Whiter Shade of Pale” levou o Procol Harum a fazer uma excursão mundial (isso com um único single lançado), a qual teve como abertura um jovem guitarrista negro chamado Jimi Hendrix. Não à toa, é uma das canções mais conhecidas e regravadas ao redor do mundo. Nessa turnê, Robin Trower e B. J. Wilson ingressaram respectivamente na guitarra e na bateria, e com eles, gravaram o segundo single, “Homburg”, lançado em outubro de 1967, alcançando a quinta posição no Reino Undo. 

O contato de Trower com Hendrix influenciou diretamente a forma de tocar de ambos, apesar de muitos afirmarem que apenas Trower bebeu da fonte de inspiração que era Hendrix (Hendrix aprendeu a repetir os vibratos de Trower de forma muito similar).

Entre a gravação de “A Whiter Shade of Pale” e “Homburg”, é lançado o primeiro LP do grupo. Procol Harum chegou às lojas em setembro de 1967, através da Deram Records, e como que uma blasfêmia, no Reino Unido, a versão original não contava com “A Whiter Shade of Pale” (o que foi corrigido nas versões americanas e dos outros países europeus). O som do álbum é uma mistura de psicodelia e beat-rock, em um pop simples no geral, carregado pelo órgão inconfundível de Fisher e pelas lindas harmonias instrumentais de Brooker. O disco fez sucesso relativo, e deu a oportunidade para o quinteto seguir seu trabalho.

David Knights, Matthew Fisher, Robin Trower, B. J. Wilson e Gary Brooker

Uma série de singles sem sucesso, mais uma pequena turnê pelo Reino Unido, e chegou o segundo disco do grupo. Shine on Brightly foi lançado em setembro de 1968, e é um ousado projeto da dupla Fisher / Brooker. Nos seus trinta e nove minutos de duração, temos a chave-mestra do que virou o progressivo anos depois, com a primeira grande suíte criada por um grupo de rock, a linda “In Held ‘Twas In I”. 

Dividida em cinco partes (“Glimpses of Nirvana”, “‘Twas Teatime at the Circus”, “In the Autumn of My Madness”, “Look to Your Soul”, “Grand Finale”), é uma ousada suíte musical, que demora para ser assimilada, mas depois de absorvida, se torna uma embriagante sessão de relaxamento e prazer. Além disso, a participação de um pequeno coral deu mais drama a essa emocionante canção.
 

Gary Brooker

“Glimpses of Nirvana” abre nossa Maravilha Prog com o som de um instrumento indiando, acompanhando o poema que conta a história. Efeitos de guitarra como microfonias e vibratos aparecem, e após o poema encerrar-se, entra o tema marcado de guitarra, bateria e baixo. As notas da guitarra e do baixo executam um pequeno crescendo, enquanto o piano é martelado por , encerrando essa pequena ponte com os acordes decadentes do piano, intercalado por três intervenções de baixo, bateria e guitarra.

Aqui começa realmente a maravilha musical de “In Held ‘Twas In I”, com a Sitar e o piano executando o tema principal da canção. O baixo faz leves notas, trazendo o coral que entoa a melodia do tema principal, acompanhando o piano. Uma respiração profunda da espaço para um pequeno solo de piano, e mais um trecho do poema é entoado, enquanto a melodia do piano vai envolvendo o ouvinte, em uma melodia triste, mas muito bela.

Matthew Fisher

Batidas de um sino e rufares percussivos levam para a alegre “Twas Teatime at the Circus”, uma espécie de canção-cabaret, misturando valsa e polcas, destacando as vocalizações e intervenções do baixo e do piano, encerrando essa parte da canção com aplausos e muita festa. Porém, uma grande explosão acaba com tudo, trazendo a letra de “In the Autumn of My Madness”, em um ritmo leve, tipicamente sessentista, no qual o órgão e a guitarra se destacam.

Fisher faz um pequeno tema no órgão, e a letra continua, sempre com o mesmo ritmo, trazendo novamente o tema do órgão, enquanto ao fundo podemos ouvir uma sirene, gritos e diversos efeitos de colagem musical, os quais vão diminuindo o volume da canção para chegar na parte central e mais empolgante. Guitarra e baixo executam um tema marcado, enquanto o órgão delira com acordes longos. 

Robin Trower

Baixo, guitarra, piano e bateria fazem uma marcação tribal, ao mesmo tempo que o órgão delira, e nessa marcação, a guitarra passa a fazer o tema principal de “In Held ‘Twas In”. A guitarra então geme com notas muito tristes, enquanto baixo, órgão e piano repetem o tema central acompanhados pelo ritmo tribal.

Brooker passa a cantar acompanhado pelo cravo e pelo piano, e o ritmo suave é retomado pela bateria, com baixo, cravo e piano acompanhando belamente e dando mais emoção ao já emocionante vocal de Brooker, que com um longo grito, fica sozinho ao piano. O cravo e a marcação no prato mantém a letra em ação, seguindo o ritmo leve de “Look at Your Soul”, para Trower executar um lindo solo, com muitos vibratos, encerrando “Look at Your Soul” com mais um longo grito e o rufar da bateria.

É a marcação no prato, assim como o baixo, que introduz “Grand Finale”, trazendo o piano (aqui tocado por Fisher) e a guitarra executando um tema marcado junto do baixo, para o coral de vozes criar uma bonita melodia enquanto Fisher sola ao piano. Trower passa a solar, e o órgão entra em ação, com a canção ganhando dramaticidade nos acordes do instrumento, e a cozinha Knights/Wilson fazendo um acompanhamento singelo, mas perfeito para as notas rasgadas de Trower, encerrando essa maravilhosa canção com o coral trazendo uma energia positiva para a tristeza que impera em quase toda a suíte, acompanhado pelo ritmo marcial e por um longo acorde do órgão.

Procol Harum: pais do progressivo britânico

O Procol Harum ainda seguiu uma carreira com altos e baixos, trocando de membros como quem troca de roupas. O terceiro disco do grupo, A Salty Dog (1970) tornou-se o mais bem-sucedido álbum de sua carreira. Em 1972, o álbum Live in Concert with the Edmonton Symphony Orchestra trouxe em todo o seu lado B  uma fantástica versão ao vivo para “In Held ‘Twas In I”, a qual certamente deve ser ouvida pelos apreciadores do estilo. O grupo Transatlantic também fez uma regravação para essa maravilha prog.

O grupo encerrou as atividades em 1977, voltando no início da década de 90 para um único álbum (The Prodigal Stranger, de 1991) e definitivamente na década passada, permanecendo na ativa até hoje fazendo shows ao redor do mundo.

Talvez, se não fosse a ousada investida da dupla Fisher / Brooker, jamais teríamos a oportunidade de ouvir suítes como “Echoes” (Pink Floyd), “Close to the Edge” (Yes) ou “Supper’s Ready” (Genesis). “In Held ‘Twas In I”, além de uma Maravilha Prog, é uma peça essencial na história do rock progressivo e da música. Pena que o Procol Harum nunca mais tenha feito algo do porte dessa suíte, sendo reconhecido até hoje apenas pela bonita, mas ingênua, “A Whiter Shade of Pale.



3 Comentarios

  1. Marcello disse:

    Ótima matéria, digna de uma grande música. Apenas uma correção: na primeira foto colorida da banda, o terceiro músico não é B. J. Wilson, e sim Bobby Harrison, baterista do grupo no lado B ("Lime Street Blues") do single de "Whiter Shade…", que posteriormente seria o vocalista e líder do SNAFU.

  2. Obrigado pela correção Marcello. Já vou modificar amesma. Abraço

  3. A "Supper's Ready" dos anos 60.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *