Por Amancio Paladino
Caros amigos leitores, entraremos numa seara sem volta. De agora em diante, vamos estudar cada vez mais a fundo aquilo que está oculto nas letras das músicas do Maiden. Deixaremos de lado por alguns artigos as influências de seriados de TV, de filmes, de livros ou poemas e nos debruçaremos sobre os significados místicos das músicas do Maiden. Iniciaremos pelo básico, pelo mais simples e lentamente evoluiremos de forma que nos próximos três artigos chegaremos aos profundos conhecimentos esotéricos que deram origem a diversas músicas e discos do Maiden.
É necessário citar que, apesar de boa parte das influências místicas se deverem ao Mestre Dickinson, que sempre manteve aceso seu interesse pelo Hinduismo, pelo Hermetismo e pela Magia, a banda já demonstrava influências esotéricas em sua fase pré-Dickinson. Basta ouvir “Remember Tomorow” ou mesmo “Prodigal Son” para ter certeza disso. Assim, apesar do Mestre ter criado verdadeiros mundos com suas letras e histórias do além, a banda já seguia pela trilha dos iluminados e dos magos em seus acordes.
A Alquimia, tida por muitos como uma proto-ciência, ou mesmo um conjunto de conhecimentos pré método científico, foi a inspiração de muitas músicas do Maiden. A mais óbvia, e por onde começaremos nossa jornada, é a música “The Alchemist”.
Lançada em The Final Frontier, a música conta a história de John Dee, matemático, astrônomo, astrólogo e geógrafo do século XVI. Doctor Dee, como também era conhecido, foi também conselheiro da rainha Elizabeth I, mas destacou-se por seus conhecimentos de magia e por uma passagem conturbada ao lado de seu companheiro Edward Kelley. 
Símbolo de Doctor Dee: uma conjunção de vários
símbolos astrológicos
Dee conheceu Kelley em 1580 e ficou bastante impressionado com suas supostas habilidades especiais. Dee, que já havia obtido grandes conhecimentos e escrito importantes obras no campo das ciências naturais, estava em busca de conhecimentos no campo sobrenatural, no hermetismo e na magia. O jovem Kelley convenceu-o de que possuía habilidades para comunicação com os anjos, e assim tornou-se companheiro de Dee em suas viagens pela Europa oriental.
Nestas viagens, Dee utilizava as habilidades de Kelley para impressionar nobres e fidalgos que os recebiam em suas propriedades. Porém, algo de errado começou a ocorrer: Kelley começou a superar o Mestre Dee, e tornou-se mais renomado.
Cansado de sua relação de submissão, Kelley bolou um plano para separar-se de John Dee e seguir com sua carreira de mago. Ele convenceu Doctor Dee de que o anjo Uriel havia ordenado que ambos compartilhassem suas esposas, e que caso isso não ocorresse a desgraça se abateria sobre ambos. Tratava-se de um ritual que deveria executado para purificar a alma de ambos permitindo a continuidade das comunicações angelicais!
John Dee, que amava sua esposa acima de tudo, para surpresa de Kelley concordou. E o ritual foi feito! E finalmente Dee, percebendo a mentira de seu companheiro, abandonou a cena e voltou para a Inglaterra envergonhado.
Foi um belo golpe de Kelley, pois Dee, acatando ou não a ordem do anjo Uriel, acabaria por abandonar seu submisso companheiro.
Cartaz da ópera Dee
Ao voltar para a Inglaterra, John Dee dedicou-se ao estudo profundo da Alquimia e tornou-se recluso em sua residência, encarnando o estereótipo do cientista maluco. Lendas dizem que ele encontrou uma forma de voltar à vida, e que um dia ele retornará para limpar seu nome e sua imagem.
Ao olhar para a letra da música notamos todas essas passagens bem claras. A letra é praticamente didática.
É muito importante notar que a “The Alchemist” do Maiden tem pouca relação com a música “The Alchemist” do Mestre Dickinson, presente no álbum Chemical Wedding. Ambas tratam do tema, alquimia e magia, mas em Chemical Wedding a música realmente recita fórmulas alquímicas em linguagem correta, enquanto na música do Maiden a música é meramente um relato da conturbada vida de John Dee.
Alan  Moore
Outros músicos se preocuparam com a história de Dee, que, apesar de seus delírios, foi um importante estudioso de astronomia, sendo responsável por boa parte dos triunfos navais da Inglaterra no século XVI.
O diretor Rufus Norris criou uma ópera sobre a vida de Dee com base na história em quadrinhos de Alan Moore (o mesmo de “Watchmen” e “V for Vendetta”), que foi pouco exibida na Inglaterra, mas obteve excelentes referências da crítica. A ópera está disponível em CD, e foi lançada em 2011 na Inglaterra.
No próximo artigo, teremos um review completo do eterno Seventh Son of  Seventh Son, lançado pelo Iron em 1988. Aguardem!

5 comentários

  1. Igor Maxwel

    Pra mim o Iron Maiden chegou ao fim da linha neste disco The Final Frontier, já que o que se ouve em The Book of Souls nada mais é do que uma banda fazendo uma tosca xerocópia de si mesmo.

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  2. Igor Maxwel

    Esqueci de falar que The Final Frontier faz uma síntese de toda a história da carreira do Maiden, e “The Alchemist” faz a última volta da banda aos seus primórdios, aos tempos de Paul Di’Anno. Embora depois que ele saiu por conta de seus problemas incontroláveis e o Sr. Dickinson ocupou o lugar de vocalista, eles já tinham feito antes esse retrospecto em alguns discos dos anos 1980, como, por exemplo, nas músicas “Where Eagles Dare” (abertura de Piece of Mind, 1983), “Back in the Village” (gravada em Powerslave, 1984) e “Moonchild” (abertura de Seventh Son of a Seventh Son, 1988).

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