Por Micael Machado

Certas turnês que ocorrem apenas no hemisfério norte do planeta nos deixam babando de inveja do público americano e europeu, que tem acesso a shows com os quais nós brasileiros podemos apenas sonhar, pois tais excursões não chegam sequer a ser cogitadas para vir ao nosso país.
Uma delas foi a que percorreu os EUA e o Canadá em 33 datas entre 19 de setembro e 29 de outubro de 2011, chamada “2 of a Perfect Trio Tour”, colocando em um mesmo espetáculo o Stick Men Trio e o Adrian Belew Power Trio, cada um apresentando seu próprio set, e depois unindo-se para uma celebração à música do King Crimson.
Uma amostra do que foram esses shows pode ser encontrada no bootleg 2 of a Perfect Trio Tour – Pennsylvania, USA, September 23, 2011. Não é comum tratarmos de bootlegs aqui na Consultoria do Rock, até porque este tipo de disco (ou vídeo, ou seja lá a mídia que for) você encontra muitas vezes por acaso, paga em outras pequenas fortunas, e guarda em sua coleção como uma verdadeira jóia rara, algo que valoriza seu acervo musical. Mas, ouvindo o disco, não dá para não imaginar como seria estar presente a tal espetáculo!
Tony Levin
Markus Reuter
Pat Mastelotto
O show começou com o Stick Men Trio tocando suas composições autorais, em uma apresentação bem mais curta do que a que foi apresentada em Porto Alegre no começo deste ano. Formado pelo baixista (na falta de uma palavra melhor que defina este ser monstruoso quando o assunto são as sonoridades graves dentro uma música) Tony Levin, pelo percussionista Pat Mastelotto (ambos também do King Crimson) e o guitarrista (também na falta de uma definição melhor… afinal, stick player é algo que nem todos saberão do que se trata) Markus Reuter, o trio interpreta apenas quatro canções próprias, além de “Breathless” (original de Robert Fripp, o “chefão” do Rei Escarlate) e trechos de “Firebird Suite” (de Stravinsky, e que por anos foi a vinheta de abertura dos concertos do Yes).

Para quem já está familiarizado com a sonoridade do grupo, fica um gostinho de “quero mais”, pois não é todo dia que encontramos músicos de tamanho talento tocando juntos composições tão intrincadas, interessantes e diferentes daquilo que ouvimos no dia a dia, mesmo dentro do progressivo. Para quem não os conhece, trata-se de uma música cuja sonoridade lembra muito a fase do King Crimson do álbum Thrak (1995) para cá, ou seja, depois da volta do grupo ocorrida nos anos 90. Nesse show, a parte que lhes coube durou apenas quarenta e oito minutos, mas é muito apreciável. (Em outros concertos, como o ocorrido em Buffalo, a banda tocou músicas diferentes, tornando-os também  interessantes).

Adrian Belew

Julie Slick
Tobias Ralph

Então entra em cena o Adrian Belew Power Trio. Liderado pelo guitarrista e vocalista (também do King Crimson) que dá nome ao grupo, o trio é completado pela baixista Julie Slick, que mostra enorme habilidade no instrumento, e o baterista Tobias Ralph. O baterista original era o irmão de Julie, Eric Slick, mas, nessa tour, coube a Ralph substituí-lo. A sonoridade do grupo também lembra a fase mais recente do Rei Escarlate, com Julie sendo um enorme destaque ao executar linhas de baixo bastante complicadas, como um legítimo Tony Levin de saias, sendo que Belew, sem o suporte de Fripp, acaba alucinando ainda mais na guitarra, mostrando que, se nunca foi um exemplo de vocalista, é um exímio guitarrista, muitas vezes subestimado.

Adrian Belew e Tony Levin

O lado pop de Belew, que frequentemente diz “presente” na música do King Crimson, especialmente aquela dos anos 80, também aparece aqui, principalmente nas canções em que ele canta, como “Young Lions” e “Of Bow and Drums”. Os destaques são a recriação de “Neurotica” (um doce para quem adivinhar de qual banda), com alguns arranjos diferentes em relação à original, para a loucura instrumental de “A Little Madness” (onde cada músico parece estar tocando uma parte diferente, mas com a sonoridade sendo excelente quando unidas) e a longa “Beat Box Guitar”, onde todos brilham, sem exceção.

Julie e Ralph deixam o palco e temos a volta de Levin e Mastelotto, com metade da formação “Double Trio” do King Crimson então reunida para iniciar uma celebração à música da banda, identificada na contracapa do CD como “Crim-centric Encore”, executando assim duas músicas, “Three of a Perfect Pair” e “Elephant Talk”. Markus Reuter se une ao trio para uma emocionante execução de “Red”, anunciada com toda a razão por Belew como “um clássico”. Com Reuter e Mastelotto ganhando a presença de Ralph no palco, é executada a percussiva “B’Boom” (sem a participação de Levin e Belew). Ao final dela, é emendada “Thrak”, como nos tempos da tour de divulgação do álbum de mesmo nome, com os seis músicos ao mesmo tempo no palco. Este novo Double Trio executa então mais quatro músicas do Rei Escarlate, encerrando com a magistral “Thela Hun Ginjeet” no encore.
Contracapa do disco

Deve ter sido uma grande noite para aqueles presentes ao Colonial Theatre de Phoenixville naquela noite, assim como para os muitos que puderam acompanhar essa turnê, a qual, como sempre, só será conhecida por nós através de lançamentos como esse, cuja divertida capa é a reprodução do pôster oficial da excursão.

Que pena que seja assim!

Track list:

Disco 1:
1. Stick Men – Smudge
2. Stick Men – Soup
3. Stick Men – Slow Glide
4. Stick Men – Breathless
5. Stick Men – Relentless
6. Stick Men – Firebird Suite
7. Adrian Belew Power Trio – Young Lions
8. Adrian Belew Power Trio – Beat Box Guitar
9. Adrian Belew Power Trio – Neurotica
10. Adrian Belew Power Trio – A Little Madness
Disco 2:
1. Adrian Belew Power Trio – Of Bow and Drums
2. Adrian Belew Power Trio – E
3. Belew, Levin, Mastelotto – Three of a Perfect Pair
4. Belew, Levin, Mastelotto – Elephant Talk
5. Belew, Levin, Mastelotto, Reuter – Red
6. Mastelotto, Ralph, Reuter – B’Boom
7. Adrian Belew Power Trio & Stick Men – Thrak
8. Adrian Belew Power Trio & Stick Men – Dinosaur
9. Adrian Belew Power Trio & Stick Men – One Time
10. Adrian Belew Power Trio & Stick Men – Frame By Frame
11. Adrian Belew Power Trio & Stick Men – Indiscipline
12. Adrian Belew Power Trio & Stick Men – Thela Hun Ginjeet

Nota: as fotos presentes nesta matéria são do show de Portland, tendo sido cedidas pelo fotógrafo Mark Colman. Thanks, man!

3 comentários

  1. Groucho KCarão

    Muito bacana, e muito triste saber que nunca veremos algo desse nível por aqui. Pra quem curte stick, eu gostaria de indicar os mexicanos do Cabezas de Cera, grupo de herança crimsoniana, mas bem original. Foi no show deles em Fortaleza quando tive a oportunidade única de ficar diante de um stick! Agora diz aí: de quem é essa "Neurotica"?!

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  2. micaelmachado

    KCarão, "Neurotica" é a primeira música do lado B de um disco chamado "Beat"… lembrou de quem é?

    Digamos que você fez a primeira parte da discografia comentada dessa banda e eu fiz a segunda… agora lembrou?

    E digamos que as duas primeiras letras do seu nick são as iniciais da banda… agora ficou fácil, né?

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  3. Groucho KCarão

    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKC

    E eu aqui pensando em altas bandas do A Little Respect, olha só!

    Mas, na boa, eu não devo ser o único progger com esse problema de idolatrar uma banda e desconhecer metade de sua iscografia. Isso é quase regra em se tratando de prog, pelo menos no caso das bandas que atravessaram os anos 80, hehe.

    Mas vou correr atrás do restante da discografia, afinal o KC até que não foi tão mal. E, pow, eu já ouvi até o Genesis oitentista! Pode ser pior?

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