Review Exclusivo: Planet Hemp (Porto Alegre, 29 de setembro de 2012)

1 de outubro, 2012 | por micaelmachado
Diversos
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Por Micael Machado


Foi em 1998. O Gigantinho recebia um evento para homenagear três bandas praticamente novatas, que estavam no topo do rock nacional naquele momento. Pela ordem de entrada, Charlie Brown Jr., Raimundos e Planet Hemp se apresentariam para um estádio com um excelente público, em uma celebração à “segunda geração” do famoso BRock da década de 1980. Os dois primeiros grupos fizeram apresentações muito boas, mas, na hora do Planet subir ao palco, um sujeito anunciou que a banda “havia sofrido um acidente no Rio de Janeiro, e não havia  conseguido chegar a Porto Alegre”. Diante das vaias do pessoal, ele bradou que “quem não gostasse tentasse recuperar o dinheiro do ingresso na justiça”, e encerrou a noite de forma melancólica!
O grupo se separou não muito depois disso (mas a tempo de lançar um dos melhores discos ao vivo gravados por uma banda brasileira nos últimos vinte anos), e Marcelo D2, um dos cantores, virou “músico respeitado” por fãs de samba, rock, hip hop, MPB, patricinhas e até nossas mães, além de figurinha fácil na mídia nacional, chegando ainda a fazer participação como ator em um especial da Rede Globo. O outro cantor, B-Negão, montou o Seletores de Frequência e manteve o respeito no underground, e dos instrumentistas Formigão (baixo), Rafael (guitarra) e Pedrinho (bateria), pouco ou nada se ouviu falar. O grupo só tocaria junto mais uma vez, em 2010, em uma festa em comemoração aos vinte anos de Brasil da emissora MTV. Aquela oportunidade não concretizada em 1998 seria a única que eu teria de assistir ao vivo um dos mais inovadores grupos do rock nacional do final do século passado, e eu já havia me conformado com isso há muitos anos.
Até que, em meados deste ano, Marcelo D2 anunciou “um show de volta do Planet no RJ”. O que era para ser um evento único logo virou uma turnê, e a segunda data anunciada foi justamente para Porto Alegre, no excelente Pepsi On Stage! Surpreso, alegre e animadaço, comprei meu ingresso logo na primeira semana de vendas, e fiquei na expectativa de que a banda não “furasse” comigo pela segunda vez.

Da Guedes

Marcado para iniciar as 23 horas, faltavam dez minutos para a meia noite quando a Da Guedes, lenda do rap e do hip hop porto-alegrense, subiu ao palco para fazer a abertura da noite. O hip hop é um dos estilos da sonoridade do Planet Hemp, mas não é o único, e um show de quarenta minutos do estilo realmente é algo que não me agrada muito. O público aceitou-os muito bem, inclusive com muita gente cantando as letras junto ao grupo, mas, para mim, só não foi mais insuportável porque os caras realmente têm talento em seu estilo. Além disso, a música “Peleia”, que a rádio Ipanema FM divulgou muito no começo dos anos 2000, é uma excelente composição, e outros hits como “Bem Nessa”, “Dr. Destino” e o cover para “Esse é o meu Compromisso”, da Ultramen, foram ovacionados pela galera. Eu não gostei, mas fui a minoria.

Planet Hemp no palco do Pepsi On Stage
Antes da data do show, a mídia anunciava que o hoje clássico primeiro disco do Planet, Usuário (de 1995), seria tocado na íntegra, mas eu queria mesmo era ouvir as versões presentes em MTV Ao Vivo (de 2001), o tal disco ao vivo citado acima. Quando, já a uma da manhã, um vídeo com Gil Brother (o “away de Petrópolis”) defendendo a legalização da maconha iniciou no telão, a expectativa para o que viria foi grande. Um segundo vídeo, com uma atriz interpretando uma aeromoça e dando “instruções para sobreviver ao show” (“respeite quem está ao seu lado no show”, “passe o beck, não enrole”, “cantem junto”, etc.), ainda seria exibido antes de Formigão, Rafael e Pedrinho surgirem interpretando “Não Compre Plante”, faixa de abertura do disco de estreia. Assim como no disco ao vivo, a canção teve executada apenas a sua introdução instrumental, sendo emendada a “Legalize Já”, e levando todos à loucura com a presença no palco de D2 e B-Negão.

Planet Hemp na área!

A sequência com “Dig Dig Dig (Hempa)” mostrou que o disco não seria executado na íntegra, ou pelo menos não na mesma ordem da gravação. Na verdade, o Planet, de forma muito interessante, tocou as músicas (quase) em ordem cronológica, dividindo o show em três “atos”, um para cada disco de estúdio de grupo. Assim, no primeiro ato, foram interpretadas as músicas de Usuário, com destaque maior para “Fazendo a Cabeça”, “Futuro do País” (com muito peso) e a surpreendente “Bala Perdida”. O foco ficou nas músicas mais hardcore, e o pessoal abriu enormes rodas de pogo no meio do Pepsi. Impressionante!

O “segundo ato” trouxe as músicas de Os Cães Ladram mas a Caravana não Para, de 1997. Este é um disco mais focado no hip hop, tendo até alguns toques de samba, como “Hip Hop Rio” e “Nega do Cabelo Duro” nos lembraram. Mas hits como “Zerovinteum”, “Queimando Tudo” e “Quem Tem Seda?” (do terceiro disco, mas curiosamente executada neste ato, assim como “Gorilla Grip”) fizeram a galera cantar e dançar ainda mais que as músicas do primeiro ato, além do hardcore ter tido espaço com “Seus Amigos” e “100% Hardcore”, onde D2 se jogou na plateia, levando alguns bons minutos para conseguir voltar ao palco. Ainda teve tempo para um curtíssimo solo do porto-alegrense Pedrinho antes de “Adoled (The Ocean)”, outra que cativou a todos.

O show continuava, e chegávamos ao terceiro ato, com as músicas de A Invasão do Sagaz Homem Fumaça, de 2000. “Ex-quadrilha da Fumaça” e “Raprockandrollpsicodeliahardcoreragga” iniciaram os trabalhos, sendo seguidas por mais três músicas do mesmo disco, além de “A Culpa É de Quem?”, de  Usuário. “Samba Makossa” foi uma bela homenagem a Chico Science (como eles já fazem há tempos), e “Mantenha o Respeito” (de quem todos sentiram falta no primeiro ato) encerrou a noite em alto estilo.

A homenagem a Chico Science no telão

A imagem da banda sempre foi muito focada em D2 e B-Negão, mas é injusto não citar os demais membros. Formigão é, ao lado de Champignon (do Charlie Brown Jr.), o melhor baixista nacional de sua geração. Rafael faz misérias com sua guitarra, transformando o pedal de efeitos em uma usina contagiante de sons. E Pedrinho (que há tempos substituiu Bacalhau, o baterista original), apesar de ser o mais discreto de todos, desce o braço com vontade nas peles e pratos, além de saber tocar “no sapatinho” quando necessário. Os dois vocalistas são a imagem do Planet, e, como homens de frente, executam muito bem suas funções, com o público nas mãos o tempo todo (embora por vezes o microfone de ambos tenha ficado muito baixo, prejudicando a audição das vozes, assim como ocorreu às vezes com a guitarra de Rafael). Além disso, foi muito legal ver os dois se abraçando por várias vezes durante o show, mostrando que as rusgas do passado estão definitivamente esquecidas.

Ao final de “Mantenha o Respeito”, o grupo permaneceu no palco sob os pedidos de “mais um, mais um” do pessoal. D2 disse que não tinham programado mais nada, “eram vinte e sete músicas e só, pessoal” (na verdade, foram vinte e seis), e “só se tocarmos tudo de novo” disse, se jogando ao chão ao ouvir o uníssono “yeah” do pessoal, fingindo estar muito cansado (algo que acredito que estava mesmo, pois já havia declarado que “não dá para tocar só hardcore o tempo todo não” antes de “Stab”). Como Rafael havia “ido ao banheiro”, como ele disse, tocaram diversos trechos de músicas já executadas antes apenas com baixo, bateria e os beat-boxes executados por B-Negão. Com a volta do guitarrista, repetiram “Mary Jane” e “Dig Dig Dig (Hempa)”, encerrando de vez uma noite memorável para o público gaúcho.

Planet Hemp

Se o Planet Hemp passar por sua cidade nesta turnê, não perca a oportunidade de assisti-los. A satisfação será garantida!

“Represento o hip hop, o pesadelo do pop, não tá ligado na missão? Foda-se!”




Set list:

Primeiro ato: o usuário e a luta pela legalização da maconha

1. Intro (Não Compre Plante)
2. Legalize já  
3. Dig Dig Dig (Hempa)
4. Planet Hemp 
5. Fazendo a Cabeça
6. Futuro do País
7. Phunky Buddha
8. Mary Jane
9. Bala Perdida

Segundo ato: os cães ladram mas a caravana não para

10. Zerovinteum
11. Queimando Tudo
12. Quem Tem Seda?
13. Gorilla Grip
14. Seus Amigos
15. Nega do Cabelo Duro
16. Hip Hop Rio
17. Adoled (The Ocean)
18. 100% Hardcore

Terceiro ato: a invasão do sagaz homem fumaça

19. Ex-quadrilha da Fumaça
20. Raprockandrollpsicodeliahardcoreragga
21. Stab
22. Contexto
23. Procedência C.D.
24. A Culpa É de Quem?
25. Samba Makossa
26. Mantenha o Respeito

Bis

27. Trechos de diversas músicas
28. Mary Jane
29. Dig Dig Dig (Hempa)



1 Comentario

  1. diogobizotto disse:

    Não curto a banda, mas não sou burro, cego ou surdo de negar a importância que o Planet Hemp teve durante sua primeira encarnação, basta ter observado a grande mobilização ocorrida quando a apresentação foi anunciada. Boa resenha, Micael.

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