Blind Faith – Blind Faith [1969]

8 de agosto, 2012 | por Mairon
Resenha de Álbum
3
Por Mairon Machado
Quando Eric Clapton (guitarra, voz) e Ginger Baker (bateria, percussão) saíram do Cream em 1968, eles eram os únicos do gigantesco que ainda podiam dialogar entre si. Multi-conceituado, Clapton teve seu início de carreira nos Yardbirds, passando rapidamente pelos Bluesbreakers de John Mayall e vindo a alcançar o estrelato dentro do Cream. Com o término do Cream, Clapton partiu para a formação um grupo onde tentaria esconder as brigas e o ego.


Já Baker vinha de uma estrondosa passagem pela Graham Bond Organisation (onde Bruce também fazia parte) e tinha como vantagem o fato de ser o único a aceitar as megalomanias de Clapton, apesar de não aceitar as de Jack Bruce (baixo, voz).
Nessa mesma época, Steve Winwood (teclados, voz, guitarras) estava com problemas, após o término prematuro do Traffic. Havia saído da Spencer Davis Group justamente em busca de um som um pouco mais diferente.
Sem bandas para tocar, Clapton convidou o amigo Winwood para algumas jams. Viram que o material gerado nos ensaios estava ficando bom, faltando apenas a parte percussiva. Clapton recorreu ao amigo e ex-companheiro de Cream. Em maio de 1969, o baixista Rick Grech (Family) entra para acompanhá-los no novo grupo, que ainda não tinha nome!
Raro LP com registros do Powerhouse
Clapton e Winwood já haviam tocado juntos no grande projeto Powerhouse, que entre 1965 e 1966 contou com Paul Jones (vocais, Manfredd Mann), Jack Bruce (baixo, Cream) e Pete York (bateria, Spencer Davies Group), além de Clapton e Winwood. Infelizmente deixou como registro apenas três faixas no raro LP What’s Shakin (a saber: “Crossroads”, “Steppin’ Out” e “I Want To Know”). Este contato anterior tornou o processo de composição do novo grupo ainda mais rápido. Em poucas semanas, estavam com material suficiente para um dos melhores discos da história do rock.
Primeira apresentação do Blind Faith, no Hyde Park
Antes do lançamento, a excitação dos fãs – tanto de Cream como do Traffic – em torno do novo grupo era grande. Alguns os apelidaram carinhosamente de Super Cream. Toda a expectativa criada foi matada com o agendamento de um show para o Hyde Park de Londres, o qual ocorreu em 7 de junho de 1969, tendo apenas os nomes dos integrantes da banda era divulgado. O retorno do público foi extremamente positivo (Obs: esta performance pode ser conferida no DVD “London Hyde Park 1969”, lançado em 2006).
Clapton era relutante. Tinha em mente que tudo não passava de aplausos em torno do nome dos membros do grupo e não por causa do grupo em si. Além disso, Winwood era contratado da Island Records, criando mais um empecilho para a gravação do tal álbum pela Polydor.
Compacto com o primeiro registro do Blind Faith
O jeito foi o lançamento de um single por ambas as gravadoras. Intitulado Change of Adress from 23 June 1969, a rara bolachinha de 45 rotações foi lançada como divulgação somente na Inglaterra, trazendo a gravação em apenas um lado de uma jam instrumental feita pelo grupo ainda sem Rick. No rótulo, o logotipo e telefone da Island e um novo endereço para a gravadora, sem mencionar o nome da banda. A tiragem do compacto foi de apenas 500 cópias. Se você encontrar uma, belisque-se para ver se não está sonhando.
Ainda sem nome de batismo conseguem convencer a Island a “emprestar” Winwood para a Polydor. Passam a gravar aquele que seria o único registro do grupo, ao mesmo tempo em que finalmente surge um nome. Graças a arte encomendada para a capa do LP, como veremos a seguir.
Agendam uma excursão pela Escandinávia com o nome de Blind Faith (nome dado a arte da capa do futuro LP). Após passar pela terra das lindas loiras, fazem shows por Estados Unidos onde estreiam tocando para 20.000 pessoas no Madison Square Garden no dia 12 de julho. Encerram a turnê em 24 de agosto tocando no Hawai, sendo altamente aclamados. Nesta turnê, tiveram como bandas de abertura alguns iniciantes como Taste, Free e Delaney Bonnie & Friends.
Registro do incidente no Madison Square Garden
Um fato negativo acabou acontecendo no show do Madison Square Garden. Durante uma determinada canção, Baker perdeu sua baqueta, que ficou parada na beira do palco, próxima a um fã, que rapidamente tentou subir ao palco para pegá-la. Os seguranças do local acabaram agredindo o fã diante dos músicos. Indignado, Baker saltou da bateria e pulou nas costas de um dos seguranças. A pancadaria entre banda e seguranças tomou conta do local, interrompendo o show de forma abrupta enquanto o público levantava os dois dedos no tradicional sinal de paz e amor.
Lançado pela Polydor em agosto de 1969, Blind Faith foi gravado quase que ao vivo. O LP abre com “Had To Cry Today” com Winwood e Clapton fazendo o riff nas guitarras. Winwood solta seu vozeirão em um maravilhoso som regado com as típicas notas de Clapton, comandado por uma leve cadência de Rick e Baker. Além dos dedilhados de Winwood.
O solo de Clapton é feito sobre o riff que é repetido por Winwood e Rick, enquanto Baker solta o braço, voltando aos vocais e com Winwood soltando-se um pouco mais na guitarra. Winwood rasga a voz entoando o nome da canção, enquanto Winwood e Clapton acumulam notas, solando individualmente sobre o mesmo tema, partindo para a viajante sessão de encerramento, onde Winwood sola no canal esquerdo e Clapton no direito. Dois solos sensacionais ouvidos ao mesmo tempo, sem embolar, com Rick e Baker acompanhando a loucura dos dois de forma alucinada. De tirar o fôlego! A canção encerra-se com a repetição do tema principal. Só ela já vale a pena o vinil, mas ainda tem mais.
A clássica “Can’t Find My Way Home” surge com os violões de Winwood e Clapton acompanhados pela percussão de Baker. A voz doce de Winwood traz a bela letra, enquanto os violões fazem os acordes para um belo arranjo.
“Well All Right” surge com um tema e melodia que lembram canções do Traffic, principalmente pela levada ao piano de Winwood. Clapton e Winwood dividem os vocais em uma canção animada, bem diferente das anteriores, tendo um belo solo de piano de Winwood.
O lado A encerra com outro clássico, “Presence Of My Lord”. Uma linda balada comandada pelo piano e pela guitarra de Clapton. A leve cadência de Rick e Baker emociona. Os vocais de Winwood estão em ótima apresentação. A canção muda com a entrada do solo de Clapton, onde com muitos efeitos solta os dedos em um acompanhamento vibrante de Rick, Winwood e Baker. Voltam à balada após o solo, com Winwood cantando e Clapton solando ao fundo.
Versão americana de Blind Faith
O lado B abre com “Sea Of Joy”, onde o órgão de Winwood apresenta o primeiro riff e puxa o violão. Uma música que lembra clássicos flower-power. Outra bela canção, com um belíssimo arranjo vocal de Winwood, mostrando por que é um dos melhores vocalistas de todos os tempos. A faixa ainda conta com um bonito solo de violino de Rick e é apenas o aquecimento das turbinas para a viajante “Do What You Like”.
A canção já começa com Winwood cantando na cara do ouvinte com um acompanhamento singelo da bateria. Teclado, guitarra e baixo fazem apenas dois acordes. Tem uma parte um pouco mais pesada quando o nome da canção é cantado. Após algumas estrofes, entramos na longa sessão instrumental com Winwood solando no órgão de forma magnífica, sempre tendo como base o acompanhamento dos demais membros da banda. O som psicodélico do seu órgão lembra canções do prog californiano. Assim como o solo de Winwood, a canção vai ganhando corpo.
Clapton começa seu solo com escalas bem diferentes das que ele costuma usar. Winwood faz os acordes do acompanhamento no órgão com muita técnica e precisão, acompanhado por Rick e Baker. Algumas vocalizações aparecem, até Rick começar seu solo, acompanhado apenas pelo cymbal de Baker e as vocalizações ao fundo.
Baker fica sozinho no cymbal e no bumbo, começando a solar de foma simples. Aos poucos, vai adicionando batidas e viradas, sempre com o cymbal ditando o ritmo das mesmas. Alternando batidas na caixa e nos tons, Baker entra em uma uma sequência de rolos e viradas dos bons tempos de Cream, até demolir o kit de forma única, usando os dois bumbos impecavelmente.
As vocalizações reaparecem e Baker traz o ritmo da canção novamente com Winwood encerrando a letra com uma viajante sequência de barulhos. Vozes agonizantes, cacarejos de galinhas e guitarras desafinadas.
Pôster de divulgação da turnê de Blind Faith
A arte da capa foi criada por Bob Seidemann (famoso por fotos de Janis Joplin e Grateful Dead), que batizou-a de Blind Faith (Fé Cega) por que “era a forma de representar o amadurecimento de uma fruta através da transformação. Isso só poderia ser feito com uma menina transformando-se em uma mulher, estimulando a esperança e o desejo de um novo começo, inocentemente chamado de Fé Cega“.


Isto causou polêmica, já que trazia uma menina adolescente com os seios nus segurando uma aeronave que para alguns lembrava um pênis ereto. A menina da foto chama-se Mariora Goschen. Na verdade, quem era para ter posado era a irmã de Mariora, mas como ela já tinha 14 anos, a transformação proposta pelo artista não seria mais válida. Mariora na foto está com 11 anos. A menina exigiu um cavalo para fazer a foto. Com a autorização dos pais, Mariora não ganhou o cavalo, mas sim 40 libras e o status de ser uma das garotas mais famosas do ano de 1969.
Na versão americana, o álbum saiu com uma capa diferente, tendo apenas uma foto dos quatro integrantes. 
Steve Winwood, Rick Grech, Ginger Baker e Eric Clapton
Blind Faith alcançou o número 1 na parada da Billboard americana dos discos pop e a posição 40 da mesma Billboard nos álbuns de música negra. Na Inglaterra atingiu o posto número 1 em setembro de 1969, tornando-se um êxito comercial, atingindo a marca de um milhão de cópias vendidas em menos de um mês de lançamento.
Porém, após o seu lançamento, o stress começou a bater em Clapton (de novo). Indignado de ter que colocar músicas do Traffic e do Cream para completar os shows do grupo (já que o material composto e mesmo as longas improvisações tinham um total de pouco mais de uma hora), Clapton anunciou o fim de uma das melhores e meteóricas bandas de todos os tempos em outubro de 1969, alegando problemas internos e tendo feito apenas 28 shows na sua curta carreira.
Em 1986, a Polydor lançou Blind Faith em CD, trazendo mais duas canções: “Exchange and Mart” e “Spending All My Days”, originalmente gravadas para fazer parte de um álbum solo de Rick que nunca foi lançado. Ao que parece, nenhum dos outros membros do Blind Faith participou dessas gravações. Duas faixas gravadas no concerto do Hyde Park surgiram na caixa de quatro CDs de Steve Winwood, The Finer Things, lançada em 1995. Em 2001, uma versão DELUXE de Blind Faith foi lançada em CD duplo, trazendo muito material inédito como ensaios e jams espetaculares, sendo o segundo CD somente com ensaios do grupo ainda como trio.
Steve Winwood e Eric Clapton, em apresentação de 2009
Em julho de 2007, Clapton e Winwood reuniram-se para tocar durante a segunda edição do Crossroads Guitar Festival, realizado no Toyota Park Center de Bridgeview (Illinois), onde tocaram várias canções da Blind Faith. Este encontro levou a dupla a realizar uma série de três noites no Madison Square Garden, nas datas de 25, 26 e 28 de fevereiro de 2008, tendo Willie Weeks no baixo, Ian Thomas na bateria e Chris Stainton nos teclados. A performance, com várias canções da Blind Faith, foi registrada no emocionante LP/DVD/CD Live from Madison Square Garden.


No verão de 2009, Clapton e Winwood fizeram 14 datas na cidade de New Jersey, tendo Abe Jr no lugar de Ian Thomas, além de duas backing vocals (Michelle John e Sharon White). Recentemente, encerraram uma excursão pela Europa, a qual começou em 18 de maio e terminou no dia 13 de junho, tendo Steve Gadd na bateria.
Após o Blind Faith, Clapton partiu para trabalhar com a Plastic Ono Band (1970) e os amigos Delaney & Bonnie and Friends. Posteriormente, formou o Derek and the Dominos, ao lado de Duane Allman, seguindo uma carreira solo de altos e baixos. Já Baker, Rick e Winwood formaram a Ginger Baker’s Airforce, outro super grupo do rock.
Track list
1. Had to Cry Today
2. Can’t Find My Way Home
3. Well All Right
4. Presence of the Lord
5. Sea of Joy
6. Do What You Like



3 Comentarios

  1. Marco Gaspari disse:

    Clapton já afirmou várias vezes em entrevistas que quando percebeu que o desgaste no Cream já estava insuportável, ele passou a mirar a sonoridade de outras bandas. A principal delas foi The Band. Ele chegou até a passar um dia com eles e Dylan em Woodstock, louco para receber um convite, hehe…, mas percebeu que não tinha espaço pra ele. Espaço que ele foi encontrar depois no Delaney & Bonnie. Com o Winwood o que ele esperava era ir na direção do que a The Band estava fazendo, mas de um jeitão mais inglês. Ele estava muito animado com o Blind Faith quando o estava montando. Ele achava, inclusive, que o Traffic era a versão inglesa da The Band. O que atrapalhou seus planos foi a chegada de Ginger Baker, que apareceu de repente e ele não conseguiu dispensar em função da admiração que tinha por ele como baterista. Segundo Winwood, Clapton foi muito educado e polido com Ginger, um grande bêbado na época e que metia medo no Clapton, hehe… Acho que ele teve receio do cara sair na porrada, hehe… Mas todos os planos que o Eric tinha para o Blind Faith brocharam quando Ginger Baker (e todos os dissabores que ele tinha deixado para trás com o Cream) entrou para a banda. Ele perdeu o controle, vamos dizer assim. Deixou de ser uma coisa divertida e já marcou o fim precoce do Blind Faith.
    E quanto ao raro LP What's Shakin', faço brecinho…

  2. fernandobueno disse:

    Antes de fazer meu comentário sei que muitos vão colocar alguns exemplos apra dizer que estou errado, mas para mim esse é o melhor discos que o Clapton e Winwood já gravaram. Só acho exagerado o tempo do solo de bateria em Do What You Like. Agora tem uma coisa que não dá para explicar. Com apenas um disco gravado é natural que a banda não tivesse material para preencher mais de uma hora de show. O que o Clapton queria? Ele que gravasse outros discos e tivesse mais material. Se ele não queria ter músicas do Traffic e do Cream no repertório que fizesse um show mais curto. Fico imaginando que outra banda temesse tipo de atitude. Imagine só rejeitar material maravilhoso como o Cream e o Traffic tinham….cada um viu!!!

  3. micaelmachado disse:

    Grande disco! Daqueles que dá para carimbar como "essencial"!

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