Maravilhas do Mundo Prog: Steve Hackett – Please Don’t Touch [1976]

26 de julho, 2012 | por Mairon
Diversos
1

Por Mairon Machado

Um dos grandes músicos do rock progressivo é também um dos mais injustiçados dentro do estilo. Estou falando do guitarrista britânico Steve Hackett. Músico inovador, Hackett é um dos responsáveis por introduzir no rock ‘n roll o estilo do tapping (tocar as cordas da guitarra batendo nelas com os dedos, alternando as casas do instrumento) e também algo que se tornou muito conhecido dentro do heavy metal melódico nos anos 80, a guitarra sintetizada.
A primeira aparição desse instrumento ocorre em 1976 no disco Please Don’t Touch, lançado pouco depois de sua conturbada saída do Genesis. Ao lado de Peter Gabriel (voz, flauta, percussão), Mike Rutherford (baixo, violões, guitarra, vocais), Tony Banks (teclados, violões, vocais) e Phil Collins (bateria, percussão, vocais), participou de uma das mais consagradas formações  do rock mundial. Com eles, gravou os inesquecíveis Nursery Crimes (1971), Foxtrot (1972), Selling England By The Pounds (1973) e The Lamb Lies Down On Broadway (1974), além de Live (1973).
Genesis em 1972: Phil Collins, Steve Hackett, Mike Rutherford,
Peter Gabriel e Tony Banks

A saída de Gabriel após o término da turnê de The Lamb Lies Down On Broadway elevou Phil Collins ao posto de vocalista principal. O Genesis, agora como quarteto, continuou mergulhado no progressivo (apesar de dar pequenos indícios do que iria acontecer anos depois), através dos álbuns A Trick of the Tail (1976), Wind & Wuthering (1976) e o ótimo ao vivo Seconds Out (1977).
Foi durante as gravações de Wind & Wuthering que Hackett começou a compôr algumas canções para um novo álbum do Genesis. Porém, Collins assumiu o posto de chefão do grupo, rejeitando várias composições de Hackett por serem “difíceis” para a nova proposta musical da banda. Indignado, o guitarrista decidiu sair do conjunto e continuar sua carreira solo, a qual havia começado em 1975 com o ótimo Voyage of Acolyte.
Para garantir um trabalho sólido e respeitado, Hackett cercou-se de convidados especiais como Ritchie Havens, Steve Walsh e Phil Ehart (ambos do Kansas), além de uma super banda com Chester Thompson (bateria, percussão), John Hackett (flauta, picolo, teclados), John Acock (teclados) e Tom Fowler (baixo). Para mostrar que era talentoso, resolveu soltar a voz em algumas canções fazendo vozes de fundo. Algo que no Genesis era quase impossível de acontecer.
Steve Hackett, durante gravação de Please Don’t Touch

O que foi registrado, em sua maioria, são canções não aproveitadas pelo Genesis. “Narnia” e “Racing A” apresentam a dupla do Kansas. A primeira é uma canções simples que em nada nos remete ao progressivo que seu antigo grupo costumava fazer, mas é muito parecida com o que o Kansas passou a fazer pós-Monolith. A segunda, traz a guitarra sintetizada sendo mostrada ao mundo acompanhada de uma pequena orquestra. Uma mistura do Genesis pós-Gabriel com pop eletrônico, com direito a uma bonita passagem de violão clássico. Outra impressionante habilidade de Hackett. 
“How Can I” é uma linda canção folk, contando com a participação de Havens nos vocais e na percussão. O músico também comanda os vocais em “Icarus Ascending”. Essa com uma sonoridade mais pesada, remetendo-nos diretamente às canções de Wind & Wuthering, além de misturar jazz e reggae em uma mesma canção.
Hackett canta em “Carry On Up The Vicarage”, sua voz é carregada de efeitos que deformam a mesma tanto para o grave quanto para o agudo. Somente no trecho central podemos conferir a voz de Steve, apesar de ainda existirem outros efeitos. Já RandY Crawford apresenta sua voz soul na balada “Hoping Love Will Last”, outra em que as cordas também estão presentes.
“Kim” representa o momento instrumental com um lindo solo de flauta. É exatamente um momento acústico que acabou se tornando a Maravilha Prog dessa semana. Trata-se da faixa-título. 
Contra-capa com o “alerta” para a audição de “Please Don’t Touch”
Ela foi oferecida por Hackett ao Genesis ainda na época de A Trick of the Tail e ficou escondida sob os panos do grupo até aparecer no lado B de Please Don’t Touch. A contra-capa indica para tomar cuidado com a canção, pois pode deixar o ouvinte confuso e causar problemas de insanidade temporária. E, realmente, é isso que ela faz!
“Please Don’t Touch” aparece logo após a vinheta instrumental “Land of a Thousand Autumns”, na qual Hackket nos apresenta um pequeno riff central com a guitarra sintetizada explodindo na virada de bateria que apresenta órgão e guitarra repetindo o tema de “Land of a Thousand Autumns”. O músico violenta a guitarra através da alavanca, que faz o instrumento gemer. Os sintetizadores dão um clima todo especial para canção. A marcação de baixo e bateria é quebradíssima e os diversos barulhos que surgem ao fundo parecem que constroem uma canção. 
O maluco trecho central surge após uma ponte repleta de marcações extremamente complicadas entre piano, órgão, violão e bateria, com destaque para a performance de Chester Thompson. Nesse trecho central, guitarra e flauta duelam em cima de um tema do folclore britânico. O trecho  é repetido duas vezes, enquanto a ponte é repetida três. Um mágico solo de flauta nos leva novamente para o riff de “Land of a Thousand Autumns”, executado entre muitos barulhos pela guitarra e pelo órgão, encerrando essa maravilha com uma abrupta interrupção. Deixa, apenas, o picolo e um fagote reproduzindo o riff principal.
Dessa repetição, nasce “The Voice of Necam”. Uma linda passagem de violão feita por Hackett, servindo perfeitamente como conclusão da obra-prima chamada “Please Don’t Touch”.
Steve Hackett nos anos 2000

Steve Hackett continua em carreira solo até os dias de hoje, tendo gravado mais de uma dezena de LPs que vão desde o blues até a música latina. Em 1985, formou o GTR ao lado de outro gigante do progressivo: Steve Howe. Apesar da sonoridade AOR, o único álbum da banda (GTR, lançado em 1986) apresenta uma sequência para “Please Don’t Touch”. Trata-se de “Hackett to Bits”, na qual o guitarrista mostra toda sua virtuose em cima do riff dessa maravilhosa canção fazendo variações em cima do tema principal. Incrivel! Mesmo tendo ganho uma cara mais moderna. Uma vez Maravilha Prog, sempre Maravilha Prog!!!



1 Comentario

  1. joseleonardo disse:

    Embora eu prefira seu lp de estréia, esse disco não faz feio e é bem diversificado. Nota 8 para ele!! Excelente texto, para variar!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *