Maravilhas do Mundo Prog: Panna Fredda – Il Vento, La Luna e Pulcini Blu (Sole Rosso) [1971]

12 de julho, 2012 | por Mairon
Diversos
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Por Mairon Machado
O rock progressivo italiano é tão importante para o gênero quanto o britânico, apesar de não ser tão reconhecido assim mundialmente. Muito desse não reconhecimento se deve ao fato de a maioria das bandas progressivas saídas do país da bota lançaram álbuns somente dentro da Itália, não tendo a chance de atravessar os alpes e galgar sucesso pela Europa. É o caso do Panna Fredda.
O grupo foi formado em Roma, em meados de 1969, tendo na sua formação um quinteto formado por Angelo Giardinelli (guitarra, voz), Carlos Bruno (teclados), Giorgio Brandi (baixo, teclados, voz) e os irmãos Julio e Filippo Carnevale (bateria), batizados de I Figli del Sole (O filho do Sol). Esse nome é modificado para The Vun Vun, mesmo nome do bar onde o grupo passou a tocar frequentemente. O som do Panna Fredda era próximo ao funk Motowniano, principalmente por ser esse o estilo pedido pelos jovens nos bares locais de Roma. No entanto, o quinteto não estava satisfeito com o estilo adotado e logo começaram a vislumbrar uma nova linha para seguir adiante.
A principal vontade era tocar blues, mas um dia, Angelo Giardinelli viajou para a Tunísia e voltou com discos de bandas como Vanilla Fudge, Moody Blues e King Crimson, os quais ele havia conseguido com a filha do embaixador dos Estados Unidos naquele país. Entre outras bandas como Jimi Hendrix Experience, Mother of Invention e Uriah Heep, o que mais chamou a atenção de Giardinelli foi Pink Floyd. A partir de então, Giardinello estabeleceu a ideia de criar um grupo com sua sonoridade para o rock progressivo.
Giardinello então primeiro convenceu Bruno. Primeiro, os dois começaram a discutir sobre montar um grupo. Bruno estava fissurado por nomes como Wilson Pickett e James Brown e queria manter o funk como o som do grupo. Contudo, bastou Giardinello colocar a versão do Deep Purple para “Hey Joe” na vitrola que a ideia mudou. O próximo passo foi seduzir Brandi, que aceitou de cara, já que estava cansado dos sopros de Julio. O mais difícil foi convencer Filippo, pois ele era irmão de Julio. Porém, a aceitação de Filippo foi imediata. Ele estava bem afim de se livrar da pressão e opressão do irmão mais velho.
Panna Fredda ao vivo em 1970
Passam a ensaiar escondidos de Julio e não demorou para se acharem como quarteto. Não tardou para o novo grupo, ainda sem nome, chegar aos ouvidos da Vedette, uma das maiores empresas fonográficas da Itália, responsável por lançar os discos do famoso grupo beat-pop Pooh. A Vedette chegou ao grupo de Giardinello através da indicação de nomes fortes da cena musical italiana, como Roby Crispiano, e ofereceu um contrato para o lançamento de um compacto de 45 RPM, vendo no novo grupo um possível substituto para o Pooh (inclusive sugerindo linhas melódicas no início da conversa com o grupo).
Ao fim, um acordo foi firmado e quando o chefe da Vedette  perguntou para Giardinello: “Qual é o seu nome?”, o guitarrista respondeu: “Angelo!”. “Como assim Angelo? O nome da banda é Angelo? O guitarrista percebeu que não tinha um nome para sua banda e assim a Vedette disse que iria interferir e ajudar a decidir através de uma lista a ser montada pelos integrantes do grupo.
Enquanto isso, mandam-se para Veneza, onde passam a tocar no bar Caorle, apresentando-se como Caorle Band, enquanto discutiam um novo nome. Dentre vinte nomes escolhidos, a Vedette viu no último aquele que mais chamou a atenção. Uma homenagem ao Vanilla Fudge: Panna Fredda (Creme Frio em português). Com esse nome, assinam o contrato e logo começam a ensaiar para gravar o compacto.

Em 1970, chega às lojas o compacto “Strisce Rosse” / “Delirio”. As duas canções foram escritas por outros artistas para o grupo. O primeiro compacto lançado, em poucas semanas entrou nas paradas como um dos mais vendidos daquele ano, permanecendo na mesma durante quatro semanas na primeira posição. Satisfeita, a Vedette libera dinheiro para mais um compacto. Durante o verão de 1970, o grupo lançou “Una Luce Accesa Troverail” / “Vedo Lei” que também fez um relativo sucesso. Com isso, foi liberada a gravação de um LP completo.
Quando tudo parecia dar certo para o Panna Fredda, Brandi foi chamado para integrar o exército italiano na Sicília. Nessa mesma época, Bruno já demonstrava desinteresse, buscando novos grupos para tocar, em uma linha parecida com Black Sabbath. Giardinelli e Filippo estavam sozinhos, precisando fazer um LP. O primeiro nome a entrar na nova formação foi o tecladista Lino Stopponi. Junto dele, Giardinello, chamou o baixista veneziano Pasquale Cavallo. Quando as gravações começaram, Filippo decidiu largar a música, investindo no seu casamento e também seguindo uma carreira militar.
Cavallo sugere a contratação do baterista Roberto Balocco, um jovem talentoso de 17 anos. Com Giardinello, Stopponi, Cavallo e Balocco, temos a formação que conclui Uno, LP de estreia (e único) do Panna Fredda. Lançado em 1971, foi uma batalha muito grande entre a nova formação do Panna Fredda e os desejos musicais da Vedette, que desejava ver no Panna Fredda uma sequência do Pooh. Os garotos desejavam seguir uma linha independente, voltada para o progressivo. Antes de entrarmos nos detalhes do disco, vamos comentar um pouco mais sobre o longo período de gravação do mesmo.
Vários shows pela Itália fizeram com que a recepção do público com o som do Panna Fredda fosse positiva. O Panna Fredda virou headliner em muitos festivais pelo país, além de aparecer frequentemente em programas de rádio, convencendo a Vedette que aquele era o caminho ideal e decidindo finalmente por lançar o álbum.
O álbum abre com “La Paura”, com os uivos dos sintetizadores e o órgão fazendo um solo maravilhoso. “Un Re Senza Reame” é uma intrincada peça musical, destacando novamente o órgão, seguida da maravilhosa “Un Uomo”, que poderia facilmente estar presente nesta seção. “Scacco Al Re Lot”, possui um tema alegre, que nos leva então para nossa Maravilha Prog, a épica “Il Vento, La Luna e Pulcini Blu (Sole Rosso)”.

Lado A de Uno

Ela começa com o dedilhado do violão, a marcação de baixo, bateria e cravo, sendo o cravo o responsável por acompanhar os vocais chorosos de Giardinelli. Um breve tema do cravo inicia a estranha sessão instrumental, na qual o órgão parece estar sendo quebrado, com seis notas muito confusas, enquanto a marcação é apenas nos pratos, órgão, violão e bateria.

O tema do cravo é repetido e harmônicos no violão trazem novamente os sinistros efeitos de sintetizadores com barulhos saídos de algum delirante local na mente de Dana. Voltamos para o tema do cravo com todas as suas marcações e um trabalho de violão muito bem elaborado para a guitarra, carregada de distorção, fazer o seu “solo estranho” entoando as mesmas seis notas do sintetizador. Assim, depois da maluquice central, a letra é retomada, chegando na parte final de “Il Vento, La Luna e Pulcini Blu (Sole Rosso) com o cravo criando um intrigante e assustador tema, enquanto o violão flamenco de Giardinelli tem seu ritmo acompanhado pela bateria e pelo baixo fazendo uma maravilhosa maluquice italiana para britânico nenhum botar defeito. Conclui com mais um tema folclórico italiano, feito pelo violão.

O único LP do Panna Fredda ainda nos apresenta “Waiting”, trazendo uma introdução agressiva de uma barulhenta e maluca canção instrumental. Uno acabou falindo nas vendas. Primeiro pela péssima distribuição feita pela Vedette, que não estava interessada em ter um grupo de rock progressivo como centro das atenções. E segundo, pela briga entre Cavallo e Giardinelli, já que o primeiro havia integrado a banda de Arthur Brown e estava afim de consolidar-se com o som psicodélico, algo que Giardinelli não aceitava.

O Panna Fredda decretou seu fim pouco depois de Uno ser lançado, mesmo com a insistência da Vedette para Giardinello seguir com o grupo. Giardinello abandonou a música, mas passou sua paixão para os filhos, que na maioria dos dez gerados pelo guitarrista e por sua esposa, são músicos profissionais na Itália.
Brandi, após sair do exército, integrou o grupo Country Cousins com quem viveu uma carreira bem-sucedida até 1996 quando abandonou o grupo para trabalhar como produtor. Hoje, trabalha com um estúdio de gravação próprio. Já Balocco integrou posteriormente o grupo Caosicum Red enquanto Cavallo entrou no grupo Camello-Buck que posteriormente originou a dupla Rustichelli-Bordini.



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