Os Sete Pecados do Rock Nacional – Parte IV: a cobiça (Engenheiros do Hawaii – O Papa é Pop [1990])

13 de Março, 2012 | por Mairon
Artigos Especiais
23

Por Mairon Machado
Passada a morte de Raul Seixas e o choque de Psicoacústica e Crescendo, a década de 90 começou com outros ares. Em 1990, o grupo gaúcho Engenheiros do Hawaii já havia conquistado seu espaço entre os grandes grupos de rock brasileiros da década de 80. Ao lado do Legião Urbana, Titãs e Paralamas do Sucesso, seus três primeiros álbuns (Longe Demais das Capitais, de 1986; A Revolta dos Dândis, de 1987; e Ouça o Que Eu Digo, Não Ouça Ninguém, de 1988), venderam tanto que o grupo conseguiu ser uma das primeiras bandas do BRock a gravar um LP ao vivo, o bom Alívio Imediato (1989), influenciados também pelo enorme sucesso dos LPs Rádio Pirata ao Vivo (1986), do RPM, e Viva, lançado pelo Camisa de Vênus no mesmo ano.
Além disso, em outubro de 1989, a banda fez uma excursão sem muito sucesso pela antiga União Soviética, a primeira de uma banda brasileira pela terra do então presidente Mikhail Gorbachev, quando o país ainda era conhecido pela sigla comunista URSS, tocando cinco noites em Moscou e cinco noites em Leningrado, fato que chamou a atenção no Brasil por ser algo pioneiro e inovador para a época, levando-os a ser uma das principais atrações brasileiras na terceira edição do Festival Hollywood Rock, em 1990, ao lado de gigantes como Bob Dylan, Marillion e Bon Jovi. O Engenheiros estava no topo! 
Folder de divulgação da apresentação do grupo na URSS (acima)
e o trio em frente à catedral de São Basílio (abaixo)
Como sucesso pouco é bobagem, Humberto Gessinger (baixo, vocais, teclados, midi-pedalboard), Carlos Maltz (bateria) e Augusto Licks (guitarras, violões, sintetizadores, midi-pedalboard) queriam mais, e sabiam que podiam fazer mais. Afinal, o trio tinha influências o suficiente para ser não uma das maiores, mas sim, a maior banda do país. Licks possuía formação jornalística, mas era dotado de inspirações em música clássica que o convocaram a ser guitarrista de um dos maiores símbolos da MPB gaúcha, Nei Lisboa, antes de chamar a atenção de Gessinger em 1987, levando-o para o Engenheiros do Hawaii. Gessinger nunca negou ser fã de rock progressivo, principalmente do Rush, e enxergava-se no palco como o Geddy Lee dos pampas, tocando baixo, teclado e cantando ao mesmo tempo. Apenas Maltz era o mais roqueiro do trio, curtindo o básico dos básicos, suficiente para acompanhar os outros dois talentos do grupo. 
Aproveitando a onda revigorante que assombrava o rock nacional, o trio Gessinger-Licks-Maltz (ou GLM, como ficaram conhecidos intimamente) decidiu mostrar que eram os melhores, e com todo o pecado da COBIÇA, resolveram gravar o mais ambicioso projeto do grupo, o álbum O Papa É Pop
Foto de divulgação de O Papa é Pop
Nele, o trio (principalmente Gessinger) resolveu que, ou eles conquistavam o Brasil finalmente, ou então naufragariam em um fracasso descomunal. A ideia era lançar um álbum dividido em duas partes: uma, mais acessível aos fãs e ao público em geral, seria uma sequência natural de Ouça o Que Eu Digo, Não Ouça Ninguém; a outra, trazendo um conteúdo inédito e revolucionário, misturando as tendências do rock para os anos 90 com pitadas da quadradice oitentista rechaçada pelo Ira! e, por mais esquisito que pareça, aglomerando o heavy metal e o progressivo em um mesmo álbum.
Utilizando-se de influências diversas e tão inusitadas quanto a proposta, agregando o uso de guitarras sintetizadas, o praticamente recém criado midi-pedalboard (uma espécie de sintetizador tocado com os pés) e bateria eletrônica, o trio passou a compor as novas canções para o LP. Com o passar dos dias, era possível perceber que o material elaborado era bem consistente e promissor. O caldeirão de ideias ferveu como nunca, gerando um disco diferente do esperado, surpreendo até mesmo o próprio trio e os empresários da gravadora BMG, responsável pelo lançamento de O Papa É Pop. Para isso, decidiram que ninguém era melhor do que eles mesmos para produzir e mixar o material, fazendo de O Papa É Pop o primeiro dos três LPs autoproduzidos pelo trio GLM. 
Após concluir o processo de composição, as pitorescas criações de Gessinger começaram a ganhar forma também fora das canções. Primeiro, com o título do LP. O Papa É Pop era ao mesmo tempo uma afronta e uma bênção. Aproveitando-se da primeira passagem do papa João Paulo II pelo Rio Grande do Sul, em 1980, quando o líder da Igreja Católica autoproclamou-se gaúcho, Gessinger viu uma chance de entrar na mídia, consolidando o papa como um ser popular (pop, na gíria adolescente da época), assim como sua banda. 
O compacto da banda Os Incríveis, que inspirou a capa de O Papa é Pop

Dando mais ares populistas, a capa do LP é constituída apenas de três cores: vermelho, preto e branco, não por acaso, as cores do time de futebol mais popular do país, o Flamengo, lembrando que o futebol é uma das paixões de Gessinger, um gremista doente, além de que o próprio Papa vestiu a camisa do Flamengo quando de sua passagem pelo Rio de Janeiro. Ainda há a indecente chupação da capa do compacto “Hino Nacional/Hino da Independência”, do grupo Os Incríveis, lançado em 1971, inclusive com a mesma arte e fonte utilizada no nome do grupo e no título do álbum, trazendo para os jovens do final da década de 80 todo o respeito a uma das mais populares bandas do rock nacional na década de 60. 

Imagem do papa bebendo chimarrão
Por fim, Gessinger colocou na capa, ao lado da foto do trio junto a um luxuoso sofá vermelho, uma imagem muito popular no Rio Grande do Sul, do papa João Paulo II vestido com a indumentária gaúcha, ou seja, chapéu, lenço, camisa e bombacha, além de estar bebendo chimarrão, imagem registrada por Carlos Contursi, e que pertencia a outro personagem muito popular no Rio Grande do Sul, o ex-governador Leonel Brizola.
Pronto! Estavam concluídas todas as etapas possíveis para o lançamento do audacioso projeto, que chegou às lojas na primavera de 1990. Dividido no lado Papa (lado A) e lado Pop (lado B), o álbum conquista os ouvidos na primeira audição, sendo inteligente, direto e principalmente, um disco para ser estudado, tamanho o conflito de influências que o trio conseguiu juntar nos sulcos do LP. 
O Papa É Pop abre com “Exército de Um Homem Só I”, na qual o violão sintetizado de Licks, contando com o acompanhamento de Maltz e do midi-pedalboard, traz Gessinger fazendo a marcação no baixo, remetendo de alguma forma à introdução de “Xanadu” (Rush). Gessinger passa a cantar acompanhado pelo dedilhado da guitarra em um estilo bem anos 80. Depois de duas estrofes, chegamos ao refrão, no qual os sintetizadores marcam presença ao lado do suposto pesado riff de Licks, com um acompanhamento extremamente anos 80 de Maltz. A introdução volta às caixas de som para que Gessinger continue a letra em mais uma estrofe acompanhada pelo dedilhado, voltando para o refrão e mais uma repetição do tema da introdução, enquanto Gessinger conclui a letra acompanhado por um ritmo marcial de bateria. Após isso, baixo e guitarra executam o tema de “Canção ao Expedicionário”, hino do exército brasileiro na Segunda Guerra Mundial, e o refrão encerra a letra, concluindo com um virtuoso solo de Licks.

A obra construída por Gessinger é uma homenagem baseada no livro homônimo do escritor conterrâneo Moacyr Scliar. Além disso, em vários segmentos o vocalista introduz citações ao livro “As Portas da Percepção”, de Aldous Huxley, fato que gerava uma forte coceira na mídia especializada, que adorava malhar as letras de Humberto, principalmente a de “Exército de Um Homem Só Parte I”. Enfocando sempre o livro de Scliar, é tão clara, mas tão clara, que poucos se dão de conta do que é, pois trata-se de um assunto bem polêmico, o qual inclusive prefiro não citar para não comprometer nosso blog. Apenas para deixar uma pulga atrás da orelha: quem seriam as pessoas (ou povo) a fazer parte de um exército de um homem só, no difícil exercício de viver em paz, sem fronteiras, sem bandeiras para defender? Pensem nisso, e claro, quem leu o livro de Scliar facilmente responderá essa pergunta. 

A versão brazuca do clássico italiano “C’era un Ragazzo Che Come me Amava i Beatles e i Rolling Stones”, de Franco Migliacci e Mauro Lusini, aparece na forma de “Era Um Garoto Que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones”. Aproveitando-se da versão feita pelo grupo Os Incríveis em 1967, a canção surge com seu dedilhado marcante, que muitos jovens aprenderam a tirar no início de seus estudos em violão, além do baixo em um volume de destaque, ajudando a criar mais um clássico da história do Engenheiros. O andamento simples levado pelo midi-pedalboard, com uma letra ainda mais simples, fez dessa faixa um estouro em todo o país, e os “ra-ta-tá” do segmento central foram entoados em muitos lugares Brasil afora. 
Porém, o principal momento é o solo de Licks. Depois de uma pequena citação a canções dos Rolling Stones e dos Beatles (“Under My Thumb” e “Here Comes the Sun” respectivamente), e mais uma levada de “ra-ta-tás”, Licks inventa uma nova versão para o hino da independência, com a melodia de “ou ficar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil” concluindo seu belo solo e mostrando, principalmente para aqueles que o criticavam, seu talento no instrumento. Esse clássico conclui com mais uma sequência de “ra-ta-tás”, destacando a presença do sintetizador ao fundo do acompanhamento cavalgante de baixo, guitarra e bateria. Simples, mas clássico. 
As letras do lado A no encarte de O Papa É Pop

“Exército de Um Homem Só II” surge com um andamento marcial e uma pequena modificação na letra da parte I da música, mantendo somente o ritmo de seu refrão, levando para “Nunca + Poder”, na qual um dedilhado de guitarra com alguns efeitos apresenta Gessinger em mais uma canção bem oitentista, principalmente em relação ao rock gaúcho da época, destacando a letra. Sua quadradice talvez seja análoga à quadradice que a letra sugere (“todo mundo é moderno, todo mundo é eterno como um relógio antigo”). Comparada à complexidade das canções anteriores (nem tão complexas perto do que aparecerá no lado pop do disco), ela acaba passando despercebida. Atenção ao curto tema final feito por baixo e guitarra, cujas notas são exatamente as mesmas utilizadas na introdução da próxima canção, a clássica “Pra Ser Sincero”. 
O tema introdutório no piano elétrico Rhodes (o mesmo que finaliza “Nunca + Poder”, com o qual muito marmanjo adorava se exibir quando aprendia a tocar no violão) traz a emocionante interpretação de Gessinger em uma daquelas músicas que retratam um momento pelo qual muitos adolescentes (e adultos) já passaram, que é a separação de um amor impossível. Os teclados e o piano levam à primeira parte dessa bonita balada, com efeitos de suspiros e o acender de fósforos. O refrão ganha efeitos sintetizados na bateria e no midi-pedalboard, tornando a faixa mais tensa, a despedida dos agora amigos, seu maior destaque, encerrando com o assovio de Gessinger imitando o tema introdutório. 
O piano elétrico também abre “Olhos Iguais aos Seus”, que por momentos lembra canções do Supertramp na fase Roger Hodgson (parece que a qualquer momento ouviremos a fina voz do vocalista ao fundo), principalmente no refrão, no qual os sintetizadores ganham destaque. Trata-se da responsável por encerrar o lado A, ou melhor, o lado papa do disco, com um curto e interessante solo de Licks, em uma boa canção, na qual grudam as frases “o que faz as pessoas parecerem tão iguais, o que fazem as pessoas para serem tão iguais” no cérebro. 
Gessinger, Maltz e Licks: a melhor formação do Engenheiros do Hawaii

O lado pop abre com a faixa-título, outro clássico do Engenheiros do Hawaii, cheia de guitarras sintetizadas e com destaque para o baixo. “O Papa É Pop” foi concebida para ser sucesso, e tentar descrever suas variações é inútil. Uma espécie de mistura de Paralamas do Sucesso com Legião Urbana e Blitz, além das distorções de Licks e os vocais gospel retirados do maior sucesso do ano anterior, “Like a Prayer” (Madonna), representam uma união de ritmos que resulta em uma música dançante, fácil e com um refrão que pegou nas rádios. “O Papa É Pop” era cantada desde por crianças de cinco anos até a idosos de 60, fato que rendeu ao trio as capas das principais revistas de rock (e também de fofocas) em 1990. Era o auge do sucesso, e é impossível negar que a composição merece seus méritos, além do solo de Licks ser muito bom, apesar da simplicidade. 

Além disso, a crítica feita por Gessinger através da letra auxiliava ainda mais a revolução do rock nacional contra a mídia no final dos anos 80. Afinal, se era vergonha tocar no Viva a Noite do Gugu ou aparecer no programa do Chacrinha (isso apenas para citar alguns programas de TV nos quais os artistas brasileiros faziam playback), por outro lado, isso significava uma valorização do rock nacional, tornando os grupos populares na grande mídia.
O baixo abre a bonita e épica “A Violência Travestida Faz seu Trottoir”, a primeira das duas longas canções do LP, destacando justamente a performance de Gessinger no instrumento. Com exceção do ritmo sempre quadrado de Maltz, o resto da faixa é quase perfeita. A letra é cantada sobre seu baixo cavalgante e o dedilhado hipnotizante de Licks, que coloca solos de guitarra entre as estrofes vocais, entoadas sempre sobre o mesmo ritmo.
A música transforma-se quando chega aos três minutos e dez segundos, com uma série de variações instrumentais levando ao maideniano solo de guitarra, feito em uma escala de terça menor, para então voltar ao refrão, que entoa o nome da canção com força. Mais adiante, o baixo puxa um funkzão dançante, no qual Gessinger e Patricia Marx (eterna ex-Trem da Alegria) alternam-se nos microfones, enquanto Licks delira na guitarra, além dos teclados marcarem presença ao fundo, voltando para um momento apenas com baixo e vocais, para que Patrícia encerre essa ótima (mas não a melhor) faixa entoando seu nome. 

As letras do lado B no encarte de O Papa é Pop

Gessinger, Licks e Maltz economizaram seus talentos para a excepcional “Anoiteceu em Porto Alegre”, um épico de mais de oito minutos que retrata os acontecimentos rotineiros em uma madrugada na capital gaúcha. A melhor canção da história do Engenheiros do Hawaii, e uma das melhores do rock gaúcho, narra a história de um andarilho que acompanha o anoitecer, a madrugada e o amanhecer em um determinado dia em Porto Alegre. Ela começa com o baixo de Gessinger executando o tema inicial acompanhado por acordes de violão. Em um ritmo cavalgante e com uma guitarra suingada, Maltz executa um acompanhamento simples, tendo ao fundo a guitarra distorcida de Licks. Repleta de variações e inserções de gravações de rádio, a faixa flui sobre o ritmo cavalgante do baixo, discutindo primeiramente o anoitecer em Porto Alegre. Esses fatos são representados nas quatro estrofes iniciais, até que um rápido tema de guitarra e baixo levam para os acontecimentos da madrugada: “Aconteceu à meia-noite, aconteceu em Porto Alegre, aconteceu a noite inteira, aconteceu em Porto Alegre”

A canção então muda completamente: baixo e guitarra executam um novo tema, enquanto ao fundo ouvimos a inserção da voz do radialista Pedro Ernesto Denardin (da Rádio Gaúcha) enaltecendo a conquista da Taça Libertadores da América pelo Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, em 1983. Com um ritmo mais dançante, intercalado pelos acordes de guitarra, Gessinger conta os fatos que acontecem de hora em hora na madrugada, até as cinco da manhã, o que leva a outra mudança de ritmo. 
Depois de mais uma sequência marcada de baixo e guitarra, Maltz resolve brincar um pouco na bateria, executando variações sintetizadas, enquanto o personagem que passou a madrugada nas ruas de Porto Alegre decide retornar para casa, com um ritmo tenso ao fundo, trazendo os estragos da noite, enquanto ouvimos mais inserções, agora de um pregador evangélico da Igreja Universal, que surgia com força no Brasil no início da década de 90. Após isso, a faixa muda novamente, trazendo mais inserções de Pedro Ernesto Denardim enaltecendo então o título do Grêmio na Taça Intercontinental de Futebol, também em 1983. Aos colorados, além da indignação pelo fato da canção destacar um título do Grêmio, existe a amarga citação à triste ardência nos fins de tarde na beira do rio, ou, mais precisamente, no estádio Beira Rio, do Sport Club Internacional, em uma derrota em um GreNal, através do verso “arde em fim de tarde de luz vermelha, de dor vermelha, vermelho anil” (lembrando mais uma vez que Gessinger é um gremista doente).

Gessinger canta os últimos versos, para então, sobre o ritmo inicial, nos contar que “amanheceu em Porto Alegre” às seis horas e quinze minutos, relatando os fatos da manhã, como comprar o jornal Zero Hora, citações a “Time” (Pink Floyd) e “Here Comes the Sun” (The Beatles), registros marcantes no cenário de bairros porto-alegrenses como Cidade Baixa e Bom Fim nos anos 70 e 80. Perfeição, apesar do gremismo exarcebado de Gessinger! 

O álbum encerra-se com mais uma faixa oitentista, batizada de “Ilusão de Ótica”, cujo título é uma paródia e um aprendizado, pois a ilusão de “ótica” refere-se a uma ilusão auditiva (ótica sem “p” trata de algo relacionado aos ouvidos, enquanto óptica, com “p”, trata sobre assuntos oculares). Por ser curta, e também por vir depois de dois épicos, quase passa despercebida, não fosse pelo blueseiro solo de Licks e pelas marcações pesadas do guitarrista, que em companhia de Gessinger, era responsável por transmitir aos fãs as ideias malucas que brotavam na cabeça do baixista e vocalista.

Em “Ilusão de Ótica”, o trio escondeu algumas mensagens. Quando o vinil é rodado ao contrário, no trecho da letra na qual escutamos: “Por que você roda assim? Eu não gosto que rode assim”, ouvia-se: “Por que é que cê tá ouvindo isto ao contrário? O que é que cê tá procurando? Hein?”. Em outra passagem, na qual Gessinger entoa frases sem sentido, fica clara a audição de “mal entendido, bem intencionado, mal informado, bem aventurado, Jesus salva, salve as baleias, leia livros, safe sex, relax, o papa é pop, o país é pobre, o PIB é pouco, poesia é um porre, o futebol brasileiro são várias camisetas com a mesma propaganda de refrigerantes, a juventude brasileira, sem bandeiras, sem fronteiras pra defender”; uma forma de protesto contra a revista Bizz, que era a principal detratora do trabalho do grupo. 

A versão em CD ainda conta com “Perfeita Simetria”, que utiliza-se da melodia de “O Papa É Pop” para contar uma historia bem diferente da faixa-título. Honestamente, não fez falta na versão em LP. 
Engenheiros do Hawaii na capa das revistas Bizz (acima) e Veja (abaixo)


O Papa É Pop acabou tornando-se um marco na carreira do Engenheiros do Hawaii. O objetivo de se tornar a maior banda do país foi atingido. Não demorou para que as principais revistas estampassem a imagem de Licks, Gessinger e Maltz em suas capas, com destaque para a aparição surpreendente na Bizz, já que os leitores haviam eleito a banda a melhor do ano de 1990, e na versão gaúcha da revista Veja, na qual uma matéria de cinco páginas tratava o grupo como deuses.
O disco vendeu quase 500 mil cópias em menos de um ano, um grande marco para a época. Além disso, virou um divisor de águas na carreira do grupo. Se com os três álbuns anteriores o Engenheiros do Hawaii apenas tinha conquistado seu espaço, agora eles eram os maiores, e para manterem-se no topo, muito trabalho precisava ser feito. Os dois álbuns subsequentes, Várias Variáveis (1991) e Gessinger, Licks & Maltz (1992), ampliaram o horizonte de experimentações de O Papa É Pop, e finalmente Gessinger podia brincar de Geddy Lee, tocando baixo, teclado e cantando ao mesmo tempo, porém, sem tanta criatividade. Além disso, as brigas fizeram com que Licks saísse do grupo em 1993, logo após a turnê de Gessinger, Licks & Maltz, que resultou no disco Filmes de Guerra, Canções de Amor (1993), imitando mais uma vez o Rush, ao lançar um álbum ao vivo para cada três de estúdio (os canadenses fizeram algo parecido, lançando um disco ao vivo para cada quatro de estúdio).
GLM, uma das últimas fotos do trio

Não sou fã do Engenheiros do Hawaii, só que, em se tratando de O Papa É Pop, o bicho pega. Um grande disco sem sombra de dúvidas, com Licks e Gessinger em ótima forma, e com as melhores canções da carreira dos gaúchos, que depois da saída de Licks, nunca mais foram os mesmos, perambulando pelo país mais pela vontade de Gessinger do que pelo desejo dos fãs, que sempre viram (e com razão) a fase GLM como a melhor do grupo, na qual o pecado da COBIÇA, apesar de tê-los levado ao objetivo principal, acabou destruindo uma carreira sensacional. 

Próximo pecado: A AVAREZA



23 Comentarios

  1. Eu estava no hollywood rock e posso gatantir que eles foram vaiados e muito durante o show…. Inclusive pela arrogância do vocalista…. O capital fez um show muito melhor e levantou a galera…. Abraço Daniel…

  2. Interessante Daniel. Isso foi no show de São Paulo?

  3. Gabriel Menezes disse:

    A banda foi vaiada ("ovoacionada" como disse o Maltz) no Hollywood Rock de 93, na mesma noite do Nirvana. O mesmo Maltz disse que, após o sucesso no início da década, a banda tava "se achando" e as vaias serviram para o pessoal pôs os pés no chão.

  4. Ai sim Gabriel, fecha com o que eu conhecia da história do Engenheiros. Na real eu creio que desde o início o Gessinger "se achava", mas quando conseguiu conquistar espaço, a coisa se elevou a patamares altíssimos. Até hj creio que o cara ainda "se acha" o Rei.

    Valeu pela colaboração.

  5. Marco Gaspari disse:

    Banda chata demais.
    O Engenheiros é realmente um pecado.

  6. Gabriel Menezes disse:

    É questão de gosto, Marco. Apesar da arrogância que muitos mencionam, o Humberto é um grande letrista. E isso é inegável. Concordo que as letras muitas vezes "carregam" o resto da banda, mas também existem momentos musicalmente destacados. O Licks é um ótimo guitarrista e demosntrou isso nos álbuns que gravou com os Engenheiros. O próprio Gessinger fez linhas de baixo ótimas.

  7. Concordo contigo Gabriel. O licks é um bom guitarrista, e o Gessinger quando queria, tocava muito bem.

    Em homenagem ao Marco, coloquei para ouvir uma das bandas que influenciava o Engenheiros: Supertramp

  8. Marco Gaspari disse:

    Não liguem pra mim, tô ficando um velho ranzinza. Como penitência vou ouvir um single do Dream Theater de 43 minutos.

  9. Marco, isso é uma penitência desleal. Nem o Portnoy aguenta 43 minutos da música dele. Ouve uma coisinha acústica como penitência, algo tipo Slayer ou Megadeth …

  10. Marco Gaspari disse:

    Troco então pela versão extended play de Infinita Highway.

  11. Essa é uma boa penitência, hauhauah

  12. Marco Gaspari disse:

    Um dos problemas da engenharia no Brasil é a falta de capacitação profissional: desaba viadutos, piora o tráfego, implode errado e derruba canções de pop/rock. Pronto, falei!

  13. Sou fã assumido de Engenheiros – sim, assumido – e digo mais: entre meus álbuns favoritos situam-se o Simples de Coração, o Tchau Radar e o Dançando no Campo Minado. Tenho aversão a certas coisas nas letras da banda, como o uso excessivo de figuras de linguagem, brincadeiras com as palavras, trocadilhos e também alguns filosofismos e citações forçadas. Tenho tambem aversão a certas coisas nas músicas, como o desejo incontido de ser prog sem a capacidade pra tal, o que torna o som forçado muitas vezes. Legal que essas características que eu não gosto aparecem principalmente nessa fase considerada a melhor da banda: O Papa É Pop, Várias Variáveis e GLM. Gosto desses discos, principalmente desse último, mas os dois melhores discos da banda são, sem dúvida alguma, o Filmes de Guerra, Canções de Amor e o Simples de Coração. São discos onde pouco ou nada soa forçado, a carga emotiva é absurda de boa e a banda realiza tudo o que se propõe. Sem querer ofender, mas já ofendendo, quem diz que a banda só vale a pena até o GLM não ouviu o Simples de Coração, ou ouviu com o fone enfiado nem vou dizer onde. keke Desculpem, não quero ser rude. Mas sugiro que os "saudosistas" em matéria de Engenheiros dêem uma chance real PELO MENOS ao Simples de Coração, se não quiserem também ouvir melhor os ótimos Tchau Radar e Dançando no Campo Minado.
    Destaques: "A Perigo", "Lance de Dados", "A Promessa", "Ilex Paraguariensis", "10.000 Destinos" e "Na Real". O Dançando só deve ser ouvido por corajosos que ousem procurar arte no emocore. keke

  14. Leonardo disse:

    A sua resenha ficou muito boa. Tão boa que vou te ajudar a corrigir uns erros. Mas antes, queria dizer uma coisa: Os verdadeiros Engenheiros do Hawaíi duraram até 1995. Depois disso é Humberto Gessinger Solo!
    Bom, os seus erros estão nas citações: "eu disse que acreditassem, eu pedi que acreditassem, eu nunca deixei de acreditar que o Grêmio ía ser Campeão da América, hoje, esta noite em POA" e "o Grêmio vai ser campeão do mundo, o Rio Grande do Sul e o Brasil vão viver uma madrugada que não terminará antes do sol nascer" são de Armindo Antônio Ranzolin, não do Pedro Ernesto Denardin. A primeira foi ao ar através da Rádio Guaíba, depois do terceiro gol do o jogo Grêmio 2×1 Peñarol (Uruguai) ao vivo. A segunda citação é da RBSTV, afiliada Rede Globo no Rio Grande do Sul, durante a transmissão, ao vivo, da partida em que o Grêmio venceu o Hamburgo da Alemanha (2×1) e conquistou o título mundial.

    []´s
    Leonardo Lima/RS
    http://www.ufrgs.br

  15. Obrigado pelas correções Leonardo, e volte sempre. Espero que curta nosso blog. E concordo com você, os verdadeiros Engenheiros duraram até 1995. Abraço!

  16. Fellipe disse:

    Ótima resenha! Até achei que você fosse fã… rs É um disco excelente, e as duas faixas longas e não convencionais (talvez inéditas no pop/rock nacional até então) são minhas preferidas nesse disco.

  17. maironmachado disse:

    Obrigado Felipe. Acompanhe-nos agora no site consultoriadorock.com

    Abraços

  18. Alexandre Nascimento disse:

    Eu cresci ouvindo este disco, na verdade, era uma fita cassete! Ao ouvir logo de cara “Na escuridão / a luz vermelha do Walkman” o tempo me bate na cara.
    Embora eu evite sempre limitar uma banda a formação x ou y, eu curto EngHaw até este disco.
    Bela resenha!

    A introdução de baixo da “violência travestida…” é surrealmente linda!

  19. Eudes Baima disse:

    Mais um texto brilhante do Mairon que o homenageado não merece. Engenheiros só como muito nativismo gaúcho mesmo…

  20. Eudes Baima disse:

    Na minha opinião, Humberto Gessinger, como letrista, é uma espécie de Djavan do rock gaúcho.

  21. andré disse:

    Foda se quem não gosta Humberto é foda e segue firme onde muita gente se perdeu , o cara é um poeta 30 anos depois o cara tá aí , cada vez melhor

  22. Mauro Reis disse:

    Prezados, parabéns pelo site, excelente fonte de informações musicais.

    Uma dúvida/correção: No início do texto, afirma-se que “em outubro de 1989, a banda fez uma excursão sem muito sucesso pela antiga União Soviética, a primeira de uma banda brasileira pela terra do então presidente Mikhail Gorbachev”. na verdade, acredito que a primeira banda brasileira a excursionar na URSS foi a Blitz, em 1986, não?

    Abraço e mais uma vez parabéns pelo site.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *