Discografias Comentadas: It’s A Beautiful Day

30 de outubro, 2011 | por Mairon
Discografias Comentadas
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It’s a Beautiful Day: David LaFlamme, Pattie Santos, Mitchell Holman,
Val Fuentes, Hal Wagenet e Linda LaFlamme (1968)

Por Mairon Machado
Fundado em 1967, o grupo californiano It’s a Beautiful Day tornou-se um dos símbolos da segunda geração de grupos de San Francisco. A psicodelia de suas canções, as perfomances endiabradas de seus músicos nos palcos, e a crescente onda lisérgica do verão do amor, foram suficientes para tornar o It’s a Beautiful Day o maior expoente do novo cenário da música de San Francisco no final dos anos 60 e início dos 70, ao lado do Santana e após o estrondoso sucesso de grupos como Moby Grape, Jefferson Airplane e The Doors (considerados da primeira geração).
Porém, o sucesso do grupo não foi o suficiente para mantê-lo na ativa por muito tempo. Em apenas seis anos de vida, o grupo lançou quatro discos de estúdio e um álbum ao vivo, mas alterou momentos de instabilidade, que ocasionaram em diversas mudanças na sua formação, fazendo-o ser mais reconhecido por ser “a banda que gravou o tema original de Child in Time” (gravado pelo Deep Purple no álbum In Rock, de 1970) do que pelos méritos reais que o grupo possui. 
Vamos então a curta mas deliciosa discografia do It’s A Beautiful Day.

It’s a Beautiful Day [1969]
Esse é um dos álbuns mais essenciais do flower-power californiano. Ele está no mesmo patamar de Cheap Thrills (Big Brother & The Holding Company) e Surrealistic Pillow (Jefferson Airplane). Nele, estão os maiores sucessos gravados pelo It’s a Beautiful Day. A canção que abre o LP, “White Bird“, é um marco do rock californiano. O casal David LaFlemme (violinos, voz) e Linda LaFlamme (teclados, voz), além de Pattie Smith (voz), Hal Wagenet (guitarras), Mitchell Holman (baixo, vocais) e Val Fuentes (bateria) criaram uma linda balada, com destaque para as passagens de violino e para as lindas vocalizações da dupla Pattie-David, além do órgão de Linda, que se sobressai na canção seguinte, a épica “Hot Summer Day“, uma espetacular balada latina comandada pelo baixo de Mitchell e pela harmônica de Bruce Steinberg. “Wasted Union Blues” trás a acidez típicamente californiana na guitarra de Hal, em um som que possui um ritmo alucinante. Outra bela canção encerra o lado A, “Girl With No Eyes”, agora com Linda fazendo um belo trabalho no cravo, tendo destaque novamente para o violino de David. O famoso riff que deu origem a “Child in Time” abre o lado B, na imortal “Bombay Calling“. As lindas notas orientais do violino são seguidas pela repetição das mesmas pelo órgão de Linda, de onde Hal surge com um vigoroso e efusivo solo de guitarra,  em uma fantástica faixa instrumental, repleta de duelos entre órgão e violino. “Bulgaria” é a mais intimista das canções, com um andamento soturno e ao mesmo tempo hipnotizante. Para encerrar, um delírio em foma de música, “Time Is”, com uma embalada sessão instrumental de abertura, que lembra músicas tradicionais russas, e com Linda se revelando uma espetacular tecladista. Admiradores de Jon Lord, ouçam e constatem por que o It’s A Beautiful Day era fonte de inspiração para o Purple. A canção encerra-se em um delirante free-jazz, com muita percussão e psicodelia, que fecha com chave de ouro o melhor álbum do grupo, e um dos melhores da história da Califórnia. A capa de It’s A Beautiful Day foi feita por George Hunter e pintada por Kent Holliseter, e foi eleita a vigésima quarta capa mais bonita de todos os tempos pela revista Rolling Stone.
Marrying Maiden [1970]
Os LaFlamme acabaram separando-se, e para o lugar de Linda, Fred Webb foi o contratado. Depois de um período conturbado, o grupo contou com a ajuda de Jerry Garcia (líder do Grateful Dead) e assim, gravou outro belo álbum. Marrying Maiden não tem a potência do álbum de estreia do grupo, mas destaca canções de muito bom gosto, e principalmente, revela outro talentoso tecladista, agora Webb. Jerry foi o responsável por tornar o som do grupo mais próximo do Southern Rock, e também sugeriu “a vingança” do It’s a Beautiful Day para o plágio que o Deep Purple havia feito com “Bombay Calling”. Logo na abertura do LP, a fantástica instrumental “Don and Dewey” provoca os britânicos, chupando sem-vergonha o riff da canção “Wring That Neck”, registrada no álbum do Deep Purple Book Of Taliesyn (1968). Um jazz rock fenomenal, mas que destoa bastante do resto do LP, o qual é mais leve, entre o Southern e o country, como pode ser comprovado na canção seguinte, a bonita “The Dolphins”. “Essence of Now” lembra The Mamas & The Papas, com as bonitas vocalizações de Pattie e David. Outra instrumental, “Hoedown”, é um country rock efervescente, com David solando de forma rápida e dançante, passando então para um solo de banjo feito por Jerry Garcia, que também é responsável pelo hilário solo de pedal steel guitar que vem na sequência.  A interessante “Soapstone Mountain” encerra o lado A, em uma suave canção, na linha de “Essence of Now”, com um refrão grudento e com Hal tocando de forma sublime. É nessa canção que a lisérgica guitarra de Hal dá as caras. “Waiting For The Sun” é uma rápida viajem lisérgica com vozes e um french-horn criando uma sonoridade muito estranha, seguida pela melosa “Let A Woman Flow“, um jazz suave, quase bossa-nova, com trechos cantados em espanhol. O jazz é retomado em “It Comes Right Down To You”, onde Jerry Garcia novamente participa com o pedal steel guitar e banjo, destacando nessa canção o clarinete de Richard Olsen. “Good Lovin'”, com um refrão grudentíssimo, resgata os ácidos acordes do primeiro álbum do grupo. A linda “Galileo”, com barulhos de vento e um dedilhado da guitarra seguidos por flautas, e a triste “Do You Remember The Sun”, que conta com um refrão marcante, encerram esse bom LP, que apesar de estar longe do LP de estreia, é uma ótima sequência para a carreira do grupo. A capa de Marrying Maiden é tão bonita quanto a de seu antecessor. Tendo o nome de A Joint Venture, a pintura foi construída por James William Redo III e Roberto Perez-Dias, e só fica relegada a segundo plano justamente pelo fato da capa do LP de estreia ser muito bela. Existe uma segunda capa que também é tão bonita quanto a original, mas que não é muito conhecida dos fãs da banda.
Choice Quality Stuff / Anytime [1971]
Depois de uma série de bem sucedidos shows, onde o grupo foi um dos destaques no Stamping Groung Festival da Holanda, em 1970, e do Festival de Bath, no mesmo ano, o grupo passa por uma nova reformulação, com Tom Fowler (baixo) e Bill Gregory (guitarra) substituindo Mitchell e Hal respectivamente. Porém, o clima entre os membros do grupo já não era o mesmo, principalmente David, que pensava em uma carreira solo, assim, gravam com o clima de fim de festa o chamado Disco do camelo. Dividido em duas partes, esse álbum caracteriza-se justamente de partes bem distintas. Choice Quality Stuff é pesado e bem trabalhado, abrindo com a fantástica “Creed of Love“, a qual possui um dos grandes refrões da carreira do grupo, além de um ótimo duelo entre Bill e David. “Bye Bye Baby” é um agitado blues que traz para o estúdio as improvisações que o grupo fazia ao vivo. “The Grand Camel Suite” mantém o bom nível, em uma ótima faixa instrumental que conta com uma cozinha bem southern rock. “No World For Glad” é próxima do hard setentista, e “Lady Love” é um funk psicodélico que lembra o Experience de Jimi Hendrix. Os membros do Santana Jose Chepito Areas (percussão), Coke Escovedo (percussão), e Gregg Rolie, (teclados) participam da faixa “Words”, uma paulada que não poderia deixar de lembrar as canções do Santana, com os vocais sensuais de Pattie se destacando, além do fantástico solo de Greg, encerrando o lado A com muito peso. Já Anytime é bem mais calmo. “Place Of Dreams” é uma canção sessentista, assim como a bonita instrumental “Oranges & Apples”, que conta com o trompete de Bill Atwood, o qual participa de “Anytime“, uma leve e dançante canção, na linha das canções de Janis Joplin com a Kosmic Blues Band, e que tem o ponto alto no solo de saxofone feito por Atwood. “Bitter Wine” trás de novo o pessoal do Santana, e o embalo é retomado em uma faixa que é cantada por Pattie e David juntos, encerrando o álbum com a ótima “Misery Loves Company”, com um fantástico solo de Bill. A engraçada capa com o camelo andando pelo deserto e se imaginando dirigindo um carrão entre vários parceiros de corcovas, foi feita por George Benett, e chegou a causar alguma polêmica nos EUA por apresentar os testículos do mamífero. O Disco do camelo foi o último a contar com David LaFlamme, que decidiu seguir carreira solo pouco depois do grupo lançar o bom ao vivo at Carnegie Hall (1972), mas não foi o último da discografia.

It’s a Beautiful Day … Today [1973]

Sem David, Patti, Val, Bill e Fred tocaram o barco com Bud Cockrell (baixo) e Greg Bloch (violino). Essa formação gravou o derradeiro álbum do grupo. O som do It’s a Beautiful Day mudou bastante, fugindo totalmente da psicodelia, e criando um espaço mais homogêneo para as vocalizações de Pattie, Bill e Bud, misturando bonitas baladas e canções mais dançantes. “Ain’t That Lovin’ You, Baby” é a canção que abre os trabalhos, com um cadenciado andamento, onde sem dúvida as vocalizações são o maior destaque, assim como o ótimo solo de Bill. “Child” é um triste blues, levado pelo piano e pelas tristes notas da guitarra, onde Pattie mostra todos os seus dotes vocais. “Down on the Bayou” é mais setentista, com um andamento swingado e dançante, tendo um ótimo solo de hammond. “Watching You, Watching Me” é uma canção cuja levada do baixo lembra “Ramble On”, do Led Zeppelin, porém sendo uma canção bem mais leve. O lado A encerra com a linda balada “Mississippi Delta”, levada  por piano, violino e uma emotiva interpretação vocal do grupo, com um clima bem sessentista.  A agitada “Ridin’ Thumb” destaca os vocais sensuais de Pattie Smith, sobre mais uma levada swingada do grupo, abrindo o lado B com bastante ritmo. O piano de “Mississippi Delta” volta a estar presente em outra linda canção, “Time”, um bluesão sensacional onde Fred mostra seu talento com o piano, enquanto “Lie to Me” retoma o andamento sessentista, com bonitas passagens vocais e também do piano. “Burning Low” é uma agitadíssima canção, onde a levada de baixo e piano, acompanhando as vocalizações de Pattie e Bill, dão um tempero pop ao som de … Today, que encerra-se com “Creator”, uma triste canção soul, que deixa a sensação de que o It’s a Beautiful Day podia entrar no novo mundo da música com bastante vigor, e com potencial para continuar na ativa por muitos anos.

Foto clássica na capa interna do primeiro álbum do grupo

Porém, o grupo acabou logo após o lançamento desse álbum. Algumas reuniões ocorreram nas décadas posteriores. Em 1989, Pattie Smith faleceu em um acidente de carro. Fred Webb faleceu no ano seguinte e em 1997, David LaFlamme retornou com o grupo, porém apenas para apresentações, sem gravar nenhum disco de estúdio, mas apresentando aos novos e velhos fãs os clássicos que marcaram a carreira desse grande grupo, que mesmo em seu pequeno período na Terra, teve sua relevância destacada entre muitos nomes do rock, principalmente Ian Gillan, o qual em uma entrevista em 1990, afirmou que o grupo havia sido uma das maiores influências na Mark II do Deep Purple.



8 Comentarios

  1. Mister disse:

    Muito legal, Mairon. Eu sou fascinado pela psicodelia americana, país que tem uma Inglaterra em casa estado, com uma produção local (nos anos 60) tão vasta e autosuficiente que muitas pérolas ainda estão para serem descobertas, apesar do resgate da internet. Tenho vontade de escrever sobre bandas psicodélicas americanas aqui na Consultoria, mas vivo em conflito, desmotivado, pois me parece que não há interesse algum por parte dos nossos queridos headbangers. Fico feliz em encontrar esses pontos comuns em você.
    Quanto ao It’s a Beautiful Day, uma banda com dois excelentes discos, tenho algumas contribuições a dar: ela teve prestígio e talento suficientes para ser uma das maiores bandas do West Coust Sound, mas caiu nas mãos de um empresário de caráter duvidoso, Matthew Katz, que prendeu a banda em um contrato maluco, praticamente escravista. Katz já havia trabalhado com o Jefferson Airplane e com o Moby Grape, sendo também um dos grandes responsáveis pela carreira errática e acidentada deste último.
    A música “Bombay Calling”, aquela chupada pelo Deep Purple, já havia sido gravada pela banda anterior de LaFlamme, a Orkustra, que contava também com Bobby Beausoleil, o guitarrista que compôs na cadeia a trilha sonora do filme (do qual era o artista principal) Lucifer Rising, do satanista Kenneth Anger, trilha que o ocultista Jimmy Page ensebou tanto para concluir que acabou “esconjurado” por Anger. Dá para ouvir a versão da Orkustra no Youtube.

  2. diogobizotto disse:

    Marco, pode ter certeza que já cativamos bem mais que o público headbanger. Posso não ser um fã da psicodelia norte-americana como sou da britânica, mas isso não quer dizer qua não valorize e respeite grupos como os que o Mairon já abordou aqui além do It's a Beautiful Day, como o Moby Grape.

  3. Grande Gaspa, seus textos são sempre muito bem-vindos, e a expectativa cada semana é que possamos ter o prazer de ler suas histórias.

    Sobre o Matthew Katz, bom, ele acabou com a vida do Jerry Miller e principalmente do Bob Mosley. Grace Slick também sofreu com o cara, e o It's a Beautiful Day teve esse nome por que ELE exigiu isso, se não, ia seguir sendo a orkustra. A unica coisa boa q ele fez foi apresentar a deliciosa Pattie Smith ao mundo.

    Um pouco da história do It's A Beautiful Day foi contada por mim no meu blog. Caso tenha interesse, de uma olhada por lá

    http://baudomairon.blogspot.com/2010/09/its-beautiful-day.html

    Abração

  4. Mister disse:

    Caro Mairon:
    fui correndo ler o texto que você escreveu sobre o IaBD, mas percebi logo que já o conhecia, hehe… o Baú do Mairon sempre esteve na lista de preferidos do meu conputador, desde a época em que ficava bizoiando as matérias do Collectors Room sem, no entanto, me atrever a comentá-las.
    Sobre os textos que de vez em quando escrevo para a Consultoria, percebo cada vez menos participação (o que não é privilégio apenas dos meus textos). Sei através do Daniel, do Diogo e do Bueno, que o blog aumenta dia a dia o número de leitores, mas ainda estranho o fato de pouca gente se manifestar para eu saber se realmente eles são lidos. Essa carência minha não é fruto de vaidade, mas a gente escreve para ser lido, caso contrário para que tanto esforço. Essa falta de feedback é o que mais me desestimula, a ponto inclusive de deixar de comentar as matérias dos outros colaboradores, que costumo ler todos os dias.

    Caro Diogo:
    pessoalmente acho a psicodelia americana e a inglesa tão distintas que é possível sim gostar das duas sem conflitos ou comparações. A inglesa desaguou no progressivo (que eu adoro), mas a americana está na base do krautrock (que eu venero). Enquanto os jovens americanos eram mais politizados nos anos 60 (principalmente em função da guerra do Vietnã), os sortudos ingleses viviam sem grandes aspirações ideológicas. Isso se reflete bastante no rock produzido pelos dois países. Os ingleses aprimoraram mais suas habilidades instrumentais, concluíram conservatórios musicais, se inspiraram na literatura e se dedicaram ao art rock. Os americanos não se empolgaram tanto pelo progressivo, preferindo a contundência do hard rock e as sutilezas do fusion. Houve exceções, claro, mas o que conta é a regra.

  5. diogobizotto disse:

    Marco, sou suspeito pra falar, pois sou muito feliz de contar com tua constante e infalível colaboração aqui no blog, mas definiste muito bem a diferença mais primordial entre a psicodelia norte-americana e a inglesa. Certamente não faria melhor.

    E não posso deixar de citar também: grande Mairon salvando o dia!

  6. Nem curto "Child in Time" [FANFARRÃO!!], mas fiquei interessadíssimo na banda – da qual já ouvi falar muito -, pois tô num momento bem psicodelia sessentista/country/southern rock. Parabéns pelo texto, Mairon!

  7. Anônimo disse:

    Sabem se o álbum Choice Quality Stuff / Anytime "o disco do camelo" teve alguma influência para a banda de rock progressivo Camel ?

  8. maironmachado disse:

    Caro anônimo, realmente é uma dúvida, mas acredito que não, pois o Camel já existia como Camel em 1971. Porém, não sei a época da mudança de nome de The Brew para Camel, e pode ser que isso tenha ocorrido depois do lançamento do Choice Quality Stuff / Anytime. Acompanhe-nos no site consultoriadorock.com

    Abraço

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