Por Mairon Machado

Ultimamente, discutindo entre amigos, levantou-se uma polêmica questão sobre o que é rock. Até agora ninguém soube me responder. A dúvida, pelo menos para mim, continua. Refletindo sobre o assunto, me detive naquele que é o meu estilo favorito dentro do rock, o rock progressivo. O que define se uma banda é de rock progressivo ou não.
Então, voltei na minha coleção de discos e fui ouvir algo que está lá classificado como jazz: o belo disco The Call (Mal Waldron). Nascido na cidade de Nova Iorque, Mal foi um dos mais esquecidos músicos de sua geração. Talvez por ter tido como rivais nomes como Chick Corea e Herbie Hancock, só para citar dois gigantes do jazz da década de 60/70.
Durante os anos 50, Mal ajudou a desenvolver o estilo que posteriormente ficou conhecido como hard bop, inspirado principalmente pelo mestre Thelonius Monk. Álbuns como Mal/2 (1957), trazendo a épica “One by One” (tendo um novato John Coltrane no saxofone), a fase trio, de onde sairam Mal/4 (1958) e Impressions (1959) ou o maravilhoso The Dealers (1964), ao lado de feras como John Coltrane, Jackie McLean (saxofone) e Art Taylor (bateria).
Mal no início de carreira, acompanhando Billie Holiday
Apesar de discos fantásticos, Mal Waldron chamava mais a atenção pela sua simplicidade e parceria musical, servindo como suporte para músicos de grande porte como Billie Holiday, Kenny Burrell e o próprio Coltrane.
No final da década de 60, o pianista, influenciado pela revolução de Miles Davis, resolveu aprender as inovações eletrônicas que começavam a aparecer. Flertou com o moog, o piano elétrico e sintetizadores ao mesmo tempo que iniciou-se no free jazz. Essa loucura toda pode ser comprovada no excepcional Free at Last (1969).

Waldron, semelhanças com Thelonius Monk
tanto físicas como no estilo de tocar

Foi com esse álbum que Mal partiu para uma turnê pelo Japão ao lado do baixista Yasuo Arakawa e do baterista Takeshi Inomata, durante aquele que é considerado o Anno Mirabilus de Waldron, 1970. Nesse ano, o pianista lançou cinco discos fantásticos. Começando com o registro dessa turnê, o essencial Tokyo Bound, forte candidato a melhor disco de sua carreira. Em seguida veio o complicado, mas muito bonito, Tokyo Reverie. Aqui o músico dá uma aula de técnica e melodia utilizando o piano e nada mais! 

Esses dois álbuns fizeram com que seu nome ficasse muito forte no Japão. Foi nesse país que o pianista veio a lançar o quarto disco de seu Anno Mirabilis, Spanish Bitch, antes de fixar residência na Alemanha (onde assinou um contrato com a recém criada gravadora JAPO Records, uma das mais importantes gravadoras de jazz na Alemanha).

Peregrinando com concorridos shows pela Europa, Waldron gravou o último disco do Anno Mirabilis (The Opening) durante uma apresentação em Paris. Este álbum foi lançado pelo selo francês Futura, mesmo selo pelo qual havia lançado meses antes o ótimo Blood and Guts, e fechava o Anno Mirabilis com um saldo extremamente positivo pela Europa e Japão. Isso não era tudo. O músico preparava, para a estreia na JAPO Records, uma maravilhosa surpresa.

Waldron durante um momento de inspiração


Estudando o órgão, o moog e os efeitos de sintetizadores, Waldron chegou a conclusão que poderia criar algo que se diferenciava do que ele vinha fazendo até então. E assim começou a compôr canções voltadas para o ainda novato estilo do fusion. Com a parceria de Jimmy Jackson (órgão), Eberhard Weber (baixo) e Fred Braceful (bateria), a estreia da JAPO Records como gravadora chegou às lojas em abril de 1971 sob o nome de The Call.

Este primeiro disco lançado pela JAPO foge totalmente das linhas jazzísticas que o pianista havia consagrado anteriormente. O órgão e o baixo elétrico mudam a sonoridade e o estilo de tocar de Mal. O músico aprofunda-se no piano elétrico criando um novo ritmo, uma nova parceria de instrumentos, que pode ser classificado como fusion, free jazz, jazz rock ou, para ouvidos extremamente atentos, simplesmente como rock progressivo.

Para chegar nessa conclusão basta ouvirmos a maravilhosa faixa-título. Uma grandiosa suíte de quase 20 minutos de muita técnica, inspiração e harmonias fantásticas. “The Call” surge nos sulcos do vinil através do órgão que entoa as notas que irão acompanhar o tema principal da canção, acompanhado por batidas no chimbal. A introdução levemente ganha volume e Mal surge com o piano elétrico, entoando a bonita melodia do tema central, trazendo junto o baixo, as notas do órgão e as viradas de bateria.

Intrincadas passagens de baixo e piano elétrico formam a ponte para o início dos solos individuais, começando com o dono do disco. Waldron aparece repetindo notas enquanto Jackson delira com variações no órgão, duelando com o baixo de Weber, ao mesmo tempo que Braceful tenta ganhar o espaço de todos os instrumentos. 

O solo de Waldron é uma enlouquecedora sequência de notas, complicado e praticamente impossível de ser reproduzido. A medida que ele empolga-se, o órgão e o baixo aumentam o volume, assim como a bateria, sendo que um segundo piano elétrico (também tocado por Waldron) larga acordes arrepiantes, únicos a manter a serenidade na loucura musical empregada pelo quarteto.

Jimmy Jackson

O ritmo diminui dando espaço para Jackson começar seu solo. Enquanto piano,  baixo e bateria agora entram em harmonia, o órgão de Jackson ferve como um caldeirão, em longas notas e belíssimas escalas, lembrando por horas as maluquices feitas por Ray Mazarek no The Doors e as belas e furiosas inserções de Keith Emerson na época do The Nice.

Jackson inventa escalas, sobrepondo notas estranhas e repetindo um tema criado quase que por acaso dentro de seu solo. Tema este que modifica o andamento das notas do órgão conforme ele aparece: primeiro de forma lenta, posteriormente, de forma muito agitada, com o grave do baixo estourando as caixas de som.

Eberhard Weber

Com o baixo estourando tudo, começa o solo de Weber. O cara simplesmente detona! Com o piano elétrico fazendo a marcação do tempo e a bateria acompanhando os quatro acordes feitos pelo piano elétrico, o baixista solta os dedos com uma velocidade comedida, porém encantadora em seu contrabaixo acústico. Seus dedos deslizam pelo baixo sem trastes criando sonoridades fantásticas onde, misturadas com o acompanhamento de bateria e piano elétrico, deixam o mesmo praticamente sozinho, apenas com uma tímida marcação do órgão.

A partir desse momento, Weber realmente viaja! Notas estranhas e pesadas, tocadas com agressividade, vão trazendo aos poucos a bateria e o piano elétrico. Tentar decifrar o que o baixista faz é tarefa para estudiosos do instrumento. Afinal, mistura harmônicos, bends, trêmolos e várias outras técnicas tudo em menos de um minuto. Muito ágil e preciso! 

Então, ele realmente fica sozinho deslizando os dedos pelo braço de seu instrumento. Depois de um solo nervoso a bateria de Braceful aparece swingada, como em um funk Motowniano, para executar o solo final da canção. Outro grande instrumentista, manda ver nos tons e pratos com rufadas, viradas e batidas. Os pratos soam como gôngos (instrumento japonês), tamanha força empregada! 

Fred Braceful

Em uma segunda etapa é a caixa quem sofre com a violência dos braços de Braceful em batidas que parecem rufos. O cidadão simplesmente extrapola o limite de sua criatividade detonando a caixa ao mesmo tempo que soca o bumbo com os pés e empregando viradas complicadíssimas nas demais peças de seu instrumento.

O encerramento do solo retorna para as notas do órgão trazendo o tema inicial, novamente executado pelo órgão, concluindo os dezenove minutos dessa genial e democrática canção como que se tivessem passados apenas cinco.

O lado B de The Call apresenta “Thoughts”, outra que poderia estar presente como Maravilha do Mundo Prog, mas a faixa-título tem um porém a mais para estar aqui.

Steig Aus, o disco em que o Embryo recriou “The Call”


Dois anos depois de lançar The Call, Waldron re-encontrou o amigo Christian Burchard. Excelente baterista, e grande xilofonista, Burchard foi um dos principais nomes do krautrock alemão. Os dois já haviam trabalhado juntos na década de 60 através de shows regados de improvisos que acabaram se tornando o álbum For Eva (gravado em 1967 mas lançado apenas em 1999). O trabalho foi lançado sob o nome do projeto que Burchard criou, o fantástico grupo Embryo.

Em 1973, Burchard convidou Mal para participar novamente do Embryo, tendo como principal oferta o desejo quase platônico por gravar “The Call”. Seus desejos foram atendidos no maravilhoso Steig Aus (1973). Nele, a versão de nossa maravilha prog virou uma saborosa canção levada pela pegada precisa de Burchard comprovando ainda mais o fato dela, apesar de ser composta por um jazzista, nada mais ser do que uma maravilhosa suíte prog. Ainda com o Embryo, Waldron gravou o fantástico Rocksession (1973) – contando também com a participação de Jimmy Jackson – e Turn Peace (1989). 

Com o passar dos anos, o pianista passou a se dedicar para trilhas sonoras, acompanhar outros artistas e investir em sua carreira solo. Com mais de cem discos lançados, somente na carreira solo, faleceu no dia 02 de dezembro de 2002. Vítima de câncer, o músico deixa um legado que, se é desconhecido entre a maioria dos apreciadores do jazz em nosso país, é reverenciado por músicos iniciantes tanto no estilo quanto na arte de tocar piano.

Uma lenda do jazz que aventurou-se pelo progressivo

Resumindo o conjunto da obra aqui apresentada, pela dúvida em o que seria rock progressivo, definições são criações humanas. Afinal… Se uma banda de krautrock faz uma versão progressiva para uma canção criada por um músico de jazz, que por**@ de estilo será esse?

O que vale na música é o bom gosto e a certeza de saborear um delírio musical do quilate de “The Call”. Aqueles que julgarem Mal Waldron como um músico apenas de jazz, que joguem as pedras. Concordo que quase toda a discografia do norte-americano é voltada para o estilo. Em The Call, entretanto, o progressivo tomou conta. E maravilhosamente!

3 comentários

  1. Marco Gaspari

    Tenho esse vinil, Mairon (é mais fácil vender babas como Pink Floyd do que essa maravilha). Mas me lembro que o que me levou a comprá-lo quando vi foi o fantástico Eberharb Weber. Pra mim é um disco de jazz rock, mas como tudo na época se encaixava no rótulo progressivo, acho que também vale a sua classificação. Ótimo ver esse disco por aqui.

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  2. Mairon Machado

    Obrigado Marco. O que me chama mais a atenção é que poucos conhecem Mal Waldron, mesmo por ele ter participado do Embryo. Achar The Call à venda mesmo no e-bay ou na Amazon é uma caça as pérolas: raríssimo

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  3. Groucho KCarão

    Então, sou um dos que não faziam ideia de quem era essa criatura. Conheço um pouco do Embryo, mas não a fundo. Pra falar a verdade, so conheço um disco do Embryo que eu escutava num CD caseiro, então nem sei qual o nome do tal disco, hehe. Será que é esse Steig Aus? Não sei. Fiquei interessadão nessa storia. Parabéns pela iniciativa, Mairon!

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