Maravilhas do Mundo Prog: Fernando Pacheco – Himalaia [1986]

9 de agosto, 2012 | por Mairon
Diversos
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Por Mairon Machado

O grupo Recordando o Vale das Maçãs lançou apenas um álbum, o cobiçado e essencial As Crianças da Nova Floresta, em 1978. Quatro anos depois, acabou separando-se pouco depois de começar as gravações daquele que seria o seu segundo disco. Um dos principais líderes do grupo – o guitarrista, vocalista e compositor Fernando Pacheco – seguiu peregrinando pela música. Em 1986, misturou talento e genialidade naquele que é em um dos mais belos álbuns da década. 

Trata-se de Himalaia. Esse diamante começou a ser lapidado no final dos anos setenta. Ali, o compositor e músico Fernando Pacheco, junto com os demais seis integrantes do grupo Recordando o Vale da Maçãs, lançava o magnífico As Crianças da Nova Floresta. O progressivo tradicional ganhava espaço entre a disco music e o punk.

Fernando sempre se caracterizou por ser um talentoso músico. Tendo diversos professores em sua vida, multi-instrumentista, acompanhou bandas de baile, sendo líder da conhecida banda santista Tropical Jungle. Contou com a ajuda de diferentes pessoas para consolidar sua marca entre os grandes no cenário brasileiro. Foi no Recordando o Vale das Maçãs que começou a ganhar destaque. Ao mesmo tempo em que se tornou professor no Grupo AMA e no Conservatório Musical Heitor Villa-Lobos, ambos em Sampa, ficou reconhecido como o Robert Fripp brasileiro. Graças à sua genialidade nas composições.

Fernando Pacheco, liderando o
Recordando o Vale das Maçãs

Mesmo com o fim precoce da banda em 1982, não parou no tempo (como por exemplo, nosso querido guitarrista Mario Neto). Antes, a RVM havia lançado o compacto Sorriso de Verão/Flores na Estrada, que ficou no primeiro lugar das paradas brasileiras durante seis meses. Fernando ainda apresentou-se com o projeto Pacheco e Carioca, ao lado de Carioca Freitas, antes de mudar-se para o sul de Minas Gerais onde assumiu a função de professor titular do Conservatório Estadual de Música J.K.O. (Pouso Alegre). Em 1985, lançou o magnífico álbum Instrumental junto com Fernando Pereira com o nome de Duo Fernando’s. Os dois já vinham ensaiando e fazendo shows desde 1983. 
 

A pergunta que fica é: seria Fernando Pacheco capaz de produzir uma Maravilha Prog, assim como fez quando liderava o Recordando o Vale das Maçãs? A resposta é sim e não, já que Himalaia apresenta dois lados distintos.

O lado A, “The Past”, foi gravado com o Recordando o Vale das Maçãs na cidade de Curitiba, durante o ano de 1982, e traz indícios do que seria o segundo álbum do grupo. O lado B, “The Present”, apresenta Pacheco tocando todos os instrumentos. Ambos os lados demonstram uma aula de sentimentalismo e técnica com o músico viajando por onde mais gostava: os temas instrumentais. Apesar de composto por apenas cinco faixas, as mesmas são certeiras e grudam no cérebro de qualquer apreciador de boa música.

Mas é em “The Past” que está a nossa maravilhosa canção. A abertura do LP é feita com “Sonho”, tendo um arranjo similar ao que foi gravado em As Crianças da Nova Floresta. Depois, entramos nos maravilhosos treze minutos da faixa-título.

Pacheco e o renomado violonista e compositor Leo Brower
Ela começa com o embalo lento e cadenciado de “Sonho”, quebrado por uma emotiva introdução recheada com violão, flautas e pássaros. No melhor estilo Recordando o Vale das Maçãs! Apresenta um lindo solo de flauta enquanto Pacheco dedilha seu violão.  A marcação aumenta seu ritmo, trazendo um lindo solo de guitarra e de teclados. 

Após começar lenta e suave, vai aumentando a cadência e atinge seu pique no rápido e complicado solo de violino. O clima muda, com flauta e teclados duelando sobre dedilhados de violões e baixo. Parece uma guerra de cantos entre pássaros na floresta. Inicia uma sessão mais viajante com solos de flauta, violino e guitarra, sempre acompanhados pela cadência RVMiana. Por fim, a bela introdução é retomada com o violão solando mais agressivo enquantos teclados e violinos deliram. A canção termina em um climão de floresta com a levada principal executada anteriormente sendo acompanhada pelos viajantes solos de teclado, flauta, guitarra e, principalmente, pelo violão dedilhado que acompanha toda essa faixa. Encerra o lado “The Past” com um tema de flauta daqueles tão grudentos como a introdução.

Relançamento em CD de Himalaia

O lado “The Present” possui outra canção digna de ser chamada de maravilha, a complícadissima “Progressivo L-2 Sul”. Aqui, Fernando mostra todo o seu trabalho e aprendizado no violão clássico.  Complementam o álbum a mini-suíte “Ciclo da Vida” – outra nos velhos moldes de As Crianças da Nova Floresta – e “Civilização”, um pequeno dedilhado de violão com um belíssimo solo de flauta.

Himalaia não fez muito sucesso no Brasil, mas acabou estourando no exterior (como já havia acontecido com a RVM). Fernando Pacheco ainda gravaria o CD As Crianças da Nova Floresta II (1993) e o trabalho 1977-82 (1994), ambos ao lado do Recordando o Vale das Maçãs. Em termos de carreira solo, lançou em 1998 Himalaia II (realizando concertos e trabalhos de divulgação na Espanha e Portugal) e em 2005, com o Duo Fernando’s, lançou Homenagem a Johnny Alf. No ano seguinte, lançou o belo trabalho Spirals of Time ao lado de Giuliano Tiburzio (baixo), Antonio Bortoloto (bateria), Leonardo Zambianco (voz), Nélio Porto (teclados) e Eduardo Floriano (vocais).
 

Fernando Pacheco, o Robert Fripp brasileiro

Em termos docentes, Pacheco assumiu o cargo de professor de violão e guitarra no curso de música da Universidade Vale do Rio Verde (UninCor) em Três Corações (MG). Nessa mesma universidade, assumiu o cargo de coordenador e professor do curso de Pós-Graduação em Música. Leciona até os dias atuais, ao mesmo tempo em que apresenta-se em concertos com o Recordando o Vale das Maçãs e em trabalhos de jazz instrumental brasileiro com o Duo Fernando’s e Fernando Pacheco Trio. Assim, mostra todo o seu talento e inteligência para o público que sabe valorizar um trabalho de primeira qualidade.



2 Comentarios

  1. Marcio disse:

    Uma pergunta: Porque vc cita que o guitarrista Mario Neto parou no tempo, não contra sua opinião, apenas uma duvida mesmo?

    • maironmachado disse:

      Olá Marcio, obrigado pela pergunta. Digo isso por que o Mario fez apenas o excelente Sete Cidades em 1999, e nada mais. Mesmo com o retorno do Bacamarte em 2012, ele não lançou nada de novo. E é um guitarrista talentosíssimo, que podia estar abrilhantando muito mais nossos ouvidos com suas melodias e técnicas. Abraços

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