I Wanna Go Back: Tyketto – Don’t Come Easy [1991]

11 de Abril, 2012 | por Diogo Bizotto
Diversos
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Por Diogo Bizotto

Virou lugar comum dizer que certos grupos de hard rock surgidos no início dos anos 90 foram injustiçados em função de terem aparecido para o público quando as bandas egressas de Seattle já começavam a tomar de assalto as paradas musicais e conquistar o apreço das grandes gravadoras. Em parte, isso é verdade, pois não é nem um pouco difícil visualizar que diversas músicas compostas por legítimos hard rockers da época poderiam ter invadido as ondas do rádio e da MTV com muita força caso tivessem sido editadas dois ou três anos antes. Contudo, há muito exagero nesse sentido, afinal, não é segredo algum que o gênero havia atingido um ponto em que atraía uma grande parcela do chamado “público médio”, volúvel às tendências momentâneas e pronto a abandonar um gênero em favor da mais nova moda. Além disso, a quantidade de grupos sem personalidade, que soavam como muitos anteriores, além de contarem com honestidade duvidosa, vicejavam em excesso.

Esse não é o caso do Tyketto. O quarteto formado pelo vocalista Danny Vaughn após sua saída do Waysted (banda do antológico baixista do UFO, Pete Way) tinha todos os méritos possíveis para galgar posições mais elevadas nas paradas e conquistar os ouvidos dos apreciadores de um hard rock extremamente melódico, rico em melodias de fácil assimilação, mas sem soar como uma mera banda pop com guitarras pesadas (até porque elas nunca foram muito pesadas). O Tyketto contava com bons músicos (Brooke St. James, guitarra; Jimi Kennedy, baixo; Michael Clayton, bateria), era dotado de capacidade criativa e conquistou um contrato com uma grande gravadora (Geffen), mas infelizmente editou seu debut, Don’t Come Easy, quando a derrocada do hard rock oitentista já era uma realidade em formação.

Liderado pelo competentíssimo vocalista, dono de ótimo timbre, boa técnica e pouco afeito aos excessos cometidos por alguns de seus contemporâneos, o Tyketto possuía uma sonoridade suficientemente particular para se destacar, mesmo na época. Como sinalizei acima, não se tratava de um grupo pop travestido de banda hard rock através de pesados riffs de guitarra ou do típico visual carregado da época. Ao contrário de grupos como Ratt e Dokken, poucas vezes suas músicas são baseadas na progressão de riffs, pois as melodias habitualmente revolvem ao redor das linhas vocais de Danny Vaughn, tornando a comparação com o Bon Jovi a mais próxima da realidade. Além disso, apesar das longas madeixas, o quarteto sempre primou por um visual mais clean, abrindo mão de um guarda-roupas recheado de lycra e adereços metalizados.

Outro ponto positivo a destacar o Tyketto da maioria dos grupos de hard rock que vicejavam nos anos 80 é a qualidade de suas letras, um tanto superiores ao que vinha sendo feito na época. Mesmo músicas com a velha temática amorosa entre homem e mulher conseguem soar um tanto mais sóbrias que o habitual e colocam em ênfase uma abordagem que fugia dos contos de festas e orgias tão valorizados até havia pouco tempo.

Tyketto em 1991: Jimi Kennedy, Danny Vaughn, Brooke St. James e Michael Clayton

Parece brincadeira, mas o fato é que, pelo menos para mim e para todos os amigos aos quais tive a satisfação de apresentar o Tyketto, Don’t Come Easy traz uma sequência invejável de músicas viciantes, registrando uma pequena queda no nível de qualidade naquilo que seria o lado B (no original em vinil), mas que sustenta-se no topo em toda sua primeira metade. Senão vejamos: “Forever Young”, canção que abre o disco e único “quase hit” do grupo, mescla guitarras musculosas com bases e dedilhados executados ao violão (uma constante nas músicas do quarteto) de maneira a soar suficientemente pesada para a turma do pop metal oitentista e mesmo assim manter uma acessibilidade passível de atrair o público mais acostumado com o que habitualmente toca nas rádios mais conservadoras. Ecoando sobre tudo isso, a excelente voz de Danny Vaughn, merecidamente colocada à frente na mixagem, ditando a evolução do ritmo e da melodia.

E o que falar de “Wings”? Perdi as contas de quantas vezes me peguei bradando seu empolgante refrão quase sem querer, tamanha é sua capacidade de infectar o ouvinte através de suas melodias e de sua letra. O fato de uma canção desse calibre ter sido solenemente ignorada pelos meios de comunicação da época é um dos maiores crimes que já tive o desprazer de constatar nesses 17 anos de paixão pela música. Se existe um destaque óbvio a ser apontado em Don’t Come Easy, pode ter certeza que ele é “Wings”! “Burning Down Inside” mantém os ânimos em alta e soa um pouco como o Whitesnake da segunda metade dos anos 80, lembrando em alguns momentos o hit mundial “Here I Go Again” (na versão de 1987), mas passando a uma longa de distância de soar como plágio ou algo do tipo.

“Seasons” é uma das que mais dá evidência ao violão, ora dominando as seis cordas sozinho, ora mesclando-se à guitarra. O Firehouse é um contemporâneo do Tyketto que se especializou nesse tipo de união, mas devo dizer que Brooke St. James conseguiu com ainda mais êxito aproveitar o melhor que os instrumentos elétricos e acústicos de seis cordas são capazes de oferecer ao estilo, gerando uma simbiose agradabilíssima de se ouvir. Também é bastante agradável a grande balada do disco, “Standing Alone”, majoritariamente acústica, evidenciando como poucas vezes as elegantes vocalizações de Vaughn, que consegue expressar sentimentalismo sem soar exacerbado.

Falando em Danny Vaughn, é fato incontestável que o cantor é extremamente talentoso, mas seus parceiros são capazes de prover bons backing vocals, algo que pode ser comprovado no refrão da alegre “Lay Your Body Down” (a mais pop do disco) e no festival de “oôos” de “Nothing But Love”. A capacidade de Brooke St. James ao violão é novamente atestada na introdução de “Walk on Fire”, mais uma daquelas para fazer valer por si só a aquisição desse pequeno tesouro perdido, empolgando mesmo naqueles dias mais modorrentos.

Reportagem em revista da época

A produção executada pelo experiente Richie Zito é outro aspecto que merece ser ressaltado em Don’t Come Easy: apesar de ainda se encaixar no contexto do hard rock oitentista, o álbum não soa datado em excesso, recheado de ecos e reverberações que remetem diretamente à época. A mixagem também é eficientíssima, dando espaço igualitário aos instrumentos e equilibrando bem a mescla entre guitarras e violões.

Em “Strip Me Down”, o baixista Jimi Kennedy ganha um pouco mais de espaço para brilhar e faz bonito, com direito a um pequeno solo na canção que é a mais maliciosa do disco tanto musical quanto liricamente. O registro encerra-se com “Sail Away”, mais uma para confirmar a capacidade do Tyketto em compor músicas dotadas de refrões capazes de cativar com facilidade e fazer com que cantemos junto sem nem mesmo perceber.

Para completar o crime que é o fato do Tyketto ter sido colocado completamente de lado na época, a gravadora Geffen despediu o quarteto em 1992, às vésperas do lançamento de seu segundo álbum, Strenght in Numbers, que ficaria engavetado por dois anos e seria editado apenas em 1994, causando menos impacto ainda, apesar de contar com grandes canções, como “The End of the Summer Days”, “Meet Me in the Night” e a faixa-título. Danny deixaria o grupo para cuidar com mais atenção de sua esposa, diagnosticada com câncer, mas o Tyketto ainda lançaria Shine em 1996, contando com os préstimos do vocalista Steve Augeri, que posteriormente se juntaria ao Journey.

O fato é que, apesar de passar longos períodos longe dos palcos e dos estúdios, o final da banda nunca foi definitivamente decretado, tanto é que, neste ano, será lançado Dig in Deep, primeiro registro de estúdio desde Shine, abrindo a possibilidade para que o grupo possa realizar turnês mais constantes, e não apenas shows esparsos, como tem sido a tônica na última década. Ninguém pode acusar a banda, que conta com sua clássica formação, de tentar capitalizar nos hits do passado para garantir um dinheiro extra, pois, como já deixei bem claro, não houve hits. Danny Vaughn e companhia não tomarão o mundo do rock de assalto, mas, se soltarem um álbum de qualidade, farão a alegria de um grupo de fãs que pode não ser muito grande, mas que sabe muito bem do que o quarteto é capaz.

Contracapa de Don’t Come Easy

Track list:

1. Forever Young
2. Wings
3. Burning Down Inside
4. Seasons
5. Standing Alone
6. Lay Your Body Down
7. Walk on Fire
8. Nothing But Love
9. Strip Me Down
10. Sail Away



2 Comentarios

  1. Já vi esse vinil para vender diversas vezes e nunca me atraiu. Ouvindo as faixas disponibilizadas, chego a conclusão que realmente esse LP não constará na minha prateleira, apesar da voz de Vaughn ser muito boa, e bem diferente para o AOR.

  2. Anônimo disse:

    MIMIMIMI não gosto de AOR. Ai meu saco.

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