Maravilhas do Mundo Prog: Rita Lee – Superfície do Planeta [1972]

30 de maio, 2012 | por Mairon
Diversos
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“A coluna Maravilhas do Mundo Prog será publicada excepcionalmente hoje, quarta feira, pois temos uma publicação especial nos próximos dias”.
   
Por Mairon Machado
Quando o ano de 1972 começou, poucos imaginariam que ele terminaria de forma tão confusa e rancorosa para o grupo brasileiro Mutantes. Afinal, o quinteto paulista estava no auge da sua carreira, consolidados como principal banda do rock nacional e tendo na liderança um ícone chamado Rita Lee (voz, teclados, theremim, percussão, flauta).
Rita era o centro das atenções em um grupo jovem mas experiente, trazendo Arnaldo Baptista (teclados, vocais), Sérgio Dias (guitarra, sitar, vocais), Liminha (baixo) e Dinho Leme (bateria), e dois anos antes, por insistência da gravadora Polydor, havia tentado uma carreira solo com o álbum Build Up, que fez relativo sucesso por causa da canção “Sucesso, Aqui Vou Eu”. Mas, mesmo com o Mutantes mandando na cena brasileira, as coisas internamente não estavam nada bem.
Tudo por que o relacionamento do casal Rita e Arnaldo estava indo de mal a pior, junto com as brigas para ver qual direção o som do grupo deveria seguir. Sérgio, Arnaldo, Liminha e Dinho defendiam a adoção do rock progressivo, enquanto Rita insistia em querer manter o tradicional som da Tropicália que havia revelado o grupo.
Rita Lee em 1972. Futuro incerto ao lado do Mutantes
A solução encontrada pela Polydor foi acalmar os ânimos do quinteto, lançando assim um disco sob o nome Mutantes e outro sob o nome de Rita Lee. Desta forma, poderiam fazer o que bem entendessem em cada um dos álbuns, sem gerar atritos e discussões, e principalmente, mantendo a união entre os membros. 
Na prática, não foi assim que funcionou. Enquanto o disco do Mutantes, o espetacular Mutantes e Seus Cometas no País dos Bauretz, mergulhava de cabeça no progressivo, destacando a suíte faixa-título, mas traz momentos Ritanianos como “Todo Mundo Pastou” e “Rua Augusta”, o disco de Rita Lee virou praticamente um disco solo de Arnaldo e Sérgio, que meteram a mão literalmente na obra, fazendo desse mesmo um filho muito bem abonado do disco do grupo maior.
Rita Lee, preparando-se para sair do Mutantes
Hoje É o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida é um dos verdadeiros achados na música nacional. Em suas dez faixas, as habilidades musicais de Rita, Arnaldo, Sérgio, Liminha e Dinho são colocadas à prova, e raras são as canções onde o progressivo não aparece com ênfase. Apesar de Rita tentar de tudo que é jeito mostrar que o disco é seu, trazendo letras engraçadas e fazendo as vocalizações que marcaram sua fase inicial, a participação do Mutantes como grupo de apoio modifica totalmente o ar do disco, tornando-o muito mais atraente.
“Vamos Tratar da Saúde”, “Beija-Me Amor”, “Amor Branco e Preto”, “De Novo Aqui Meu Bom José” e “Tiroleite” são as faixas mais próximas do que Rita Lee sugeriu para seu disco, relembrando a fase inicial do Mutantes, ainda como trio, mas sempre com pitadas progressivas, as quais viram um verdadeiro caminhão quando ouvimos a faixa-título, “Teimosia”, “Tapupukitipa” e “Fique Comigo”, nas quais o baixo de Liminha duela forte com os teclados de Arnaldo e a guitarra ácida de Serginho.
Arnaldo Baptista em 1972
Porém, é na maravilhosa faixa de encerramento de Hoje É o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida que Rita e os Mutantes se superam. “Superfície do Planeta” é uma obra perfeita, na qual Serginho, responsável por comandar os dramáticos vocais da canção, joga para fora qualquer bom senso de interpretação, com gritos rasgados e alucinantes que servem apenas para enaltecer ainda mais o seu talento.
Nossa maravilha começa com barulhos de vento, trazendo as variações de acordes da guitarra que acompanham o sussuro vocal de Rita, explodindo nos acordes de órgão, com o baixo e os pratos marcando o tempo para Serginho gritar forte. A segunda estrofe é feita com os sussuros de Rita, tendo Arnaldo avisando: “Preste atenção na letra!”, e trazendo mais gritos de Serginho, chegando no refrão, onde um pequeno tema da guitarra surge sob os gritos.
Barulhos de tiros apresentam a complicada escala de baixo, repetida pela guitarra, e assim, começa a batalha feroz entre baixo e guitarra, um engolindo o outro através de diversas repetições do mesmo tema, voltando então para o início sussurrado da canção. Barulhos de discos voadores repetem então a segunda estrofe da letra, com Serginho gritando como nunca, e assim, “Superfície do Planeta” encerra-se com as lindas notas da guitarra acompanhadas pela imponente marcação do órgão, baixo e bateria, enquanto diversos efeitos são adicionados na voz de Sérgio.
Para complementar, um tímido Arnaldo nos pergunta, entre barulhos de disco voador, corda quebrando e tiros, a frase “Você entendeu?”, uma sacanagem direta para a intrincação musical que é Hoje É o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida, e principalmente, “Superfície do Planeta”.

Sérgio Dias e sua Sitar. Início de uma era progressiva
Ainda em 1972, o Mutantes lançou a maravilhosa “Mande Um Abraço Pra Velha“. No mesmo ano, Rita saiu do grupo para seguir uma carreira com altos e baixos, primeiro ao lado do Tutti Frutti e depois com o marido Roberto de Carvalho, virando a Rainha do Rock nacional e mostrando aos brasileiros suas intimidades com Roberto detrás de quatro paredes.

O Mutantes seguiu peregrinando pelo progressivo por mais alguns anos, vendendo poucos discos, mas sendo reconhecido como a maior banda de rock do país, inclusive tendo a oportunidade de divulgar o rock progressivo Made in Brasil na Europa. Um ótimo exemplo de que em nosso país, música de qualidade era feita por jovens que tinham além de talento e criatividade, capacidade emocional para compor maravilhas como “Superfície do Planeta”.



9 Comentarios

  1. Marco Gaspari disse:

    Até onde eu sei, Mairon, o lançamento da carreira solo da Rita Lee não foi idéia da Polydor, mas sim da empresa Rhodia, cujo marketing era capitaneado pelo Livio Rangan, uma figura muito controversa na época porque tinha nas mãos uma grana preta de publicidade e mandava e desmandava nos veículos de comunicação. Os desfiles de moda anuais da Rhodia eram a coqueluche da época, rodando os principais centros do país. Eram temáticos e culminavam num show de música popular. Em um deles o Livio resolveu criar o lançamento de um ídolo pop e chegaram ao nome da Rita Lee, então membro dos Mutantes, artista da Polydor (Philips), encabeçada pelo André Midani, amigo do Livio Rangan. Toda a trilha composta para esse show virou o primeiro disco solo dela: Build Up e teve a capa criada pelo Licinio de Almeida, diretor de arte da agência de propaganda que tinha a conta da Rhodia. O Licinio não fez muitas capas de discos, mas é sua e do Lívio Rangan a antológica capa do primeiro disco do Walter Franco (aquele que tem a mosquinha). Ou seja: a Rita Lee se aventurou solo porque o Lívio queria lançar a idéia de um ídolo fabricado para o sucesso. O que realmente aconteceu anos mais tarde. Quanto a esse segundo disco e a maravilha prog de hoje, é bacaninha, só isso. Mutantes e Rita Lee têm muitas coisas mais legais, na minha opinião.

  2. Marco, eu desconheço esse fato da Rhodia (perdão mil, por favor), então se tu falas, ta falado e colocado no meu manual de informações sobre a Rita. Eu gosto de muito material da carreira solo dela, mas progressivo, acho "Superfície do Planeta" o melhor material já gravado por ela (apesar do Atrás do porto ter muita material bom).

    Obrigado pelas informações, e esse fato da Rhodia tem algo a ver com a aparição do Mutantes no filme As Amorosas?

  3. Marco Gaspari disse:

    Não sei dizer, Mairon. Seria preciso checar. Mas não leve tão ao pé da letra o que eu escrevi. Posso, claro, estar equivocado e muitas coisas não baterem com as versões oficiais. O fato é que eu trabalhei anos com o Livio Rangan e com o Licinio de Almeida (isso a partir de 77) e conheço essas histórias da boca desses protagonistas. Mas sabe como é, cada um puxa a sardinha pro seu lado.

  4. Marco, mesmo sendo pessoas que puxam a sardinha para sua brasa, eles vivenciaram os fatos. Minhas informações são de artigos revisitando a história da banda e o controverso A Divina Comédia, escrita pelo Carlos Calado. Ou seja, acredito muito mais na tua versão

  5. Muitas lembranças pueris nesse excelente artigo! Parabéns!

  6. Muitas lembranças pueris nesse excelente artigo! Parabéns!

  7. Escutei este disco, obviamente Rita Lee foi dispensada da banda por diferenças musicais como qualquer supergrupo ou superstar, ataques de estrelismo, stress. Nem da pra comparar Os Mutantes com os demais artistas da Tropicalia ou Jovem Guarda; eles seguiram uma carreira musical isolada dos demais. Verdade seja dita!!

    • maironmachado disse:

      Valeu pelo comentário Márcio. E o que você acha da nossa Maravilha?

      • Diego Camargo disse:

        Vou usar o comentário do Marco porque condiz exatamente com o que sinto:
        “Quanto a esse segundo disco e a maravilha prog de hoje, é bacaninha, só isso.”

        Só acrescentaria que de Prog mesmo… não tem quase nada. rs

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