I Wanna Go Back: Survivor – Vital Signs [1984]

14 de março, 2012 | por Diogo Bizotto
Por Diogo Bizotto
Ausente desde agosto do ano passado, a coluna “I Wanna Go Back” volta a dar as caras na Consultoria do Rock com sua antiga assiduidade. Quinzenalmente, trarei exemplos de bons álbuns para aqueles que gostam de se aventurar pelos melódicos caminhos do AOR e de seus congêneres, ora pendendo para o lado mais pop do estilo, ora flertando com sonoridades mais pesadas e complexas, abordando clássicos do gênero, saudáveis novidades e uma série de discos pouco lembrados.

Quando dei início à seção, optei por abrir os trabalhos com um grupo que considero um legítimo representante do AOR em sua mais perfeita definição, o Survivor. O álbum escolhido para dar cabo a essa tarefa foi o popular Eye of the Tiger, cuja faixa-título fez sucesso nos quatro cantos do mundo e tornou-se, em especial, sinônimo de eventos esportivos. Apesar de ser indiscutivelmente o disco mais popular do grupo em se tratando do público em geral, quando falamos dos verdadeiros fãs da banda e do estilo, existe outro registro do Survivor que rivaliza em termos de qualidade e admiração: Vital Signs.

De diferente da formação que registrou Eye of the Tiger, houve a entrada do vocalista Jimi Jamison (ex-Cobra), dotado de grande alcance e técnica apurada, rivalizando facilmente (se não superando) com o antecessor Dave Bickler, conquistando os antigos fãs quase instantaneamente, ajudado pela aura de inspiração que pairava sobre o guitarrista Frank Sullivan e o tecladista Jim Peterik, responsáveis, em conjunto, por todas as composições presentes em Vital Signs.

O disco anterior, Caught in the Game (1983), havia representado uma queda tanto de qualidade quanto de popularidade. A posição de número 82, alcançada pelo álbum na parada da Billboard, havia sido baixa, especialmente se comparada ao segundo posto conquistado por Eye of the Tiger um ano antes, além do fato de que o single para a faixa-título havia não apenas escalado o topo das listas ao redor do mundo, como a música estava sendo apropriada pela cultura popular. O direcionamento mais direto e rocker de Caught in the Game denunciou que o território no qual Sullivan e Peterik realmente se davam bem era a composição de músicas carregadas de melodias viciantes, aplicando ao rock sua capacidade como escritores de boas canções pop, ajudando a moldar cada vez mais aquilo que passou a ser conhecido como AOR.

Survivor em 1984: Stephan Ellis, Marc Droubay, Jimi Jamison, Frank Sullivan e Jim Peterik

O esforço do grupo em capturar novamente sua essência obteve boa resposta do público. Apesar de não ter galgado posições tão elevadas quanto na época de Eye of the Tiger, Vital Signs alcançou o décima quarto posto na parada de álbuns da Billboard, enquanto “I Can’t Hold Back” (13º), “High on You” (8º) e “The Search Is Over” (4º) fizeram bonito entre os singles. Mais do que isso, a banda provou que uma troca de vocalistas, mudança que poderia alterar drasticamente a maneira como o quinteto soava, não comprometeu de maneira alguma seu estilo. Na verdade, o que ocorreu foi justamente o contrário: a adição de Jamison ampliou a paleta de sonoridades que poderiam ser exploradas, além de representar uma evolução ao vivo, já que o novo cantor era capaz de administrar com segurança e habilidade o material registrado por Bickler. Duvida? Então confira a performance do grupo em “I’m Not That Man Anymore”, original de Eye of the Tiger.

Do dedilhado que abre “I Can’t Hold Back” até o solo de guitarra que fecha a apoteótica “I See You in Everyone”, Vital Signs prima por uma perfeição poucas vezes igualada em se tratando de AOR (para muitos nunca superada), denotando o grau de dedicação expresso pelo Survivor e pelo produtor Ron Nevsion, que ajudou a extrair uma sonoridade equilibrada, na qual o baixo de Stephan Ellis e a bateria de Marc Droubay preocupam-se quase exclusivamente em fornecer a espinha dorsal para que a guitarra de Sullivan e os teclados de Peterik despejem uma profusão de riffs, licks e diversas intervenções que dão cara às canções e delineiam suas melodias, que é aquilo que o Survivor melhor sabe criar.

“I Can’t Hold Back” apresenta o novo vocalista e sua capacidade de variar entre um canto quase sussurrado, que aumenta de intensidade aos poucos, até a explosão em um refrão pronto para conquistar novamente aqueles fãs que haviam se decepcionado com Caught in the Game. O equilíbrio entre os dedilhados de Sullivan e as intervenções do teclado dão a tônica da faixa, que recebeu um videoclipe interessante (para a época, é claro). A importância de Jim Peterik para a banda fica mais evidente em “High on You”, que abre com um riff que brota de seus teclados, conduzindo a música enquanto a banda executa uma base simples mas eficiente, pontuada por alguns licks e curtos solos de Sullivan e guiada pelas melodias vocais que tem tudo para agradar a diversos tipos de ouvintes.

Após a falsa impressão de que se trataria de uma balada, “First Night” surpreende e engata a quinta marcha, fluindo com facilidade sobre a base executada por baixo e bateria tal qual um automóvel esportivo em uma estrada de asfalto perfeito, destacando também a capacidade de Frank Sullivan em criar bons riffs de guitarra. A primeira balada “formal” dá as caras através de “The Search Is Over”, na qual Jimi Jamison apresenta sua elevada capacidade em interpretar músicas do gênero. Hoje em dia ela pode soar demasiadamente brega, mas certamente ainda constitui um ponto alto do set do grupo ao vivo.

Imagem da contracapa de Vital Signs

Mesmo que de leve, o rock volta a dar as caras com “Broken Promises”, de andamento mais quadrado, e em “Popular Girl”, que traz Sullivan executando uma ótima base que complementa as linhas vocais de Jamison. É o guitarrista que, com um solo rasgado, abre “Everlasting”, uma balada de menor destaque, mas que não deve muito em relação a “The Search Is Over”.

Apesar das primeiras sete faixas já constituirem material suficiente para colocar Vital Signs no rol das grandes obras do gênero, as duas últimas canções trazem o toque especial que faz com que o disco se destaque entre os tantos lançamentos da época de ouro do AOR. A alegre “It’s the Singer Not the Song” apresenta a capacidade da dupla de compositores não apenas em criar excelentes melodias, mas em cunhar uma letra que se encaixa com perfeição e ressalta ainda mais a capacidade que as músicas têm em se fixar na mente dos ouvintes. Destaque também para a performance solo de Frank Sullivan, que revela bom gosto tanto na execução quanto na timbragem.

Como citei mais acima, “I See You in Everyone” é apoteótica. Não bastasse ser a melhor canção do disco, trata-se, ao menos para mim, do melhor registro do Survivor em toda sua carreira, equilibrando uma grande performance de todo o grupo: vocais, solo de guitarra, backing vocals, viradas precisas, teclados na medida certa… Tudo funciona à perfeição, especialmente ao vivo, quando constituía uma ótima oportunidade para mostrar que o quinteto era muito mais do que um bando de perfeccionistas de estúdio, mas uma união de músicos de qualidade que sabia muito bem o que fazer sobre um palco.

O que mais merece ser reforçado graças a Vital Signs é que o Survivor provou não ser uma banda de apenas um hit, mostrando, do início ao fim de um álbum completo, que tinha cacife para se firmar entre os grandes grupos do gênero, como Journey, Foreigner e Styx, que já haviam conquistado o topo e navegado nas ondas de extraordinário sucesso até então. Não à toa, Jim Peterik passou a ser cada vez mais um compositor requisitado, escrevendo canções para os mais variados artistas, da música pop ao heavy metal. Entre idas, vindas e mudanças de formação, a carreira da banda prossegue, hoje em dia com Jimi Jamison de volta, ao lado de Frank Sullivan e Marc Droubay. Resta-nos aguardar um novo álbum, sucessor de Reach (2006), e, se possível, contar com uma “mãozinha” de Jim Peterik!

Track list:

1. I Can’t Hold Back
2. High on You
3. First Night
4. The Search Is Over
5. Broken Promises
6. Popular Girl
7. Everlasting
8. It’s the Singer Not the Song
9. I See You in Everyone



1 Comentario

  1. Muito bom ver o I Wanna Go Back de volta, ainda mais com este grande disco do Survivor, que concordo plenamente, é tão bom ou melhor que Eye of Tiger.

    Valeu Diogo, e que mais bandas AOR deem as caras aqui no blog

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *