Datas Especiais: 20 anos de Dehumanizer

22 de junho, 2012 | por Mairon
Datas Especiais
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Por Mairon Machado

Muito já deve ter se falado de que “Um disco mudou minha vida!” e “Esse disco é tão importante para minha formação musical do que a minha própria formação profissional”. Apesar dos exageros, ambas as frases são utilizadas por mim quando se trata de Dehumanizer, décimo sexto álbum do grupo Black Sabbath, e que na data de hoje, completa soberanos 20 anos de idade.

Para muitos, Dehumanizer é o disco que colocou o nome Black Sabbath novamente no mercado americano, após quatro anos tendo os vocais de Tony Martin e fazendo um estrondoso sucesso pelo lado leste da Europa. Para mim, Dehumanizer é uma pedra sólida fincada na construção do que eu viria a entender sobre música anos depois. Me abriu portas inimagináveis na minha infância insólita, dividindo duas paixões fortes ao mesmo tempo: o pop de Erasure e Madonna com o Thrash Metal de Possessed e Slayer.

Posso já ter contado a história diversas vezes, mas a data de hoje me faz relembrar dela com emoção, saudosismo e um quê de alegria por ter acontecido da forma como aconteceu. Em abril de 1992, a cidade natal minha e do meu irmão (nosso colaborador Micael Machado), Pedro Osório, localizada no sul do estado do Rio Grande do Sul (a pouco mais de 100 km da fronteira com o Uruguai) passou pela pior enchente de sua história. 

Eu, então com nove anos de idade, fascinado pelos artistas acima (e convivendo com uma crescente admiração pelo grupo Gypsy Kings), vi meu pai perder toda sua biblioteca de livros de história raríssimos, assim como sua coleção de gibis Tex. A nossa casa atolada de barro e “outras cositas” mais até perto do telhado. A água em nossa casa alcançou incríveis 2,30 m de altura e dividi, apesar de ser uma criança, a tristeza de meus parentes, amigos e vizinhos. Tínhamos perdido quase tudo o que haviam sido passados anos para construir.

Foram meses tentando recuperar nossas vidas. Algo que conseguimos com muito esforço, lágrimas e várias crises de desânimo. Lembro que nossa mãe passou por um sério período de stress que gerou nela uma doença tão forte que fazia ela arrancar a pele de suas pernas de tanto que se coçava. Para se ter ideia, a geladeira da nossa casa, que ficava localizada na parte de trás, veio parar na porta da frente. Roupas, brinquedos, eletrodomésticos, amontoavam-se nas ruas para os caminhões virem levar embora e ajudar a limpar, levando também pequenas conquistas que teriam que ser batalhadas para voltarem.

Nesse período, a única loja que vendia fitas cassete na cidade estava em processo de recuperação. Eu, não sei por que cargas d’água (talvez por ser uma criança), tinha salvado as poucas coisas que me veio a cabeça de salvar: minha pequena coleção de vinis (formada por dois LPs da Madonna, um do Led Zeppelin, um do Pink Floyd e um do Bad Company), alguns brinquedos e minha coleção de fitas (que também gerou outro fato curioso, mas deixo para os comentários com o Micael, caso venha a surgir).

Toda a cidade de Pedro Osório demorou para ser reerguida da lama. Meses se passaram com a cidade sem luz, pouca comida (trazida por caminhões do exército), isolada das outras cidades (já que as únicas pontes de ligação com cidades próximas haviam caído) e com a água sendo cedida por moradores que continham poços nas suas casas. 

A cidade, conhecida na região por ser uma cidade guerreira, de enfrentar percalços, lentamente foi voltando ao normal. Quase três meses depois, no final de junho, as aulas puderam voltar a acontecer. Foi exatamente nessa época que através de um famoso jornal do estado chegou a informação que “O demônio estará entre nós”. A manchete era sobre a vinda do Black Sabbath ao Brasil. Eu estava deixando meu lado “satanista” de lado, mas ainda apreciava, como dito acima, Slayer, Possessed e também fase inicial do Sepultura.

Vinnie Appice, Geezer Butler, Ronnie James Dio e Tony Iommi
Sabia que o grupo de Birmingham era a inspiração desses caras e fiquei louco de vontade de ir ao show, algo impossível, principalmente devido as questões monetárias e pela idade. Eu não conhecia nada do Black Sabbath, nada mesmo (depois eu vim saber que a música tema de uma sessão do Jornal Hoje era do grupo). Sabe quando te dá aquela premonição de “Você tem que fazer isso?”. Bom, essa premonição me aconteceu. De alguma forma, eu precisava ir no show. Ou pelo menos, ouvir ele.
Enfim, uma rádio ligada ao tal jornal anunciou um especial Black Sabbath. Já que não dava para ir ao show, então, que venha o tal especial. Ouvir Black Sabbath na única rádio FM que a cidade pegava era o mesmo que ver um saci correndo com as duas pernas. Ou seja, não existia a possibilidade. Eu tinha que registrar isso. 

Mas… Havia chegado o dia do tal especial e eu não tinha um K7 para gravar. Tão pouco queria gravar por cima das que tinha. Vá que a banda fosse uma merda? Eu ia perder meus adoráveis Gypsy Kings e as raridades do Possessed? Com uma tristeza, contrastando com a cinzenta tarde de inverno, almocei e fui para a escola.

Por um acaso, no caminho, dirigindo-me para as aulas de Estudos Sociais e Português da 3ª série do Primeiro Grau (é gurizada, era assim que se chamava), eis que encontro uma fita cassete na rua, toda desenrolada e detonada. Com todo o carinho e alegria de quem recebe seu primeiro bicho de estimação, peguei a fita, levei para a sala de aula e passei a tarde “cuidando da mesma”, remendando onde precisava com fitas adesivas surrupiadas da biblioteca e limpando as partes sujas com um algodão que carregava na mochila para as aulas de Educação Artística.
A fita não ficou uma maravilha, mas pelo enrolamento, iria garantir no mínimo uns quarenta minutos de gravação. Seriam suficientes?
Ingresso do show de Porto Alegre (retirado deste site)

A noite do dia primeiro de julho foi a mais ansiosa da minha pequena vida. Enchi o saco do meu pai para montar o rádio toca-fitas 3 em 1 (que ainda estava aguardando a compra de um hack para ser acionado). Foi feito de forma improvisada com o receiver do rádio colocado em uma cadeira e o gravador em cima da cama. Tudo isso para ouvir uma banda que nunca tinha ouvido, mas que por toda a propaganda em cima de seu nome, deveria de ser muito boa.
22h. Começou o especial com “The Wizard”. Depois veio “Evil Woman”, “War Pigs”, “Tomorrow’s Dream”, “A National ACrobat” e muita música em duas horas que me enlouqueceram, pois a fita era só de quarenta minutos. Desesperado, acabei apagando várias coisas que tinha em outras fitas, olhando o que eu podia conseguir depois (e confesso, nunca mais consegui) e metendo no toca-fitas. Black Sabbath estava se tornando A BANDA. Que loucura, que sonzeira!
Até que surgiu uma voz rouca, um riff imortal, e uma música chamada “Die Young”. Cara, ali eu gelei. Aquilo não era Black Sabbath. Era ainda mais poderoso. Lembro que me atirei no meu presente de cinco anos (uma fita da Turma da Mônica) e tive o prazer de gravar a voz de Ronnie James Dio entoando “Neon Knights”, a que mais me marcou daquele especial. Foi uma paulada e um amor à primeira vista que me levou, durante anos, a colocar o Black Sabbath no topo dos melhores do mundo. Algo que hoje a velhice não faz mais por pura questão de prazer mesmo. 
A partir dali, o mundo era outro. Descobria que as bandas de 70 tinham uma força que nenhuma banda pop dos anos 80 iria conseguir fazer minha cabeça e meu corpo. Aprendi a idolatrar bandas que escreviam com alma, com paixão a camisa, e não só para angariar dinheiro e seguir a mídia. Aprendi a ser um colecionador, de não medir esforços para alcançar um objetivo e saciar um desejo incondicional, seja o percalço que vier pela frente. Tudo por que em 1992, há 20 anos, o Black Sabbath decidiu se reunir com Tony Iommi nas guitarras, Vinnie Appice na bateria, Geezer Butler no baixo e Ronnie James Dio nos vocais, lançando um álbum chamado Dehumanizer e fazendo uma turnê que chegou na longíqua Porto Alegre, e que um guri de 9 anos na mais longíqua Pedro Osório ouviu, se emocionou e guardou em sua mente para sempre.
Divulgação de Dehumanizer
Lembro que meses depois o Micael gravou para mim algumas músicas de Dehumanizer, através de um CD que ele conseguiu na capital Porto Alegre. Várias das canções eu já tinha ouvido no especial da tal rádio, como “I”, “Master of Insanity” e “TV Crimes”. Cara, como ouvi aquela fita. O pôster gigante que eu tinha do Black Sabbath com o Ozzy, dependurado na parede do meu quarto, duelava com a quantidade de vezes que “I”, “Computer God” e todas as faixas que estavam na fitinha rodavam no toca-fitas. Ou seja, praticamente o dia inteiro. Era um ritual diário: chegava do colégio, abria minha revista contando a história do grupo, colocava a fita para rolar e lá ficava até minha mãe chamar para jantar. Apreciando cada segundo, cada nota, cada riff. 
Isso durou meses! Lembro que a fita gastou. Tive de deixar de ouvi-la para poder conservar um pouco do que restava, mas já tinha aprendido cada nota, batida e vocalização do disco de cor e salteado. Quando finalmente comprei o LP, a sensação de ter a capa do disco em minhas mãos, junto com o encarte, era o final feliz de uma criança que brincou anos com o brinquedo dos outros e finalmente tinha o seu para poder se deleitar a vontade.
Poster de divulgação
(Retirado deste site)
Para não dizer que não falei do disco, são dez canções, com a temática das letras voltada para uma realidade do mundo naquela época (e que ainda vale para hoje), e não para temas fictícios ou fantasiosos do final dos anos 70, início dos 80, dando sinais de que todas as modificações de formação do grupo durante a década de 80 fizeram com que a adaptação aos anos 90 caíssem de forma simples no colo e nos riffs de Iommi. 
Essas canções são divididas no LP em cinco para cada lado. O lado A apresenta “Computer God”, com uma estranha introdução, e que é uma pequena prévia do que está por vir no álbum inteiro, puxando um riff pesadíssimo e a maravilhosa voz de Dio em uma das melhores canções da era Ronnie James Dio. “After All (The Dead)” mantém o peso de “Computer God”, levando a outra pérola chamada “TV Crimes”, criticando o sensacionalismo barato da televisão. 
“Letters from Earth” acaba passando despercebida entre a grandiosidade de “TV Crimes” e a genialidade de “Master of Insanity”, também forte candidata a figurar entre as melhores canções da era Dio tendo em seu riff o principal destaque.
Já o lado B é muito similar ao lado B de Heaven and Hell (1980), abrindo com “Time Machine”, carregada pelo peso de Butler e Iommi. A soturna “Sins of the Father”, sem dúvida a mais arrepiante canção já gravada por Ronnie James Dio e a balada “Too Late”, preenchem com méritos os minutos que separam “Sins of the Father” daquela canção que eu considero a melhor canção do Black Sabbath pós-Ozzy. 
Com o simples nome de “I”, não há nada que possa ser comparada a essa paulada. Talvez “Die Young” se aproxime dela, mas o wah-wah carregado de distorção na introdução, a avalanche sonora do baixo de Butler e a bateria de Appice, e a magnífica interpretação vocal de Dio, fazem com que os fãs de Ozzy fiquem batendo cabeça dizendo “Eu não posso estar gostando disso”, e os fãs de Tony Martin ajoelhem-se em tributo ao mestre Dio. 
O álbum encerra-se com “Buried Alive”, outra grande canção carregada de peso, deste que considero o melhor disco lançado pelo Black Sabbath pós-Ozzy Osbourne e que, principalmente, foi responsável por hoje eu poder estar escrevendo essas singelas linhas em sua homenagem que vocês, leitores do Consultoria do Rock, estão lendo com vários sentimentos, dos quais inclusive peço perdão aos que acharam que iriam ler uma descrição, canção por canção. Para isso, já postamos a Discografia Comentada do grupo e também uma resenha sobre a edição DELUXE do mesmo (lançada recentemente em formato de CD duplo, com diversas faixas bônus envolvendo material de estúdio e gravado ao vivo).
Geezer Butler, Ronnie James Dio, Tony Iommi e Vinnie Appice
Ainda hoje, Black Sabbath é marcante para mim. Os riffs de Iommi arrepiam cada vez que ouço nos dias certos. Infelizmente, por motivos fúteis e banais, acabei perdendo a oportunidade de ver o mestre Ronnie James Dio ao vivo em sua última turnê ao lado de Butler, Iommi e Appice, liderando o Heaven & Hell durante apresentações pela América do Sul no ano de 2009. A morte de Dio abalou minha forma de pensar e encarar música. Assim como o último disco oficial que ele gravou com o Black Sabbath.

Se não fosse Dehumanizer, hoje eu estaria cercado por bandas pop de gosto duvidoso, e jamais teria conhecido tantas bandas grandiosas do hard setentista, que me tornaram o aficcionado colecionador de discos que compartilha um pouco de sua paixão com vocês.

Track list

1. Computer God
2. After All (The Dead)
3. TV Crimes
4. Letters from the Earth
5. Master of Insanity
6. Time Machine
7. Sins of the Father
8. Too Late
9. I
10. Buried Alive



10 Comentarios

  1. Marco Gaspari disse:

    Puta história triste, Mairon. E emocionante também.
    Pena que você não a mandou para o Tony Iommi. Aposto que teríamos a
    Smoke on the Water do Black Sabbath. O título da música eu já tenho: A Tape on the Water.
    Abração.

  2. fernandobueno disse:

    Hahaha….
    O Marco consegue fazer piada com coisas trágicas. Não conhecia essa sua história Mairon e me vi várias vezez na mesma situação em relação a fitas K7. Quantas vezes abri elas para fazer uma manutenção…rs
    A coincidencia é que esse foi o primeiro disco do Sabbath que eu ouvi. Até então eu ainda estava naquela de só Iron, Metallica, Guns e Bon Jovi…

  3. eduardoluppe disse:

    Mairon, simplesmente uma das melhores resenhas que já li! Parabéns! Sensacional e Emocionante! abraços

  4. Muito legal!!! Esse Mairon é uma figura!!!

  5. joseleonardo disse:

    Excelente texto!
    E eu me arrependo até hoje de não ter ido nesse show…

  6. Carlos disse:

    Discaço, pra mim um renascimento depois de discos de médio pra ruins depois do mediano Born Again…
    pra mim o último grande disco do Sabbath…
    parabéns pela resenha!!!

  7. diogobizotto disse:

    Do caralho, Mairon, bela história. E tem gente que se resume a tentar explicar música em meio a ideias pré-concebidas e carregadas de preconceitos que embaçam nossa visão, esquecendo que emoção, tesão, nostalgia e tantos outros sentimentos são variáveis importantíssimas no ato de ouvir e compreender música.

    Também tenho uma pequena história a respeito desse álbum e de como o obtive, lá por 1999: não o comprei, mas o ganhei de um colega de escola ao realizar para ele um trabalho que, se bem me lembro, era de Português. O disco estava em perfeito estado de conservação, dado que, pelo visto, o cara não havia gostado de suas músicas e sequer se dava ao trabalho de ouvi-lo. Hoje em dia, acho que esse colega nem ouve mais heavy metal…

  8. maironmachado disse:

    Nunca agradeci as palavras aqui. Então, pessoal, muito obrigado!

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