Por Pablo Ribeiro 

Junção de bandas de rock com grupos de Rap/Hip-Hop não são exatamente uma novidade, vide a “colaboração” do Aerosmith com o Run DMC em uma releitura de “Walk This Way”. Na verdade, o Run DMC sampleou as partes do Aerosmith tendo a participação direta do vocalista Steven Tyler e do Guitarrista Joe Perry em algumas partes, embora a possibilidade de estas partes terem sido regravadas seja bastante discutível. De qualquer forma, a canção – lançada em 1986, no disco Raising Hell – popularizou o nome do Run DMC para o público geral disseminando o som do grupo entre aqueles que não estavam familiarizados com o gênero do trio, angariando novos fãs e admiradores.

O Aerosmith também se beneficiou com a colaboração tendo novamente seu nome nos noticiários musicais depois de anos em baixa, devido aos abusos de drogas e a vertiginosa decadência criativa. Além da sobrevida no meio artístico, a parceria ainda convenceria os executivos da gravadora Geffen a não dar um pé na bunda do grupo depois do fiasco do último disco dos caras, o fraquíssimo Done With Mirrors. Logo depois de lançada – e nos anos seguintes – a junção de ambos os grupos mudou consideravelmente tanto o mainstream, quanto o underground de ambos os estilos musicais.

Steven Tyler e Run DMC.

Grupos de rock das mais variadas vertentes incorporariam elementos de Hip Hop em sua música. Artistas de Rap aliaram o ataque lírico do gênero à agressividade musical do Rock.

Cinco anos depois da dobradinha Aerosmith/Run DMC é a vez do Anthrax juntar forças com o Public Enemy através da poderosa “Bring The Noise” (ou “Bring Da Noize”). Desta feita, na mão oposta, uma vez que não foi o Public Enemy a samplear partes da canção do Anthrax, mas sim, esse regravar a música dos rappers (lançada originalmente quatro anos antes) com a participação do MC Chuck-D. Mais pesada, poderosa e impactante que “Walk This Way” – tanto pelo ataque Thrash do Anthrax, quanto pela ira do Public Enemy – “Bring The Noise” é um soco à mão pesada muito bem dado e certeiro.

Não por acaso, a canção passaria a fazer parte de boa parte dos shows do Anthrax. Contando, muitas vezes com Chuck-D e seu parceiro estranhão Flavor Flav (uma das maiores figuraças da música americana). Lançada originalmente como na coletânea de lados B e “sobras” Attack Of The Killer B’s em junho de 1991. Apesar da choradeira de alguns conservadores, a versão é forte e empolgante. Não poderia ser diferente, uma vez que se trata de dois agressivos representantes.

Anthrax e Public Enemy.

Passados dois anos, em 1993, chega às prateleiras a trilha sonora do filme “Judgment Night”. Thriller de ação meia boca com elenco encabeçado pelo ótimo Cuba Gooding Jr. e pelo bem meia-boca Emilio Estevez (o irmão menos talentoso de Charlie Sheen). O longa fez pouquíssimo sucesso, mas sua trilha sonora chamou bastante atenção por sua proposta até então inusitada: juntar em um único álbum artistas de Rap e Rock, unindo um artista de cada estilo em cada faixa.

Entre vários grupos do famigerado “Rock Alternativo” – tais quais Mudhoney, Sonic Youth, Dinossaur Jr. e outros – temos o já na época famoso Pearl Jam, o Therapy? (que com ou sem RAP é sempre chato) e mais alguns. Os que mais chamam a atenção, no final das contas, são os grupos mais pesados. O Biohazard sempre teve algo de Hip-Hop mesclado ao seu Hardcore bem ao estilo NY (influenciado por Agnostic Front, Cro-Mags e afins) e aqui junta forças novamente com o Onyx. Ambos já haviam feito uma parceria na ótima “Slam”, do mesmo ano. Desta feita, a pedrada atende pelo mesmo nome do filme e é outra parceira do gênero merecedora de crédito.

Living Colour junta forças com os veteranos do Run DMC em “Me Myself & My Microphone” com seu groove estranhão, mas muito bacana. Outra que merece uma nota alta é “Just Another Victim” que une o minimalismo quase industrial do Helmet com a batida seca e pontual dos Rappers “Hooligans” do House of Pain. O ritmo marcial da música é quase hipnótico e um tanto perturbador.

Mas o que pega mesmo são duas parcerias excelentes. De longe, as melhores do disco e, com certeza, algumas das melhores de toda a história da junção Rap + Rock/Metal. A união de forças do Faith No More com o Boo-Yaa T.R.I.B.E. beira o absurdo de tão bacana e ensandecida. Inclusões de elementos do Rap nunca foi novidade no som do FaithNo More, mas nada chega perto do que temos na maravilhosa “Another Body Murdered”. Da parte do FNM; poucos teclados em forma de um piano pontual,  muita guitarra na cara, um fortíssimo trabalho de baixo e gritos desesperados de Mike Patton (um dos mais versáteis e criativos vocalistas da música) fazendo um contraponto perfeito para o ritmo denso e marcado do BYT – grupo americano de origem em uma tribo samoana. Quase inacreditável. Essa música é uma pérola não só entre os Crossovers. Até porque parece ser um único grupo, tamanha a sintonia entre as duas coisas. Impressionante!

Para terminar, a faixa que na época criou um alvoroço e uma interminável fiasqueira dos “radicais”: “Disorder”. Parceria entre Ice-T e o Slayer. Sim… aquele Slayer mesmo! Apesar da ladainha de “vendidos”, “traidores” e afins dos chorões de plantão é preciso deixar claro que a música é uma paulada certeira! Um tijolaço que na verdade pouco tem de Rap e/ou Hip Hop, lembrando muito aquele Hardcore Novaiorquino dos supracitados Agnostic Front e Cro-Mags. A explicação para esse “resultado” é simples: a faixa, na verdade, é um “medley” de 3 músicas dos veteranos da banda punk escocesa Exploited. O som reúne a agressividade característica do clássico – cru – punk bretão, a fúria lírica do Rap e a violência sônica insandecida do Slayer. Para quem já tinha um pouco de conhecimento acerca dos grupos que influenciaram tanto Slayer quanto Ice-T já esperava uma faixa violenta e agressiva, qualquer que fosse o estilo. Ambos tiveram sua formação musical calcada no Punk Rock inglês e no Hardcore americano dando base para toda agressividade que viria a tomar forma e fazer parte do som de ambos no passar dos anos.

Existem também aquelas bandas que não fazem necessariamente junções com grupos de um outro estilo/vertente, mas incorpora participações esporádicas de músicos de estilos que não o seu em seus discos. Temos como exemplo o Cypress Hill que além de manter um pé no rock, vez por outra tem algum músico de rock participando em suas fileiras como no álbum Skull And Bones de 2000, onde músicos do Fear Factory e do Rage Against The Machine dão as caras. Esse mesmo RATM é outro bom exemplo do encontro Rap/Rock. Embora não façam uso de convidados em seus discos, o som do grupo casa muito bem os dois estilos, utilizando de uma forma ímpar o que de mais agressivo e energético os dois estilos oferecem.

Cypress Hill.

Muito além da pobreza de espírito e do radicalismo imbecil e cego há uma infinidade de grupos, álbuns e músicas dignas de figurarem nas melhores coleções de rock  (e de Rap, pq não?) daqueles que não abrem mão do bom gosto em detrimento do preconceito.

Vale a pena se informar e conhecer não só os grupos aqui citados, mas também ir mais a fundo e descobrir muito material de qualidade que a união desses dois estilos pode proporcionar!

3 comentários

  1. Rodrigo Otávio

    Nada contra quem aprecia esta "mistura", mas sou de opinião que um não tem nada a ver com outro, e não se trata de preconceito. o rap é monocórdico, limitado e repetitivo, a base é praticamente a mesma em todas as músicas, mudando somente as letras, que tratam SEMPRE dos mesmos temas (racismo, anti-sistema, atuação policial, etc.). se o rock resolver enveredar de vez por este caminho, vai pro buraco, não vai agregar nada e ainda vi perder em qualidade e e apreciadores. Graças a Deus foram poucas experiências, e todas elas para mim dispensáveis, e que nada agregaram musicalmente.

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  2. fernandobueno

    Eu não curto muito essa mistura, mas um disco que é obrigatório nessa linha é o primeiro do Body Count, banda do Ice T que foi citado no texto.

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  3. Groucho KCarão

    Viva o Hip-Hop e viva o Rage Against the Machine! xPPP
    Fulerage esse papo de dizer que RAP fala sempre de temas repetitivos. É como dizer que rock só fala de sexo e drogas – o que não fica tão longe da mentira -, o que, convenhamos, é bem mais fútil do que as mazelas sociais.
    Quando se sabe ouvir outros estilos, fica mais fácil perceber o quanto o hip-hop, assim como todos os demais estilos, pode ser bastante inventivo e trazer musicalidades únicas.

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