Por Mairon Machado

Existem shows que não podem ser desperdiçadas a oportunidade de se ver, ainda mais quando ele irá ocorrer praticamente no quintal da sua casa. Esse foi o caso do Iron Maiden, em 05 de março de 2008, quando depois de 16 anos, o grupo voltou para uma única apresentação em Porto Alegre, durante a turnê Somewhere Back in Time, que resgatou clássicos do grupo desde a época de sua formação na década de 70 até o lançamento de Somewhere in Time, em 1986, fase essa que eu considero a melhor (e única) dentro dos mais de 30 anos de carreira dos britânicos.Se ouvir petardos como “The Rime of the Ancient Mariner”, “Wasted Years”, “Hallowed be Thy Name”, “Powerslave”, “Revelations” entre outros já atiça os ouvidos de um fã, imagina ver Bruce Dickinson (vocais), Dave Murray (guitarras), Nicko McBrain (bateria), Steve Harris (baixo) e Adrian Smith (vocais), além do anexo e dispensável Janick Gers (guitarras) diante de seus olhos. Não pestanejei, e passei a angariar fundos (bem como arrumar trocas no trabalho) para ver esse que prometia ser o melhor show da minha vida; Prometia, pois na verdade, aconteceu tudo ao contrário do que eu esperava, e se tornou o pior show que Porto Alegre já sediou.

 

O palco da Somewhere Back in Time Tour …

Os problemas começaram já na venda de ingressos. Centenas de pessoas passaram a madrugada para garantir seu lugar dentro do Ginásio Gigantinho, que em unanimidade, era dito por ser um erro na escolha, e sim um estádio como o Gigante da Beira-Rio, Passo d’Areia ou outro qualquer da capital gaúcha. A venda de ingressos, programada para as 8 horas da manhã, começou somente as 10 horas, mas pelo menos, garanti o mesmo.

Uma semana antes do show, no dia 29 de fevereiro, começaram os acampamentos de barracas em torno do Gigantinho. Pouco há pouco, centenas de fãs passaram a fazer parte do Maiden Camp, desfrutando dos lanches e do banheiro de uma lancheria próxima e só, o resto era cantar músicas do Iron dia e noite. Eu era um dos acampados, e trocava o meu horário do sono para garantir o meu lugar e de mais alguns amigos, que cuidavam da barraca enquanto eu trabalhava. Eu e meus amigos éramos os sextos na fila de entrada.

Faltando três dias para show, resolvemos organizar uma fila para os fãs poderem entrar no Ginásio. Parece estranho, mas existia uma fila, com ordem de chamada e tudo, para não haver furos na hora de entrar na fila de entrada do show, e isso evitaria qualquer confusão e injustiça com pessoas que, como nós, estavam ali há algum tempo (sendo que 30 fãs foram sorteados para auxiliar na montagem do palco). Essa fila chegou a 2000 fiéis fãs do Iron, que estavam dispostos a tudo para assistir ao show, sendo muitos deles (mais de 800) que chegaram após a Walk Iron, uma caminhada que atravessou Porto Alegre homenageando a Donzela.

No acampamento, passamos a noite conversando, ouvindo todos os álbuns e contando histórias de shows que fomos, como conhecemos tal música, além de revezar um violão com várias canções da atual turnê. Um dia antes do show, a ideia de organizar 3400 pessoas em uma fila parecia uma utopia. Nessas alturas, os seguranças do local já conheciam o pessoal da frente (eu entre eles), e o respeito entre os fãs que antes era pacífico, agora começava a se tornar uma briga forte com a chegada de fãs de Santa Catarina, São Paulo e Paraná.

Às 5:30 da manhã, os seguranças do Sport Club Internacional (responsáveis pelo Gigantinho) deram o toque de levantar as barracas. Por volta de 6:15, os portões do Parque Gigante foram abertos e, por incrível que pareça, a lista de chamada funcionou. Incrível! As pessoas respeitaram seu nome, sua ordem de chegada, em uma colaboração jamais vista (segundo a própria Polícia Militar) em um evento. Cerca de 4000 pessoas estavam esperando a entrada, e cada uma entrou na sua devida hora com toda calma e tranquilidade.

Ao chegarmos no Portão 3 do Ginásio Gigantinho construimos uma nova fila. Agora com as pessoas que haviam chegado nessa fila. Isso ajudaria o pessoal a ir em casa largar a barraca e dar uma descansada. 103 pessoas estavam nessa primeira lista e, a partir dai, outra lista foi criada. Não sei o número de pessoas que estavam nela, mas o certo é que tudo correu muito bem do lado externo. A organização foi elogiada por todos e, apesar de alguns furões terem se infiltrado depois dos 104 primeiros, nada de grave aconteceu, graças também a segurança do Sport Club Internacional que nos auxiliou com a presença de seguranças do clube, e a brigada militar, que ajudou a controlar os furos.

 

Uma das várias filas para entrar no Gigantinho

Mas, bastou a movimentação interna ao ginásio para abrir os portões, toda a organização foi pro espaço. Jamais vi tamanha obsessão e falta de bom senso quanto dos desesperados fãs de Iron Maiden, que além de invadirem os espaços antes estabelecidos e respeitados por todos, ainda xingavam, jogavam coisas em nós e ainda desprezavam o povo local, chamando os gaúchos de várias coisas impublicáveis. Lembro que fui agredido por um incontrolável fã quando disse que preferia o Killers ao Piece of Mind. O cara me empurrou e partiu para cima de mim, sendo contido pelo pessoal que estava na volta, mas mesmo assim, tive que ouvir frases como “Filho da [email protected]! Gaúcho viado!” e outras ofensas mais.

Quando abriram os portões, a organização da Opinião Produtora começou a dar as caras. Muitas pessoas (inclusive eu) foram barradas por ter ingresso falso, sendo que eu tinha comprado o ingresso da própria Opinião (ou seja, o oficial). Após muita reclamação, consegui entrar e garantir um lugar próximo a grade. Tinha passado seis noites na fila para ficar na grade, para ver o show sem nenhum problema, mas agora já não dava mais. Era o começo da desilusão.

O pessoal começou a entrar e logo se viu que havia mais gente do que o Gigantinho suportava. O informado é que haviam 15 mil pessoas (o próprio Bruce falou que estava cantando para esse número). Como o palco do Iron ocupou boa parte do ginásio, e conheço bem o mesmo, caberiam umas 12 mil apertadas. Se tinha 15 mil, imaginem o inferno que foi, só que na realidade, não haviam 15 mil, e sim 18 mil pessoas!!!
Como ainda não violaram as leis da física, o calor dentro do Gigantinho tornou-se insuportável (junto com os diversos odores dispersados por aqueles que ficaram dias sem banho para garantir seu lugar na fila, e que se misturavam na massa de seguidores do Iron Maiden), e muita gente começou a passar mal. Só que, a desilusão começou a aumentar. Os seguranças da Opinião maltratavam os fãs que não se sentiam bem, dizendo para ir ao fundo, que tinha mais é que estar morrendo para ser atendido. Quando pegavam alguém do meio do público que estava mal, saiam xingando, dizendo para parar de beber e, principalmente: “Isso é o que dá ouvir esses rocks, se fosse pagode não iam passar isso“. Poxa, eram seguranças, tinham mais que ajudar, e não zombar do pessoal.
Em um dos mini-consultórios disponibilizados dentro do Ginásio, depois que sai da grade como narrarei daqui há pouco, pude contar 40 pessoas na fila de atendimento, e uns cinco lá dentro passando (e muito) mal. Muita gente na grade pedia para os seguranças trazerem alguém para vender água, só que os panacas dos seguranças que estavam na nossa frente, bebiam a água deles tranquilamente, sem auxiliar em nada à meninas e mulheres (principalmente) que realmente necessitavam de um refresco, e claro, malhando o rock.
Lauren Harris
Quando a gostosinha da filha do Harris entrou no palco, às 20:00h, a galera se animou. A guria teve uma boa presença de palco, mas não tem voz. Ainda bem que foram poucas músicas, não por ela, mas pelos fãs que já não estavam aguentando a pressão na grade e o calor, e começavam a brigar entre si, sendo que de novo fui agredido, dessa vez com um cotovelaço no olho por que falei que a Lauren Harris estava cantando igual ao Bruce Dickinson quando era criança, e de novo, ouvi poucas e boas.De repente, a discussão que havia começado se tornou em agressão, quando um panaca com um prego (ou agulha, sei lá), começou a picar quem estava na frente. Identificado com uma camisa do Eddie trajando uma camisa do Palmeiras, o cidadão levou uma coça das boas, sobrando alguns socos para uns que outros (eu metido no meio), mas o ambiente continuou carregado, e achei melhor sobreviver do que tentar ver Adrian Smith e companhia de perto. Nessas alturas, eu já era mais um dos que precisavam de atendimento médico.

Tentando sair da grade, era empurrado para a frente, para os lados, mas não para um local que eu pudesse respirar, até que cheguei no fundo do Ginásio, cambaleando. Quando consegui respirar e colocar minha cabeça no lugar, percebi que as minhas noites dormindo mal tinham ido por terra, suor e imbecilidade de fãs fanáticos, que brigavam entre si só para estar mais perto de Bruce Dickinson, um Deus soberano para muitos que estavam ali.

Passei muito mal, mas consegui me recuperar. Aonde eu estava, percebi queo problema na grade não era só na grade, mas em toda a pista. Haviam dois corredores com circulação de ar e nelas, dezenas de pessoas atiradas ao chão, mulheres chorando, e alguns realmente em estado muito mal. O calor e a quantidade de gente respirando o mesmo ar (com varias substâncias sendo exaladas por corpos e cigarros de erva desconhecida) eram simplesmente de matar.
Achei um local entre a arquibancada e a pista, onde consegui me escorar, e de onde só podia ver parte de um dos telões disponibilizados. Ali encontrei uma menina com quem tinha feito amizade na fila, e lembro dela falando: “Eu estive lá na frente, passei muito mal. Os caras do Opinião disseram que era pra ir embora. Não fui. Vou ficar aqui! Pelo menos estou ouvindo bem e vejo o telão, mas me arrependo de ter ficado na fila, e espero que o show seja bom“. Pensei a mesma coisa …Quando as luzes se apagaram e o som de “Doctor Doctor” do UFO passou a ser entoado mais forte, trazendo os acordes de “Transylvania”, os fãs começaram a entrar em guerrilha, e bastou “Aces High” ser entoada pelo Iron em cima do palco para a pauleira pegar não só na canção, mas entre os fãs. Uma guerra desesperada por ficar próximo ao palco, que eu assistia apavorado, sem jamais imaginar que um ser-humano pudesse passar tanta brutalidade apenas por um grupo de metal, apesar de ler em diversas revistas que os fãs do Iron Maiden são os mais fanáticos de todos.

Palco e a superlotação do Gigantinho
Veio “2 Minutes to Midnight”, “Revelations”, “The Trooper” (único momento que vi algo do palco com decência, que era Bruce carregando a bandeira do Reino Unido) e o som, apesar de chegar bem aonde eu estava, mostrava que a voz de Bruce ao vivo já não era mais a mesma dos tempos de Live After Death, fora as várias atravessadas da guitarra (Quem?? Não vi, mas aposto em Janick Gers).
O melhor momento veio a seguir, quando Bruce encontrou um celular perdido no show e ali improvisou uma conversa direta com sua mãe, dizendo que estava tocando em Porto Alegre para mais de 15 mil pessoas, e que “sabia que poderia ter sido um médico, um advogado, mas que agora não adiantava mais chorar pelos anos desperdiçados“, e assim, Smith soltou o riff principal de “Wasted Years“, atorado  vergonhosamente pela entrada errada do baixo.
As brigas acalmaram, mas o número de pessoas passando para o atendimento só aumentava. “The Number Of The Beast” e “Can I Play With Madness” antecederam o segundo melhor momento, “The Rime of the Ancient Mariner“, não só pela música em si, mas por que naqueles treze minutos da canção, os fãs pararam de sacolejar, e finalmente eu pude ver as decorações do palco através do telão. Eu podia estar lá na frente, vendo tudo de perto, mas a violência me afastou daquilo. Enfim …

Um pouco mais da superlotação do Ginásio
“Powerslave”, seguida por “Heaven Can Wait” (esta última contando com a presença de trinta sortudos que cantaram com a banda em cima do palco), “Run to the Hills” e “Fear of the Dark” (a mais cantada por todos, e única que não faz parte do período citado no início do texto), alegravam e salvavam nossas almas do purgatório gerado dentro do Ginásio, até que veio o fato mais lamentável da noite.

… e a minha visão do palco.

Diante da aglomeração de pessoas, da enorme confusão que era o mar de gente indo e vindo em direção ao palco, Bruce parou o show e falou: “Estamos muito felizes de estar aqui em Porto alegre, depois de dezesseis anos, mas espero que dá próxima vez não aconteça o que estou vendo daqui de cima. Quem sabe a gente toca ano que vem em um estádio? Tem um aqui do lado!”. Pra que. Os imbecis não entenderam que Bruce estava falando em tocar em um local maior, e tão pouco se referiu ao Estádio Beira-Rio por ser o estádio do time dele, e sim por que era o estádio que ele conhecia naquele momento.

Gremistas imbecis meteram uma vaia maior do que o Gigantinho em Bruce, enquanto gritavam “Grêmio! Grêmio!”, e os colorados, tentando não deixar por menos, passaram a gritar “Inter! Inter!”, em uma ridícula demonstração de amor pelo seu time que não cabia naquele momento. Puto, e muito puto, Bruce passou o xixi em todos, e falou: “Não estou falando em jogar futebol em um estádio, estou falando em tocar em um estádio, vão se foder“.

Indignado, apresentou “Iron Maiden”, e nessas alturas, começou a briga pelas palhets, baquetas e outras recordações que os músicos jogavam aos fãs. “Moonchild“, a maior surpresa da noite, veio após uma brincadeira entre Murray e Dickinson, seguida de “Clarvoyant”, duas que mais da metade do Ginásio parecia desconhecer. Só “Hallowed Be Thy Name” levanou a plateia novamente, e o show se encerrou com mais palhetas, baquetas, peles de baterias e outras recordações sendo jogadas a plateia, e mais empurrões, esmagamento de gente na grade, brigas e discussões entre os fãs por causa das mesmas.

Pouco a pouco, o Gigantinho foi esvaziando-se, enquanto o chão do local mostrava celulares quebrados, carteiras de identidade amassadas, roupas rasgadas e incontáveis pessoas atiradas. Já quem viu das cadeiras e arquibancada, saiu com a sensação de um bom show, e nada mais, e apavorados com as cenas bizarras que aconteciam nos empurra-empurras da pista.

Vendo o show posteriormente, em um famoso DVD pirata que rodou país afora, deu para perceber que o que aconteceu em cima do palco não foi tão ruim quanto na hora, mas fora do palco, a confusão, o esmagamento e toda a histeria dos fãs do grupo fizeram desse show realmente inesquecível. Afinal, se eu somente ouvi mal e porcamente “The Rime of the Ancient Mariner”, e se desde aquele dia eu fico com receio de conversar sobre Iron Maiden com medo de ser agredido mais uma vez, é por receio desse que sem dúvidas, foi o pior show da minha vida.
Capa do famoso DVD pirata deste Show Inesquecível
Detalhe, desde aquele dia, o Iron esteve mais duas ou três vezes no Brasil, e jamais colocou os pés em Porto Alegre. De qualquer forma, Up The Irons!

Set list

1. Aces High
2. Two Minutes to Midnight
3. Revelations
4. The Trooper
5. Wasted Years
6. The Number of the Beast
7. Can I Play With Madness
8. The Rime of the Ancient Mariner
9. Powerslave
10. Heavn Can Wait
11. Run to the Hills
12. Iron Maiden
13. Fear of the Dark

Bis

14. Moonchild
15. Clarvoyant
16. Hallowed be Thy Name

2 comentários

  1. joseleonardo

    Eu estava nesse show, mas não encarei a pista, pois sabia que ia ser insuportável.Infelizmente, acho que o Iron nunca mais vai tocar aqui em Porto Alegre! Mas espero estar enganado!

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  2. fernandobueno

    Eu tenho esse DVD-bootleg aí. PEla TV não dá para ver que o negócio tava feio. Inclusive tenho uns amigos aqui de Rondônia que foram à esse show, mas eles ficaram nas arquibancadas e não relataram problemas. Que merda que foi assim.
    Bem…agora falar que o Bruce não canta mais como antigamente e dizer que a Lauren canta igual ee quando adolescente é pedir para tomar umas porradas mesmo!!!!! Isso aí foi merecido!!! Hahahahaha

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