Por Micael Machado

Apesar de grafado, lançado e divulgado como tal, Imaginaerum não é um disco do Nightwish. É a realização do sonho pessoal de Tuomas Holopainen (tecladista e principal compositor) de escrever uma trilha sonora completa. Tanto que suas músicas têm esta finalidade no filme de mesmo nome a ser lançado em breve, no qual o grupo investiu uma vultosa soma em euros e que, ao que consta, terá a participação de seus membros em pequenos papéis. Investindo em novas direções para a música do conjunto, o álbum é um trabalho conceitual sobre um artista à beira da morte relembrando sua vida. É bem difícil se chegar a esta conclusão apenas analisando as letras das canções (tanto que Tuomas declarou em entrevistas que este seria um disco mais temático que conceitual, sendo a história melhor desenvolvida no filme), e, musicalmente falando, em poucos momentos lembra os lançamentos anteriores dos finlandeses, sejam eles os com a musa Tarja Turunen nos vocais, ou mesmo Dark Passion Play (2007), o disco de estreia da vocalista Anette Olzon com o grupo.

Anette, aliás, progrediu muito desde o álbum anterior. Neste seu segundo lançamento de estúdio com a banda, a vocalista está mais à vontade, com algumas variações em sua maneira de cantar que não apareciam antes. A coisa chega a um ponto tal que, em “Scaretale” (cuja primeira parte a torna a melhor música do play para este que vos escreve), fica difícil acreditar que aquela voz rasgada e agressiva seja mesmo dela. Mas, como o encarte não traz nenhuma informação sobre convidados especiais (ou sequer o nome dos músicos), temos de crer que é ela mesma quem está atrás do microfone aqui. É claro que os vocais do baixista Marco Hietala também marcam importante presença em várias faixas, mas estes, ainda que bastante apreciáveis (e por vezes melhores encaixados nas melodias do que os da vocalista principal), estão mais reduzidos em relação ao disco anterior (completam a formação o guitarrista Emppu Vuorinen e o baterista Jukka Nevalainen).
Jukka Nevalainen, Emppu Vuorinen, Anette Olzon, Marco Hietala e Tuomas Holopainen
O que mais chama a atenção ao terminarmos a audição de Imaginaerum é a ausência do “peso” característico do metal. Ele está lá, escondido em alguns trechos (como em partes da bela “Rest Calm” ou da agitada e meio macabra “Ghost River”), mas perde espaço para as orquestrações grandiosas e para alguns elementos étnicos, como as passagens orientais e as percussões de “Arabesque” ou os violinos e gaitas de “I Want My Tears Back”. Outra coisa que incomoda nas primeiras audições é a grande variação rítmica dentro das canções, como na citada “Scaretale”, que começa muito bem, bastante agressiva e lembrando os tempos de Wishmaster (disco lançado no ano 2000). Mas, como Tuomas parece não conseguir compor uma canção de melodia simples e sem variações, logo tudo muda, e o ritmo vira algo meio circense que quebra todo o encanto conseguido com a primeira parte. “Storytime”, a primeira música de trabalho (e a primeira faixa “de fato”, após a intro “Taikatalvi”), tem um pezinho no pop (assim como “Nemo”, talvez o maior sucesso comercial do grupo), além do melhor refrão do disco e deve agradar aos fãs adolescentes dos finlandeses. Assim como a citada “I Want My Tears Back” que tem uma baita cara de hit pronto para estourar. A balada “The Crow, the Owl and the Dove”, segundo single lançado, não me agradou muito. Prefiro a posterior “Last Ride Of The Day” que parece saída do disco anterior da banda.
A calma “Slow, Love, Slow” tem algo de jazz em seu arranjo (impressão reforçada na versão instrumental do disco bônus). “Turn Loose The Mermaids” é a “balada sentimental” da vez. Enquanto a longa “Song Of Myself” (mais de treze minutos), apesar do caráter épico que Tuomas lhe impôs, não consegue agradar tanto quanto outras faixas na mesma condição em discos anteriores, como a maravilhosa “Beauty of the Beast” (Century Child), “Ghost Love Score” (Once) ou mesmo “The Poet and the Pendulum” (Dark Passion Play). O encerramento se dá com a faixa título, totalmente instrumental, e que retoma diversas melodias retiradas das músicas anteriores do disco, servindo como um belo resumo do álbum em seu final.
Poster que acompanha a edição especial
A impressão de “trilha sonora” citada no começo é ainda mais reforçada quando ouvimos o disco bônus disponível na edição especial, com as versões instrumentais de todas as canções do álbum (e uma arte gráfica belíssima, vale a pena dizer. Há ainda uma “tour edition”, sem estas versões instrumentais, mas com com as faixas orquestradas, além de um DVD com um documentário registrando as gravações do álbum e do filme), onde tudo soa ainda mais grandioso e épico, como uma boa trilha sonora deve ser. É fácil cair na tentação de dizer que este segundo disco é ainda melhor que o original pela simples ausência de Anette, mas isto seria muita maldade com a pobre garota sueca. Algumas músicas realmente ganham com o maior destaque dado às partes orquestrais, mas é difícil dizer que soam mais agradáveis apenas por não contar com a presença da cantora. Soam diferentes das versões com vocais, digamos apenas isso. E, apesar de por muitas vezes soarem estranhas à discografia anterior do grupo, perfazem junto ao álbum “regular” um bom trabalho, que apenas demanda um maior esforço do ouvinte para que este se adapte aos novos rumos que Tuomas determinou para o Nightwish. Novos, mas que ainda conseguem agradar a quem gosta de sua música.
Track List:
1. “Taikatalvi”
2. “Storytime”
3. “Ghost River”
4. “Slow, Love, Slow”
5. “I Want My Tears Back”
6. “Scaretale”
7. “Arabesque” (instrumental)
8. “Turn Loose the Mermaids”
9. “Rest Calm”
10. “The Crow, The Owl and the Dove”
11. “Last Ride of the Day”
12. “Song of Myself”
13. “Imaginaerum” (instrumental)

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